2 POLÍTICAS PÚBLICAS: entre o legal e o teórico
2.1 Brasil, um Estado Democrático de Direitos
A denominação que intitula este subitem é a mesma que atribui sentido à definição do Estado Brasileiro. A partir dela, entende-se o contorno legal da sociedade brasileira. Segundo Almeida (1999, p. 01) um conceito definitivo deve estar “de acordo com a perspectiva adotada pelo analista, o período histórico em que o estudo está sendo realizado e, principalmente, a posição ideológica de quem o define.” No propósito do estudo, contudo, a conceituação não necessitará de tamanha fundamentação visto que interessa- nos, apenas, a sugestão do que tal denominação a princípio pode despertar segundo uma interpretação comum.
Estado, território demarcado, regulamentado por lei constitucional e administrado por representantes eleitos; Democrático, regime de governo, no Brasil, na forma representativa e presidencialista, indicativo de poder relacionado a seu povo; Direitos, a tradução de garantias imprescindíveis ao pleno desenvolvimento da cidadania. Essa junção
de conceitos mesmo que esclarecidos, não têm em si, contudo, o poder de garantir o que a profundidade dos textos constitucionais evoca.
Antropologicamente54 isso é explicado por tal designação situar-se na forma de cultura imaterial ideal. Existe, todavia, não estabelecida ou vivida plenamente. Pelo
preâmbulo da Constituição (1988) podemos inferir o desenrolar de seu conteúdo:
5 Explanação dada pela professora Fernanda Telles Márques no Primeiro Ano do Curso de Pedagogia na
Universidade de Uberaba em junho de 2009.
Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. (BRASIL, Constituição, 1988, p. 01). A característica democrática se dá, então, como forma de garantir, especialmente, os seis direitos, acima, previstos para os cidadãos que vivem na sociedade nacional.
Importa relembrar que a respeito do termo democrático, Leher (2005, p.01), no capítulo um, afirmou que esse título ampara ditames econômicos. A lógica do Banco Mundial destaca que a ameaça ao capital seria o afastamento da cultura não democrática. Diz: “a maior ameaça para o capital é a presença de culturas não “democráticas” e adversárias do mercado [...] se não forem vigorosamente transformadas (e, se necessário, destruídas),mais cedo ou mais tarde irão colidir com a democracia liberal”.
Sendo o Brasil um país que se define como um Estado Democrático e já, há quatro mandatos presidenciais, se organiza sob a lógica econômica internacional, buscando o perfil contemporâneo de eficiência indicado pelos órgãos economicistas, tais como o Banco Mundial, nesta pesquisa cujo objeto é a educação de qualidade no contexto municipal, a dúvida reside em não se perceber por que, no país, o resultado dessa escolha não se traduz ainda na forma de desenvolvimento nacional? E mais, pelo cenário social, há uma exata oposição a esse resultado.
Na confluência do legal ao teórico, buscamos entender essa contradição. O estudo de Vieira (1997) sobre o filósofo Rousseau faz uma associação aos fundamentos democráticos, título que regula a sociedade brasileira que, por sua vez, comporta a educação como direito social. Contudo, alerta o autor que, apesar de assumido pela maioria dos indivíduos na atualidade, o termo democracia tem seu conceito esvaziado. É utilizado
em situações contraditórias entre si ou, ainda, com uma diversidade de sentidos, de acordo com interesses pessoais.
Considerando tal distanciamento revelado por Vieira (2007), poderíamos acrescer a isso a indagação: saberíamos quais são fundamentos que regem a nação? E, se sabemos, são eles concretizados? Considerando o que já foi apresentado podemos afirmar que não. A realidade da sociedade do tempo presente descrita no capítulo anterior, inclusive ressaltada por Chaves (2008), ao descrever o quadro caótico social e educacional da realidade brasileira, a isso comprova.
Contudo, se não nos é possível, de forma clara, tecer relações subsidiadas e fundamentadas pela opção política de nosso país, devido à forma paradoxal e ambígua estabelecida pela opinião pública frente ao termo democracia, conforme análise teórica descrita acima e, na certeza da realidade restritiva da sociedade brasileira, o que nos resta é a reflexão e o posicionamento diante o que está posto na legislação brasileira. Mesmo que o conceito que nos classifica como nação democrática não seja vivido em sua plenitude, nos ateremos ao que está inscrito nos textos constitucionais. Neles, podemos destacar entendimentos e/ ou exigências para que uma futura garantia do estabelecido se efetive.
Embora no preâmbulo do texto constitucional, esteja posta a nossa condição como nação democrática, entendemos o que isso significa para a nossa condição de cidadania? Não é nosso intuito uma análise pormenorizada da Constituição Federal de 1988. Limitaremo-nos apenas dois, dentre os seus 250 artigos, que se interconectam com o objeto da pesquisa: educação pública de qualidade no contexto municipal. No capítulo II da Constituição Federal, que trata dos direitos sociais, tem-se no Art. 6º nove direitos instituídos: educação, saúde, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância, assistência aos desamparados. Como podemos ver, em primeiro lugar, segue o direito à educação.
Agora, no Art. 205º, temos indicados a natureza e os objetivos da educação, bem como seus responsáveis e colaboradores. Embora breve, porque não é objeto de nossa investigação, o objetivo de se entender o conteúdo disposto na Constituição Federal demonstrou-se significativo ao sabermos que, apenas no primeiro capítulo, no Título I,
cinco princípios são registrados além de quatro objetivos fundamentais; no título II, a
referência aos cinco direitos e garantias fundamentais se dá por intermédio de 128 termos; e, no capítulo II são descritos nove direitos sociais. Só aqui, temos previstos 151 itens legais que, por certo, se efetivamente cumpridos, deveriam garantir uma vida em sociedade com a mais plena qualidade.
Sem prosseguir no destaque do que está disposto nos demais 248 artigos da Constituição Federal, relacionando com o exposto no cenário social, capítulo um, podemos afirmar que vivemos uma realidade muito distinta dos ideais democráticos inscritos em nossa composição legal.
Relembrando que isso também se atesta por alguns fatos dessa época: mudanças amplas, profundas e rápidas como nunca antes na história da humanidade; mundialização; problemas ambientais; tensões e conflitos; generalizações de normas e comportamentos culturais versus valores tradicionais; questões éticas e, uma surpreendente tecnologia comunicacional.
Um tempo com limites estruturais e que, por isso, deixa, a cada dia, o cidadão contemporâneo preso às suas próprias verdades e limites, mesmo convivendo e tendo a seu dispor muitas possibilidades tecnológicas. Para Vieira (1997), esse resultado relaciona-se à difícil participação da coletividade num contexto extremamente desigual em que poucos podem muito e muitos quase nada.
Piozzi (2007), ao examinar os aspectos do debate ocorrido na França revolucionária e seus ecos nos reformadores do século XIX, trata dos atuais desafios que a educação pública, de acesso universal e saber autônomo, além de crítico, enfrenta no tempo presente. Esclarece ela:
Ao longo dos séculos XIX e XX, as tendências ao crescimento da desigualdade e heteronomia, inscritas no “livre” desenvolvimento do mercado, têm tido seu maior freio na reinvidicação, institucionalização e expansão dos direitos sociais. Entre eles, o direito à educação pública, uma escola para todos, que não seja uma mera extensão do local de trabalho, mas que propicie o contato com o universo da ciência e cultura, uma vivência fundamentalmente diferente da aprendizagem mecânica e empobrecedora do trabalho alienado. (PIOZZI, 2007, p.731).
Grande é a limitação que historicamente embasam as decisões sociais, políticas e econômicas da nação. Alerta a autora que os direitos sociais não são devidamente resguardados e, reiteramos essa constatação à medida que, ainda hoje, estamos pesquisando o porquê de não se instituir, na educação básica, a oferta de um ensino público com qualidade, garantido, desde 1988, no texto constitucional. Destacamos, portanto, pelo artigo 206, o que legalmente os princípios democráticos expressam:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II- liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III- pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; IV- gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; V- valorização dos profissionais do ensino, garantidos, na forma da lei planos de carreira para o magistério público, com piso salarial profissional e ingresso
exclusivamente por concurso público de provas e títulos; VI- gestão democrática do ensino público, na forma da lei; VII- garantia de padrão de qualidade.(BRASIL, Constituição, 1988).
Dentre os princípios, o VII se relaciona ao objeto dessa investigação. Cientes da estrutura da Constituição, cumprimos o que era nossa intenção, ou seja, entender o que está posto nos documentos legais por intermédio da estrutura conceitual da lei. Além de que, ao relacionarmos os estudos de Vieira (1997, p. 10), sobre Rousseau, focalizamos a princípio, uma possível associação aos fundamentos democráticos já que segundo o autor: “Rousseau, como nenhum pensador contemporâneo seu, chamou a atenção para a questão da participação política do cidadão como fundamento e condição necessária da realização da democracia”, a mesma escolha regimental assumida pela nação brasileira.
Porém, não podemos deixar de registrar uma lacuna. Para Rousseau, a participação seria o meio pelo qual a soberania do povo e seus desejos seriam exercidos. Só por meio do envolvimento social é que os eleitos para o poder exerceriam fielmente a vontade popular. A democracia, então, sugere a busca da identidade do coletivo. O que se procura é o interesse público na “identidade entre governantes e governados”, eis a crença rousseauniana. Entretanto, essa ponderação se dá em época em que a burguesia predominava, ainda mais claramente, do que ainda se vê na atualidade.
Não nos interessa a questão histórica do termo democracia, mesmo porque a realidade proposta pelo filósofo se inseria, numa sociedade bem diferente da em que hoje vivemos. A distinção seria um dificultador nessa possível relação, já que no Brasil a democracia é representativa, diferindo da forma direta proposta por Rousseau. No entanto, pelo até agora visto, entende-se a distância entre o constituído e o que vem sendo vivido na sociedade do tempo presente. Já que o sucesso inerente a qualquer ação, que se enseja pela produção de bons resultados para o futuro, só será possível se conhecermos e analisarmos os porquês e as condições de fatos já vividos e, a partir deles, justificarmos novas e decisivas ações para o futuro.
Assim, entendemos que o vivido deve ser contextualizado, interpretado e não somente julgado ou desconsiderado. Compreendemos a educação a partir de sua inserção em um cenário social regulamentado pela escolha democrática. A reflexão não perde seu foco, ao percebermos que o conceito democracia, segundo alguns teóricos, esteja “esvaziado” ou descontextualizado em função de interesses minoritários. Talvez, essa disparidade entre o legal e o real possa aproximar-nos do entendimento que buscamos: a associação entre escolha governamental e desígnio educacional. De modo inclusivo, outras considerações de estudiosos do tema educacional também se referem a esse panorama.
Na 22ª Reunião da Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Educação - ANPED, no ano de 1999, no GT políticas públicas, alguns estudos analisaram como foram definidas, nos últimos anos do século XX, as políticas públicas e sua gestão no início do novo século. Sabe-se por eles que, em meados de 1990, em função das relações sociais capitalistas, embasadas no neoliberalismo, muito se alterou a forma pela qual a intervenção estatal operava. As teses vinculadas a esse panorama, ou seja, a do Estado mínimo, desregulamentação e privatização, exigiram um reordenamento das relações sociais do Estado, rearticulando, assim, as ações das instituições sociais, especialmente as da escola.
Já por Antunes (2001, p.14) sabe-se que hoje a lógica de mercado volta-se, prioritariamente, para a produção de mercadorias e, em virtude dessa era de produtividade, desemprego, precarização do trabalho, e degradação ambiental marcam essa nova ordem. Indaga ele: “O que dizer de uma forma de sociabilidade que desemprega ou precariza mais de 1 bilhão de pessoas, algo em torno de um terço da força humana mundial que trabalha, conforme dados recentes da OIT?” Assim, conforme o autor, o capital vem destruindo aos poucos a sociedade, quando a torna, especialmente, um espaço descartável.
Ao disputar novos domínios, essa expansão vai se instalando de forma generalizada. Grandes mudanças são hoje impostas nos campos societais, seja no socioeconômico, no político, no cultural, no científico e, principalmente, no educacional. A corrida necessária parao saber; alternâncias de verdades; informações que se transformam a cada instante; e, formas imediatas da comunicação, são mudanças do tempo presente. Apresentam grande distância em relação ao previsto na Constituição, pois somente uma minoria consegue usufruir dos muitos benefícios legais, enquanto a maioria carece de seus direitos sociais mesmo que garantidos pela lei.
A partir desse cenário, afasta-se o que há no campo legal daquilo que é vivido no campo real. Enquanto a educação é registrada como um direito social e a Constituição elaborada para garantir e subsidiar a efetivação desses direitos, a história contemporânea registra diferentes resultados em relação ao previsto. A distância que comumente se impõe entre teoria e prática poderia explicar a injunção que se estabelece entre a condição legal e a real. No espaço social e, no espaço escolar.
Pela Constituição soubemos o que se tem estabelecido para a realidade social e também qual o sentido do conceito que nos demarca segundo nossa opção governamental. Agora, analisaremos outra lei, só que, a partir de um momento anterior ao seu estabelecimento legal. Esse tempo refere às discussões anteriores à aprovação da Lei de
Diretrizes e Bases da Educação, ocorridas em dezembro de 1996 sob a Lei nº. 9.394, quando a autora Gracindo (1994) analisa as concepções, ideias e valores dos partidos políticos brasileiros sobre a educação nacional.