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Brasil: africanos, liberdade sob tutela e combates libertários

2 PAN-AFRICANISMO ORGANIZAÇÃO SOCIAL E RESISTÊNCIAS (XV-XIX)

2.4 CABO VERDE E BRASIL NO LIMIAR COLONIALISTA

2.4.2 Brasil: africanos, liberdade sob tutela e combates libertários

O processo abolicionista no Brasil teve suas específicas complicações dentro do jogo de interesses determinado pela Inglaterra, por Portugal e pelas elites latifundiárias locais da colônia. A proibição do tráfico, como salientamos, forçou uma reorganização interna de todo o sistema socioeconômico colonial, cabendo aos africanos quilombolas, aos escravizados e aos sob liberdade tutelada (“livres”) continuarem a dinâmica da resistência, como sempre o fizeram. No Brasil as leis para encerramento do tráfico e da escravidão começaram a ser promulgadas após a independência em 182246 e no ano de 1828 foram iniciados acordos entre Brasil e Inglaterra – com a presença de Portugal – com o objetivo de extinguir o tráfico e a

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No ano de 1823 o Benin enviou um diplomata para o Brasil a fim de felicitar o país independente. Este fato é cinicamente lido pela historiografia negróloga das relações internacionais como um ato diplomático progressista. Nós fazemos outra leitura, que diz respeito às tradicionais relações políticas das elites africanas desafricanizados com as elites racistas brasileiras que continuam estabelecidas nesse início do século XXI.

previsão de três anos para o encerramento do trabalho escravizado.

A participação dos Negros em movimentos políticos gerais de contestação provocou implicações negativas para os próprios Negros que, de forma geral, foram utilizados como massa de manobra para que uma minoria branca alcançasse os seus próprios objetivos de raça e classe. Essas participações atingiram movimentos de contestação e a movimentação para a independência do Brasil no início da década de 1820. A população Negra se dividiu entre movimentos de quilombagem, movimentos dirigidos por europeus radicados no Brasil e por estrangeiros em disputa internacional pelo território colonial, caso flagrante dos holandeses no século XVII.

Nessa matéria, a Revolta dos Alfaiates (ou Inconfidência Baiana) em 1798 foi um movimento abolicionista que mobilizou organizadamente Negros escravizados, Negros em liberdade tutelada e brasileiros (brancos). O movimento, porém, fracassou, e os Negros que participaram foram condenados à morte, outros foram extraditados para o continente africano, enquanto os brancos participantes do movimento tiveram as acusações anuladas através do serviço eficiente de seus advogados.

Assim como em Cabo Verde, na segunda metade do século XIX a crise gerada pelo fim do tráfico de africanos escravizados no Brasil se ampliava no cotidiano colonial e se agravava com a quilombagem, com os movimentos abolicionistas e com a decadência do mercado açucareiro internacional. O mercado de extração mineira nas regiões de Minas e Goiás (ciclo do ouro) mostrou-se promissor, mas foi limitado pelo esgotamento do solo, resultado de um mau planeamento técnico. Com o adiantamento das pressões pelo encerramento do tráfico de africanos escravizados foram criadas leis pseudo emancipatórias, como a Lei Diogo Feijó, de 7 de Novembro de 1831, que abolia a importação de africanos escravizados no Brasil a partir daquela data.

Outras leis do período foram a Eusébio de Queiroz (1850), que previa o encerramento definitivo da importação de africanos escravizados, a Lei do Ventre Livre (1871), que estabelecia liberdade a toda criança que nascesse a partir daquela data e a Lei do Sexagenário (1885), que determinava a liberdade imediata aos africanos escravizados com mais de sessenta anos. Essas leis com o intuito “emancipatório” fracassariam por uma série de motivos, como o racismo, a economia do período baseada na lavoura do café e nos ofícios técnicos especializados,

dominados por africanos escravizados ou em liberdade tutelada.

Um dos recursos utilizados pelos latifundiários para burlar essas leis foi o tráfico interprovincial, ou entre províncias, uma ação muito comum na ligação entre São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro (região Sudeste). Durante a década de 1860, por exemplo, o aluguel de africanos escravizados se transformou em um negócio lucrativo no Rio de Janeiro, visto que o contexto era de restrição à importação de escravizados. Por isso, os senhores encontravam outras formas de fazer com que a exploração vigorasse, de uma maneira ou de outra.

É interessante refletir sobre o jogo das leis. No caso da Lei do Ventre Livre, o que adiantaria crianças livres a partir do ano de 1871, uma vez que suas mães e pais, quando não eram desconhecidos, permaneceriam sob o regime escravocrata? Não havia estrutura familiar para amparar crianças “livres”. Inclusive, muitos homens e mulheres escravizados eram forçados a ter relações sexuais para a manutenção do número de escravizados, semelhante à produção em cativeiro que os mesmos fazendeiros faziam com cabras, bois e cavalos. Sobre a Lei do Sexagenários, as mesmas contradições se repetiam: em primeiro lugar porque havia dificuldade para provar a idade de africanos escravizados; em segundo lugar, pelas péssimas condições físicas e mentais desses homens e mulheres que possuíam uma “vida útil” para o trabalho forçado que variava entre 7 e 10 anos; e em terceiro lugar, a desestruturação das famílias, juntamente com a inexistência de comunidades Negras sólidas no perímetro urbano.

Outro elemento fundamental para situar essas leis foi o alto preço dos escravizados nos mercados, sob a justificativa da proibição do tráfico. As leis respondiam às pressões internacionais e domésticas do movimento abolicionista, em que muitos africanos alforriados (sob tutela) participaram. Entre eles destacam-se os nomes de Luiz Gama, André Rebouças, José do Patrocínio, Ferreira de Menezes, Quintino de Lacerda, Adelina Charuteira e Clarindo de Almeida.

Um dos mais representativos militantes do movimento abolicionista desse período foi Luiz Gama, advogado47, jornalista e político Negro, vitorioso nos tribunais em centenas de casos a favor da libertação de africanos escravizados. Como jurista na década de 1860, Luiz Gama utilizou da Lei Diogo Feijó (1831) para

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Luiz Gama não possuía diploma de advogado e se enquadrava como rábula, profissional que advoga em tribunais sem diploma. A partir de 1870 Luiz Gama conseguiu crédito de advogado provisionado.

advogar nos tribunais a libertação de africanos mantidos sob a criminosa e ilegal escravidão. Luiz Gama não advogava, porém, somente sob a égide das leis e com confiança na boa vontade de juízes, pois ele defendeu mais de uma vez nos tribunais a legitimidade do escravizado garantir a sua própria vida através do assassinato do seu algoz:

Para o coração não há códigos; e se a piedade humana e a caridade cristã se devem enclausurar no peito de cada um, sem se manifestar por atos, em verdade vos digo aqui, afrontando a lei, que todo escravo que assassina o seu senhor pratica um ato de legítima defesa. (SANTOS, 2010, p.35) Luiz Gama nasceu em 1830 na Bahia, filho de Luiza Mahin com um comerciante branco que, na ausência da mãe – banida após a o último levante dos Malês –, o vendeu e o embarcou em 1840 como carga para o Rio de Janeiro, onde foi leiloado em uma feira. A criança desprezada obteve rara e medíocre simpatia de seus novos donos e, como uma propriedade doméstica, aproveitou-se de tal maneira da piedade paternal da família que o adquiriu. O pequeno Gama dedicou-se às primeiras letras até conseguir, então, fugir daquela casa.

O jovem Gama passou pelo exército como soldado, mas após um encarceramento por insubordinação abandonou a possível carreira militar para dedicar-se ao ofício da escrita na Secretaria da Polícia de São Paulo, sua ponte para atividades como advogado e escritor. Luiz Gama publicou duas edições de seu próprio livro intitulado Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859-61) e artigos em jornais do período, chegando mesmo a colaborar com a fundação dos periódicos:

Diabo Coxo (1864) e Cabrião (1866). “Getulino” foi um pseudônimo utilizado por Luiz

Gama em menção ao continente africano que durante a antiguidade histórica geral os romanos identificavam por Getúlia, uma região entre as atuais Tunísia e Argélia:

Figura 10 - Luiz Gama

Fonte: http://www.quilombhoje.com.br/blog/?tag=luis-gama

Consciente de sua condição de homem Negro sob liberdade tutelada, Luiz Gama poderia ter optado por um pseudônimo que evocasse uma nacionalidade brasileira, a região de São Paulo e mesmo a Grécia, mas optou por pensar o continente africano como signo de sua identidade original. Luiz Gama também se articulou com dignidade entre republicanos e maçons, não para receber esmolas ou privilégios de classe, mas para edificar bases que serviriam ao exercício de sua profissão libertária. Deveríamos pensar que, como um homem Negro, advogado nos tribunais, Luiz Gama estava isolado e, e por isso, as alianças eram importantes. Não há dúvidas, porém, de que sua estrutura de apoio não estava nessas articulações, alianças, artigos e livros escritos nos jornais por ele fundados, na maçonaria e muito menos na transição de rábula para advogado provisionado. A estrutura de Luiz Gama estava em sua família, casado em 1859 com Claudina Fortunata Sampaio, com quem teve um filho, Benedito Graco Pinto da Gama.

As ações de Luiz Gama foram meticulosamente pensadas como uma futura contribuição às próximas gerações de Negros no Brasil (SANTOS, 2010). Diagnosticado como diabético, Luiz Gama desapareceu fisicamente em 1882, mas dois anos antes escreveu para um amigo notas autobiográficas que ressaltam a grandiosidade da sua consciência histórica e o senso de justiça social, elementos que o mantiveram sob constante prontidão e foram incessantes nas ameaças contra sua vida. Sem dúvidas, o advogado Getulino foi um dos homens Negros mais conscientes de sua época e do seu povo, um povo considerado inimigo e obrigado a edificar um país rico que o oprimia de todas as formas:

Sim! Milhões de homens livres, nascidos como feras ou como anjos, nas fúlgidas areias da África, roubados, escravizados, azorragados, mutilados, arrastados neste país clássico da sagrada liberdade, assassinados impunemente, sem direitos, sem família, sem pátria, sem religião, vendidos como bestas, espoliados em seu trabalho, transformados em máquinas, condenados à luta de todas as horas e de todos os dias, de todos os momentos, e proveito de especuladores cínicos, de ladrões impudicos, de salteadores sem nome. (SANTOS, 2010, p.44)

Fora dos tribunais, a luta na área urbana estava calcada em um movimento perene de educação entre os africanos em situação de escravidão ou de tutela. Houve iniciativas de cunho institucional e empreendidas corajosamente por pessoas no Rio de Janeiro como Filipe José Alberto e Carlos Alberto (pai e filho), abolicionistas que criaram escolas para africanos sob tutela e que escreveram obras gramaticais para conduzir esse trabalho de instrução. Outro educador destacado dessa época foi Pretextato dos Passos Silva, dedicado à educação infantil. Iniciativas educacionais estavam ocorrendo em todo o país.

O caso de Pretextado dos Passos Silva foi emblemático no Rio de Janeiro em 1853. O educador utilizou de uma rede de contatos políticos a fim de conseguir uma licença da Inspetoria Geral da Corte para o funcionamento de uma escola de Instrução Primária, uma entidade voltada às crianças Negras e localizada em sua própria casa, no centro do Rio de Janeiro. O lema da escola era “Aprender com perfeição e sem coação”, o que demonstra um pouco do objetivo do empreendimento, do caráter do educador e do brutal tratamento aos poucos Negros que tiveram oportunidade de ensino. O professor Pretextato conseguiu apoio de pais e mães para iniciar, em 1853, sua escola, oferecendo instrução nas áreas de leitura, escrita, matemática, gramática e doutrina cristã. Entretanto, um ano depois, o governo publicou um Regulamento de Instrução do ensino que atingiu diretamente escolas Negras como a de Pretextato do Passos Silva, obrigado a trabalhar na clandestinidade até fechar as portas do seu estabelecimento por causa dos riscos da ilegalidade.

Preocupado com a educação e contemporâneo de Pretextato Passos da Silva, André Rebouças também foi um dos maiores nomes da militância abolicionista no Brasil. A prestigiada família Rebouças foi tradicionalmente combativa à escravidão, cujo patriarca, Antônio Rebouças, passou a ser ameaçado por enfrentar traficantes na Bahia, sendo obrigado a mudar-se para o Rio de Janeiro. O filho, André Rebouças, formou-se em engenharia hidráulica e defendeu uma reformulação

dos sistemas agrícolas, sem mais centralização de terras, de modo que os africanos livres tivessem acesso condigno a estas. André Rebouças falava latim, grego, francês e inglês, além de dominar conhecimentos de matemática e geografia, recursos intelectuais que foram utilizados para a melhoria das condições de vida do seu povo.

Na prática política, André Rebouças aproveitou-se do fato de ser professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro para fundar um centro abolicionista no local. A tolerância branca à presença de André Rebouças em uma sociedade racista e escravista se devia aos seus conhecimentos técnicos e intelectuais que poderiam beneficiar “aliados” brancos. A dificuldade de André Rebouças em conseguir emprego como engenheiro no Rio de Janeiro expressa, no entanto, a tênue linha que o separava da posição de seus irmãos, principalmente dos que estavam sob liberdade tutelada. Detentor de uma ampla formação acadêmica, mesmo para a realidade brasileira do século XXI, André Rebouças participaria de um dos eventos mais controversos da história do Brasil, a Guerra do Paraguai, onde chegou a formular um protótipo de míssil e outros equipamentos bélicos de destruição e defesa, mas, por motivos de doença, retornou ao Brasil antes do término do conflito, uma carnificina que ocorreu entre 1864 e 1870.

O Paraguai da década de 1850 construía sua soberania com uma crescente influência na Bacia do Prata, o que significava uma ameaça para o domínio comercial imperialista da Inglaterra na região. O Brasil, sob a regência de Dom Pedro II, foi aliciado pela Inglaterra a neutralizar militarmente o Paraguai. Ao aceitar a tarefa, a regência se empenhou em lançar uma campanha nacional para que os latifundiários enviassem, mediante indenização, seus trabalhadores para a formação de um exército contra o Paraguai. A contrapartida para os soldados Negros na campanha contra o Paraguai seria uma carta de alforria, terras e contratações profissionais. Entretanto, os problemas começaram logo no início do processo porque em muitos casos o recrutamento deu-se de forma obrigatória. Negros veteranos das batalhas de independência ocorridas em 1822 e 1823 serviram como mobilizadores do recrutamento de Negros sob liberdade tutelada e escravizados e os praticantes da capoeira (luta de provável desenvolvimento no Brasil a partir dos povos de língua Bantu) foram visados como potenciais soldados para a Guerra do Paraguai.

Dom Pedro II formou em 1865 corpos militares para a Guerra do Paraguai e os nomeou de Voluntários da Pátria. Foi nesse quadro que surgiram, em 1865, os Zuavos Baianos (em menção ao exército colonial francês), que se transformou em uma das unidades dos Voluntários da Pátria, formada exclusivamente de Negros. A segregação racial nas Forças Armadas foi uma prática que o Estado militar se negava a aceitar como oficial, mas era uma realidade visível. Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro serviram como bases para o recrutamento do Negro na esperança de cartas de alforria. Os “voluntários” eram, em sua maioria africanos escravizados, que, mais tarde, descobririam que tinham sido enganados. Muitos perceberam tarde demais que o inimigo a ser combatido não era o povo paraguaio.

Homens Negros saíram do Brasil para a Guerra no Paraguai sem nenhum tipo de treinamento militar e técnico. No campo de batalha paraguaio, os soldados Negros foram posicionados na linha de frente dos combates e submetidos a tarefas de limpeza nos acampamentos. Enquanto centenas de africanos morriam durante os combates em nome de falsas esperanças pessoais e comunitárias, o próprio D. Pedro II implementava medidas para favorecer a chegada de europeus no Brasil, em um projeto genocida voltado ao embranquecimento populacional através da imigração de europeus e da marginalização de Negros. Por meio das políticas de imigração, os europeus, em sua maioria de origem italiana e alemã, assumiram terras, subsídios e postos de trabalho que, por direito e justiça, seriam do povo Negro.

O conflito no Paraguai significou uma hecatombe para o povo paraguaio e Negro, mais de 90.000 Negros morreram após o conflito. Esperamos que o tempo e o diálogo sejam capazes de fechar feridas abertas entre esses dois povos e que no futuro exista uma aliança progressista contra os inimigos da humanidade. Mesmo com casos isolados de famílias Negras indenizadas, a farsa que envolvia os africanos na Guerra do Paraguai foi percebida por Luiz Gama. O advogado escreveu que o seu povo :

[…] que tudo isso sofreram e sofrem, em face de uma sociedade opulenta, do mais sábio dos monarcas, à luz divina da santa religião católica, apostólica, romana diante do mais generoso e dos mais interessados dos povos; que recebiam uma carabina envolvida em uma carta de alforria, com a obrigação de se fazerem matar a fome, a sede e a bala nos esteiros paraguaios e que nos leitos dos hospitais morriam, volvendo os olhos ao território brasileiro, os que nos campos de batalha, caíam, saudando risonhos o glorioso pavilhão da terra de seus filhos; estas vítimas que, com

seu sangue, com seu trabalho, com sua jactura, com sua própria miséria, constituíram a grandeza desta nação, jamais encontraram quem, dirigindo um movimento espontâneo, desinteressado, supremo, lhes quebrasse os grilhões do cativeiro! (SANTOS, 2010, p. 44)

Os Negros no Brasil não estavam sonhando com uma libertação branca para começarem a viver com dignidade. Ainda em 1866 o casal Claro e Teodora Antônio dos Santos (São Paulo) planejava recomeçar a vida em África, da mesma forma que Martiniano Eliseu Bonfim (Bahia) planejou e embarcou para Lagos (Nigéria) em 1875, com o propósito de ser iniciado como Babalawo e retornar ao Brasil a fim de lutar pelo fim do regime escravista.

A Lei Áurea determinou a abolição da escravatura no Brasil, documento assinado em 1888 pela princesa Isabel no Rio de Janeiro. Tratava-se, acima de tudo, de um ato burocrático e simbólico, sem nenhum efeito estrutural transformador da sociedade. Pensamos que os quilombolas e muitos dos envolvidos na política abolicionista perceberam da mesma forma a abolição em seu tempo: como uma farsa.

O Ceará, localizado no Nordeste brasileiro e capitania desde 1535, foi o primeiro Estado a abolir a escravidão no município da província de Acrape, onde, no ano de 1883, houve uma libertação coletiva de africanos escravizados, mesmo que em número mínimo. Um símbolo desse pioneirismo foi Francisco José do Nascimento (Dragão do Mar), trabalhador de jangadas alforriado. O Dragão do Mar foi um ícone de resistência entre os jangadeiros em favor do encerramento do transporte de africanos escravizados, chegando a ser homenageado como tal em 1884, no Rio de Janeiro. Menos conhecido, José Napoleão integrou o movimento dos jangadeiros e se diferenciava no contexto cearense, uma vez que defendia abertamente o abolicionismo.

No contexto cearense, José Napoleão possuía uma visão da libertação mais ampla e prática que a do Dragão do Mar, um homem de temperamento conciliador e que, por isso mesmo, passou a ser considerado pelas elites como símbolo do progresso e pioneirismo da região. Entretanto, deve-se levar em consideração que o pioneirismo cearense foi de caráter mais simbólico do que prático, uma vez que a mão-de-obra escravizada estava dispersa na capitania, cuja economia era baseada na pecuária48.

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Fora do eixo África e Américas, o final do século XIX reservava mudanças estruturais importantes, como o avanço da industrialização e o início do colonialismo interafricano, tema fundamental do próximo capítulo.