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CAPÍTULO 2: O PERCURSO DE GILBERTO FREYRE

2.1. Brasil, 1920

Retomo alguns aspectos contextuais dos anos 20 que nos possibilitam avaliar com mais clareza a posição de Gilberto Freyre naquele período.

A República no Brasil foi consagrada pela Constituição de 1891 como um regime presidencialista e federalista. A expectativa de ampliação dos direitos políticos e de um papel ativo aos setores populares foi logo frustrada pela ortodoxia liberal da Constituição. Além do Estado ter sido eximido de responsabilidades públicas, como a educação, os governos empenharam-se em extinguir manifestações populares, proibir greves e coligações operárias, abafar os movimentos antioligárquicos (como a Revolta da Armada, 1893-94), a ponto de os problemas sociais serem considerados como casos de polícia50. De acordo com José Murilo de

48 Escalereceremos mais adiante as concepções de “imitação mimética” e “imitação assimiladora” que

aparecem em editorial de El Estudiante Latino-americano, na época em que Freyre foi editor desse jornal.

49 Cartas de Gilberto Freyre a Oliveira Lima. Nova York, 15/05/1922 (GOMES, 2005, p.136).

50 Virgínio de Santa Rosa (1976) considera que desde a década de 10 a questão social no Brasil foi tratada

como caso de polícia. A Washington Luís, em finais dos anos 20, atribuíu-se a ideia de considerar as questões sociais como caso de polícia. Como presidente (1926-1930), sustentou uma política econômica liberal e tratou com firmeza os movimentos sociais, entendendo que “(...) a agitação operária é uma questão que interessa mais à ordem pública do que à ordem social” (Cf. SANTOS, 1963; FAUSTO, 1972; 1976; SANTA ROSA, 1976; PENNA, 1999; FAORO, 2012, p.753-754). Como contraponto a essa visão: Magano (1995).

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Carvalho (1987) houve uma repressão preventiva a pobres e negros que se tornaram antipáticos ao novo regime e defensores da restauração monárquica51.

A proposta de descentralizar a política da capital nacional (Rio de Janeiro) e fortalecer os estados reunindo as oligarquias em um arranjo político tinha como objetivo reduzir as agitações políticas e tornar possível um governo a favor dos grupos agrários brasileiros (o setor economicamente poderoso). Como sintetizou Campos Sales: “É de lá [dos estados] que se governa a República, por cima das multidões que tumultuam, agitadas, nas ruas da capital da União (...). A política dos estados (...) é a política nacional” (CAMPOS SALES citado por CARVALHO, 1987, p.33). O enfraquecimento dos militares antioligárquicos durante o governo de Prudente de Morais permitiu, segundo Lincoln Penna (1999), o florescimento de uma política das elites dominantes, de uma República Oligárquica. O que significou o fim do ideário republicano e a continuidade de uma política estritamente ligada aos interesses econômicos e políticos da elite.

Dessa maneira, a vida política nacional foi, em grande parte, conduzida pelas disputas entre as oligarquias estaduais. O jogo político, portanto, passou a funcionar a partir de um sistema de fidelidade entre as oligarquias estaduais e o poder central, em que as primeiras se comprometiam em eleger senadores e deputados (os representantes do poder legislativo) alinhados aos interesses oficiais do presidente que em troca apoiava as oligarquias locais. Esse sistema ficou conhecido como a “política dos governadores” ou “pacto oligárquico” e garantia a presença das elites rurais no poder, que em suas localidades possuíam imenso controle sobre as instituições republicanas. As elites de Minas Gerais e São Paulo, os estados mais importantes em termos econômicos e com o maior número de votantes, revezaram-se no exercício do poder central assegurando os interesses dos produtores de café, principal produto da economia agroexportadora do país.

A Primeira Guerra Mundial modificou o comércio mundial, dificultando as exportações dos produtos brasileiros (os principais eram o café, o açúcar, a borracha e o cacau) e tornando necessário acelerar a industrialização para substituir as importações. As dificuldades econômicas atingiam a todos os setores sociais propiciando a eclosão de manifestações que expressavam os descontentamentos com a situação política e econômica do momento.

51 Segundo José Murilo de Carvalho a tão repetida frase: “Não há povo no Brasil!” teve que ser repensada

devido à repercussão das inúmeras agitações populares na primeira década do século XX, cabe ressaltar a Revolta da Vacina, a Revolta da Chibata, as greves de 1906 e 1907 e os movimentos messiânicos que já vinham do século anterior.

As confrontações entres as oligarquias estaduais sinalizavam o desgaste do “pacto oligárquico”, promovendo, inclusive, numerosas cisões inter-oligárquicas. A organização de diversas manifestações e greves pelo movimento operário no final da década de 10, a eclosão do movimento tenentista no começo da década de 20, as demandas pela moralização na política, por eleições diretas, pelo voto secreto demonstravam as insatisfações de diversos setores com o “modelo político liberal de cidadania restrita” (GOMES, 1980; FAUSTO, 1972).

O processo de industrialização e urbanização, que se acelerou no século XX, e o fluxo de imigrantes que convergiam ao país aumentaram as reivindicações em torno de uma modernização econômica e política, ou seja, maior liberdade para organização de interesses e reformulação do sistema eleitoral. A situação interna aliada à conjuntura internacional de crise do liberalismo, ascensão do socialismo com o triunfo da Revolução Russa e a retomada dos nacionalismos foram condições que propiciaram a eclosão de movimentos sociais de diversas matizes.

Verifica-se uma intensificação das atividades do movimento operário, sobretudo nos centros urbanos, que se industrializavam e recebiam imigrantes, muitas vezes formados em organizações operárias europeias. Além de inúmeras greves, destaca-se a criação do Partido Comunista em 1922 e do Bloco Operário e Camponês em 1927. O movimento tenentista, apesar de não possuir uma proposta política sistematizada, promoveu uma intensa agitação política no campo e nas cidades durante toda a década de 20, desempenhando papel importante no movimento revolucionário de 1930 que levou Getúlio Vargas à presidência. O movimento Católico formando intelectuais no Brasil atuantes na política, com um viés conservador, demonstrou sua relevância com o Centro Dom Vital e a revista A Ordem, sobressaindo a figura de Jackson de Figueiredo.

Na esfera cultural, grupos de jovens intelectuais, com as mais variadas tendências, organizaram-se nas principais cidades brasileiras propondo novas expressões artísticas, literárias, linguísticas e até mesmo científicas. Além da renovação artística que propunham, em muitos casos existia também uma preocupação com os dilemas sociais vivenciados no país. Esses movimentos procuravam delimitar as características específicas da cultura brasileira e afirmar uma identidade nacional. O regionalismo do Nordeste, ao qual Gilberto Freyre alinhava-se, pode ser considerado como um desses movimentos culturais. O momento foi de fecunda efervescência intelectual. Luciano Martins o define de maneira categórica, tocando em pontos que ratificam a argumentação que desenvolveremos. No nosso caso, relativa especificamente a Gilberto Freyre, qual seja: a inexistência de propostas políticas sistemáticas

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e concretas, de tal forma que as ideias na esfera da cultura não implicavam em projetos de aplicação efetiva. Conformavam-se, no máximo, como embriões de projetos futuros.

(...) uma intelligentsia se constitui no Brasil, no início dos anos 20, num contexto de renovação e aspiração econômicas, sociais e políticas. Ela revoluciona os cânones estéticos, contesta a cultura dominante, busca suas raízes, valoriza o que é brasileiro, desespera-se pelo “atraso” cultural do país, interroga-se sobre as estruturas da sociedade, procura sua identidade social e tenta estabelecer uma ponte entre a modernidade e a modernização do país.

Ela clama por reformas sociais que não sabe definir muito claramente,

mas o que a atrai mais é a construção de uma nação moderna. Ela fala em seu próprio nome, “adverte” a nação, reivindica o direito de “ensinar, pregar e interpretar o mundo” (“teach, preach and interpret the world”) como dizia Mannheim a propósito das intelligentsias. E ela fracassa no momento de

estruturar um campo cultural, a partir do qual poderia definir suas relações com a política. (MARTINS, 1987, p.85 - destaques nosso).