Quem conhece o igarapé Traíra, no rio Madeira, município de Humaitá (AM), fica encantado com suas águas escuras, de um negro retinto, em cujo leito estão submersos segredos e histórias narradas pelos velhos ín-dios. É que o igarapé, situado em território dos Parintintin, testemunhou toda a saga desse povo: a invasão de suas aldeias, o incêndio das malocas, o trabalho forçado, o enfrentamento com seringueiros, as trapaças, as mulheres violadas, o queixume, a resistência, as narrativas, os saberes.
Tornou-se, assim, o guardião de uma memória, que foi silenciada.
Agora, finalmente, essa memória submersa virá à tona, com ajuda da documentação que a Casa de Cultura Parintintin recebeu do Museu do Índio do Rio de Janeiro. A Casa, construída às margens plácidas do histórico igarapé, foi inaugurada em 2 de dezembro de 2007, com um brado retumbante dos índios. O diretor do Museu, José Carlos Levinho, assinou o Termo de Entrega dos acervos sonoros, visuais e impressos.
Agora sim, o Traíra vai poder falar e contar tim-tim por tim-tim tudo o que viu, vencendo uma batalha na guerra contra o esquecimento.
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POR QUE MEMÓRIA SOCIAL?
O filósofo francês Giles Deleuze, em suas Conversações, nos assevera:
“Aquilo que se opõe à memória não é o esquecimento, mas o esqueci-mento do esqueciesqueci-mento” (DELEUZE, 1992, p. 219). A atual geração Parintintin esqueceu muita coisa – é verdade –, mas não esqueceu que esqueceu. Por isso, correu atrás para recuperar a memória ferida. Na semana passada, dois índios, Roque e Valmir, viajaram ao Rio de Janeiro em busca do material etnográfico.
São os primeiros a participar de um ambicioso programa do Museu do Índio para devolver às comunidades indígenas os documentos que lhes interessam.
A documentação encontrada por Roque e Valmir, já digitalizada, é constituída por relatórios do SPI desde 1922, por notas do etnólogo alemão Curt Nimuendajú e por farto material coletado por dois antro-pólogos: José Carlos Levinho, que em 1985 chefiou a equipe de identi-ficação da terra indígena, e o pesquisador americano Waud Kracke, da Universidade de Illinois, que estuda esse povo desde 1966, e cujo acer-vo totaliza 67 horas de gravação, com dados valiosos sobre história, relações de parentesco, rituais, além de mais de mil registros visuais, entre fotografias e desenhos.
A visita dos dois índios foi documentada pelo amazonense Felipe Martins, que acaba de fazer um curso de videografismo em after effect na PUC-Rio.
Ele produziu um vídeo intitulado O arco da memória, que mostra as an-danças de Roque e Valmir pelos diferentes setores do Museu do Índio.
Na reserva técnica, os dois encontraram objetos confeccionados por seu povo: faca de madeira, cocar, braçadeiras, colares, arte plumária, trançados e “coisas que não se faz mais”, identificando as matérias-primas usadas:
paxiubinha, tala de palha, envira, algodão, dente de queixada e outras.
No setor de audiovisual, Roque e Valmir manusearam fotos da época do SPI e se emocionaram com uma delas: “Esse daqui é o meu avô, aquela ali é Helena, a irmã do meu pai”, disse um deles, reconhecendo os paren-tes numa fotografia amarelecida pelo tempo. Na biblioteca, encontra-ram livros raros que falam dos antigos Parintintin, e no arquivo tiveencontra-ram a oportunidade de manipular um leitor de microfilme para acessar os relatórios do SPI.
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Revista Morpheus
“Os velhos estão morrendo e com eles vai embora a nossa memória”, disse Valmir, que é chefe de posto da Funai na Terra Indígena 9 de Janeiro, onde estão localizadas duas aldeias: Traíra, com uma população aproximada de 200 índios, e Pupunha, com 160 pessoas. Por isso, ele bota muita fé na Casa de Cultura, acreditando que seu acervo pode complementar as lacunas dei-xadas. Diz que guardar o documento, porém, não é suficiente: “Precisamos preparar índios que sejam capazes de trabalhar num banco de dados e sai-bam usar uma câmera, uma filmadora e as novas tecnologias de registro”.
Roque, que é presidente da Associação dos Povos Indígenas Parintintin da Terra Indígena Ipixuna, onde vivem 72 pessoas, concorda com o seu paren-te. Ele diz que em sua aldeia só cinco pessoas – ele, o pai, e três velhos – fa-lam a língua Kagwahiva, da família Tupi-Guarani. Os demais são monolín-gues em português e apenas compreendem, ao contrário das aldeias Traíra e Pupunha, onde a maioria é bilíngue. O grande cemitério da língua falada pelos Parintintin é a cidade de Humaitá, onde vivem muitos índios, cuja situação foi estudada entre 1989 e 1991 por Waud Kracke. Esse pesquisa-dor participa hoje da inauguração no Traíra da Casa de Cultura Parintintin.
O trabalho de José Levinho e Waud Kracke garantiu aos Parintintin a pos-se de suas terras ancestrais. Desde então, os índios perceberam o valor documental da memória e da língua para a defesa da terra. Por isso, eles assinam hoje o Termo de Acordo, através do qual o Museu do Índio se compromete a fornecer o que tem, a receber os novos materiais da docu-mentação e a providenciar serviços técnicos necessários para a sua digitali-zação, oferecendo ainda aos Parintintin assistência técnica para conservar os materiais digitalizados.
Escrito em português e na língua Kagwahiva, o Acordo foi publicado no Diário Oficial da União que, pela primeira vez em sua história, imprimiu um documento em uma língua indígena com esse teor. Ele explicita que o objetivo é “desenvolver trabalho para a constituição de um acervo docu-mental da cultura Parintintin a ser depositado no Museu do Índio, com cópia na Casa de Cultura Parintintin, situada na aldeia Traíra na Terra Indígena 9 de Janeiro”.
Com relação à propriedade intelectual, existe uma cláusula que determi-na que o Museu do Índio e os Parintitin, através da Casa de Cultura,
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POR QUE MEMÓRIA SOCIAL?
conhecem que os registros constituem herança cultural da comunidade Parintintin, fornecedora dos materiais arquivados, sendo que o acesso a estes não pode ser motivado por fins comerciais e depende da autoriza-ção prévia dada pela comunidade.
Os Parintintin, no passado, já somaram mais de 15.000 indivíduos, quando ocupavam um vasto território que se estendia da região leste do rio Madeira até a boca do rio Machado, a leste do rio Maici. Sua po-pulação, vítima de constantes violências e de doenças contraídas com o contato, ficou reduzida a pouco mais de 400 pessoas. Muitas delas abandonaram suas aldeias de origem e vivem em Humaitá e Porto Ve-lho, onde trabalham, os homens em obras de infraestrutura, na cons-trução civil, como cozinheiros, barqueiros ou regatões, e as mulheres como empregadas domésticas. Agora, criaram a Casa da Cultura para preservar a memória.
Quem vive e pensa a cultura – diz Aloísio Magalhães – deve operar como quem usa um bodoque, também conhecido como estilingue ou baladei-ra. Você estica o elástico ou borracha para trás, recuando no passado, e traz de lá a memória, impulsionada com força espetacular em direção ao futuro. Hoje, para retomarem o controle de seu destino, os Parintin-tin, em vez de estilingue, usam o arco e a flecha da memória. Recuam a corda do arco ao passado, para de lá impulsionar a flecha ao futuro (2/12/2007).