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4.1 NOMES DE PERSONAGENS E TOPONÍMIA

4.1.1 Toponímia

4.1.1.1 Branlant e a floresta da fonte ao seu redor

Branlant é retratada como uma cidade rebelde que sofre o cerco de Artur e seu exército por sete anos. É interessante que na estória Artur leva quinze dias para se dirigir até a cidade, o que é um tempo bastante realista se for considerada a logística do deslocamento de tropas na Idade Média, mas quando se trata do cerco o número sete é evocado. O número sete é importante por evocar algo completo, total, algo grande, algo importante (no sentido positivo ou no negativo; algo muito bom ou algo muito ruim), um multitude ou um ciclo completo342 e nessa passagem, parece servir para demonstrar uma longa estadia do acampamento de Artur em volta de Branlant;

os sete anos servem, então, para criar o efeito de dilatação temporal. Entretanto, o

342 São sete dias da semana, eram sete as artes liberais na Idade Média (somando o trivium e o quadrivium), são sete as cores do arco-íris. Na cultura cristã, Jesus diz a Pedro que ele deveria perdoar

“setenta vezes sete” [Cf. Mateus. In: Bíblia (com ajudas adicionais). Tradução de Alfalit Brasil.

Estocolmo: Alfalit Brasil, 2001. Cap. 18, vers. 21-22, p. 20 (parte 2: Novo Testamento)], o livro das Revelações do Apocalipse é endereçado à sete igrejas da Ásia (isto é, da Ásia Menor; hoje a Turquia;

a saber: Pérgamo, Tiatira, Sárdis, Filadélfia, Éfeso, Esmirna, Laodiceia e Patmos – ver Apocalipse. In:

Bíblia (com ajudas adicionais). Tradução de Alfalit Brasil. Estocolmo: Alfalit Brasil, 2001. Cap. 2, vers 1 a cap. 3, vers. 22, pp. 265-267 (parte 2: Novo Testamento). Na mitologia irlandesa o sete aparece como o número de anos pelos quais Áed Ruad, pai da deusa Macha Mong Rua, reina no Ulster conjuntamente com Cimbáeth e depois novamente com Díthorba, completando dois ciclos completos. O período de sete anos também aparece na estória da heroína irlandesa Ailinn; após morrerem, ela e seu amado, Baile Binnbhéarlach, o príncipe do Ulster, duas árvores (um teixo e uma macieira) crescem unidas de seus túmulos e, sete anos depois são cortadas e com a madeira são feitos objetos mágicos, completando um período de longo luto. Com efeito, o tempo de sete anos aparece em inúmeras lendas celtas, sobretudo irlandesas, para descrever longos períodos de tempo. Além disso, parece haver uma ligação entre a figura de Artur e ciclos de sete anos. Ademais a própria Ilha Feérica, que é referenciada no último ramo da Primeira Continuação, e que provém de uma tradição celta antiga, apareceria, segundo a lenda, a cada sete anos (Cf. MONAGHAN, Patricia. Op. cit., p. 4, 9, 11, 27, 40, 58, 63, 118, 130, 152, 173).

que é mais marcante em Branlant é o que se encontra em volta da cidade. Depois de uma longa recuperação por um ferimento de lança no ombro (recuperação esta que tem características celtas, como será visto adiante quando for falado a respeito de Gauvain) causado por Brun de Branlant durante um combate, Gauvain decide pegar seu cavalo, se armar e sair do acampamento de Artur. Andando a esmo, Gauvain atravessa uma campina descrita com contornos primaveris e em seguida adentra num bosque envolvido pelo canto dos pássaros no qual ele se sente reestabelecido, como se estivesse totalmente curado de seu ferimento no ombro:

“Et li bois fu plains d’oiseilés Qui cantent cler et doucement.

Mesire Gavains les entent, Si se tiant por oïr les sons Et les dous cans des oisellons.

Et quant um peu les ot oïs, Li cuers l’en est si esjoïs

Qu’il point et fait un grant eslais, Lance alognie tot adez;

Puis se tint cois enmi le plain.

Fort et legier se trueve et sain, Si que de rien mais ne s’esmaie Qu’il ait nul peril en sa plaie Por coi il doie pas laisier Armes porter ne cevaucier

Mais la cars est encore molt tenre.”343 (PSEUDO-WAUCHIER, 1993, p. 138)

A floresta tem um tipo de poder de cura, ou pelo menos proporciona tanta alegria ao cavaleiro, que ele se esquece de seu ferimento e prossegue em sua perambulação. Então Gauvain passa por vários bosques, um depois do outro, o que dá a sensação de aprofundamento numa ambientação. Ora, as florestas eram locais importantes no mundo celta na Antiguidade e na Idade Média. Era nas florestas que

343 PSEUDO-WAUCHIER. Première Continuation de Perceval. Paris: Librairie Générale Française, 1993, p. 138, vv. 1540-1555. Ao lado, a versão sem prosa diz assim: “[...] dans le bois, quantité d’oiseaux faisaient entendre leurs chants clairs et mélodieux. Monseigneur Gauvain les entend et s’arrête pour écouter le concerte de ramages de oisillons. Après un moment, il en a tant le cœur en joie qu’il donne l’éperon et pique un grand galop, lance abaissée pendant tout ce temps. Puis il fait hâte en terrain découvert, et se sent vigoureux et dispos, et si bien rétabli qu'il est tranquillisé, car sa plaie ne présent plus aucun danger; il ne doit donc pas se priver de revêtir ses armes ou de monter à cheval, quoique la chair soit encore fragile”. (p. 139). Em tradução livre: “[...] no bosque, muitos pássaros faziam-se ouvir em seus cantos claros e melodiosos. Monsenhor Gauvain os ouviu e parou para escutar o concerto de gorjeios dos passarinhos. Depois de um instante, ele tinha tanta alegria em seu coração que ele esporeia e pica em grande galope, [com] a lança abaixada por todo esse tempo. Então ele acelera em terreno descoberto, e se sente vigoroso e disposto, e tão bem reestabelecido que ele está tranquilizado, porque sua ferida não apresenta mais perigo algum; ele não precisa, portanto, se privar de vestir suas armas ou de montar a cavalo, embora a carne ainda esteja frágil”.

aconteciam alguns dos rituais dos druidas344 (sacerdotes das religiões dos celtas) e havia uma ligação especial do druidismo e os povos celtas no geral com os carvalhos.

Justamente na cena subsequente, depois de atravessar quatro bosques345, Gauvain adentra uma charneca346 onde havia uma tenda com uma fonte d’água e um carvalho do lado. Além do carvalho, que é um indício do substrato celta, a fonte d’água faz lembrar a fontes sagradas ou mágicas como a fonte mágica de Barenton (ou Belenton), da mitologia bretã, que tinha a capacidade de fazer chover e que estaria escondida no meio da floresta de Brocéliande (tema claramente evocado no conto galês da Dama da Fonte, ou Y Thair Rhamant, presente no Mabinogion, e também presente no Yvain ou O Cavaleiro do Leão, de Chrétien de Troyes). A fonte é um símbolo do Outro Mundo347 e que sugere se tratar de um lugar especial associado com o sagrado e/ou até com fadas. A presença do carvalho perto da fonte d’água, por sua vez, faz lembrar a “bile” ou “bele”, termo utilizado para designar uma árvore sagrada, geralmente encontrada próxima de um poço ou fonte d’água ou outro lugar honorável. A árvore bile era símbolo de unificação do submundo, por meio das raízes, com este mundo (por meio dos galhos). Há razões para acreditar que essa árvore apresentada na charneca na narrativa faça alusão a esse tipo de árvore por ser um carvalho, pois a bile era costumeiramente um carvalho, ou um freixo ou um teixo348.

344 A palavra “druida” é derivada da forma plural do latim “druidai” e do grego “druidēs” (δρυΐδης). Em grego a palavra é composta pela raiz “drýs” (δρύς), que significa “carvalho” e pelo sufixo “ides” (ιδης), o que indica a ligação dos druidas com os bosques e em especial com os carvalhos. Tanto o nome latino quanto o grego são palavras cognadas com as palavras de línguas célticas: em irlandês antigo,

“druí” significava “druida”, “adivinhador” ou “mago”; em córnico antigo, a palavra para “druida” era

“druw”; e em galês médio (a mesma língua no qual todos os contos do Mabinogion foram escritos e que era a língua falada pelos galeses no século XII), a palavra para “druida” era “dryw”, que também significava “vidente” ou “carriça” (uma espécie de pássaro muito pequeno, que tem a peculiaridade de cantar durante o inverno). Ora, a carriça é um pássaro que está ligado à cultura celta também pelas lendas, aparecendo, por exemplo, no conto Math mab Mathonwy, no Mabinogion. A carriça também estava ligada ao presságio ou auspício, associado a rituais druídicos de inverno (o que pode ter gerado o dia da carriça, comemorado pelo folclore irlandês no dia 26 de dezembro). Se isso for levado em consideração junto com a cena que se segue na estória da Primeira Continuação, a importância dos pássaros cantando no bosque em que Gauvain adentra reforça o tom feérico. – Sobre os druidas e a etimologia dessa palavra cf. MACKILLOP, James. Op. cit., pp. 25-28.

345 Lanço uma suposição: talvez sejam quatro bosques para reforçar não só o aprofundamento do tom feérico, mas também a dilatação do tempo, com cada bosque representando uma das quatro estações, e também para representarem um portal que indica a passagem para outro ambiente, no qual o maravilhoso se manifesta.

346 O texto adaptado em prosa menciona “lande dégargée” e o original chama o lugar de “lande plaine”

(v. 1567), algo próximo do espaço designado em inglês como “moorland” ou “heath”. Aqui se deve entender “charneca” no sentido mais comum da palavra em Portugal; uma terra de charneca seca, geralmente de solo ácido, com plantas rasteiras, raríssimas árvores e alguns arbustos; e não a ideia de charneca molhada como sinônimo de brejo, como acontece por vezes aqui no Brasil.

347 Sobre fontes e poços em geral na cultura celta ver o verbete “Wells” em MONAGHAN, Patricia. Op.

cit., pp. 470-471.

348 Ibidem, p. 45.

A presença de uma fonte d’água é significativa, embora sutil, porque fontes eram utilizadas como locais de adoração por populações pré-cristãs por toda a Europa e mesmo durante os séculos de expansão do cristianismo, práticas sincréticas que mesclavam folclore e religiosidade popular toleravam rituais nas proximidades de fontes – inclusive o Edito de Arles, de 452, acusava de sacrilégio os “infiéis” que acendessem tochas, ou que adorassem fontes d’água ou rochas349.

Ademais, as cavernas, fontes, cachoeiras, poços, encruzilhadas, charnecas e promontórios (ou istmos) eram considerados como locais associados à presença de fadas em locais como a Gália (na Antiguidade e nas regiões correspondentes durante boa parte da Idade Média de modo mais recorrente – mas a cultura durou até o fim da Idade Média, como atestado pelo inquérito de Joana d’Arc de 1430 e 1431), na Irlanda, nas regiões de cultura gaélica da Escócia, na Bretanha (Armórica) e no País de Gales medievais. Somando-se a isso, Colette-Annes Van Coolput-Storms afirma que a água marca a passagem para o Outro Mundo, mas afirma que a moça que Gauvain encontra na tenda, e com quem gera um filho (tirando sua virgindade350), não é uma fada (e a narrativa da Primeira Continuação de fato não afirma isso)351, embora possua características de uma. Contudo, prossegue Coolput-Storms, como sugere Harf-Lancner, algumas das ações da donzela do pavilhão não são típicas de uma fada, mas ocorrem por conta de um tipo de racionalização dos esquemas do maravilhoso na literatura desenvolvida pelo Pseudo-Wauchier. De qualquer maneira, no livro Le

349 Ibidem, p. 88. Cerca de um século depois o Concílio de Tours recomendou a excomunhão de pessoas acusadas dessas práticas. Ao longo de toda a Idade Média os sincretismos de cristianismo e outras religiões foram praticados em maior ou menor grau. É dito que no século XVII a Igreja da Escócia criou uma comissão para erradicar costumes druídicos que ainda persistiam em algumas regiões.

350 Antes o texto chama a moça de “pucelle” (no original, “pucele”), que é o termo usado para designar moças virgens. Depois que ela perde a virgindade, ela passa a se afirmar, com certo receio, como

“demoiselle”, donzela. Existe um problema de adequação na tradução desses termos franceses ao português, uma vez que o português não dispõe de uma palavra que faça a distinção entre uma donzela necessariamente virgem (pucelle) e uma donzela que não é necessariamente virgem (demoiselle).

351 “[...]la demoiselle de Lis est très ambiguë et nous hésitons à l’assimiler purement et simplement à la fée. Certes, plusieurs traits lui confèrent un statut un peu special: son pavillon est à proximité d’une source ou d’une fontaine, et l’on sait que l’eau marque souvent le passage entre le monde des mortels et l’Autre Monde; une resplendor frappe Gauvain en plein visage lorsqu’il approche, et la clarté est le signe caracteristique qui acompagne par exemple Aalardin ou la nef au cygne. L’intrigue rappele de loin la situation stéréotype dans laquelle apparaît la fée, décrite par Laurence Harf-Lancner: à proximité de la “fée à la fontaine” il y a souvent un défenseur qui n’est autre que le gardien de l’Autre Monde (il défend habituellement un gué). Mais le texte ne dit jamais vraiment que la demoiselle de Lis est une fée, alors qu’il n’hésite pas à mettre en scène les reines mortes depuis bien longtemps, l’enchanteur Éliavrés, Aalardin, Branguemuers, le roi de l’Autre Monde et sa mère, la fée Brangespart, en les désignant comme des créatures surnaturelles, en leur conférant des pouvoirs extraordinaires ou en leur attribuant des objets magiques. [...] Surtout, certains traits de la demoiselle de Lisson peut compatibles avec un statut de fée”. – COOLPUT-STORMS, Colette-Anne Van. Introduction. In: PSEUDO-WAUCHIER.

Première Continuation de Perceval. Paris: Librairie Générale Française, 1993, p. 33.

Bel Inconnu, que carrega algumas semelhanças com trechos da narrativa de Primeira Continuação, é dito que o filho de Gauvain é fruto da relação de Gauvain com uma fada que ele conhecera na floresta (uma personagem equivalente à donzela da fonte)352.