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CAPITULO 1 ROTAS DE CONFLITOS

1.3 BRASIL: ESCRAVISMO E MONOCULTURA

65 Ibid., p.14.

66 BRAUDEL, loc. cit. 67 BRAUDEL, 1997, t.1, p. 18. 68 BRAUDEL, 1992, p.14. 69 Ibid., p.50.

Para a compreensão plena da Batalha do Avaí, é necessário entender as bases econômicas em que se sustentavam os dois exércitos. Em nosso entendimento, a economia é uma das balizas que determinam a sociedade. Assim, é necessário depreender como é realizada a produção nos dois Estados em conflito. Para que possamos entender de onde eram oriundos os indivíduos que compunham as tropas e seus oficiais é necessário depreender de qual sistema econômico são originários. Pois o estrato econômico contribui e recebe contribuições na construção da organização política, religiosa, social e a base legal que regulamenta tal sociedade. Em linhas gerais, pode-se dizer que predominaram no Brasil a produção em grandes propriedades durante largo período de sua história. A grande propriedade, a plantation, foi o principal tipo de propriedade produtora de bens durante longo tempo, desde o período colonial e durante o Império, até o momento que é objeto de nosso estudo (segundo semestre de 1868). A estrutura de produção predominante baseava-se em grandes áreas de terra, força de trabalho essencialmente escrava e a maior parte de sua produção era destinada à exportação70.

Completam-se assim os três elementos constitutivos da organização agrária do Brasil colonial: a grande propriedade, a monocultura e o trabalho escravo. Estes três elementos se conjugam num sistema típico, “a grande exploração rural”, isto é, a reunião numa mesma unidade produtora de grande número de indivíduos; é isto que constitui a célula fundamental da economia agrária brasileira. Como constituirá também a base principal em que se assenta toda a estrutura do país, econômica e social.71

A clássica definição de Caio Prado Junior influenciou gerações de historiadores brasileiros. É a explicação mais comum sobre a organização agrária brasileira no período de tempo que se origina no Brasil Colônia e permanece até 1868. Outros setores produtivos, do setor primário, também obedecem à mesma estrutura.

[...], a mineração, que a partir do século XVIII formará a par da agricultura entre as grandes atividades da colônia, adotará uma organização que afora as distinções de natureza técnica, é idêntica à da agricultura; concorrem para isto, de uma forma geral, as mesmas causas, acrescidas talvez da feição geral da economia brasileira já tomara quando a mineração se inicia. É ainda a exploração em larga escala que predomina: grandes unidades, trabalhadas por escravos. A atividade dos “faiscadores”, que corresponde na mineração ao trabalho individual do pequeno lavrador autônomo da agricultura, e que

70 PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: colônia. 23ª ed. – São Paulo: Brasiliense,

1997.p.122.

chegou a tomar vulto considerável no Brasil, é, como veremos, resultado da decomposição do regime econômico e social das minas.72

Caio Prado Junior descreve um período estático da organização econômica do Brasil. O caráter subordinado ao comércio exterior, ao produzir artigos que no momento tem mercado certo, pois é o que a demanda dos países centrais almejam, permeia todo o período. Entre os agravantes originados da estrutura econômica, pode-se destacar a concentração de renda que impera em todo o período. Esta estrutura gera uma grande massa de excluídos e de subempregados que vegetam a margem da estrutura principal de produção.

São estes, em suma, os característicos fundamentais da economia colonial brasileira: de um lado, esta organização da produção e do trabalho, e a concentração da riqueza que dela resulta; do outro, a sua orientação, voltada para o exterior e simples fornecedora do comércio internacional. Nestas bases se lançou a colonização brasileira, e nelas se conservará até o momento que ora nos interessa. Não há na realidade modificações substanciais do sistema colonial nos três primeiros séculos de nossa história. Mais não se fez neste período de tempo que prolongá-lo e o repetir em novas áreas ainda não colonizadas.73

Tal paralisia se estendia também para atividades manufatureiras. O setor secundário, quando não era proibido, apresentava pouca ou nenhuma evolução. Caso típico é da produção de açúcar.

As indústrias complementares da agricultura também se mantinham na mesma inércia. Os engenhos de açúcar em nada se tinham modificado, e a minuciosa e tão bem feita descrição que deles fez Antonil em princípios do séc. XVIII, ainda se ajustava, tal qual, aos engenhos de cem anos depois.74 A economia não sofre alteração substancial com a Independência. A economia do Brasil, bem como dos demais países da América Latina, incorpora-se com maior vigor à economia capitalista internacional, ampliando as plantations75. A economia baseada na força de trabalho escrava persiste.

A Independência das colônias na América não significou uma brusca mudança nos quadros econômicos tradicionais. Em muitas regiões a estrutura tradicional se manteve e o escravo continuou a ser a mão-de-obra

72 Ibid., 1997, p.123 Grifo do autor. 73 PRADO JÚNIOR, 1997, p.125. 74 Ibid., p.137-138.

75 COSTA, Emília Viotti da. O escravo na grande lavoura. In: HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Dir.). O Brasil

monárquico: reações e transações. t.2; v.3. 7ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. (História da civilização

preferida. Em certos casos, o desaparecimento dos antigos monopólios comerciais e a incorporação dessas regiões ao mercado europeu acarretou o desenvolvimento da Grande Lavoura e o incremento do tráfico de escravos. O processo de desagregação do sistema escravista foi longo e difícil.76

A nova organização política não redundou em nova estrutura econômica. O longo período de utilização de escravos para produção permanece após o país tornar-se um Império.

Pressionado pelos interesses internacionais de um lado, controlado pelos representantes dos setores agrários do outro, impossibilitado de desenvolver outros tipos de economia, o país continuava apegado às formas tradicionais de exploração da terra. Permaneciam as culturas de tipo extensivo, os latifúndios, o trabalho escravo, os métodos rotineiros, a ausência de mecanização, todo quadro, enfim, da agricultura colonial. Economia de exportação, sujeita as oscilações do mercado internacional, assim fora na época colonial a produção do açúcar e continuará a ser, no país independente a produção do café. Juridicamente, a nação estava livre. Novas perspectivas se abriam, mas as estruturas tradicionais persistiam inalteradas, herdara-se uma economia: o latifúndio exportador e escravista, e uma tradição cultural: a mentalidade senhorial.77

A produção de produtos destinados à exportação ocupa vastas áreas do território, bem como grande parte da força de trabalho. As exportações resumem-se a produtos agrícolas que englobam a maior parte do rol de produtos exportados com pouco ou nenhum beneficio que possa lhe agregar valor. Alguns produtos englobam quase a totalidade das exportações. “Os oito produtos principais (café, açúcar, erva-mate, fumo, algodão, borracha, couro e peles) correspondiam a 86% do valor da exportação no início; a 91%, no meio; a 96%, no fim do século”78.

A concentração dos fatores de produção nos artigos primários destinados ao mercado exterior caracterizava a continuação da estrutura econômica colonial. Tais produtos eram ou gêneros alimentícios tropicais ou matérias- primas de origem vegetal. Eram exportadas em estado bruto, na sua maior parte, ou após transformação elementar denominada beneficiamento. O mais importante deles, nessa fase, o café, surgira numa época de crise, condicionado em sua expansão à disponibilidade de determinados fatores e à sua pouca exigência quanto a capitais iniciais. A exportação compunha-se de reduzido número de produtos, concentrando-se progressivamente. O café aparecia como principal desde 1831. Ao alcançar quase 50% do valor total da exportação, nos meados do século, assinalava uma ascensão muito rápida. No último decênio do século atingiria 65%. Junto ao açúcar, representava 51%, no inicio do século; 70 a 80%, na metade do século.79

76 Ibid., p.135-136.

77 COSTA, 2004, p.136-137.

78SODRÉ, Nelson Werneck. Formação histórica do Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1962.

p.256.

A pauta de importação denota a inserção do país no “pacto colonial”. As importações de produtos manufaturados, que para sua fabricação eram necessários pequenos ou poucos desenvolvimentos técnicos, permitem visualizar o caráter econômico do Império.

Em 1839/1844, entre as vinte e cinco mercadorias importadas, pela ordem decrescente com que figuram, em valor, então: manufaturas de algodão: 33,8%; manufaturas de lã: 6,5%; farinha de trigo: 5,9%; bebidas: 5,7%; manufaturas de linho: 4,2%; manufaturas de sêda: 3,7%; carnes (charque): 3,6%; ferragens: 3,2%; manteiga 1,9% e bacalhau: 1,6%. Podemos grupar as importações, considerando as referidas vinte e cinco mercadorias principais em valor, da maneira seguinte:

- vestuário e calçado...53,2% - alimentícios...21,0% - utensílios... 6,6% - carvão... 1,0% - máquinas... 0,2% - outros...18,0% A contribuição dos bens de consumo, vestuário, calçados, alimentícios e utensílios, 80,8%, revela a estrutura colonial brasileira, que não os produzia, isto é, não produzia as utilidades mínimas indispensáveis à população, ao mercado interno. A ínfima contribuição do carvão, 1,0%, e das máquinas, 0,2%, frisa a precariedade manufatureira, no momento mesmo em que o vapor era aplicado no mundo como força motriz.

Estas mesmas parcelas, em 1870/1875, apresentavam-se já numa ordem diferente: - vestuário e calçado...49,1% - alimentícios...19,6% - utensílios...10,7%% - carvão... 3,5% - máquinas... 2,9%% - outros...14,2%

A contribuição dos bens de consumo, 79,4%, assinala a continuação da estrutura colonial, mas já a contribuição do carvão começa a crescer, de 1,0% a 3,5%, passando do 17º para o 8º lugar na relaçção das

importações; a das máquinas ascendia de 0,2% para 2,9%, e do 25º para o 11º lugar na referida relação.80

No período de 1870/1875, as principais importações são de vestuário e sapatos. Em um país em que a produção de matéria-prima para a confecção de roupas e calçados é abundante, podemos verificar o grau de dependência para aquisição de tais produtos.

O esquema rígido utilizado para descrever a estrutura econômica do Brasil, até o período de nosso interesse, vem sendo revisto por historiadores desde a década de 197081.

Considera-se hoje que o Brasil colonial teve um desenvolvimento bastante diferente daquele apresentado por Caio Prado. É que mudou a ótica de observação: os historiadores passaram a analisar o funcionamento da colônia. Não que a intenção da política metropolitana fosse diferente do que propõe o autor.82