• Nenhum resultado encontrado

2.3 O público como parceiro: Duplas, trios e bandas

2.3.1 Brancos, augustos e o poder

No estudo de caso realizado por Ana Elvira Wuo, ela conduziu um processo de iniciação ao palhaço com crianças hospitalizadas que por meio da brincadeira encontram seu próprio palhaço ou palhaça. A palhaça iniciadora visitadora vai, ao mesmo tempo, brincando e entendendo as potencialidades de relação que a criança a oferece. Faz sentido no contexto hospitalar, em que encontramos recorrentemente as mesmas pessoas ali. Já em saídas na rua, muitas vezes não há tempo para aprofundar a sondagem, então a relação que se estabelece é com quem está disponível no curto tempo que palhaços, palhaças e público partilham.

Vejo que em ambos os casos e também no meu trabalho no ambiente hospitalar, quando incluíamos alguém em relação de parceria, a forma de incluir algo ou alguém como parceiro ou parceira de cena está nas dinâmicas de poder estabelecidas pelo palhaço ou palhaça. Dario Fo dá especial atenção às dinâmicas de poder entre palhaços e palhaças. Este escreve:

Realmente, a questão que [palhaços e palhaças] abordam constantemente é saber quem manda, quem grita. No mundo dos clowns só existem duas alternativas: ser dominado, resultando no eterno submisso, a vítima, como acontece na Commedia dell’Arte; ou dominar, assim surge a figura do patrão, o clown branco (o Louis), que já conhecemos. É ele que conduz o jogo, que dá as ordens, insulta, manda e desmanda. E os Toni, os pagliacci, os Aguste lutam para sobreviver, rebelando-se algumas vezes... mas, normalmente, se viram (FO, 2004, p. 305).

O jogo da dupla cômica está então centrado em uma diferença de função em que um domina e outro é dominado. Mas se a diferença se perpetuasse, se a insurgência e a transição de quem manda fosse impossível, não haveria um conflito. Então instaura-se uma disputa e nela há a possibilidade de quem foi sempre dominado, de modo inesperado, “vire o jogo”, tome o centro da situação, que o poder se inverta. Essa virada geralmente é executada pelo augusto e celebrada pelo público. Burnier cita o escritor Equatoriano Jorge Enrique Adoum que afirma que “a relação desses dois tipos de clowns acaba representando cabalmente a sociedade e o sistema, e isso provoca a identificação do público com o menos favorecido, o augusto.” (ADOUM apud. BURNIER, 2009, p. 206). Constroem juntos então, público e palhaços ou palhaças, por meio do reconhecimento e identificação a dinâmica de poder própria do jogo, em que alguém manda e outro obedece até que a situação mude.

Do mesmo modo que acontece nas saídas na rua, o público nas visitas hospitalares que realizei se distribuía por todo o hospital, não estava concentrado em um único espaço de apresentação, de forma que as ações eram fragmentadas. Em algumas áreas, como no ambulatório ou mesmo na recepção, o público mudava com o movimento do atendimento ou ainda conforme eu e minha dupla caminhávamos, mudávamos de leito, de ala, de parte do hospital. A cada novo lugar nós encontrávamos outras pessoas e estabelecíamos outras relações. Havia pessoas que encontrávamos regularmente e outras que não víamos mais, tanto na equipe de trabalho do hospital quanto entre as pessoas hospitalizadas. Porém no hospital há um maior controle dessa circulação de público.

Se na rua o que acontece é um encontro entre passantes, no hospital a maior parte das pessoas com quem eu interagia eram pacientes ou a equipe hospitalar que atendia uma ala

Apesar de algo semelhante acontecer quando eu preparava as Invasões Bárbaras, em que a partir das saídas no Setor Comercial Sul eu conhecia os ambientes, as pessoas e as

convenções dos locais, hospitais são ambientes mais regrados e a permanência de palhaços e palhaças estão condicionadas ao cumprimento dessas regras. Também possuem menor circulação de pessoas e menor rotatividade se comparadas com as ruas. Sendo assim é mais simples determinar as dinâmicas e, sobretudo as dinâmicas de poder baseado na hierarquia hospitalar. A partir daí, ao estabelecer os jogos relacionais direcionávamos quem nos jogos eram os potenciais brancos e augustos quando se toma o público como parceiro.

No caso de Wuo, a dinâmica de quem manda e quem obedece - branco e augusto - era interessante porque permitia que a criança ao assumir a posição do branco se apoderasse de sua angustia e da situação a que estava acometida. Wuo (1999) percebeu então a importância de se colocar como augusto. Estando augusto, ela oferecia a parte do controle e centralidade para quem normalmente está à margem do controle sobre seu corpo, constantemente manipulado durante o tratamento.

Muitas vezes, seja em dupla, como em minhas experiências no hospital, ou só, como intervenho na rua, a dinâmica de poder pede que mudemos de função – branco e agusto - a depender da situação. Isso significa não ser sempre branco ou augusto, mas permitir encontrar o que somos em relação. No atendimento hospitalar que não envolve apenas crianças, mas pacientes e equipe médica, colocar um médico como último na hierarquia, ordenado pelo palhaço branco e pelo augusto, subverte uma hierarquia tácita do hospital. Ela pode ou não ser recuperada a depender da revelação do lado augusto do médico, de sua inocência e conquista de identificação.

Jogar com a equipe médica para além do desejo, surgiu como uma necessidade. Eu e minhas duplas percebemos durante as visitas que quando a equipe médica estava fechada para as relações por algum ocorrido do hospital, um óbito, um aborto, alguma situação delicada e de difícil trato, isso refletia na abertura dos pacientes. O mesmo acontecia quando a equipe estava disponível para os jogos. Os pacientes também tinham maior disponibilidade. Ao ponto que eu e Natália passamos a manejar nosso tempo para intervir de modo equivalente com a equipe médica e com os pacientes no Hospital Regional de Samambaia.

Se, por um lado, palhaços e palhaças em visitas hospitalares em seus êxitos podem promover o enaltecimento e empoderamento da pessoa doente, por outro podem flexibilizar a hierarquia do hospital ao rebaixar o médico e o corpo de cuidadores. Promovem assim o reconhecimento de todos no campo comum do humano, de relações livres e mais familiares, mais próximas, desprovidas da fixidez de barreiras hierárquicas. Assim, por outro caminho iniciamos nos hospitais o levante.

Tais ideias de inversão hierárquica e rebaixamento, centralizando os de maior vulnerabilidade e recondicionando a todos no reconhecimento da comunidade, remetem à carnavalização (Bakhtin, 1999). O conceito de Bakhtin tem sua origem nos carnavais medievais europeus. Sendo o carnaval locus privilegiado para a inversão, onde se coloca o marginal, o excluído, no centro simbólico da festividade e como espaço em que os indivíduos se diluem em uma coletividade, em que se abandonam na unidade. Ao instalar uma zona de brincadeira, assim como na Zona Autônoma Temporária, vale lembrar que estamos deixando que o carnaval escape de sua data no calendário, para ressurgir em outros momentos imprevistos e em outros espaços, inclusive os hospitais.

As ações do palhaço ou da palhaça ao rebaixar o médico, lembrar o médico de seu corpo, de sua humanidade, de sua falibilidade, de sua inocência, assim como ao colocar no centro simbólico, no controle de seus corpos e da situação os de menor ação dentro do ambiente hospitalar, as pessoas hospitalizadas, podem promover a carnavalização, uma maior unidade pela flexibilização na hierarquia hospitalar, ao mesmo tempo um levante, uma transformação na percepção do ambiente.

Unificam o ambiente em de forma a flexibilizar em algum nível a hierarquia durante a zona de bricadeira, em que não existem detentores do saber e do poder da saúde e doentes vulneráveis e frágeis, mas sim humanos em um momento de encontro em suas vidas.

Outra observação acerca da carnavalização tem relação com o termino do carnaval e no caso das zonas de bricadeira, com em seus efeitos após o fim da intervenção. A passagem do carnaval aponta uma possibilidade de unidade mais profícua e longeva para a comunidade.

O mesmo acontece após uma flutuação em um sistema estável. Integrada a flutuação o sistema se organiza de maneira mais complexa. A possibilidade de o hospital ser visto como espaço de relação entre pessoas é uma possível resultante após a reorganização a partir da intervenção curta promovida pelos palhaços e palhaças.

As intervenções no hospital recondicionam relações das pessoas hospitalizadas com suas próprias ações, corpos e mesmo recuperam seu controle sobre sua angústia, e caminham para humanizar o ambiente hospitalar, para lançar um olhar sobre o hospital enquanto espaço comunitário de encontro entre humanos. E ainda podem carregar a esperança de um porvir.

Do que sobra após o termino da visita, do resíduo nas memórias dos que se abriram para ver o hospital de outra forma em um levante. Nas dinâmicas de poder instauradas pelos palhaços e palhaças também pode existir reside a reflexão sobre o poder, sobre as possibilidades de uma nova ordem, mais familiar, humana, comunitária, saudável.

Palhaços e palhaças ao tornar pacientes e médicos parceiros em relação, ao tornar membros da comunidade hospitalar momentaneamente como brancos ou augustos nos jogos em visitas, em um ambiente que é muito regrado em seus procedimentos de profilaxia, de conduta, de acesso e que tem uma hierarquia muito clara, promovem a diversidade de olhares sobre o hospital, o que por sua vez pode ser refletido em consciência, esperança e saúde. Algo similar acontecia com o carnaval e suas resultantes. As festas na idade média “destronavam e renovavam o poder dirigente e a verdade oficial. Faziam triunfar o retorno de tempos melhores, da abundância universal e da justiça. A nova consciência histórica se preparava nelas também” (BAKHTIN, 1999. p.85).