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CAPÍTULO I – INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO

2. Literacia(s)

A palavra literacia tem origem na palavra latina littera, ae, letra, carta, documento escrito. A expressão litteras discere significa aprender a ler e litterattor, oris designa o que ensina a leitura e escrita. Verificámos que não se

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encontra nos dicionários de língua portuguesa mais antigos registada a palavra literacia, depreendendo-se que a sua entrada e vulgarização no Português é recente, por influência da língua inglesa e da sua crescente difusão. No entanto, verificámos que em outras línguas, como a castelhana, se continua a preferir o termo alfabetización, i.e., alfabetização, constituído a partir das duas primeiras letras do alfabeto grego.

Silva (2008: 20-21) refere a «equivocidade indesejável» da expressão, «porque literacy, em inglês, tanto significa uso de capacidades cognitivas e críticas como alfabetização ou aquisição de competências básicas (saber ler, escrever e contar). Mas em outras línguas, como o Português, o termo literacia (ou o termo sinónimo letramento16) pode acolher distinções mais subtis e, também, ser dicionarizado como sinónimo de alfabetização.»

A ambiguidade seria menor se adotássemos a distinção apresentada num estudo sobre a literacia em Portugal (Benavente et al., 1996: 4).

Se a alfabetização traduz o acto de ensinar e de aprender (a leitura, a escrita e o cálculo), um novo conceito – a literacia – traduz a capacidade de usar as competências (ensinadas e aprendidas) de leitura, de escrita e de cálculo. Tal capacidade de uso escapa, assim, a categorizações dicotómicas, como sejam “analfabeto” e “alfabetizado”. Pretende-se, com aquele novo conceito, dar conta da posição de cada pessoa num continuum de competências que tem a ver, também, com as exigências sociais, profissionais e pessoais com que cada um se confronta na vida corrente.

Em conformidade, para os autores, «…o conceito de literacia centra-se no uso de competências e não na sua obtenção…» (id., ib.).

Mais adiante (id.: 7), lê-se:

[…] a avaliação de competências de literacia requer a adopção de instrumentos com diferentes tarefas, tais como:

– leitura e interpretação de textos em prosa, designadamente artigos de jornais revistas e livros;

– identificação e uso de informação localizada em documentos, tais como impressos, quadros, gráficos e índices;

– aplicação de operações numéricas a informação contida em material impresso, tal como um horário, um livro de cheques ou um anúncio.

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Termo usado no Brasil, a partir da década de 80 do século XX, com o sentido lato de uso social da leitura e escrita, na sequência da publicação da obra de Kato, M. (1986). No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística. São Paulo: Ática.

O conceito de literacia é hoje muito abrangente, podendo, sem exagero, afirmar-se que haverá tantas literacias como aquelas de que nos quisermos lembrar: literacia numérica, literacia mediática, literacia científica, literacia informática, literacia digital (Tavares, 2010). De passagem, digamos que este é um artigo que nos suscita algumas interrogações, como a de sabermos como promover a participação, numa “escola inclusiva”, de um aluno com cegueira em algumas atividades propostas. De que forma, por exemplo, um aluno desprovido do sentido da visão pode fazer uma “visita virtual” ao Museu da Marinha? Qual o papel dos professores da Turma e de Educação Especial na preparação dessa “visita”? Também em alguns documentos orientadores oficiais ou oficializados se nota a ausência de referência aos alunos com necessidades educativas especiais (NEE), como se, simplesmente, não existissem17.

Carvalho (2013) fala de literacia académica, considerando o contexto académico como um contexto específico de uso da linguagem. Há, pois, uma profusão de literacias, falando-se também de literacia económica, literacia emocional, literacia espiritual, televisiva, cinematográfica e outras há muito abordadas por diversos autores (Buckingam, 2008).

Em Wilson et al. (2011), encontramos o esquema seguinte.

17 Cf., p. ex., Santos, M.; Pedro, N.; Soares, F. & Matos, J. (2008). Guião de utilização de plataformas de aprendizagem

em ambientes escolares – Orientações para a dinamização de áreas de trabalho com alunos. Documento produzido no âmbito do Projeto “Utilização educativa de plataformas de aprendizagem” desenvolvido pelo Centro de Competência RTE da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e financiado pela Equipa CRIE/ Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular. Disponível em: http://moodle.crie.minedu.pt/file.php/400/guioes_moodle/alunos_1_1_.pdf [Acedido em 3/07/2010].

Figura3: Media and Information Literacy.

Já há mais de duas décadas que investigadores de várias nacionalidades, como Estados Unidos da América, Austrália e Grã-Bretanha – New London Group –, reunidos em New London, New Hampshire, Estados Unidos da América, em 1994, para discutir questões relacionadas com a educação em países de língua oficial inglesa, propuseram a utilização do termo “multiliteracias” (Cazden et al., 1996).

Como nota Bawden (2008), num capítulo sobre as origens e diversos conceitos de literacia digital, a utilização da expressão tem sido algo confusa. O conceito é atribuído a Paul Gilster18 (Pool, 1997), se bem que não tenha sido o primeiro a usar a expressão.

Olhando para a questão de outra forma, valerá a pena recordar que a Convenção sobre os Direitos da Criança (UNICEF, 1989), aprovada pelas Nações Unidas em 1989, ratificada por Portugal em 1991, reconhece às crianças um conjunto de direitos fundamentais, próprios e inalienáveis. No Artigo 17, afirma-se que «os Estados Partes reconhecem a importância da função exercida pelos órgãos de comunicação social e asseguram o acesso da criança à informação e a documentos provenientes de fontes nacionais e internacionais diversas, nomeadamente aqueles que visem promover o seu bem-estar social, espiritual e

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moral, assim como a sua saúde física e mental.» A criança tem «o direito de exprimir livremente a sua opinião sobre as questões que lhe respeitem, sendo devidamente tomadas em consideração as opiniões da criança, de acordo com a sua idade e maturidade (Art.º 12). Além disso, a Convenção (Art.º 13) reconhece à criança o «direito à liberdade de expressão […] liberdade de procurar e expandir informações e ideias de toda a espécie, sem considerações de fronteiras, sob forma oral, escrita, impressa ou artística ou por qualquer outro meio à escolha da criança».

Repare-se que «… criança é todo o ser humano menor de 18 anos, salvo se, nos termos da lei que lhe for aplicável, atingir a maioridade mais cedo.» (Art.º 1) Assim, neste contexto, crianças são os seres humanos que se encontram a frequentar a Escola, grande parte deles abrangidos já pela escolaridade obrigatória de doze anos, no caso português.

A literacia pode, então, ser entendida como um direito humano e recorde-se a instituição da década da literacia (2003-2012), sob o lema Literacy for all: voice for all, learning for all (UNESCO, 2005b).

Se nenhum de nós pode saber tudo, mas se cada um de nós sabe alguma coisa e se todo o conhecimento existe na humanidade, as novas tecnologias permitem que a inteligência coletiva construa conhecimento de uma forma inteiramente nova (Lévy, 2000).

Depreende-se da leitura de Jenkins (2006) que a existência de uma convergência como cultura participativa implica que os utilizadores sejam ativos, não se limitando a ser consumidores passivos de media; que se encontrem socialmente ligados, quer dizer, não sejam consumidores isolados e, ainda, que sejam utilizadores públicos. No entanto, Jenkins reconhece que as grandes empresas dos media e indivíduos dessas empresas continuam a deter maior poder do que os consumidores individuais ou, até, do que um conjunto de consumidores. Sabemos tratar-se de um campo em constante mutação, no qual as profecias ou análises prospetivas desempenham um importante e aplaudido papel, mas nem sempre são comprovadas pelos desenvolvimentos subsequentes da imprevisível realidade.

Num contexto de inclusão digital e cultura participativa, não restrito a utilizadores com cegueira e baixa visão, mas alargado a todas as pessoas com interesse pessoal ou profissional nos assuntos tratados, apresentamos, em seguida, o portal LERPARAVER, que nos mostra a importância da literacia digital em pessoas com cegueira e baixa visão.

Figura 4: LERPARAVER19

É um portal “especial”, no sentido em que foi fundado por duas pessoas com cegueira; existe desde 1999; é um portal acessível às pessoas com cegueira e baixa visão; é o maior portal ativo deste género em língua portuguesa, acedido diariamente por pessoas de todos os países em que o Português é a língua oficial; permite interação, entre os utilizadores, pelo menos, de um ponto de vista da abordagem comunicacional referida por Araújo, Neto, Cheta & Cardoso (2009: 131). Embora «mantido e coordenado pelos seus fundadores [Daniel Serra (que tivemos o prazer de conhecer em setembro de 2016) e António Silva], trata-se de um espaço coletivo, em que qualquer pessoa pode colaborar publicando conteúdo, contribuindo assim para a partilha de informação»20.

Repare-se num extrato dos conteúdos disponibilizados na “Página de Informática”. 19 http://www.lerparaver.com/ [Acedido em 22/05/2012]. 20 Submetido em 23/05/2007, acedido em 5/11/2010.

Figura 5: Exemplos de Conteúdos da "Página de Informática".

Os conteúdos pretendem dar resposta a algumas necessidades dos utilizadores no acesso ao computador. Algumas das questões colocadas no Forum são exemplificativas das dificuldades experimentadas pelos utilizadores com cegueira das tecnologias ligadas à informação e comunicação.

Figura 6: Forum, em 14/11/2010 (excerto).

Curiosamente, a “Procura de Professor” pretendia encontrar um professor normovisual que soubesse musicografia Braille para, numa instituição do Ensino Superior se poder realizar um curso livre de musicografia Braille. De facto, em Portugal, a musicografia Braille é muito descurada, porque, em princípio, serão necessárias algumas condições para a sua aprendizagem: que o estudante estude música para além do 2.º Ciclo, frequentando, de preferência, o Conservatório, que o professor de Educação Especial domine o sistema Braille e

tenha conhecimentos musicais. Ora, estas condições raramente se reúnem até ao final do Ensino Secundário. Como a autora deste post se propunha levar a efeito um projeto que pretendia, “entre outras coisas, divulgar e promover o ensino da musicografia braille” no Ensino Superior, contactámo-la, na altura, através do endereço eletrónico disponibilizado, para saber do que se tratava e averiguar que colaboração pretendia e obtivemos resposta rapidamente, comprovando, assim a funcionalidade do portal enquanto plataforma digital de informação e comunicação. Não nos foi possível colaborar, porque o projeto destinava-se a uma instituição de Ensino Superior muito distante da nossa residência.

Como se vê, também no Forum se abordam questões com interesse prático para as mais variadas situações.

Verificámos que o portal criou uma comunidade que partilha, à distância, interrogações e conhecimentos. Como não tivemos, por não a termos solicitado, permissão para divulgar outras matérias reservadas a utilizadores registados, ficamo-nos por esta apresentação, destinada a mostrar que o portal referido demonstra a importância da literacia digital das pessoas com cegueira e baixa visão e é um bom exemplo da existência da cultura participativa, da inteligência coletiva e da “cultura Internet” referida por Castells (2007), merecendo consulta por parte de quem se interessa por estes assuntos.

Concluímos, pois, que a educação para os media é um direito dos seres humanos que frequentam a escola e deverá considerar-se extensivo à utilização de todos os meios, tecnologias e aplicações necessários ao exercício desse direito, indissociável, em boa parte devido aos novos media, dos conceitos de literacia e de literacia digital.

A importância da participação digital encontra-se expressa em muitas publicações, de entre as quais referimos um artigo de Morgado (2010), neste caso sobre a dos professores portugueses durante a XVII Legislatura, afirmando que (id.: 213) «[…] se a intervenção dos cidadãos através dos meios digitais não é solução para o problema, faz já parte dela.»No entanto, a participação digital dos cidadãos não é tão influente como, à primeira vista, se poderia pensar. Os novos media democratizaram a expressão dos cidadãos, mas, apesar desse importante papel, não se afigura que a sua voz tenha influência nos processos de decisão

dos poderes económico e político. Veja-se o exemplo de Paulo Guinote, que encerrou em 26 de março de 2015 o seu muito célebre e influente blog “A Educação do Meu Umbigo”21

. As razões foram assim apresentadas (Viana, 2015): Este docente de Português, que se licenciou em História e se doutorou em

História da Educação, e que fez há pouco 50 anos, não estabelece uma relação de causa e efeito entre estes dois acontecimentos. Mas entre as razões que aponta para o fim do seu blogue está esta: “Já não existe um espaço para um debate sério e plural. O que se pensa estar a ser debatido afinal já está decidido e existe um consenso que se adivinha para o próximo Governo, seja este do PS ou do PSD”. Decidiu não alinhar mais no que classifica uma “coreografia do fingimento”.

Mas não se fartou apenas dos partidos ou dos sindicatos. Cansou-se também do fosso entre o que se escrevia na blogosfera e o que se fazia nas escolas. “A certa altura comecei a sentir que os professores descarregavam a sua frustração nos comentários que escreviam no Umbigo e noutros blogues e que nas escolas não intervinham”. Chegou à conclusão que o seu blogue “estava a ter efeitos mais negativos do que positivos”, que deixara de “ter espaço para dizer algo de novo e apenas a escrever coisas negativas”. “Não é isso o que quero, nem o que sou. Estava a criar uma caricatura de mim próprio”, comenta.

Além disso, os novos media são também utilizados pelos decisores políticos e económicos, que, cada vez mais se têm servido das chamadas redes sociais para comunicarem diretamente com o seu público, dispensando a mediação jornalística.

Uma revisão do conceito de literacia digital pode ser encontrado em Sáinz; Castaño & Artal (2008). Uma revisão crítica de alguma literatura sobre a combinação dos termos digital e literacia pode ler-se em Goodfellow (2011).

Reconhecemos a existência de new literacies (Lankshear & Knobel, 2012; 2013). No entanto, fazemos notar que a ampliação do conceito de literacia e de literacia digital tem sido uma preocupação de muitos autores, mas, em alguns casos, a adoção de certas designações é questionável. Por exemplo, fará sentido falar-se de internet literacy (Ala-Mutka, 2011)? Compreendemos que «Internet literacy adds to the tool-related knowledge and skills the considerations and ability to successfully function in networked media environments.» (id., ib.: 29), porém, já Albert & Barabási (2002: 50) tinham recordado: «The Internet is a network of physical links between computers and other telecommunication devices».

Lankshear & Knobel (2012: Abstract), estabelecendo um paralelismo com um automóvel, que era novo em 2009, seminovo em 2010 e usado em 2011, pensam

que as “novas literacias” podem ser entendidas como fazendo parte de um período de mudanças sociais, culturais, institucionais, económicas e intelectuais iniciadas há várias décadas. Assim, as “novas literacias”, entendidas como um paradigma social emergente, fazem parte de uma conjuntura histórica. Em consequência, consideram que quando as novas práticas e estilos sociais do paradigma emergente são incorporados na prática quotidiana, ao ponto de se considerarem adquiridos e “normais”, podem ser vistos como literacias convencionais.

A necessidade de promoção de “literacias múltiplas” é reconhecida pelos governantes portugueses no PNL 2027 (Resolução do Conselho de Ministros n.º 48-D/2017, de 31 de março), que tem em vista «… o desenvolvimento de uma política integrada de promoção da leitura e da escrita e das múltiplas literacias, nomeadamente, a cultural, a científica e a digital.» Uma das linhas orientadoras do Plano é: «Lançar programas dirigidos a crianças, jovens e adultos, que visem promover o desenvolvimento de literacias múltiplas, designadamente, a da leitura e escrita, a digital, da informação visual, científica e tecnológica, por forma a preparar a população portuguesa para as exigências da sociedade do século XXI (ib., ponto 2, alínea b).