Os índios Mapuches e os camponeses que vivem às margens de uma la-goa, ao sul do Chile, juram que, de vez em quando, aparecem boiando no espelho d’água cabeças negras, com cabelo pixaim. Dizem que as cabe-ças vão surgindo, uma depois da outra. Dizem que ficam de bubuia, flu-tuando por um instante fugaz, e, depois, voltam para o fundo da lagoa, conhecida, por isso, como Laguna de los Negros. Algumas histórias que ainda hoje circulam falam em oito cabeças, outras em vinte e até mais.
Já tentaram fotografar as aparições, mas elas se mostram apenas em uma fração de segundo. Só quem pode vê-las é o morador da região, que sabe das coisas. Para os citadinos desinformados, vindos de fora, elas são invisíveis. Aí, como nada veem, esses analfabetos da oralida-de acham que tais “visagens” e “histórias oralida-de assombração” não passam de “fantasia de índio”, “superstição de camponês”, “crendice absurda”,
“invenção”, “mentira” ou, no melhor dos casos, “puro folclore”, incom-patível com a modernidade, a tecnologia, o pensamento científico, a metrópole, a internet.
Foi aí que um historiador, para quem só vale o que está escrito, vascu-lhou arquivos em busca de pistas que explicassem o fato. Descobriu na documentação antiga que o colonizador espanhol decapitava os índios ou amarrava uma pedra no pescoço deles, atirando-os no fundo daquela lagoa, que ainda guarda o mistério e o encanto do tempo em que foi mais larga e profunda.
O último registro escrito dá conta de um motim ocorrido em janeiro de 1804 no navio negreiro Prueba, quando 72 escravos trazidos da Áfri-ca em jaulas, como bichos, se revoltaram, mataram 18 marinheiros e exigiram que o capitão, chamado Carreño, voltasse para o Senegal. No
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retorno, um navio norte-americano atacou o barco e trucidou os revol-tosos. Oito sobreviventes presos – um deles de nome Mure – foram con-denados à morte e atirados no fundo da lagoa, de onde, de tempos em tempos, emergem.
O pesquisador uruguaio Nestor Ganduglia, que sabe ler oralidades, con-sidera as aparições como uma estratégia de preservação da memória popular. É assim que as pessoas humildes fazem: não escrevem livros, mas gravam suas experiências, quase sempre amargas e dolorosas, na paisagem, nos costumes, nos rituais, nos cantos, nas vozes que transmi-tem suas narrativas lendárias, criando redes subterrâneas que mantêm a memória viva em um mundo dominado por versões oficiais – ele diz.
A história oficial – relato escrito dos vencedores – apaga os crimes he-diondos e afoga as atrocidades dos poderosos no lago do olvido. Milhares de ossadas permanecem insepultas nas águas da nossa América. Para se-rem lembradas é que, de vez em quando, sobem à tona na voz do povo, que resiste ao esquecimento e manifesta seu assombro, ao repassá-las oralmente de uma geração a outra, transpondo as barreiras do tempo.
Eis o que eu queria dizer: o Brasil é uma enorme Lagoa dos Negros. Os horrores da escravidão foram esquecidos e os bandeirantes, que assassi-naram índios, transformados em heróis. As narrativas das comunidades quilombolas, dos povos de terreiro e das aldeias indígenas continuam fora da sala de aula, do museu, do monumento e da mídia, apesar de uma lei recente obrigar sua inclusão nas escolas.
O atual debate sobre a ditadura militar revela como a memória é apaga-da. Durante 20 anos, a repressão política sequestrou, prendeu, espan-cou, torturou e exilou milhares de pessoas, deixando um saldo de 144 mortos sob tortura e 125 desaparecidos, cujos cadáveres não foram lo-calizados, entre eles o do amazonense Thomaz Meirelles.
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, ex-ministro da Justiça no governo FHC, de forma apressada, declarou ontem que os militares brasileiros desaparecidos sob os escombros no terremoto do Haiti não estão mais vivos. A expressão desaparecido é técnica. Significa corpo não encontrado – disse, prometendo localizar os cadáveres. Não quer, porém, igual
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POR QUE MEMÓRIA SOCIAL?
tamento aos desaparecidos políticos, que permanecem soterrados nos inacessíveis arquivos dos órgãos de repressão.
Na disputa pela memória, o presidente Lula assinou decreto, contendo um montão de resoluções aprovadas na 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, entre as quais a criação da Comissão da Verdade, encarregada de esclarecer as violações de direitos humanos praticadas no contexto da repressão política durante a ditadura militar.
Lula explicou em entrevista à TV Mirante, no Maranhão, que o decreto manifesta apenas uma intenção: “O governo pode aceitar tudo, pode acei-tar 80% ou 30%. Uma parte pode ser transformada em lei, a outra fica no programa”. A proposta pode ou não ser encaminhada como projeto de lei ao Congresso Nacional, onde vai ser analisada, discutida, emendada e votada, podendo ser aprovada ou rejeitada. O que a Comissão da Verdade vai fazer depende disso tudo e dos poderes a ela atribuídos.
Embora a Comissão da Verdade seja apenas uma proposta indicativa, bastante tímida, sem poder legal, mesmo assim os comandantes mili-tares reagiram contra ela como senhores e donos da memória nacional, papel que não lhes cabe constitucionalmente. Não querem sequer que a ideia seja discutida. Foram intransigentes. Exigiram que a expressão
“repressão política” fosse apagada no novo decreto. Foram obedecidos.
Os arquivos militares continuam fechados. Só nos resta resistir, man-tendo os torturados de bubuia no lago de nossa memória.
A tortura é considerada ilegal até mesmo pela legislação arbitrária de qualquer ditadura. Mas os torturadores só foram julgados – como Pino-chet no Chile, depois de preso em Londres – quando os países que prati-caram esse crime hediondo foram redemocratizados: Chile, Argentina, Uruguai, Portugal, Espanha, Grécia. Os processos judiciais atestaram a existência da democracia e contribuíram para recuperar a memória.
A Argentina acaba de abrir os arquivos da ditadura. O Chile investiu US
$20 milhões para construir o Museu da Memória e dos Direitos Huma-nos, um edifício de cinco andares, projetado – oh ironia! – por um es-critório paulista de arquitetura. Tem um arquivo no subsolo aberto para consulta, milhares de fotos, cartazes, textos e testemunhos em vídeos
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com crianças em busca de seus pais e avós, além de um espaço – o velatón – onde o acrílico reproduz as velas que eram acesas nos locais de execução.
Revanchismo? Insensatez? Não, apenas compromisso com a história.
Cutucar a onça com vara curta? Pode ser se não sabemos o tamanho da nossa vara. Mas ninguém quer torturar os torturadores, apenas que respondam, dentro da lei, pelos atos que cometeram, assegurando-lhes um direito que eles não concederam às suas vítimas: o de ampla defesa.
A impunidade deles contribui para que, ainda hoje, a tortura continue praticada em nosso país contra presos comuns, de origem pobre.
Muitas cabeças ainda vão boiar no lago da memória, até que o Brasil, efetivamente, se redemocratize e tenha consciência de que o futuro só se transforma se encararmos o passado. Por isso é que a memória é tão importante (17/1/2010).