4.1 NOMES DE PERSONAGENS E TOPONÍMIA
4.1.2 Nomes próprios
4.1.2.3 Branguemuers e seus pais
Este personagem aparece morto na estória, no último ramo. Numa noite quente de tempestades, o rei Artur, com insônia, vê chegar ao longe uma barca puxada por um cisne que vai até a praia, próxima de seu castelo. Artur entra na embarcação e não encontra ninguém além de um cavaleiro morto, Branguemuers384, com a ponta de ferro de uma lança fincada no corpo. Na bolsa de moedas do defunto havia uma nota dizendo que o corpo deveria ficar num salão do castelo de Artur por um ano, tempo em que não poderia ser enterrado (a carta assegura que não haveria mau cheiro durante esse tempo porque o corpo havia sido muito bem embalsamado). Durante
381 O Manannán mac Lir irlandês é equivalente ao Manawydan fab Llŷr galês.
382 KOCH, John T. Op. cit., p. 248 – disponível em:
<https://books.google.com.br/books?id=f899xH_quaMC&pg=PA254&redir_esc=y#v=onepage&q=cro w&f=false>. Acesso em 4 set. 2017. Koch não indica o nome do deus corvo ao qual ele se refere.
383 “Fait Bran de Lis: “Molt volentiers / Le convent le deviserais, / Qu’el liu u je vos troverai / Promieriment, vos combatrois / A mois tos si con vos serois, / Ou sans armes ou tos armés. / Ce vos di bien par verité[s], / Ja ni avrois ne plus ne mains.”” – PSEUDO-WAUCHIER. Première Continuation de Perceval.
Paris: Librairie Générale Française, 1993, pp. 160-162.
384 Na Primeira Continuação seu nome aparece com as seguintes grafias: Brangemuers e Branguemuers.
esse ano a morte do cavaleiro deveria ser vingada por aquele que retirasse a ponta de ferro da lança que estava no cadáver. A narrativa diz que quem ficou encarregado disso foi Guerehet e, no final do relato, após o sucesso do cavaleiro em vingar Branguemuers, Guerehet vai, junto com uma moça muito amiga do morto, até uma ilha onde passa uma noite num banquete junto com Branguespart, fada e rainha, e com o rei Guingamuer, que são mãe e pai de Branguemuers. Guerehet adormece e, enquanto dorme, é levado pelo mesmo barco puxado por um cisne, ainda na companhia da irmã de Brangamuers, até a corte de Artur na festa da noite da véspera do Dia de Todos os Santos (isto é na noite de 31 de outubro). Lá, a moça pediu que Artur lhe entregasse o corpo de Branguemuers, pois quando seu corpo entrasse de volta em sua terra, a ilha onde nenhum mortal habita e onde ele era rei, uma grande maravilha aconteceria e Branguespart ficaria muito alegre:
“Sire, or vos ai son non nomé;
Rois fu des isles, par verté.
En un d’iceus islés estoit U nus hom mortaus n’abitoit, D’icele contree estoit rois.
Ses gens l’atendent en cest mois;
Une grant mervelle avenra En sen païs quant il venra.
Sire, por Diu et por onor, Et par francise et par amor, Rendés le cors a la roïne;
Lors avra sa joie enterine, Se le roi son fil voit venir; [...].”385 (PSEUDO-WAUCHIER, 1993, p. 612).
Então Artur concorda e o cavaleiro morto é colocado no barco mais uma vez.
O cisne bate suas asas e leva Branguemuers e sua colega até à referida ilha.
A estória envolvendo Branguemuers é recheada de motivos celtas. O primeiro deles é o mar. O mar, assim como diferentes corpos d’água, simboliza a passagem
385 PSEUDO-WAUCHIER. Première Continuation de Perceval. Paris: Librairie Générale Française, 1993, p. 612, vv. 9457-9469. – Segundo a versão editada por William Roach e traduzida por Colette-Anne Van Coolput-Storms, a parte da fala da moça que menciona isso segue assim: “Segineur, je vous ai dit son nom; il était roi des Iles, je vous le certifie. Il vivait dans une de ces îles où aucun mortel n’habitait et régnait sur cette terre. Les siens l’attandent ce mois-ci; quand il rentrera dans son pays il se produira une chose extraordinaire. Seigneur, au nom de Dieu et pour l’honneur, faites preuve de noblesse et de cordialité, et rendez le corps à la reine! Sa joie ne sera complete que si elle voit revenir le roi, son fils.” (p. 613). Em tradução livre: “Senhor, eu vos disse seu nome; ele era rei das Ilhas, eu vos certifico. Ele vivia numa dessas ilhas onde nenhum mortal habitava e reinava naquela terra. Os seus [familiares] o esperam neste mês; quando ele voltar a seu país, se produzirá uma coisa extraordinária. Senhor, em nome de Deus e pela honra, fazei prova de nobreza e de cordialidade, e entregai o corpo à rainha! Sua alegria não estará completa a não ser que ela veja retornar o rei, seu filho.”
para o Outro Mundo386; as águas são uma ligação alegórica entre o mundo dos vivos e o dos mortos. O fato de a mãe de Branguemuers, Branguespart, ser uma fada que reina num castelo numa ilha também é muito significativo. Primeiramente porque as ilhas eram locais especiais para os celtas; eram “lugares liminares, nem exatamente aqui, nem exatamente no Outro Mundo, e, portanto, [eram] úteis como portais para a passagem entre [os] mundos”387. Em segundo lugar, porque a figura de uma mulher que comanda uma ilha – Branguespart aparece com mais preponderência na narrativa do que Guingamuer – remete a temas celtas diversos, mas principalmente ao da Ilha das Mulheres, uma ilha a oeste, governada por uma linda rainha e que é inacessível a não ser que essa rainha permita388.
Quando a moça colega de Branguemuers leva Guerehet até à ilha, ela parece ser também amiga de Branguespart e ela e o herói permanecem no castelo de acordo com a vontade da rainha, de modo que os paralelos são evidentes. O banquete que acontece no castelo parece remeter às alegrias da Ilha das Mulheres mencionados numa estória irlandesa criada entre os séculos VIII e X, chamada A Viagem do Barco de Máel Dúin (em irlandês; Imram Curaig Maíle Dúin)389. Além disso, é interessante notar que o pai de Branguemuers é um simples mortal casado com uma fada.
Segundo Monaghan, as fadas do mar, comuns às mitologias irlandesa e escocesa, chamadas de “na buchtogai”, podiam, de acordo com a tradição, muitas das vezes se casarem com homens mortais390. Talvez por ser um mestiço, filho de uma fada com um mortal, Branguemuers não esteja realmente morto, como aparece na fala, um pouco diferente da versão do manuscrito L, feita pela moça ao rei Artur na tradução realizada por Henri de Briel:
386 Corpos d’água também simbolizavam a dádiva da vida e também a retirada da vida, uma vez que a água oscila facilmente, proporciona a vida biologicamente e também é capaz de carregar corpos pesados e aparentemente captura o sol (outra fonte de vida). É importante lembrar que para os povos celtas das ilhas britânicas e do noroeste da França a impressão que tinham era de que o sol se punha na água, isto é, no oeste. A simbologia que o mar ganhava era, portanto, grande, já que ao mesmo tempo proporcionava a vida e “engolia” o sol. Ademais, em diversas religiões antigas os espíritos dos mortos iam para o oeste, frequentemente atravessando um rio ou o mar. – Sobre a simbologia da água para os celtas, ver MACKILLOP, James. Op. cit., pp. 10-14.
387 Em tradução livre – “The Celts considered islands to be liminal places, neither quite here nor quite in the OTHERWORLD, and thus useful as gateways for passing between worlds.” (MONAGHAN, Patricia. Op. cit., p. 264). O verbete continua dizendo que as ilhas detêm um aspecto de marginalidade que também é observado em algumas construções humanas, como, por exemplo, o castelo de mota (um castelo geralmente simples, típico da Antiguidade e da primeira metade da Idade Média, construído quase sempre de madeira, fortificado sobre um morro criado pelo homem).
388 Idem.
389 MACKILLOP, James. Op. cit., pp. 112-113.
390 Ibidem, p. 411.
“É preciso que eu vos deixe, pois que eu não tenho o direito de ficar aqui. O morto se chamava Brangemuer. Ele era filho do rei Guingammer e de uma fada encontrada por acaso. Eu estou certa que vós haveis escutado contar como esse soberano, num dia que ele estava caçando o javali numa floresta, tomou conhecimento da fada Brangepart e a esposou. Enviai o corpo à rainha; ela vos será grata porque o cavaleiro talvez não esteja morto. Não olvideis que ele nasceu de uma fada imortal. Ele era rei das ilhas do mar e habitava uma delas, onde ninguém além dos seus poderia residir. Quando ele retornar, um prodígio vai se realizar. Bom rei, pelo amor de Deus, atendei meu pedido!”391 (PSEUDO-WAUCHIER, 1972, p. 112)
Na amálgama de tradições feita pelo Pseudo-Wauchier, está outro tema comum nas mitologias celtas; a presença de pássaros. Para os povos celtas os pássaros eram criaturas de grande interesse e simbolismo. Havia desde tempos muito recuados, uma predileção por pássaros aquáticos de diferentes tipos (muitas vezes pássaros qu puxam alguma embarcação ou biga)392. No caso do animal que aparece na Primeira Continuação puxando a barca onde jaz Branguemuers, o cisne aparece em frequentes lendas, como a do deus irlandês da juventude e da beleza, Angus Óg, que junto de sua amada se transforma num cisne393, ou na lenda dos Filhos de Lir, em que a tia e madrasta dos filhos de Lir (ou Laer) os transformou em cisnes por inveja394. É provável que o tema de filhos-cisnes tenha influenciado alguns escritores no começo do século XII durante o chamado ciclo das Cruzadas (uma série de escritos de canções de gestas produzido acerca da Primeira Cruzada e de seus desdobramentos). No caso da presença de cisnes na literatura de cavalaria, parece que o final do século XII presenciou o início desse tema associado a cavaleiros, possivelmente inspirados por estórias produzidas durante o ciclo das Cruzadas395. Uma estória produzida já no final do século XII, um conto de Johannes de Alta Silva (ou Jean de Haute-Seille) (fl. s. XII), chamado Dolopathos, carrega enorme semelhanças com a Primeira Continuação e muito provavelmente a influenciou ou
391 Em tradução livre – “Il faut que je vous quitte car je n’ai pas le droit de rester ici. Le mort s’appelait Brangemuer. Il était fils du roi Guingammer et d’une fée rencontrée par hasard. Je suis sûre que vous avez entendu raconter comment ce souverain, un jour qu’il chassait le sanglier dans une forêt, avait fait la connaissance de la fée Brangepart et l’avait épousée. Envoyez le corps à la reine; elle vous en sera reconnaissante car le chevalier n’est peut-être pas vraiment mort. N’oubliez pas qu’il naquit d’une fée immortelle. Il était roi des îles de la mer et habitait l’une d’elles, où personne d’autre que les siens ne pouvait résider. Lorsqu’il reviendra, un prodige va s’accomplir. Bon roi, pour l’amour de Dieu, exaucez ma prière!” – PSEUDO-WAUCHIER. La Première Continuation du Roman de Perceval. Le Pur – Paris:
Librairie C. Klincksieck, 1972, p. 112.
392 MACKILLOP, James. Op. cit., p. 15.
393 Ibidem, p. 138 e pp. 165-167.
394 Cf. Ibidem, pp. 163-165.
395 GAULLIER-BOUGASSAS, Catherine. Le Chevalier au Cygne à la Fin du Moyen Âge. In: SUARD, François (dir.). Cahiers de Recherche Médiévale: La tradition épique, du Moyen Âge au XIXe siècle, Paris, vol. 12, pp. 115-146, 2005. – Disponível em: <https://crm.revues.org/2232#bodyftn1>. Acesso em 13 set. 2017.
recebeu influência de uma fonte comum às duas narrativas. Tal como na Primeira Continuação, o cavaleiro do cisne é fruto do casamento de um nobre mortal que estava caçando e conheceu uma fada396. Como a obra é do fim do século XII, mesma época em que a Primeira Continuação foi escrita, a associação das obras parece se confirmar, em especial por Johannes dar a entender que se baseou em tradições orais de cavaleiros cruzados.
O motivo literário do cavaleiro do cisne tem alguns aspectos em comum entre as produções do século XII e XIII: o barco puxado por um cisne aparece misteriosamente, o cavaleiro desaparece quando um tabu é quebrado e o nome do cavaleiro é desconhecido pelo menos até o final da narrativa. Embora Branguemuers esteja morto (ou aparentemente morto) na Primeira Continuação, esses três aspectos se confirmam: o barco puxado por um cisne aparece diante do rei Artur numa quente noite de fim de tempestades; o corpo de Branguemuers só é levado quando o tabu da vingança de sua morte mencionado na carta que trazia em sua bolsa de moedas é quebrado, isto é, quando Guerehet mata com a mesma ponta de ferro de lança o cavaleiro que matara Branguemuers; e finalmente, seu nome continua desconhecido até o fim da aventura, quando então a moça sem nome revela como o defunto se chamava e o leva embora, de uma maneira misteriosa, pouco explicada, tal como o cavaleiro do cisne apareceu.
Finalmente, o fato de o episódio da Branguemuers ser levado de volta pelo barco puxado pelo cisne justamente na festa na noite da véspera do Dia de Todos os Santos também é significativo porque essa data é a noite de 31 de outubro. A noite de 31 de outubro para 1 de novembro era de grande importância para os celtas insulares e continentais (ou seja, na Pequena Bretanha) porque é a data de uma festividade do calendário celta chamada Samain. Segundo James MacKillop:
“Estando entre as duas metades of ano celta, o Samain parecia estar suspenso no tempo, quando as fronteiras entre o mundo natural e do sobrenatural se dissolvem, e os espíritos do Outro Mundo podem mover-se livremente para o reino dos mortais. Era um também um tempo para relaxar
396 PARIS, Gaston. (Compte rendu de) La Naissance du Chevalier au Cygne, ou les Enfants changés en cygnes, french poem of the XIIth century, published for the first time, together with an unedited prose version, from the Mss. of the National and Arsenal libraries in Paris, with introduction, notes and vocabulary, by Henry Alfred Todd, 1889, Romania, Genebra, tomo 19, n° 74, pp. 314-340, 1890. – Foco especial no resumo do Dolopathos nas pp. 316-317. – Disponível em:
<http://www.persee.fr/doc/roma_0035-8029_1890_num_19_74_6111_t1_0314_0000_2>. Acesso em 13 set. 2017.
após que o trabalho agrário que mais pesado havia terminado.”397 (MACKILLOP, 2006, p. 99)
A festividade do Samain gerou o que hoje, nos países de língua inglesa é chamado de Halloween. Na Primeira Continuação, é possível sentir um processo de permanência de costumes pagãos pré-crsitãos ainda no século XII, mesclados à festividade cristã do Dia de Todos os Santos, celebrado por Artur em sua corte. O fato de Branguemuers ser um morto que talvez não esteja morto que é filho de um mortal e uma fada, um ser do Outro Mundo, que habita uma ilha claramente associada ao Outro Mundo (e à vida pós-morte), está em consonância com a descrição dada por MacKillop no que tange à dissolução das fronteiras entre o reino dos vivos e o reino dos mortos. A menção feita pela moça que demanda o corpo a Artur ao fato de que os familiares de Branguemuers o esperavam naquele mês (isto é, novembro) também alude a essa importante festividade celta de transição e que é relacionada aos mortos porque, para os celtas, o ano começava no inverno e o Samain marcava o início dessa estação. O Samain era, portanto, uma festa de passagem de ano e simbolizava a morte de um ciclo e o início de outro – analogamente, a possível volta à vida de Branguemuers também remete a esse conceito de morte e renascimento ou de imortalidade cíclica.