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3 GARGALOS CONTÍNUOS: DO MANUAL AO INFORMATIZADO

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(arranjo sistemático de listagem); registros de doadores; de empréstimo e descarte.23

3 GARGALOS CONTÍNUOS: DO MANUAL AO

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com maior facilidade. Na publicação bilíngüe Éléments de Documentation Muséographique/Elements of Museum Documentation, Yvonne Oddon (1968)26 denomina documentação museográfica incorporando a palavra documentação nessa apostila similar a um manual de procedimentos; valioso para relembrar que gerações de museólogos brasileiros se formaram nessa concepção. Oddon demonstra nesse pequeno compêndio de práticas, a estrutura dos “instrumentos documentais”, cujos alicerces evidenciam a transposição de procedimentos e técnicas empregadas em bibliotecas para a organização de acervos em museus nos chamados “serviços”: os de entrada, os de aquisição, catálogo, registro e movimento das coleções. Refere-se a “registros de identificação de coleções” (identification record/identification des collections). A concepção de sistema destina-se à numeração dos objetos (numbering system/méthode de numérotage). Ao indicar a necessidade de recolher

“informações precisas” diz mais respeito à precisão e legibilidade (em estilo direto e sóbrio) inscritas nos registros do que, propriamente, a informação como aspecto relevante. Sua preocupação maior foi estabelecer a seqüência de registros manuais organizados adequadamente em fichários. As tão propaladas fichas de registro, cadastramento, classificação ou ainda de catalogação, base para a elaboração de catálogos ou elas mesmas cumprindo esse papel, ao serem associadas a

26 Publicação mimeografada dos cursos que ministrou para a formação de técnicos de museu na cidade de Jos (Nigéria) entre 1964 a 1970. O Report on a museographical mission in Jos: Nigeria, February 26-April 8, 1968, replica o manual incluso com imagens das fichas.

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outros instrumentos da documentação museográfica concebida por Oddon (1968), ficam a serviço do censo dos bens, da gestão das coleções além de garantia jurídica para o mantenedor. A proposta de Oddon surge como padronização no nível prático e operacional, a observar que as referências bibliográficas indicadas no manual refletem o intercâmbio entre o ICOM e autores norte-americanos e os estudos da American Association of Museums27.

Há modelo geral para cuidar de coleções museológicas, caso dos inventários, forma de controle muito usada como bem demonstra Torres (2002), fichas e catálogos nas mãos dos chamados conservadores, especialistas em identificar objetos.

Benoist (1960), conservador do Museu da França na década de 1960, sugere também modelos de fichas com ênfase na expertise da obra para atestar a autenticidade. O inventário -

“registro à italiana” (le registre à l’italiene) em dezoito colunas28 -, os “dossiês” de documentos relativos às entradas, os fichários organizados por autor, tema e cronologia e a classificação comporiam o repertório útil de referências para formar o catalogo crítico para estudos e o catálogo sintético para publicações. Como outros que lhe precederam ou

27 A American Association of Museums tornou-se American Alliance of Museums.

28 1. Modo de aquisição, 2. Nome endereço do vendedor, testamenteiro ou doador; 3. Data de aquisição; 4. Data de inscrição do registro; 5. Preço; 6. Índice de classificação; 7. Número de registro; 8. Descrição do objeto; 9. Material e técnica; 10.

Dimensões; 11. Autor; 12. Época; 13. Proveniência (da execução); 14.

Proveniência (função); Proveniência (coleção); 16. Catálogo; 17.

Dossiê do objeto; 18. Observações diversas (BENOIST, 1960,).

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sucederam, Benoist notou a falta de uniformidade e inexistência de acordo internacional sobre o tipo de ficha de registro.

Nos anos de 1970, pensava-se que as fichas descritivas com objetivos analíticos, ao agregar dados de “conservação, catalogação, processo de restauração e estado atual”

forneceriam a “síntese completa da vida de uma obra” (mais recentemente foco de estudos biográficos sobre objetos em museus), ocupando o lugar central no fazer da documentação por décadas à fio. Replicando as palavras de León29 (1978, p.

14), o museu deveria ser vivificado (e não museificado), considerado patrimônio público, desfrutado e melhorado coletivamente no qual a “[...] ordenação, catalogação e inventário [...] é uma gestão de ordem interna essencial para a conservação das peças”.

Para a ordenação, a recomendação do ICOM: “1 Ano de entrada, abreviado. 2 Número de entrada no museu. 3 Lugar que ocupa cada objeto dentro da coleção” (LEÓN, 1978, p.

270). Em linhas gerais esses foram os ensinamentos repassados sobre documentação nos cursos de Museologia em nosso país.

O desfio paralelo nos anos de 1970 centrou-se em outro plano de normalização: o terminológico, em razão dos computadores. O cenário informacional modificara-se radicalmente, dos museus inclusive. Ao final daquela década, a informática “consideravelmente aperfeiçoada” era admitida

29 Bastante citada no curso Especialização em Museologia organizado pela Prof.ª Waldisa Rússio Guarnieri em São Paulo.

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para fins de inventário, gestão de coleções e pesquisa. A revista Museum no número intitulado Museums and Computers (INTERNATIONAL COUNCIL OF MUSEUMS, 1978) condensa as experiências então em desenvolvimento. Segundo Sher (1978), parecia paradoxal, depois do início promissor, o pouco uso dos bancos de dados (data banks) – “tão simples” para o arqueólogo francês Jean-Claude Gardin, considerado especialista no processamento de dados para as humanidades -, e de lenta introdução nos museus. Nesse mesmo exemplar, Chenhall e Homulus (1978) afirmavam a raridade em contar com a documentação (palavra que empregam amplamente), perfeitamente adequada para os museus lidarem com os objetos das coleções. Advogavam a necessidade da precisão e normas mínimas para tratar da informação (“informação museológica”) sobre cada objeto de modo a que diversos profissionais dela utilizassem. Com apoio da linha norte-americana e canadense propõem as Normas da Informação Museológica (Normes d’information muséologique), estabelecendo categorias de dados (classificação dos objetos), a categoria da informação (precisa, lógica e confiável) demandando controle da sintaxe e do vocabulário, o do tempo (registro do objeto no momento de retirada do seu meio ambiente), finalizando com normas de “informação para inventário” (CHENHALL; HOMULUS, 1978, p. 205-215).

Nas décadas posteriores, com a aceleração da tecnologia da informação foi necessário trazer, para o âmbito dos museus, as discussões sobre automação e as concepções de trabalho em rede (network). Cresciam as possibilidades para executar o recenseamento extensivo das coleções e do

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patrimônio cultural. Falava-se em gerenciamento da informação, em sistemas para controlar as informações sobre o patrimônio cultural e ambiental, em documentação especializada, em questões relativas à fisicalidade dos sistemas manuais e automatizados. Em 1986 foi lançada a publicação Museum Documentation Systems: developments and applications introduzida por Geoffrey D. Lewis, então presidente do ICOM. Pelo Centro de Documentação UNESCO/ICOM compareceu Olcina (1986) referendando a existência de uma “massa de informação” nos museus e diagnosticando a “doença endêmica” derivada do fato de que, na maioria dos países desde o final dos anos de 1950, a documentação saíra das mãos dos profissionais de museu concentrando-se nas dos curadores. Um dos pontos cruciais recaia novamente sobre a falta de padronização, a multiplicação de modelos de sistemas e procedimentos que, por sua vez, consumiam tempo e energia dos profissionais refletindo-se inclusive na formação de pessoal voltado para os estudos de museus (museum studies). Para reverter essa situação Olcina (1986, p. 307-314) indica o caminho da padronização dos procedimentos para uso dos computadores, expondo os problemas de compatibilidade entre sistemas, depois, interoperabilidade entre sistemas.

Os persistentes problemas da padronização e inconsistência terminológica tornaram-se questão-chave quase uma década adiante quando a pauta dos debates sobre coleções de museus partia do princípio do uso pleno da informatização. Terminology for Museums é o título de um conjunto de papers da conferência organizada em 1990 pela

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associação britânica Museum Documentation Association (MDA) e pelo Getty Art History Information Program, orbitando ao redor de vasta gama de quesitos sobre a temática com o apoio do International Organization for Standardization (ISO). Foram temas: os sistemas de documentação e base de dados; a consistência para o funcionamento de sistemas; os thesauri controlando relações semânticas hierarquizadas ou o emprego de dicionários terminológicos para a catalogação de coleções especializadas; os métodos para a arquitetura da informação com base no planejamento e suporte de equipes de trabalho. Na posição central, a função da terminologia para os museus.

O CIDOC/ICOM, por sua representante, declara reconhecer os dados (data) como os componentes mais valiosos de um sistema computadorizado (computer system) e, o controle de vocabulário, o processo mais efetivo para o gerenciamento das coleções. Até então, desde os anos de 1987 e 1988, esse comitê contava com um grupo de trabalho terminológico que produziu o Dictionarium Museologicum (1986) e realizou o levantamento, junto aos museus, das listas autorizadas de termos (authority lists) em uso, além de distribuir bibliografia básica para que as instituições compreendessem o papel da terminologia (FINK, 1990, p. 26-28). Não se trata mais de discutir o que iria compor a documentação, nem mesmo discutir a validade ou não dos sistemas, mas integrar as linguagens controladas (linguagens documentárias). Firma-se a expectativa de ressaltar os museus como lugar de busca de informações, empenhados na melhoria da comunicação.

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Fazemos nesse ponto uma observação pessoal, repetida como mantra em sala de aula: a informática nada resolve por si. Um sistema informatizado depende do que se quer e dele se espera na razão direta do planejamento prévio.

Qualquer sistema manual ou informatizado só dará respostas para aquilo que for previsto, caso contrário não funcionará a contento. Se por um lado há princípios gerais para a gestão do acervo e da informação, por outro acervos podem até ser similares, mas, não idênticos; princípios gerais devem ajustar-se à tipologia específica de um determinado acervo e às distintas necessidades informacionais da instituição; deve-se considerar a imensa diversidade de museus para além dos que abrigam artefatos, caso dos museus de espécimes vivos, os que trabalham com experimentos e ou equipamentos nos centros ou museus de ciência e tecnologia, entre tantos outros. Não seriam esses pontos, ainda que em outro patamar e tom, semelhantes às discussões das décadas de 1920 e 1930, anteriormente comentadas?