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4 BRASIL: VIESES DA DOCUMENTAÇÃO EM MUSEUS

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Fazemos nesse ponto uma observação pessoal, repetida como mantra em sala de aula: a informática nada resolve por si. Um sistema informatizado depende do que se quer e dele se espera na razão direta do planejamento prévio.

Qualquer sistema manual ou informatizado só dará respostas para aquilo que for previsto, caso contrário não funcionará a contento. Se por um lado há princípios gerais para a gestão do acervo e da informação, por outro acervos podem até ser similares, mas, não idênticos; princípios gerais devem ajustar-se à tipologia específica de um determinado acervo e às distintas necessidades informacionais da instituição; deve-se considerar a imensa diversidade de museus para além dos que abrigam artefatos, caso dos museus de espécimes vivos, os que trabalham com experimentos e ou equipamentos nos centros ou museus de ciência e tecnologia, entre tantos outros. Não seriam esses pontos, ainda que em outro patamar e tom, semelhantes às discussões das décadas de 1920 e 1930, anteriormente comentadas?

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1951, p. 70-81)30. Essa obra acompanhou o curso de técnicas de museus ministrado naquele museu no qual Gustavo Barroso exerceu profunda influência. De acordo com Sá (2003, p. 31-58), a matriz curricular do curso foi inspirada na Escola do Louvre, e na disciplina classificação de arquivos e bibliotecas (depois classificação de bibliotecas e arquivos) da École Nationale des Chartes (França). As referências bibliográficas apresentadas nas Técnicas no tópico “Como se cataloga um museu” indicam a presença da Mouseion, Musée e o Traité de Museographie publicados pela OIM (BARROSO, 1951), comprovando o fluxo de informações internacionais, nesse caso, através de publicações.

A parte propriamente técnica apresentada por Barroso (1951) diz respeito a prescrições gerais para organizar, arrumar, catalogar e restaurar acervos de museu além de mais duas partes “obrigatórias” para um diretor ou conservador do Museu Histórico Nacional: a Básica (noções de cronologia;

epigrafia; paleografia; diplomática; bibliografia e iconografia) e

30 Sob o Estado Novo (em vigor até 1945) houve mobilização para a formação de técnicos e a ida de diferentes profissionais aos Estados Unidos, cujos reflexos se fizeram perceber também na educação (SCHWARTZMAN; BOMENY; COSTA, 1984). Houve o intuito em instalar o “Curso Technico” para formar bibliotecários que atuariam na Biblioteca e no Arquivo Nacional (Decreto n.º 15.596 de 2 de agosto) que não abriu, ficando estabelecido em 1931 na Biblioteca Nacional (Decreto n.º 20.673, de 17 de novembro) (OLIVEIRA;

CARVALHO; SOUZA, 2009).

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a Especializada, com uma longa série de noções que dariam condições para identificar apropriadamente os objetos31.

As noções de bibliografia a - “ciência que trata da produção e classificação dos livros” (BARROSO, 1951, p. 177) -não se associam ao acervo de objetos, mas, especificamente aos livros da biblioteca. No tópico Como se cataloga um museu se tem maiores esclarecimentos sobre a catalogação padronizada de objetos compreendendo os registros (inventário numerado), a elaboração de catálogos (descritivo-topográfico para visitantes, o comentado com mais informações para pesquisas), os fichários (com três entradas:

por dependência ou sala, pela natureza dos objetos e pela procedência) e a etiquetagem dos objetos32. A classificação de objetos envolve a operação de pesquisa e identificação dos objetos – a parte mais árdua, segundo Barroso (1951) -

31 Gustavo Barroso recomenda: Heráldica; Condecorações;

Bandeiras; Armaria; Arte naval; Viaturas; Arquitetura; Mobiliário;

Indumentária; Cerâmica e Cristais; Joalharia, Prataria e Bronzes Artísticos; Instrumentos de suplício; Máquinas e Arte Religiosa com base nas “matérias”: História do Brasil; a Militar e Naval do Brasil; da Arte e da Arte Brasileira; Artes Menores; Numismática geral e do Brasil; Sigilografia e Filatelia; Noções de Arqueologia geral e do Brasil, e de Etnografia; Cronologia e Epigrafia; Paleografia e Diplomática; Bibliografia, Iconografia e Técnica de Museus.

(BARROSO, 1951).

32 O modelo de ficha da seção de História, usada no Museu Histórico Nacional, compunha-se dos seguintes dados: objeto; procedência;

modo de aquisição; número de ordem; número de catálogo;

localização; estado de conservação; valor; dimensões; bibliografia;

data; conservador; visto do Chefe de Seção e no verso descrição, histórico e comentário do objeto (BARROSO, 1951).

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demandando conhecimentos especializados variando de acordo com a natureza do museu.

Documentação aqui se referia ao próprio acervo, concepção transmitida para Ribeiro (1945), descrevendo em minúcias a visita realizada ao Museu Histórico Nacional ou a Casa do Brasil. Observe-se o contexto de inserção da palavra:

a “[...] documentação que o Museu oferece é elemento de grande influência educacional, ao alcance de todos – curiosos e estudiosos.” (RIBEIRO, 1945, p. 150). Barroso vê os catálogos correspondentes aos serviços com tal importância que não tê-los era o mesmo que uma biblioteca sem índice e fichário (RIBEIRO, 1945, p. 152), ou seja, sem eles nada poderia ser feito ou trabalhado, replicando a seguinte posição de Paul Otlet: “[...] a) O catálogo é um elemento capital da biblioteca.

Sem catálogo, ela é um corpo sem cabeça.” (OTLET, 2018, p.

539) (Tópico 262.22).

Para situar as semelhanças e diferenças as entre as técnicas de museus e as de bibliotecas apontamos no quadro a seguir (Quadro 2), as concepções de Gustavo Barroso e as de Heloisa de Almeida Prado33 apresentadas em Como se organiza uma Biblioteca, pautada no modelo norte-americano e para quem a biblioteca era o “organismo vivo, servindo de instrumento de instrução e de difusão cultural.” (PRADO, 1953, p. 9). Adiciono: o mesmo que se espera dos museus.

33 Heloisa de Almeida Prado estudou na Escola de Biblioteconomia do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de São Paulo, criada em 1936, foi bibliotecária do Instituto Mackenzie/SP.

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Quadro 2: Catalogação e classificação em Gustavo Barroso e Heloísa de Almeida Prado

Técnicas de Museus Técnicas para organização de Bibliotecas

Catalogação

Entrada: registro em livro/Inventário

Catálogo Descritivo (visitantes) Catálogo comentado (pesquisas internas)

Fichários:

Por dependência ou sala

Por natureza dos objetos

Pela procedência dos objetos

Etiquetagem dos objetos para a Exposição

Seção de Catalogação

Registro de “tudo o que há na biblioteca, para que o leitor possa saber o que nela existe e qual a sua localização”.

Catálogo sistemático [ou catálogo de assunto]: organizado segundo sistema de classificação adotado pela biblioteca

Catálogo/dicionário: em ordem alfabética

Fichas: autor; título;

assunto

Fichas analíticas e remissivas

Função: consulta Índices para artigos de periódicos (indexação)

Classificação

Pesquisa/conhecimentos específicos

Observação: a parte

correspondente ao arranjo dos

Seção de Classificação

Classificar: agrupar os livros segundo assuntos.

Adoção de sistema de classificação34. Prado sugere o

34 De acordo com Ortega (2006), o objetivo inicial dos sistemas de classificação era possibilitar a localização através do assunto e guiar a organização dos documentos na biblioteca. A Tabela PHA de autoria de Heloísa Prado (versão brasileira da Tabela Cutter, uma combinação de letras em ordem alfabética correspondendo a números em ordem crescente) pretendeu ajustá-la para os nomes portugueses e brasileiros. Posteriormente, os sistemas de classificação foram desenvolvidos até se constituírem em

61 objetos na exposição está no corpo das técnicas em “Como se Arruma um Museu”.

Sistema Decimal de Melvil Dewey e Índice de assunto = “número de chamada”

Fichário topográfico: fichas de livros classificados para uso do bibliotecário

Observação:

Os procedimentos da Entrada estão incorporados na Catalogação.

Observação:

A Seção de Aquisição cuida da Entrada: tombamento (em livro ou fichário; atribuição de número de entrada cf. entrada; registro das informações referentes). E a etapa final se dá com Arrumação dos livros nas prateleiras: (sistema de arrumação fixa; relativa ou mista).

Fonte: Barroso (1951) e Prado (1953).

A notar que, além da diferença do suporte-objeto em museu para a exposição e o suporte-livro (ou outros documentos da biblioteca) para as estantes, o que fica invertido é o momento da operação da catalogação e o da classificação. Para os museus, a catalogação, segundo Barroso (1951), correspondia ao registro de todo o acervo também representado nos catálogos e da mesma forma que nas bibliotecas acompanha o movimento de entrada. No caso da classificação, a diferença se pauta no fato de que as bibliotecas contavam com sistemas elaborados e implantados e os museus - até onde se sabe – não, mesmo com o debate sobre a necessidade de uniformização e padronização desde o OIM, como antes assinalado. O ponto em comum para proceder a classificação nos museus ou nas bibliotecas diz respeito a

“linguagens para representação e recuperação da informação dos documentos”.

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necessidade de conhecimentos especializados para essa operação. No caso dos museus, na identificação o mais precisa possível dos objetos e, para as bibliotecas, na identificação dos assuntos e respectivos desdobramentos, razão para Heloisa Prado recomendar que quando os assuntos não estavam bem definidos era preciso que a pessoa que empreendesse esse serviço tivesse “boa cultura” (PRADO, 1953, p. 19).

Trigueiros (1956; 1958) nas duas publicações – Museus:

sua importância na educação do povo e depois Museu e Educação - remete-se a documentos e documentação citando nominalmente as categorias de documentos de Paul Otlet (bibliográficos, gráficos, microfilmes, fonográficos, películas), a adoção do Sistema de Dewey e a criação da Classificação Decimal Universal por La Fontaine e Otlet. DOCUMENTAÇÃO assim grafada em maiúsculo, antes aplicada à biblioteca e ao arquivo, constituía-se em processo de trabalho amplo, afeto a diferentes órgãos públicos com variado pessoal técnico. É preciso dizer que Trigueiros participou do curso de Arquivo e Serviço de Documentação do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP)35, além do curso do Museu Histórico Nacional o que, certamente, o faz reportar a essa visão corroborada para os museus no tópico Desenvolvimento da Documentação em que cita melhorias na técnica para realizar eficientemente a tarefa de informar e os serviços que vinham

35 O Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) foi previsto na Constituição de 1937, criado em 1938 (30 de julho) com vistas a racionalização dos serviços afinado as metas do Estado Novo, cuidando inclusive do aperfeiçoamento de pessoal (DIRETRIZES... 2021).

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sendo prestados no Brasil pelos cursos do Museu Histórico Nacional, o de Biblioteconomia da Biblioteca Nacional, o de Arquivologia e o de Administração de Arquivos e Serviços de Documentação pelo DASP. Todavia, ainda que comente, na edição de 1958, a resistência para aceitar o objeto de museu como documento, entendido no sentido estrito de manuscritos ou impressos, apresenta a idéia de museu como

“órgão documentador” pela via da pesquisa - “a mais importante atividade do conservador” (TRIGUEIROS, 1958, p.

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complementando a escola36.

Nas duas obras, Trigueiros (1956; 1958) trata das funções de museu: as básicas e as “de propósito”. A função básica agrupa a coleta, o colecionamento, a classificação, a conservação, a exposição dos objetos, os estudos, as pesquisas e a divulgação na forma de cursos e conferências. A função “de propósito” referia-se a natureza específica de um museu se de caráter geral ou específico segundo o vínculo a uma determinada área de conhecimento. Não há, entretanto, outros detalhes. Por instrumentos de documentação refere-se tanto a equipamentos (para impressão, filmes, fotografia, gravação etc.) como técnicas no sentido de criar, classificar, conservar, registrar e divulgar o documento. O elemento

36 Heloisa Alberto Torres, ao prefaciar a segunda edição da obra de Trigueiros, registra a importância dada a escassez de produções dessa natureza em português e realça a posição dos acervos de museus a serviço da “educação popular” (TRIGUEIROS, 1958). Em 1958 acontecia no Rio de Janeiro, o Seminário Regional da UNESCO para debater justamente a função educativa nos museus (ARAÚJO;

BRUNO, 1995).

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distintivo na concepção de Trigueiros (1958, grifos do autor) é a introdução do vinculo da documentação (no sentido abrangente) com a comunicação, pois, quer os equipamentos quer as técnicas seriam perpassadas pelas fases de recepção e de divulgação.

A concepção de Trigueiros para documentação está atravessada de vários ângulos simultaneamente: pela história (positivista)37, na de documentos de Paul Otlet e, também, da Comunicação sendo os museus os órgãos voltados aos documentos lado a lado com os “arquivos, bibliotecas, imprensa, estações de rádio e televisão, [...] companhias cinematográficas e coleções de documentos de qualquer espécie” (TRIGUEIROS, 1958, p. 27). Uma visão mesclada e talvez inspirada por sua participação nos cursos pelos quais transitou.

Não parece assim coincidência a visão de Trigueiros (1958) sobre a documentação integrada e voltada para a comunicação, como também não o é o fato de historiar os antecedentes em defesa do patrimônio histórico nacional até a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) em 1937, e as ideias de museu para a educação emanadas do ICOM, o que nos faz inferir que compartilhou as ideias correntes de seu tempo a respeito de documentação e museu.

37 Ao citar Langlois e Seignobos, autores de Introduction aux études historiques (1898), obra que inspirou os institutos históricos e geográficos no Brasil ainda no Segundo Império e voltada a fatos e personalidades políticas.

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Em Dinheiro no Museu, Trigueiros (1972) se aproxima mais das concepções do ICOM, relevando a importância dos inventários e o tombamento das coleções como patrimônio cultural. Ao descrever o que chamou de fichas analíticas para garantir a identificação específica de cada peça refere-se a

“dados” para serem “[...] processados em computador, acompanhando o desenvolvimento que dia a dia vem sendo introduzido nas técnicas de registro e controle.” (TRIGUEIROS, 1972, p. 64, grifos do autor)38. O inventário e a classificação inscritos na aplicação prática da Teoria Museológica, respondiam à organização das coleções museológicas cujo resultado se faria sentir nas etiquetas dos objetos, ou seja, na exposição.

A influência do ICOM e mesmo de outros organismos estrangeiros para a documentação de museus e a questão da padronização pensando no uso do computador ficará definitivamente marcada no Brasil com a obra Museu:

Aquisição/Documentação: Tecnologias apropriadas para a preservação dos bens culturais de Camargo-Moro (1986). A autora, seguidora de Yvonne Oddon, justifica o desafio de explicitar passo a passo os procedimentos de aquisição e documentação pela sucessão de falhas que observava nos museus brasileiros. Falhas no recolhimento de dados, na insuficiência de pesquisa e de informações detalhadas, no

“vocabulário museológico pobre” e no preparo do pessoal técnico limitando a análise em profundidade da herança

38 Trigueiros (1972) traz a notícia de Huges de Varine Bohan, então presidente do ICOM, de que dos 16.000 museus do mundo, alguns encontravam-se no estágio de fichas manuscritas.

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patrimonial, ao tempo em que acontecia a expansão de conceitos e a utilização de sistemas informatizados.

Alerta, a partir desse ponto, para o armazenamento de dados dependente da “[...] organização do conteúdo [...] em toda sua abrangência [...]” (CAMARGO-MORO, 1986, p. 85) completando – e aqui uma mudança significativa – que se tratava de trabalho da alçada do museólogo na perspectiva museológica, ou seja, “[...] utilizando o conceito musealizar no sentido de preservar” (CAMARGO-MORO, 1986, p. 85, grifos da autora). Expondo em detalhes o processo de aquisição em museus, da entrada à divulgação, inclui a então denominada documentação museológica nas ciências de preservação (manutenção, conservação e segurança dos acervos). Em outros trechos dessa obra refere-se a sistema de documentação museográfica (CAMARGO-MORO, 1986).

A catalogação e a classificação ficam no cerne dos

“Elementos Aprofundados para a Decodificação” (Parte III da mesma obra), consideradas duas etapas de análise/documentação, registradas em fichas para cada objeto e executada por especialistas. Para Camargo-Moro (1986, p.

41) a catalogação corresponde ao “[...] ato de identificar e relacionar bens culturais ou espécimes naturais [...]”, e o classificar uma segunda parte da análise propriamente (a decodificação) de cada objeto, de certa forma mantendo a continuidade aos ensinamentos barrosianos.

Com Camargo-Moro (1986) a palavra documentação entra definitivamente para o vocabulário dos museus brasileiros integrando a noção de sistema (conjunto de fichas estruturadas e interligadas com pontos em comum visando a

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padronização dos registros), a de recuperação da informação (resgate, para a autora) prevendo “[...] o máximo acesso à informação disponível com o mínimo esforço de anotação.”

(CAMARGO-MORO, 1986, p. 86) seguindo a associação britânica Museum Documentation Association (MDA) através do manual Pratical Museum Documentation, publicado em 1981, ao lado de índices, convenções, glossários e nomenclaturas ou nomenclátors (terminologia interna a um museu, área de especialização etc.).

Pode-se avaliar a obra de Camargo-Moro (1986), um manual de procedimentos para a documentação em museus em português, como um ponto de inflexão em relação às décadas anteriores no Brasil, em que havia vigorado a classificação e a catalogação exemplificadas na obra de Barroso (1951). A aderência do vocábulo “museológico”

propõe outra dimensão, o que não significa que a classificação e a catalogação deixassem de ser praticadas. Ao contrário, até porque indispensáveis, a autora as incorpora, como visto anteriormente, nos “Elementos Aprofundados da Decodificação”, “[...] comumente chamada de catalogação aprofundada ou classificação [...]” para elaborar as “[...] fichas classificatórias que formarão o Catálogo Geral, [...]

organiza[ndo] os diversos catálogos e índices.” (CAMARGO-MORO, 1986, p. 79, grifos da autora) na seqüência dos procedimentos de entrada dos objetos, etapa anterior e primeira da inserção em um museu, momento em que se formam os “dossiês”.

No nosso ponto de vista - um dentre outros possíveis - o dístico “museológico” para a documentação executada a

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partir de objetos ou artefatos no ambiente museu, se ajudou a particularizar os registros (como o inventário cujo sentido é o de arrolamento, relação, rol para qualquer conjunto que precise ser listado) e os processos de classificação e catalogação como instrumentos ajustados aos museus, ajudou também a distingui-la nominalmente dos procedimentos das bibliotecas e dos arquivos. Pautada na interpretação dos objetos aos moldes do ICOM, não deixou de recorrer aos princípios de organização daquelas instituições os quais, no decorrer do tempo, foram absorvidos ficando implícitos. Do ponto de vista historiográfico da constituição do campo Museologia, lembra-se o debate no Comitê Internacional da Museologia (ICOFOM/ICOM) para identificar o objeto de estudo e os problemas terminológicos decorrentes de uma série de palavras novas – e desconhecidas – até então39. Trazer à luz o vocabulário da área era uma questão para garantir a legitimidade do campo e dos profissionais. No mesmo ano de 1986 foi publicado o Dictionarium Museologicum na tentativa de mapear o vocabulário da Museologia.

A falta de consistência interna na nomenclatura designativa de objetos e, também, na estrutura de classificação impedindo o funcionamento dos catálogos como instrumentos de armazenagem e recuperação de informações motivaram a museóloga Bianchini e Ferrez, mestre em Ciência da Informação, a organizar o Thesaurus para acervos

39 Observa-se que no mesmo período (anos de 1980 e mesmo antes) há uma série de vocábulos empregados nos comitês do ICOM que passam a vigorar na literatura da área: museal, musealização, musealizável, musealidade, museística (CERÁVOLO, 2004).

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museológicos, publicado em 1987. O acervo do Museu Histórico Nacional foi a base técnica para as concepções solidárias conjugando as duas áreas. Para tanto, os objetos são tomados como fontes de informação requerendo dados de complexa coleta e catalogação. Em tempos de automação as autoras recomendam a definição, por parte dos museus, da política informacional, o recurso da linguagem controlada com aporte de metodologias e instrumentos intermediando as informações sobre os objetos para usuários visando a recuperação. No entender das autoras, os museus no Brasil sofriam do “elitismo” valorativo e sacralizador dos objetos, mais pelos atributos artísticos e valor financeiro do que o conteúdo informativo que carregam (FERREZ; BIANCHINI, 1987, p. XVI-XVII e XXI). Remetendo aos sistemas de informação, as autoras declaram trazer para a Museologia as metodologias e instrumentos da Biblioteconomia e da Ciência da Informação, a exemplo dos thesauri como recurso de controle terminológico de cunho operativo em museu. Embora não tratem diretamente de documentação em museu ou documentação museológica fica em pauta, provavelmente mais explicitamente do que antes, as relações de proximidade desses procedimentos ao redor das operações de

“classificação ou categorização” - complexas -, em se tratando de museus.

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5 CONSIDERAÇÕES FINAIS OU CICLOS EM