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3 A Era de Braudel

No documento BURKEPeter_A Escola dos Annales (páginas 35-43)

I – O MEDITERRÂNEO

Quando da criação dos Annales, em 1929, Braudel tinha vinte e sete anos. Estudara História na Sorbonne, lecionava história num a escola da Argélia e trabalhava em sua tese. Tese que se iniciara com o um ensaio de história diplom ática, de caráter bastante convencional, em bora am biciosa. Foi proj etada originalm ente com o um estudo sobre Felipe II e o Mediterrâneo, em outras palavras, um a análise da política externa do soberano.

Durante seu longo período de gestação, a tese am pliou consideravelm ente seu obj etivo. Era e é norm al para os historiadores acadêm icos franceses lecionarem em escolas enquanto escrevem suas teses. Lucien Febvre, por exem plo, ensinou brevem ente em Besançon; Braudel, durante dez anos, 1923-32, lecionou na Argélia, experiência que lhe perm itiu am pliar seus horizontes.

Seu prim eiro artigo im portante, publicado nesse período, tinha por tem a a presença dos espanhóis no Norte da África, no século XVI. Esse estudo, cuj as dim ensões são a de um pequeno livro, m erece ser resgatado de seu im erecido esquecim ento. Era, ao m esm o tem po, um a crítica a seus predecessores no tem a pela ênfase que haviam atribuído aos grandes hom ens e às batalhas; um a discussão sobre a “vida diária” das guarnições espanholas; e tam bém um a dem onstração da estreita relação, em bora invertida, entre a história africana e européia, isto é, quando estourava a guerra na Europa as cam panhas africanas eram suspensas, e viceversa (Braudel, 1928).

A m aior parte da pesquisa para a tese havia sido feita no início dos anos 30 em Sim ancas, onde os docum entos oficiais espanhóis estavam guardados, e nos arquivos das principais cidades cristãs do Mediterrâneo – Gênova, Florença, Palerm o, Veneza, Marselha e Dubrovnik – onde Braudel poupou tem po film ando os docum entos, sem pre que possível, com um a câm ara cinem atográfica am ericana (Braudel, 1972).

A pesquisa foi interrom pida quando Braudel foi contratado para lecionar na Universidade de São Paulo, 1935-1937, período definido por ele, m ais tarde, com o o m ais feliz de sua vida. Foi no retorno de sua viagem ao Brasil que Braudel conheceu Lucien Febvre, que o adotou com o um filho intelectual e persuadiu-o – se é que ainda necessitava de persuasão – de que o título da tese deveria ser realm ente “O Mediterrâneo e Felipe ll”, e não “Felipe II e o Mediterrâneo” (Braudel, 1953, especialm ente p. 5; conf. (Febvre, 1953, p. 432).

Com o advento da Segunda Guerra Mundial, Braudel teve, por m ais irônico que possa parecer, a oportunidade de escrever sua tese. Perm aneceu quase todos os anos de guerra com o prisioneiro num cam po perto de Lübeck. Sua prodigiosa m em ória com pensou em parte a im possibilidade de recorrer às bibliotecas, tendo rascunhado O Mediterrâneo em cadernos escolares com uns e os rem etia a Febvre, para lhe serem devolvidos ao final da guerra (Braudel, 1972). Som ente um historiador que tenha exam inado os m anuscritos poderá falar sobre o vínculo existente entre eles e a tese defendida em 1947 e publicada em 1949, dedicada a Febvre “com a afeição de um filho”. Minha análise será feita tendo por base o texto im presso.

O Mediterrâneo é um livro de grandes dim ensões, m esm o que considerem os os padrões da tradicional tese de doutoram ento francesa. Sua edição original continha aproxim adam ente 600000 palavras, o que perfaz seis vezes o tam anho de um livro com um . Dividido em três partes, cada um a das quais – com o o prefácio esclarece – exem plifica um a abordagem diferente do passado. Prim eiram ente, há a história “quase sem tem po” da relação entre o “hom em ” e o am biente; surge então, gradativam ente, a história m utante da estrutura econôm ica, social e política e, finalm ente, a trepidante história dos acontecim entos.

A parte m ais tradicional, a terceira, parece corresponder à idéia original de Braudel de um a tese sobre a política exterior de Felipe II. Ele oferece aos seus leitores um trabalho altam ente profissional de história política e m ilitar. Traça breves m as incisivos esboços do caráter dos atores principais da cena histórica, do Duque de Alba, “esse falso grande hom em ”, “de m ente estreita e curta visão política”, ao seu senhor Felipe II, lento, “solitário e discreto”, cauteloso e perseverante, um hom em que “via sua tarefa com o a sucessão infindável de pequenos detalhes”, m as ao qual faltava um a visão do todo. São descritos com vagar a batalha de Lepanto, o cerco e a libertação de Malta, e as negociações de paz do final da década de 1570.

Essa narrativa de eventos, contudo, está longe de ser um a história tradicional de “tam bores e trom betas”, com o pode parecer à prim eira vista. Freqüentem ente, o autor desvia-se de seu cam inho para enfatizar a insignificância dos eventos e as lim itações im postas à liberdade de ação dos indivíduos. Em 1565, por exem plo, o com andante naval espanhol no Mediterrâneo, Don Garcia de Toledo, m ostrouse lento para libertar Malta do cerco dos turcos. “Os historiadores criticaram Don Garcia por sua dem ora em agir, escreve Braudel, m as tiveram eles o cuidado de exam inar profundam ente as condições sob as quais ele agiu?” (Braudel, 1949: edição inglesa de 1975, p. 1017). Reitera que a conhecida e sem pre condenada lentidão de Felipe II em reagir aos eventos não deve ser explicada apenas em term os de seu tem peram ento, m as deve ser associada à exaustão financeira da Espanha e aos

problem as de com unicação em um im pério tão vasto (Ibidem, pp. 372, 966). Da m esm a m aneira, Braudel recusa-se a explicar em term os pessoais o sucesso de Don Juan, Don Juan da Áustria, em Lepanto. Ele foi apenas “o instrum ento do destino”, no sentido de que sua vitória dependeu de fatores cuj a existência desconhecia (Ibid., p.1101). Mas, ainda segundo Braudel, a vitória de Lepanto foi apenas um a vitória naval que “não poderia destruir as rotas turcas, pois estas estavam solidam ente estabelecidas no interior do continente” (Ibid., p. 1104). Tam bém a conquista de Túnis por D. Juan é descrita “com o um a vitória que leva a lugar nenhum ”.

A preocupação de Braudel é situar indivíduos e eventos num contexto, em seu m eio, m as ele os torna inteligíveis ao preço de revelar sua fundam ental desim portância. A história dos eventos, ele sugere, em bora “rica em interesse hum ano”, é tam bém a m ais superficial. “Recordo-m e de um a noite, perto da Bahia, quando assistia absorto ao espetáculo pirotécnico de fosforescentes vagalum es; sua pálida luz brilha, desaparece, volta a brilhar, sem penetrar na noite com um a verdadeira luz. O m esm o acontece com os eventos, para além de seu brilho, a escuridão predom ina” (Braudel, 1980, p. 10). Em um a outra im agem poética, Braudel descreve os acontecim entos com o “perturbações superficiais, espum as de ondas que a m aré da história carrega em suas fortes espáduas”. “Devem os aprender a desconfiar deles” (Ibid., p. 21). Para com preender a história é necessário saber m ergulhar sob as ondas.

Aguas m ais calm as, que correm m ais profundam ente, são o obj eto da segunda parte do Mediterrâneo, denom inada “Destinos coletivos e m ovim entos de conj unto”; sua preocupação, a história das estruturas-sistem as econôm icos, estados, sociedades, civilizações e form as m utantes de guerra. Esta história se m ovim enta a um ritm o m ais lento do que a dos eventos. As m udanças ocorrem no tem po de gerações, e m esm o de séculos, por isso os contem porâneos dos fatos nem sem pre se apercebem delas. Mas, m esm o assim , eles são carregados pela corrente. Num a de suas m ais fam osas análises, Braudel exam ina o im pério de Felipe II com o um a “colossal em presa de transporte terrestre e m arítim a”, que “se exauriu por sua própria dim ensão”, e não poderia ser diferente num a época em que “cruzar O Mediterrâneo de norte a sul levava um a ou duas sem anas”, enquanto atravessá-lo de leste a oeste “dois ou três m eses” (Ibid., p. 363). A observação lem bra o veredicto de Gibbon sobre o Im pério Rom ano destruído pelo seu próprio peso e suas afirm ativas sobre geografia e com unicações, no prim eiro capítulo do Declínio e Queda.

O século XVI, porém , parece ter sido favorável ao desenvolvim ento de grandes estados do tipo dos im périos rivais espanhol e turco, que dom inaram o Mediterrâneo. Para Braudel, “O curso da história é alternadam ente favorável e desfavorável à form ação de vastas hegem onias políticas”, e o período de desenvolvim ento econôm ico, durante os séculos XVI e XVII, criou um a situação

bastante favorável aos grandes e enorm es estados (Ibid., pp. 660-1). Com o as estruturas políticas, as estruturas sociais dos dois grandes im périos – opostas entre si de diversas m aneiras no topo – cam inharam gradativam ente no sentido de se assem elharem cada vez m ais. As principais tendências sociais na Anatólia e nos Balcãs, nos séculos XVI e XVII, corriam paralelas às da Espanha e Itália, sendo que esta, durante o período, estava subm etida em grande parte às leis espanholas. Segundo Braudel, a principal tendência, em am bos os lados, era a polarização social e econôm ica. A nobreza enriquecia e m igrava para as cidades, os pobres tornavam -se cada vez m ais pobres e eram em purrados para a pirataria e o banditism o. Quanto às classes m édias, desapareceram ou “em igraram ” para a nobreza, processo descrito por Braudel com o a “traição” ou a “falência” da burguesia (Ibid. pp. 704 ss.){44}.

Num capítulo dedicado às fronteiras culturais e à gradual difusão das idéias, obj etos, ou costum es, Braudel estende a com paração entre cristãos e m uçulm anos m editerrâneos da sociedade. para a “civilização”, denom inação que prefere. Evitando um difusionism o sim plista, discute tam bém a resistência a essas inovações, invocando o “repúdio” espanhol ao protestantism o, a rej eição do cristianism o da parte dos m ouros de Granada e a resistência dos j udeus a todas as outras civilizações (Ibid., pp. 757 ss).

Não chegam os ainda ao coração do problem a. Abaixo das correntes sociais j az um a outra história, “um a história quase im óvel... um a história lenta a desenvolver-se e a transform ar-se, feita m uito freqüentem ente de retornos insistentes, de ciclos sem fim recom eçados”{45} (Ibid., p. 20). A verdadeira m atéria do estudo é essa história “do hom em em relação ao seu m eio”, um a espécie de geografia histórica, ou, com o Braudel preferia denom inar, um a “geo- história”. A geo-história é o obj eto da prim eira parte do Mediterrâneo, para a qual devota quase trezentas páginas, descrevendo m ontanhas e planícies, litorais e ilhas, clim as, rotas terrestres e m arítim as.

Essa parte do livro deve sua existência, indubitavelm ente, ao am or de Braudel pela região – revelado im ediatam ente por sua prim eira frase, que assim se inicia: “Am ei O Mediterrâneo apaixonadam ente, sem dúvida porque sou um hom em do Norte” (Braudel nasceu em Lorraine, ao norte da França).

O obj etivo é dem onstrar que todas as características geográficas têm a sua história, ou m elhor, são parte da história, e que tanto a história dos acontecim entos quanto a história das tendências gerais não podem ser com preendidas sem elas. O capítulo sobre as m ontanhas, por exem plo, discute a cultura e a sociedade das regiões m ontanhosas, o conservadorism o dos m ontanheses, as barreiras socioculturais que separam os hom ens da m ontanha dos da planície, e a necessidade de m uitos j ovens m ontanheses em igrarem , tornando-se m ercenários (Ibid. pp. 34 ss).

ocidental, nessa época dom inado pelos espanhóis, com O Mediterrâneo oriental, subm etido aos turcos. “A política apenas segue o roteiro de um a realidade subj acente. Esses dois Mediterrâneos, com andados por dirigentes rivais, eram física, econôm ica e culturalm ente diferentes entre si” (Ibid. p.137). A região m editerrânea, porém , continuava a ser um a unidade, m ais una do que a Europa, segundo Braudel, graças tanto ao clim a, aos vinhos e às oliveiras quanto ao próprio m ar.

Esse notável volum e causou im ediatam ente sensação no m undo histórico francês. Sua reputação expandiu-se em ondas cada vez m ais am plas em direção às outras ciências e a outras partes do m undo (ver capítulo 5). Não se pode duvidar de sua originalidade. Contudo, com o o próprio autor reconhece em seu ensaio bibliográfico, o livro se insere num a tradição ou, m ais exatam ente, em diversas tradições diferentes.

Em prim eiro lugar, é claro, na tradição dos Annales, um a revista com vinte anos quando o livro foi publicado. “O que devo aos Annales, ao seu ensino e inspiração, constitui a m aior de m inhas dívidas” (Ibid. p. 22). A prim eira parte do livro, que trata do papel do m eio am biente, deve m uito à escola geográfica francesa, do próprio Vidal de la Blache, cuj as páginas sobre O Mediterrâneo foram “lidas” e “relidas” por Braudel, às m onografias regionais inspiradas pelo m estre (por exem plo, Cvij ic (1918). Tam bém Lucien Febvre está presente nessa prim eira parte de O Mediterrâneo, não som ente com o o autor de um ensaio de geografia histórica, m as porque sua tese sobre Felipe II e o Franco-Condado se iniciava com um a introdução geográfica da m esm a espécie, em bora em escala m ais reduzida.

Um a presença igualm ente sentida em O Mediterrâneo, em bora possa parecer irônica, é a do hom em que Febvre adorava atacar, o geógrafo alem ão Friedrich Ratzel, cuj as idéias sobre geopolítica aj udaram Braudel a form ular as suas sobre um bom núm ero de tem as, que variavam do im pério às ilhas (Ratze1, 1897, esp. cap. 13 e 21). São m enos visíveis sociólogos e antropólogos, em bora o capítulo sobre a civilização m editerrânea m ostre traços da influência das idéias de Marcel Mauss sobre o autor (Mauss, 1930, 231-51; conf. Braudel, 1969, pp. 201-3).

Entre os historiadores, o que influenciou m ais Braudel foi o m edievalista Henri Pirenne, cuj o fam oso Mahomet et Charlemagne defendia que, para com preender a ascensão de Carlos Magno, o fim da tradição clássica e a construção da Idade Média, o historiador deveria afastar-se da história da Europa, ou da cristandade; por outro lado, sua visão, ao estudar o Médio Oriente Muçulm ano, de dois im périos rivais que se confrontavam através do Mediterrâneo oitocentos anos antes de Suleim an, o Magnífico, e Felipe II, deve ter sido um a inspiração para Braudel. Curiosam ente, em bora esse tenha sido o últim o livro de Pirenne, seu proj eto nasceu num cam po de prisioneiros durante a

Prim eira Guerra Mundial, enquanto Braudel trabalhou o seu num cam po de prisioneiros da Segunda Guerra Mundial (Pirenne, 1937).

Avaliações de O Mediterrâneo

Braudel lam entava, quando da publicação da segunda edição, que o livro havia sido m uito elogiado, m as pouco criticado. Houve, porém , críticas, algum as delas convincentes, procedentes dos Estados Unidos e de outros países{46}. Ao nível de detalhes, um bom núm ero de afirm ações de Braudel foi contestado por pesquisadores posteriores. A tese sobre a “falência da burguesia”, por exem plo, não satisfez os historiadores dos Países Baixos, cuj os m ercadores continuaram a prosperar. A sua tese sobre a relativa insignificância da batalha de Lepanto foi m odificada, senão m esm o rej eitada em obras recentes{47}.

Um a outra lacuna da obra atraiu m enos atenção, m as deve ser aqui enfatizada. Apesar de sua aspiração de atingir o que cham ava de “história total”, Braudel m uito pouco tinha a dizer sobre atitudes, valores, ou mentalidades coletivas, m esm o no capítulo dedicado a “Civilizações”. Nisso diferia enorm em ente de Febvre, apesar de sua adm iração pelo Le problème de l’incroyance (Braudel, 1969, p. 208). Exem plificando: Braudel pouco tem a dizer sobre honra, vergonha e m asculinidade, em bora, com o um bom núm ero de antropólogos dem onstrou, esse sistem a de valores tinha, e ainda tem , grande im portância no m undo m editerrâneo, tanto do lado cristão quanto do m uçulm ano (Peristiany, 1965, Blok, 1981). Em bora as crenças religiosas – católica e m uçulm ana – tivessem obviam ente, na época. de Felipe II, grande im portância para o m undo m editerrâneo, o historiador francês não as discute. Apesar de seu interesse pelas fronteiras culturais, curiosam ente nada. tem a dizer sobre-as relações entre o cristianism o e o m uçulm anism o nesse período. Essa ausência de interesse pela influência recíproca entre cristianism o e islam ism o contrasta com o dem onstrado por historiadores anteriores da Espanha e do Médio Oriente, cuj as obras assinalavam a existência de lugares m uçulm anos sagrados freqüentados por cristãos, ou m ães m uçulm anas que batizavam seus filhos para protegê-los da lepra ou de lobisom ens (Hasluck, 1929){48}.

Algum as críticas são ainda m ais radicais. Um crítico am ericano lam enta que Braudel “tenha se enganado ao dar um a resposta poética a um problem a histórico do passado”, perdendo assim seu livro, por um lado, essa dim ensão, e que a organização do livro, por outro, secciona os eventos de seus fatores sociogeográficos que poderiam explicá-los (Baily n, 1951). Tais críticas m erecem ser discutidas m ais detalhadam ente.

A insinuação de que o livro falha por não se propor um problem a seria irônica se bem fundam entada, pois Febvre e Bloch insistiram na ênfase de um a história voltada para problem as, e o próprio Braudel escreveu que “A região não

é o alicerce da pesquisa. Esse alicerce é o problem a”. ( Annales, 1949, citado em Hexter, 1972, p.105). Poderia Braudel esquecer seu próprio conselho? Coloquei a questão para ele num a entrevista realizada em 1977. Não hesitou na resposta. “Meu grande problem a, o único problem a a resolver, é dem onstrar que o tem po avança com diferentes velocidades”{49}. Mesm o assim , grandes setores desse denso estudo não lidam com esse problem a, pelo m enos não diretam ente.

A crítica à organização tripartite do livro foi antecipada, m as não respondida por Braudel em seu prefácio. “Se for criticado em razão do m étodo em pregado na elaboração do livro, espero que pelo m enos cada um a de suas partes, considerada isoladam ente, possa ser tida com o bem realizada.” Um m eio de fugir às críticas teria sido iniciar o livro pela história dos acontecim entos (com o eu próprio fiz no resum o do livro), e m ostrar que é ininteligível sem a história das estruturas que, por sua vez, é ininteligível sem a história do m eio. Iniciar, porém , pelo que considerava a história “superficial” dos acontecim entos seria intolerável para Braudel. Sob as circunstâncias em que esboçou sua obra – na prisão – foi psicologicam ente necessário que olhasse além da curta duração54.

Outra crítica radical a O Mediterrâneo diz respeito ao determ ininism o de Braudel, que é o exato oposto do voluntarism o de Febvre. Diz um crítico britânico: “O Mediterrâneo de Braudel é um m undo insensível ao controle hum ano” (J. H. Elliott, New York Review of Books, 3.5.1973). É provavelm ente revelador que Braudel use em seus escritos, m ais de um a vez, a m etáfora da prisão, descrevendo o hom em com o “prisioneiro” não som ente do seu am biente físico, m as tam bém de sua estrutura m ental (os quadros mentais são também prisões de longa duração) (Braudel, 1969, p. 31){50}. Diferentem ente de Febvre, Braudel não percebe a dupla face das estruturas, que são, ao m esm o tem po, estim ulantes e inIbidoras. “Quando penso no indivíduo, escreveu um a vez, sou sem pre inclinado a vê-lo com o prisioneiro de um destino sobre o qual pouco pode influir” (Braude1, 1949, p.1244).

É j usto, porém , acrescentar que o determ inism o braudeliano não é sim plista: prova-o sua insistência na necessidade de explicações pluralistas; seus críticos, por outro lado, ao rej eitarem seu determ inism o, nada oferecem de preciso ou construtivo. O debate sobre os lim ites da liberdade e o determ inism o é um daqueles que deverão perm anecer até quando a historiografia existir. Independentem ente da opinião dos filósofos, é extrem am ente difícil aos

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