2.5 EDUCAÇÃO
2.5.2 Período 2000 a 2010
2.5.2.3 Brasil: entre o acesso e a qualidade
A educação brasileira foi marcada por profundas mudanças, principalmente a partir da
promulgação da Constituição de 1988. Esta Carta Magna modifica as relações entre os entes
federados e, de maneira objetiva, demarca obrigações e fontes de recursos para garantir o
direito à educação escolar.
Por esse motivo, o entendimento das políticas de financiamento da educação é
fundamental no acompanhamento do seu sistema educacional. Isso não significa, contudo,
que existem níveis de recursos suficientes para a implementação de políticas educacionais de
qualidade; mesmo assim, a existência da vinculação de recursos da receita de impostos dos
governos à educação tem se tornado o principal motor do desenvolvimento educacional do
país.
As principais fontes de recursos constitucionalmente vinculados à educação pública
brasileira são oriundas de dois tipos de arrecadação: parte da receita de impostos dos três
níveis de governo e o salário–educação. Pela Constituição de 1988, a União deverá aplicar
18% de sua receita líquida de impostos em educação, cabendo aos estados, Distrito Federal e
municípios a aplicação de 25 % da mesma base. Como a receita de impostos representa a
maior fonte de recursos financeiros para a educação, ficamos sempre condicionados às
flutuações da economia nacional, regional e local e das políticas fiscais dos governos. A
estagnação, a recessão econômica ou a renúncia fiscal, são fatores que influem no
planejamento e na execução orçamentária (PINTO, 2000).
O Salário-Educação é uma contribuição social recolhida exclusivamente para financiar
a educação básica pública. Está prevista no art. 212, parágrafo 5º, da Constituição Federal.
Desde a sua criação, em 1964, ele já sofreu muitas alterações. A sua incidência recai sobre as
remunerações pagas ou creditadas a qualquer título pelas empresas, no percentual de dois e
meio por cento. Atualmente, 40% dos recursos são administrados pelo FNDE, e 60%
constituem as cotas estaduais–municipais. A partir de dezembro de 2003, a cota estadual foi
redistribuída de fato entre estados e respectivos municípios, sempre de forma proporcional ao
número de alunos matriculados no ensino fundamental (e hoje proporcionalmente às
matrículas na educação básica). A cota federal financia a assistência técnica e financeira da
União aos estados e municípios, na educação básica. Ou seja, a arrecadação do salário
educação financia, majoritariamente, a educação básica pública estadual e municipal.
Cabe registrar que uma mais eficiente distribuição de recursos e seu acompanhamento
foram sistematicamente se solidificando após a implementação do Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério – Fundef, em 1998.
Essa política objetivava a manutenção e o desenvolvimento do ensino fundamental e a
valorização do magistério; um objetivo implícito foi a municipalização do ensino
fundamental; foi instituído pela Emenda Constitucional nº14/96. Esse modelo teve resultados
positivos e, ao mesmo tempo, provocou a reivindicação de estender seus efeitos para as outras
etapas da educação básica. Assim, foi instituído o Fundo de Manutenção e de
Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação –
FUNDEB, criado pela EC nº. 53/06 e com vigência de 14 anos (2007 - 2020).
Entre os seus objetivos, a nova política veio para suprir as lacunas que a sua
predecessora deixara. Entre essas, temos: garantir que todas as etapas e modalidades da
Educação Básica sejam contempladas; assegurar mais recursos da União, o que ficou
garantido pela meta de que a complementação da União seja fixada em 10% do valor total do
fundo; que a complementação signifique de fato “recursos adicionais”, e não substituição de
fontes; que seja alcançado um padrão mínimo de investimento por aluno, baseado em padrões
de qualidade adequados (o que tem se chamado custo aluno/qualidade) (BARRETO;
CASTRO; CASSIOLATO; CORBUCCI, 2006). Aqui esteve o desafio que marcou o início do
século XXI. Pois, tendo conseguido atender o acesso ao ensino fundamental, tinha-se deixado
de dar a devida atenção aos outros níveis e modalidades.
Essa importante ação governamental está sendo implementada e seus resultados já
estão aparecendo. De fato, o governo Lula da Silva aliou essa política ao Plano de
Desenvolvimento da Educação – PDE. Esse plano envolve a conexão dos programas e
políticas educacionais já existentes, além de inclusão de novas ações que colocaram o
governo federal à frente de ações de apoio técnico a municípios e estados. Um exemplo foi a
implementação do Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação, que abriga a
formulação de planos de ações articuladas, PAR, pelos estados e municípios. Esta política
incentivou o uso de instrumentos de planejamento para os gestores locais. Essa política
iniciou pela criação de um indicador da qualidade da educação, o IDEB – Índice de
Desenvolvimento da Educação Básica. De posse desse índice, foram identificados os
municípios que precisavam de apoio técnico para formulação e implementação do PAR. A
articulação do Plano de Metas ficou sob responsabilidade da União, que redirecionou os
recursos de diversos programas pulverizados em diferentes micro-ações para serem
canalizados para ações prementes e específicas em cada localidade. Este trabalho revelou que
muitos gestores municipais não tinham muita ideia do seu sistema escolar e colocou no tapete
de discussão o planejamento como instrumento de desenvolvimento.
Nesta década, foram retomados os investimentos nas universidades públicas e se
ampliou o número de vagas utilizando políticas de discriminação positiva. Desse modo, há
uma busca pela equalização de oportunidades para os alunos negros, indígenas e oriundos da
escola pública. A formação de professores está sendo fortalecida com o oferecimento
constante de cursos de atualização e de educação continuada.
A educação técnica tem sido reformulada com a reativação e inauguração de escolas
técnicas, cursos que tinham ficado estagnados e superados pela iniciativa privada.
Já a educação infantil, que é uma responsabilidade mais direta dos municípios, recebeu
uma atenção especial por parte do governo federal, que tem transferido recursos financeiros a
municípios para a construção de escolas de Educação Infantil.
No entanto, esta diversidade de esforços pode ser olhada apenas como um momento
inicial de todas as reformas e acertos que a educação brasileira requer. Os desafios neste país
são sempre em grandes proporções; talvez por isto seja tão difícil verificar a resolução total do
leque de problemas. De todo modo, é verificável o avanço da educação no cenário
internacional. Em recente informe a UNESCO verificou que a produção científica do Brasil já
estava muito próxima dos países em desenvolvimento, em número de artigos publicados.
Outro sinal positivo, foi o reconhecimento de que o Brasil foi o terceiro país que mais
melhorou no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), em relatório
publicado em dezembro de 2010 a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE), organizadora da avaliação, reconhece que o país avançou 33 pontos da
nota geral, o que dá ao país o terceiro lugar no ranking de melhoria, Luxemburgo cresceu 38
pontos e o Chile, 37. Esse resultado é muito animador, embora o índice alcançado esteja
muito longe dos países desenvolvidos. O ministro da Educação, Fernando Haddad, declarou
“é preciso ponderar que estamos competindo com países mais ricos e desenvolvidos quando
elaboramos essas listas. Temos um século de atraso [para recuperar]” (HADDAD, 2010).
Neste esforço, temos que reconhecer que a luta contra a pobreza é diária e continua e que “a
educação tem uma demanda crescente de recursos” (SCHWARTZMAN, 2006, p. 32).
No documento
acervo.paulofreire.org Este documento faz parte do acervo do Centro de Referência Paulo Freire
(páginas 102-105)