2.3 Desenvolvimento e Democracia
2.3.4 Experiências democráticas e desenvolvimento
Conforme Serpa (2007), considerando que a ideia de democracia abarca a noção de que os interesses políticos da comunidade se sobrepõem aos dos indivíduos (política acima da economia), da Antiguidade Clássica, passando pela Idade Média até parte da Idade Moderna, tem-se a continuidade da submissão do econômico ao político. No entanto, a partir do último quarto do século XVIII, duas revoluções passam a caracterizar a relação entre democracia e desenvolvimento econômico: a Revolução Francesa e a Revolução Industrial. Desse momento em diante o desenvolvimento econômico ganha o centro das discussões políticas e se torna um pressuposto de variadas propostas de condução da política.
Ainda segundo o autor supracitado, durante o século XIX emergem as lutas do proletariado e, com a continuação dessas, no século XX vários países ocidentais instauram o modelo de Estado de Bem Estar Social (Welfare States). Insurgia-se também, o pensamento socialista. Dada a notoriedade dos países da Europa Ocidental e da América do Norte, acreditava-se, nesse período, que a democracia só seria possível no seleto grupo de nações que conseguira passar por um expressivo processo de crescimento econômico. Ao final da Segunda Guerra
Mundial o quadro consistia em derrota do nazi-fascismo e bipolarização ideológica do mundo entre socialismo e capitalismo democrático liberal. Nesse contexto, o bloco dos países capitalistas ergueu uma estrutura econômica internacional – Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial (BM), Organização Internacional do Comércio (OIC) – destinada a ajudar a Europa Ocidental e a países subdesenvolvidos que se mantivessem na área de influência capitalista.
O século XX foi um século de intenso debate sobre a questão democrática, sendo dois os debates principais: desejabilidade da democracia e condições estruturais da democracia – compatibilidade versus incompatibilidade entre a democracia e o capitalismo; tais debates estiveram em voga na primeira e segunda metade do século XX, respectivamente. A discussão democrática da última década do século XX mudou os termos do debate democrático do pós-guerra. A expansão do modelo hegemônico de democracia (liberal) para o sul e o leste da Europa e para a América Latina teria suplantado a discussão sobre os impedimentos estruturais da democracia, uma vez que nessas novas democracias verificam-se bastantes variações no que diz respeito às características estruturais da mesma, em especial quanto ao campesinato e aos processos de urbanização (SANTOS; AVRITZER, 2009).
Esses autores falam ainda que a forma hegemônica da democracia objetiva estendeu ao resto do mundo o modelo de democracia liberal-representativa vigente nas sociedades do hemisfério norte, ignorando as experiências e as discussões oriundas dos países do Sul no debate sobre a democracia. E no processo de democratização dos países do Sul convém destacar que: esses países entram no chamado campo democrático a partir do fim da Segunda Guerra Mundial; apesar da guerra ter terminado com a derrota do fascismo, esse sistema se manteve no sul da Europa até os anos 1970; até 1975 Moçambique viveu sob o regime do apartheid, Brasil e Colômbia foram os que estiveram por algum tempo no campo democrático, e a Índia foi o único que permaneceu democrático durante todo o período. Ademais, todos esses países passaram por processos de transição ou de ampliação democrática a partir dos anos 1970, e em todos esses casos o início se dá com uma tentativa de disputa pelo significado de determinadas práticas políticas, por uma tentativa de ampliação da gramática social e de incorporação de novos atores ou de diversificados temas à política.
Para Santos e Avritzer (2009), as experiências dos países do Sul não recebem atenção e o modelo de democracia liberal impôs-se como modelo único e universal, tendo sido consagrado pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional ao transformá-lo em condição política para a concessão de empréstimos e ajuda financeira. Embora, conforme Serpa (2007, p.259), “também o mundo socialista oferecia os mais variados recursos para os países que se aproximassem de sua área de influência”. Assim, de acordo com esse último autor,
... teve início o ‘período de ouro’ do desenvolvimento mundial, que se estende de 1945 a 1970. [...] O conceito por trás de todas estas transformações parecia estar na adoção [...] de uma alta dose de planejamento econômico para o desenvolvimento. Este processo parecia garantir a possibilidade de expandir o sistema democrático a todas as nações do planeta. Mas não foi bem assim que os eventos se sucederam. O rápido crescimento econômico parecia trazer situações de crise social e política para os países em desenvolvimento. Com isso, ao longo da década de 1960, acompanhamos inúmeras quebras do padrão institucional democrático em vários destes países. Essa situação só veio a se agravar a partir do momento que a economia mundial entrou em um longo processo de recessão iniciado na década de 1970 e causado pelas sucessivas crises do petróleo, pelas mudanças no mercado financeiro internacional e pelo enfraquecimento das economias americana e soviética. (SERPA, 2007, p. 259).
Dessa forma, o processo de democratização dos Estados (à moda liberal, conforme Santos e Avritzer, 2009) verificada no globo mediante o fim da II Guerra e a “Era de ouro do capitalismo” não teve fôlego longo e a recessão econômica iniciada nos anos 1970 agravou a situação. Os vários regimes ditatoriais que se ergueram, ora “justificados” pela garantia do crescimento econômico, foram paulatinamente perdendo fôlego e ao longo da década de 1980 inúmeros deles chegaram ao fim. Estas nações tinham, contudo, um duplo desafio: o delicado processo de reconstrução da democracia e as crises sociais geradas pela ausência ou insuficiência de crescimento econômico.
O desenvolvimento econômico nos principais países industriais foi resultado não só do crescimento econômico, como também da capacidade de pressão de grupos políticos populares que lutaram e conquistaram direitos à participação nos frutos do aumento da riqueza em seus países. Já a forma como o processo se desenvolveu no Brasil fez com que, devido à via autoritária adotada, o mesmo não acontecesse aqui. Se durante o período 1945-64 houve um certo [sic] contraponto entre crescimento econômico e melhorias nas condições de vida da população, após 1964 a famosa ideia de fazer o ‘bolo’ crescer para depois dividi-lo foi efetivamente praticada e facilitada pelo controle autoritário da sociedade. (SERPA, 2007, p. 269-270)
Mediante esses extratos, pode-se perceber o encadeamento dos acontecimentos históricos, políticos e econômicos e suas intrincadas relações. É importante notar, sobretudo, que ambos os autores chamam a atenção para o modelo de democracia predominante no mundo e as condições que fizeram com que esse predomínio ocorresse. Neste contexto, faz-se necessária uma análise mais detida da história do Brasil a fim de compreender a experiência nacional no tocante à democracia e ao desenvolvimento.