• Nenhum resultado encontrado

2.4 Participação e Cidadania: Percurso histórico no Brasil

2.4.2 Brasil Império e Primeira República: 1822 1889 e 1889-1930

O grito da independência do Brasil em sete de setembro de 1822 não foi exatamente uma conquista popular. A tranquilidade com que ocorreu a transição de colônia para monarquia repercutiu em uma espécie de continuidade social, de forma que – por exemplo – a escravidão se manteve, sem sequer ser mencionada seriamente sua descontinuidade.

Entre as decorrências da independência, destacam-se a elabora-se em 1824 a primeira Constituição brasileira, a qual estabeleceu os três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário, e, como resíduo do absolutismo, o poder Moderador. Estabeleceu-se ainda eleição indireta, a realizar-se em dois turnos.

Convém chamar a atenção para o perfil das pessoas então reconhecidas como cidadãos. Mais de 85% eram analfabetos e 90% da população vivia em áreas rurais sob o controle dos grandes proprietários. Nas cidades, os votantes eram funcionários públicos controlados pelo governo. Muitos votavam, porém sem sentido ou noção do que isso significava, de forma que a eleição primária findava decidida literalmente “no grito”. Nesse enredo, surgiram várias figuras como o cabalista (pessoa que “inscrevia” os votantes), o fósforo (pessoa que se passava pelo votante), e o capanga (pessoa que “protegia” os partidários e amedrontava os adversários, tentando inclusive impedir os últimos de comparecer às eleições). Desse período são inúmeras as histórias cômicas que não deixam de ser dramáticas. A violência que cercava o dia da eleição tornava o ato de votar literalmente perigoso. O não comparecimento dos votantes, contudo, não impedia

que a eleição se fizesse. A ata era redigida como se tudo tivesse acontecido normalmente. Eram as eleições a “bico de pena”.

Neste contexto, o comércio de votos vai tomando corpo, de forma que, quando o voto não expressava a “fidelidade” a um senhor, era mercadoria a ser vendida pelo melhor preço. A eleição era a oportunidade para “ganhar dinheiro fácil”. Com isso, as eleições estavam se tornando excessivamente onerosas aos senhores de terra. Assim, em 1881, foi aprovada uma lei que introduziu o voto direto – sob escusos interesses de restringir a participação popular nas eleições, pois a lei aumentou o valor da renda pessoal que habilitaria o indivíduo para votar, proibiu o voto dos analfabetos e tornou o voto facultativo.

Além da participação eleitoral, houve, após a Independência, outras formas de envolvimento dos cidadãos com o Estado, entre as quais o serviço do júri (aos alfabetizados) e o serviço militar – de caráter extremamente negativo devido à violência com que era exigido.

A proclamação da República em 1889 não foi um episódio de grande mobilização popular, ou tampouco marcou a memória do povo, antes foi feito de surpresa e comandado por militares. A participação popular foi menor do que na proclamação da Independência. A Primeira República (1889-1930) ficou conhecida como “República dos Coronéis”. Nesse período, as fraudes eleitorais aperfeiçoaram- se e as figuras de cabalistas, capangas e fósforos continuaram a atuar. A libertação dos escravos em 1888 não trouxe a igualdade efetiva. Era uma igualdade afirmada nas leis, mas negada na prática, pois não lhes deram escola, terra nem trabalho. O coronelismo, com força extraordinária no Nordeste do país, se constituiu não somente como um obstáculo aos direitos políticos, mas ao próprio impedimento da participação política porque negava os direitos civis.

Considerando que os principais obstáculos à cidadania, sobretudo civil, eram a escravidão e a grande propriedade, o surgimento da classe operária urbana deveria significar cidadãos mais ativos. Constatou-se, então, avanço nos direitos civis, porém,nos direitos políticos, houve o inverso; os setores operários se dividiam entre os com visão clientelista, e os anarquistas que rejeitavam qualquer relação com o Estado e com a política.

Com a deposição do presidente da República, Washington Luís, em 3 de outubro de 1930 – Revolução de 30 – encerrava-se a Primeira República, cuja característica marcante era o governo das oligarquias regionais principalmente São

Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. A partir da segunda metade do século, fatos externos e internos começaram a abalar o acordo oligárquico. Entre os fatores externos, destacam-se: a I Grande Guerra, a Revolução Russa, e a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. A guerra causou impactos políticos e econômicos; o preço do café, principal produto de exportação que caiu drasticamente. Também a preocupação com a defesa nacional foi despertada com a I Guerra Mundial. A Revolução Soviética não teve impacto imediato, visto que o movimento operário mais radical seguia orientação anarquista. Mas em 1922 formou-se o Partido Comunista do Brasil. A crise de 1929 agravou as dificuldades econômicas que já existiam. O governo desenvolveu amplo programa de defesa do preço do café, porém não conteve o problema visto que a superprodução coincidiu com a crise e com a Grande Depressão que a seguiu.

Internamente, as crises políticas, em especial, a quebra do acordo de sucessão presidencial entre os estados de São Paulo e Minas Gerais (São Paulo insistiu em um candidato paulista para substituir um presidente também paulista) levaram à derrubada da Primeira República. E a maneira como foi derrubada representou um avanço em relação a sua proclamação, em 1889. Em 1930, o movimento foi precedido de uma eleição que, apesar das fraudes, levou o debate a uma parcela da população. O assassinato do governador da Paraíba introduziu um elemento de emoção totalmente ausente em 1889.

Getúlio Vargas assume assim o poder, porém houve uma reação paulista, uma revolta que surpreendeu pelo alcance da participação popular até então não verificada no país. Assim, convocou-se uma eleição para 1933, sob novas regras, que trouxe avanços como: criação do voto secreto, a justiça eleitoral, o direito de voto às mulheres e a introdução da representação classista. Vargas foi confirmado no poder e se iniciou a elaboração de uma nova Constituição.