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2.2 O BRASIL, AS MISSÕES DE PAZ E A MINUSCA

2.2.2 O Brasil e a MINUSCA

Em função da participação do Brasil em missões de paz, com destaque para

MINUSTAH, e devido ao país possuir tropas e meios habilitados, conforme o

UNPCRS, a ONU encaminhou, em 22 de novembro de 2017, para a Missão

Permanente do Brasil junto àquele Órgão, em Nova Iorque, um convite para o envio

de um batalhão de infantaria de até 750 homens para a Missão Multidimensional

Integrada de Estabilização das Nações Unidas na República Centro-Africana

(MINUSCA). O referido documento ressaltava que os custos com o treinamento da

tropa nos padrões e especificações previstos pela ONU seriam de responsabilidade

do Brasil e solicitava que o mesmo fosse respondido até 15 de dezembro de 2017.

Entretanto, após análises realizadas por setores do Executivo brasileiro, no

início de abril de 2018, o governo respondeu oficialmente às Nações Unidas,

alegando sua impossibilidade de participar por questões financeiras. Segundo

documento do Ministério da Defesa ao Ministério do Planejamento, Desenvolvimento

e Gestão (MPDG), seriam necessários R$ 480 milhões para cobrir os custos

relativos à instalação da base brasileira na RCA, aquisição de material, capacitação

e emprego do efetivo até final de 2018. Em resposta, o MPDG informou que não

haveria prazo legal para a inserção destes gastos na Lei Orçamentária Anual (LOA)

de 2017, bem como não havia previsão de tal recurso para a LOA 2018. Cabe

ressaltar que não houve uma análise prévia da pertinência da participação, por parte

da diplomacia brasileira.

A despeito da resposta negativa à ONU, fez-se necessário, para este

trabalho, realizar uma análise da situação atual da MINUSCA, no sentido de verificar

as condições e os riscos às tropas brasileiras.

2.2.2.1 Conjuntura atual da MINUSCA

Em 3 de março de 2014, o Relatório S/2014/142 do Secretário-Geral (ONU,

2014), recomendou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que autorizasse,

nos termos do Capítulo VII da Carta da ONU, a implantação de uma operação

multidimensional das Nações Unidas, cuja principal prioridade seria a proteção de

civis.

Assim, aquele conselho emitiu a resolução nº 2149, de 10 de abril de 2014, a

qual criava a MINUSCA, incorporando o já existente Escritório de Construção da Paz

Integrado da ONU na República Centro-Africana (BINUCA) e transformando a

Missão Internacional de Apoio à RCA (MISCA), criada para estabilizar o país após o

golpe de Estado de 2013, em uma Força de Paz.

Recentemente, com base na resolução nº 2387, de 15 de novembro de 17, o

Conselho de Segurança renovou o mandato da MINUSCA até 15 de novembro de

2018, reafirmando seu forte compromisso com a soberania, independência, unidade

e integridade territorial da RCA. A ONU reforçou, ainda, os princípios básicos da

manutenção da paz, incluindo o consentimento das partes, imparcialidade e não-uso

da força, exceto em autodefesa e defesa do mandato, reconhecendo que o mandato

de cada missão de manutenção da paz é específico para a necessidade e situação

do país em questão.

2.2.2.1.1 Situação da Segurança

Em quase todo o interior da RCA, ocorrem divergências entre os dois

principais grupos rivais, os Ex-Seleka e os Anti-Balaka. Em que pese a presença de

cerca de 10.665 capacetes azuis em todo o país, as tropas do contingente da

MINUSCA não conseguem enfrentar adequadamente os grupos e bandos armados

que atuam com certa liberdade em quase todo o território centro-africano.

De acordo com o relatório de António Guterres (2018), foram impostas

restrições temporárias ao movimento do pessoal das Nações Unidas em alguns

locais, devido a níveis elevados de risco. Ainda segundo o relatório, o pessoal e as

propriedades da MINUSCA também foram alvo de atos violentos da população local

na capital, Bangui. No dia 24 de novembro de 2017, um fatal acidente rodoviário

atribuído erroneamente a um veículo da MINUSCA resultou em multidões violentas

atirando pedras nos veículos das Nações Unidas ao longo do dia, situação em que

três soldados foram feridos e três veículos da ONU, destruídos.

Novamente, no dia 1º de maio de 2018, dois oficiais brasileiros foram

feridos, um deles gravemente, ao serem alvos de apedrejamento dentro de uma

viatura da ONU, em um bairro muçulmano, na cidade de Bangui, conforme nota do

Ministério da Defesa, divulgada no mesmo dia.

A falta de segurança das tropas da ONU, citadas acima, se refletem no

número total de baixas causadas por ações hostis desde a ativação da MINUSCA:

29 militares, dos quais 15 somente no ano de 2017.

2.2.2.1.2 Meios Militares Empregados

Em 31 de março de 2018, a MINUSCA contava com um contingente de

10.284 militares, aproximadamente 90% de uma força total autorizada de 11.650,

compreendendo 11 batalhões de infantaria, uma companhia de forças especiais,

uma companhia de força de reação rápida, uma unidade de veículo aéreo não

tripulado e várias unidades de habilitação, além de uma companhia de polícia militar,

quatro companhias de engenharia e uma companhia de transporte pesado.

Somam-se a este contingente, três hospitais de nível II, uma companhia de sinalização e três

unidades de helicópteros, incluindo uma unidade de helicópteros de combate,

distribuídos conforme a figura a seguir.

Figura 05 – Distribuição de Tropas da MINUSCA

Fonte: ONU (2018).

Segundo dados da ONU, referentes ao mês de março de 2018, o país com o

maior contingente de militares na MINUSCA é o Paquistão, seguido de Bangladesh

e do Egito (vide quadro a seguir). Atualmente, o Brasil conta com apenas sete

militares.

Gráfico 02 – Dez países com maior contingente de Tropas na MINUSCA

2.2.2.2 Análise da participação brasileira na MINUSCA

Segundo relatório do Projeto SETA do MD (2016), um dos óbices encontrados

para o emprego de tropas brasileiras na MINUSCA seria a dificuldade de apoio

logístico. Conforme já abordado, a RCA não possui acesso ao Oceano Atlântico, o

que dificultaria o transporte de material com base no modal marítimo, considerado

prioritário para este tipo de missão, em função da quantidade e volume de

equipamentos e suprimentos. Haveria a necessidade de se recorrer ao acordo já

firmado entre a ONU e Camarões para uso do porto de Douala, e após seguir via

terrestre, utilizando-se as estradas precárias existentes. O uso de modal aéreo não

seria uma boa opção devido ao país possuir apenas um aeroporto internacional e ao

referido modal não atender totalmente a demanda de material necessário.

Outro obstáculo, ainda de acordo com o relatório do MD, seria o alto nível de

hostilidade às tropas das Nações Unidas. Tal fato foi recentemente reforçado pelo

Secretário-Geral da ONU, de acordo com relatório emitido em fevereiro de 2018.

O risco epidemiológico também é um fator a ser considerado, pois a RCA

possui um alto índice de doenças, fruto principalmente do seu subdesenvolvimento.

Por fim, o alto nível de instabilidade foi outro fator considerado na análise do

MD como negativo para o desdobramento de tropas brasileiras, em função das

diversas facções atuantes no país, com destaque para os Anti-Balaka e os

Ex-Seleka.

No que tange às oportunidades, o MD elencou, além do ganho operacional

devido à experiência e ao intercâmbio com os demais países participantes da

MINUSCA, a possibilidade da participação de empresas brasileiras em obras de

infraestrutura da RCA, tendo em vista a carência do país nesta área. Ressaltou

também a possibilidade de interesse da RCA ou de países participantes da

MINUSCA em itens bélicos da indústria brasileira.

2.2.3 A participação do Brasil na missão de paz em Angola (UNAVEM) – Um

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