2.4 Comunicação intercultural entre brasileiros e italianos
2.4.2 Brasileiros e italianos: uma visão estrangeira
Como afirma Baccin (2012, p. 57), antes de iniciar uma reflexão de natureza intercultural é necessário que saiamos do nosso estado de cegueira27 e uma das maneiras de
27 O estado de cegueira, de acordo com Baccin (2012, p. 49), é o primeiro dos quatro níveis da consciência
54 fazê-lo é entrar em contato com a visão do outro sobre a nossa cultura. A autora cita obras que trataram de aspectos culturais do Brasil e da Itália e que foram escritas principalmente para o público norte-americano. Sobre o Brasil, Baccin (2012, p. 57) cita as obras: Culture Shock! A Survival Guide to Customs and Etiquette (Poelzl, 2002), o volume Brazil da série Culture Smart: The essential guide to customs and culture (Branco e Williams, 2011) e ainda Communicating with Brazilians: When “yes” means “no” (Novinger, 2003). Sobre a Itália, a autora cita as obras: Culture Shock! A Survival Guide to Customs and Etiquette28 e o volume Italy da série Culture Smart: The essential guide to customs and culture (Abbott, 2008).
Em relação à questão de interesse deste trabalho, ou seja, à atribuição das características de grosseiros e diretos em excesso aos italianos e de melindrosos e indiretos em seus posicionamentos aos brasileiros, algumas menções foram feitas por esses autores, como é possível observar:
“Você deve entretanto ser cuidadoso ao expressar opiniões negativas sobre o Brasil, já que os brasileiros são sensíveis a críticas, especialmente de estrangeiros”. 29
(Poelzl, 2002, p. 96)
“Os brasileiros tendem a evitar o confronto direto e preferem uma maneira mais indireta de demonstrar desacordo”. 30 (Branco e Williams, 2011, p. 147)
“Roberto DaMatta31 relata que a cultura brasileira é inimiga de conflito. O conflito
existe, mas ao invés de confrontar crises e fazer correções, os brasileiros veem os conflitos como presságios de desgraça e insucesso. Eles preferem enfatizar a
níveis da consciência cultural, ver ESLAN, Alexia e LORZ, Arman. Cultural Competence and Awareness
Training. JSI Research & Training Institute. Disponível em: <www.proyectoideas.jsi.com>.
28 FLOWER, R.; FALASSI, A. Culture shock! A Survival Guide to Customs and Etiquette. Italy. London:
Marshall Cavendish Editions, 2008.
29 Texto original: “You should however be careful with expressing negative opinions about Brazil, since
Brazilians are sensitive to criticism, especially from foreigners”. (POELZL, 2002, p. 96).
30 Texto original: “Brazilians tend to avoid direct confrontation and prefer a more indirect way of
demonstrating disagreement”. (BRANCO e WILLIAMS, 2011, p. 147).
31Conferir DAMATTA, R. Do you know who you’re talking to?! In: G. H. Summ (Org.). Brazilian Mosaic:
55 solidariedade e o universalismo e evitam um olhar penetrante sobre os problemas do país”. 32 (Novinger, 2003, p. 119-120)
“No Brasil é considerada uma séria transgressão social ser agressivo em interações pessoais. Os conflitos que surgem são resolvidos e esquecidos: ‘Tudo bem’, ‘Numa boa’, ‘Deixa pra lá’. Qualquer conflito aberto é ameaçador”. 33 (Novinger, 2003, p.
120)
“Uma característica da Itália é o duelo verbal na medida em que as pessoas trocam opiniões vivazes e até mesmo críticas em linguagem grosseira e desinibida”. 34
(Abbott, 2008, p. 49)
“Eles [os italianos] podem também ser muito assertivos e diretos e isso pode ser visto como abrupto ou desdenhoso”. 35 (Abbott, 2008, p. 139)
“[Na Itália] Falar sobre você mesmo, sua família e seu sucesso e revelar suas emoções é aceito como uma maneira de construir boas relações. Discussões vivazes e debates são apreciados”. 36 (Abbott, 2008, p. 139)
Além das menções encontradas nos livros indicados por Baccin (2012), passagens que merecem ser citadas são as que encontramos no capítulo O homem cordial (Holanda, 1995) e em La testa degli italiani (Severgnini, 2012):
32 Texto original: “Roberto DaMatta relates that Brazilian culture is inimical to conflict. Conflict exists, but
rather than confront crises and make corrections, Brazilians see conflicts as omens of doom and failure. They prefer to emphasize solidarity and universalism and avoid a penetrating look at the country’s problems”. (NOVINGER, 2003, p. 119-120).
33 Texto original: “In Brazil it is considered a serious social transgression to be aggressive in personal
interactions, Conflicts that arise are resolved and forgotten: ‘That’s all right’, ‘No problem’, ‘Don’t worry about it’. Any open conflict is threatening.” (NOVINGER, 2003, p. 120).
34 Texto original: “A characteristic of Italy is the verbal jousting as people exchange opinions and even
criticism in earthy, uninhibited language”. (ABBOTT, 2008, p. 49)
35 Texto original: “They can also be very assertive and direct and this can be seen as abrupt or dismissive”.
(ABBOTT, 2008, p. 139)
36 Texto original: “Talking about yourself, your family, and your success, and revealing your emotions is
accepted as a way of building good relations. Lively argument and debate are appreciated”. (ABBOTT, 2008, p. 139)
56 “Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo ‘o homem cordial’. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarca. Seria engano supor que essas virtudes possam significar ‘boas maneiras’, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante”. (Holanda, 1995, p. 146-147)
“O desconhecimento de qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo representa um aspecto da vida brasileira que raros estrangeiros chegam a penetrar com facilidade”. (Holanda, 1995, p. 148)
“Ao redor de uma mesa italiana se raciocina, se discute, se aprende a defender o próprio ponto de vista (ou a mudá-lo)”. 37 (Severgnini, 2012, p. 68)
Os trechos citados nesta subseção apresentam reflexões sobre as maneiras que brasileiros e italianos encontram para expressarem seus pontos de vista e para lidarem com os conflitos que podem surgir durante este processo. Sob este aspecto, o que se observa é que brasileiros e italianos parecem apresentar comportamentos divergentes e, dessa forma, podem encontrar obstáculos ao interagirem.
Neste trabalho, acredita-se que conhecer o outro e si mesmo é o primeiro passo na busca por uma melhor interação e um menor choque cultural. Para verificar o conhecimento que brasileiros e italianos apresentam de si mesmos e dos pertencentes à outra cultura, foram aplicados questionários em que os respondentes deveriam indicar cinco adjetivos para os nativos de sua cultura e cinco adjetivos para os nativos da outra cultura. Tais questionários, além de servirem como uma indicação da imagem que brasileiros e italianos
37Texto original: “Intorno a una tavola italiana si ragiona, si discute, si impara a difendere il proprio punto di
57 têm de si mesmos e do outro, servem também para verificar o pressuposto de base deste trabalho: brasileiros costumam atribuir a característica de grosseiros aos italianos e italianos costumam atribuir a característica de melindrosos aos brasileiros.
Serão apresentados na próxima subseção os questionários aplicados e os resultados obtidos por meio deles.