CAPÍTULO I – INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO
6. Produção e Recuperação da Informação com o Sistema Braille
6.3. Braille integral e Braille abreviado: vantagens e dificuldades
Uma vantagem evidente da utilização do sistema Braille integral verifica-se no 1.º Ciclo do Ensino Básico, durante a aprendizagem da leitura e escrita. Enquanto os alunos videntes têm, no caso português e em muitos outros, de aprender a desenhar as letras, a identificar letras maiúsculas e minúsculas manuscritas e de imprensa, ao aluno utilizador de Braille basta aprender os sinais simples correspondentes aos grafemas e o prefixo indicador de letra maiúscula. De igual forma, não necessita de aprender a desenhar os algarismos, porque os escreve com as letras de a a j, antecedidas do prefixo de número. Em conformidade, se o aluno não tiver outros problemas associados, começa a escrever mais rapidamente do que os seus condiscípulos ainda no 1.º Ciclo do Ensino Básico, mas a velocidade de leitura, aumentando com a prática, costuma manter-se inferior à média durante os primeiros anos da escolaridade obrigatória.
O Braille integral em suporte de papel tem alguns inconvenientes conhecidos por todos os utilizadores. Um desses inconvenientes reside no espaço ocupado pelos materiais. Uma página a negro pode necessitar de várias páginas em Braille escritas em papel espesso. Facilmente, um manual escolar atinge os oito, dez ou doze volumes quando transcrito para Braille. Uma possibilidade de limitar este inconveniente poderia ser a utilização do Braille de grau dois ou, segundo as designações mais comuns em Portugal, estenografia Braille ou Braille abreviado. O grau 2 utiliza-se para representar as conjunções, preposições, pronomes, prefixos, sufixos, grupos de letras que são comumente encontradas nas palavras de uso corrente. Em alguns países o grau 2 é – ou era – o mais utilizado e as crianças aprendiam-no nos primeiros anos de escolaridade. Uma série de abreviaturas mais complexas forma o grau 3, que necessita de um conhecimento profundo da língua, uma boa memória e uma sensibilidade tátil muito desenvolvida por parte dos leitores com cegueira. A principal razão da sua utilização é reduzir o volume dos livros em Braille e permitir o maior rendimento na leitura e na escrita.
Em Portugal, como em muitos outros países, não é essa a prática corrente. Há uns anos, quando muito, fazia-se uma iniciação no Ensino Secundário, ao verificar-se que muitas obras literárias em várias línguas, incluindo algumas mais antigas em Português, mas sobretudo em Inglês, só se encontravam disponíveis em Braille de grau 2. Presentemente, a existência de muitas obras em suporte digital dispensa essa necessidade. A introdução do Braille abreviado em Portugal realizou-se em 1905, mas a primeira «Estenografia Braille da Língua Portuguesa» data, tanto quanto julgamos saber, de 1937, da autoria do Professor Albuquerque e Castro. O Encontro realizado em Montevideu, em 1951, promovido pela UNESCO, estabelecia a unificação de abreviaturas para o Braille de grau 2 em Português. Como facilmente se percebe, a par da velocidade acrescida, reduz-se significativamente o número de volumes necessários para a transcrição de uma obra em papel. Dependendo do tipo e tamanho de letra utilizados, calculámos que, em média, uma página escrita a negro corresponderá a quatro páginas em Braille integral.
O Braille abreviado é muito mais difícil de aprender e dominar e não é só em Portugal que o número dos seus utentes é reduzido. A Biblioteca Central de Monza, Itália, há muito tempo que só já faz transcrições para Braille integral e tem milhares de títulos transcritos. Numa das Recomendações da Conferência Internacional sobre o Braille42 afirma-se: «Hay que esfozarse para producir versiones en braille integral de las publicaciones existentes para atender las necesidades individuales y facilitar a comunicación internacional.» No Brasil, o Braille de grau 2 foi abolido do sistema de transcrição de quaisquer obras desde 1 de Janeiro de 1996, tendo-se anunciado, apesar disso, a intenção de criar um Código Braille Abreviado para uso pessoal (MEC, 2001: 45). A estenografia Braille para a língua portuguesa encontra-se disponível em Comissão de Braille (1996) [1993] e em MEC (2006b), contemplando o Braille de grau 2 (MEC, ib.: 19):
Sistema Braille Grau 1 é a representação por extenso, isto é, aquela em que todos os sinais têm exatamente os mesmos valores atribuídos no Alfabeto Braille.
Sistema Braille Grau 2 é a representação em que certos sinais braille adquirem determinados valores abreviativos, segundo critérios e normas estabelecidos. A Estenografia Braille para a Língua Portuguesa comporta duas grandes estruturas: a das abreviaturas e a da estenografia propriamente dita.
As abreviaturas são sinais representativos de palavras, com vida autônoma, que podem, no entanto, ligar-se por hífen a outras palavras abreviadas.
A estenografia é o conjunto de sinais representativos de grupos de letras integrantes de palavras não abreviadas.
Para se ter uma ideia das dificuldades, leia-se o que nos é dito em MEC (2006b: 17 e 18):
A Estenografia Braille para a Língua Portuguesa está dividida em três partes: I – Abreviaturas –, no qual são apresentados 151 sinais representativos de palavras, de acordo com a nomenclatura adotada, e dispostos,
em cada subdivisão, de acordo com a “ordem braille”.
II – Estenografia –, que compreeende 30 sinais simples representativos de grupos de letras de uma mesma sílaba, respeitadas as regras da ortografia da Língua Portuguesa, e 28 sinais compostos representativos de terminações muito freqüentes, acompanhados de muitos exemplos de aplicação, estando a sua apresentação subordinada a critérios de natureza pedagógica.
III – Abreviaturas Estenografadas –, onde foram agrupadas as restantes 27 abreviaturas que já integram sinais estenográficos simples.
Considerando algumas peculiaridades do Português usado no Brasil, a Comissão Brasileira do Braille acrescentou 15 abreviaturas ao trabalho original da Comissão de Braille, de Portugal [1993].
Vejam-se alguns exemplos da parte I, por representação silábica total – quando todas as sílabas da palavra estão representadas pelas letras iniciais das sílabas da palavra que representam (id., ib.: 21-24):
Quadro 1: Exemplos de abreviaturas (adapt. de MEC, 2006b).
Como se diz acima, esta estenografia baseia-se na publicada pela Comissão de Braille em 1993. Na transcrição em tinta a que tivemos acesso (Comissão de Braille, 1996: Prefácio) justifica-se a necessidade da atualização e simplificação, porque «… nos tempos actuais, é imperioso utilizar os recursos da informática na produção do braille estenografado, o que é extraordinariamente difícil com a manutenção do actual sistema, o qual permite abreviar um número de vocábulos praticamente ilimitado.» Reconhece-se (id., ib.) que a economia do sistema proposto representará apenas 20 a 25% em relação ao Braille integral. Ora, no caso da impressão em papel do Braille integral, uma forma de reduzir para quase metade, ocupando 60%, com recurso às TIC, o número de folhas é a utilização de impressoras Braille interponto, que permitem a impressão nos dois lados da folha. Em Biblioteca Nacional de Portugal (2011), encontra-se o catálogo de livros disponíveis em “Braille integral”, “estenografia parcial” e “estenografia”. Os livros estão disponíveis para empréstimo por 2 meses, renovável por igual período. Relembre-se que a circulação postal é gratuita, escrevendo-se, a partir de janeiro de 2014, no sobrescrito, junto ao endereço, “Envio para os Cegos”; anteriormente a essa data, escrevia-se em letras maiúsculas vermelhas a palavra CECOGRAMA no lugar destinado ao selo postal.
A tendência tem sido para a utilização quase exclusiva do Braille integral, também chamado alfabético, ou literário. Em Adkins (2004), encontram-se enumeradas vinte e quatro vantagens da utilização do Braille integral.
Há situações em que, pela escassez de espaço, se justifica a utilização do Braille abreviado como, por exemplo, nas caixas dos medicamentos, nos mapas geográficos e nos ascensores dos prédios urbanos (Garcia Soria, 2010).
No entanto, sobre procedimentos a observar nas informações em Braille obrigatoriamente incluídas na rotulagem dos produtos farmacêuticos lê-se em Infarmed (2009: 7):
g) O sistema de Braille a utilizar deve ser o Braille por extenso de acordo com a Grafia Braille para a Língua Portuguesa (integral, não contraído), não devendo ser utilizado o sistema de Braille abreviado pois este sistema de escrita Braille não é conhecido pela maioria dos doentes em Portugal com deficiências e incapacidades visuais;
[…]
j) Na representação do Braille na rotulagem de medicamentos não é permitida a utilização de abreviaturas dos elementos da informação, pois pode prejudicar a leitura do Braille e a comunicação;
Sendo assim, as informações disponíveis são reduzidas ao mínimo, havendo muitos casos em que se limitam ao nome comercial do medicamento.
No entanto, recomendava-se (id., ib.: 6):
c) Na medida do possível, devem também ser incluídos os seguintes elementos em Braille:
i) Forma farmacêutica,
ii) a DCI (designação comum internacional) da substância activa (quando o medicamento não contenha a associação fixa de mais de três substâncias activas);
(iii) Nome do titular da AIM (iv) Prazo de validade;
(v) Menção para lactentes, crianças ou adultos;
(vi) Outros avisos específicos importantes (por exemplo: “Uso Externo”;
d) A inclusão dos elementos referidos na alínea c) não é obrigatória, sendo deixada ao critério do titular de AIM, sendo no entanto, altamente recomendável a indicação da forma farmacêutica no caso de medicamentos com a mesma ACI que apresentem mais do que uma forma farmacêutica;
Não encontrámos medicamento algum que incluísse estas informações. Como se diz na alínea d), as informações recomendadas na alínea c) não são obrigatórias.
Em Portugal, o Braille abreviado não se utiliza oficialmente no sistema educativo, mas deveria estudar-se a possibilidade da utilização de abreviaturas
em circunstâncias especiais, por forma a incluir maior número de informações em espaços reduzidos, como acontece em outros países.