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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo
PETER BURKE
A REVOLUÇÃO FRANCESA DA HISTORIOG RAFIA: A ESCOLA DOS ANNALES (1929-1989)
Formatação/conversão ePub Relíquia Tradução Nilo Odália 2ª Edição Editora UNESP
Fundação para o Desenvolvim ento Da UNESP
São Paulo 1992
Copy right © 1990 by Peter Burke Título original em inglês: The French Historical Revolution: The Annales School 1929-1989.
Copy right © 1990 da tradução brasileira: Editora Unesp, da Fundação para o Desenvolvim ento da Universidade Estadual
Paulista (FUNDUNESP)
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Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional (Câmara brasileira rio Livro, SP, Brasil)
Índices para catálogo sistemático:
Burke, Peter.
A Revolução Francesa da historiografia: a Escola dos Annales 1929-1989 / Peter Burke; tradução Nilo Odália. – São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1991. Bibliografia.
l. Annales (Revista) 2. França – história – Revolução Francesa – Historiografia 3. Historiadores – França l. Título. 91-04028
CDD - 944.04072 - 944.0072
1. Escola dos Annales: Historiógrafos: França 944.00072 2. Historiógrafos: História
944.0072
3. Historiografia: Revoluçào Francesa 944.04072 4. Historiógrafos: França: História
944.0072
5. Revolução Francesa: Historiografia 944.04072 ISBN 85-7139-0013-4
Índice Apresentação
Prefácio 1
O Antigo Regim e na Historiografia e seus Críticos 2
Os Fundadores: Lucien Febvre e Marc Bloch I – OS ANOS INICIAIS
II – ESTRASBURGO
III – A CRIAÇÃO DOS ANNALES
IV – A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS ANNALES 3
A Era de Braudel I – O MEDITERRÂNEO
II – O BRAUDEL DAS ÚLTIMAS OBRAS
III – O NASCIMENTO DA HISTÓRIA QUANTITATIVA 4
A Terceira Geração
I – DO PORÃO AO SÓTÃO
II – O “TERCEIRO NÍVEL” DA HISTÓRIA SERIAL III – REAÇÕES: ANTROPOLOGIA, POLÍTICA E NARRATIVA 5
Os Annales num a Perspectiva Global I – A ACOLHIDA AOS ANNALES II – UM BALANÇO FINAL Glossário: A Linguagem dos Annales Bibliografia
Apresentação
Em seu fam oso livro sobre a história da historiografia, Fueter{1} cham a a atenção pára o fato de que toda nova abordagem histórica se origina de um acontecim ento que determ ina o rum o da própria história. A insatisfação que os j ovens Marc Bloch e Lucien Febvre dem onstravam , nas décadas de 10 e 20, em relação à história política, sem dúvida estava vinculada à relativa pobreza de suas análises, em que situações históricas com plexas se viam reduzidas a um sim ples j ogo de poder entre grandes – hom ens ou países – ignorando que, aquém e além dele, se situavam cam pos de forças estruturais, coletivas e individuais que lhe conferiam densidade e profundidade incom patíveis com o que parecia ser a frivolidade dos eventos. Se a história, com o sem pre pretendeu Febvre, era filha de seu tem po, não seria possível continuar a fazer esse tipo de história convencional que nem correspondia aos anseios de um a hum anidade que vivia, nessas décadas, m om entos de convulsões e rupturas com o passado, nem conseguia responder satisfatoriam ente às exigências do novo hom em que daí surgia.
A necessidade de um a história m ais abrangente e totalizante nascia do fato de que o hom em se sentia com o um ser cuj a com plexidade em sua m aneira de sentir, pensar e agir, não podia reduzir-se a um pálido reflexo de j ogos de poder, ou de m aneiras de sentir, pensar e agir dos poderosos do m om ento. Fazer um a outra história, na expressão usada por Febvre, era portanto m enos redescobrir o hom em do que, enfim , descobri-lo na plenitude de suas virtualidades, que se inscreviam concretam ente em suas realizações históricas. Abre-se, em conseqüência, o leque de possibilidades do fazer historiográfico, da m esm a m aneira que se im põe a esse fazer a necessidade de ir buscar j unto a outras ciências do hom em os conceitos e os instrum entos que perm itiriam ao historiador am pliar sua visão do hom em . Com o em Michelet, não se desprezava o subj etivo, a individualidade, com o em Marx ou em outros historiadores que assentavam suas análises no econôm ico e no social; não se esquecia de que as estruturas sem pre têm algo a dizer a respeito do com portam ento do hom em ; e com o Burckhardt, afirm ava-se que o hom em não se confinava a um corpo a ser m antido, m as tam bém um espírito que criava e sentia diferentem ente, em situações diferençadas.
Talvez resida nessa intenção de diversificar o fazer historiográfico a m aior contribuição de Bloch e Febvre, quando, além de produzirem um a obra pessoal significativa, fundaram a revista Annales, com o explícito obj etivo de fazer dela um instrum ento de enriquecim ento da história, por sua aproxim ação com as ciências vizinhas e pelo incentivo à inovação tem ática.
Duas personalidades, dois tem peram entos, duas m aneiras de abordagem do hom em harm onizando-se num a com binação que possibilitou o franqueam ento
das fronteiras da história, perm itindo de um lado a liberdade hum ana e a individualidade preservadas, e de outro, a ação do hom em presente no interior de estruturas que a lim itam , condicionam e m esm o determ inam . Essa tensão criativa entre liberdade e determ inism o tornou possível a colaboração entre os dois historiadores e a criação dos Annales. E com isso, um a renovação dos estudos historiográficos, que atinge sua plena expansão e efervescência com a cham ada História Nova. Peter Burke cham a a atenção em seu texto para o fato de que se se fizesse, na época, um a previsão quanto ao nascim ento de um a nova história, a França não seria um a das favoritas para ser seu berço, visto que em outros países, na Alem anha por exem plo, pareciam existir m elhores condições para que tal ocorresse. Mas foi na França que ela nasceu. Talvez possam os encontrar um a explicação no fato de que, depois da Revolução Francesa e com o surgim ento da historiografia rom ântica, a sensibilidade histórica do povo francês aguçouse, perm itindo que a história se enraizasse em seu cotidiano. Sem dúvida, a obra histórica e pessoal de Michelet m uito contribuiu para essa transform ação, pois ele foi não apenas o grande historiador da Revolução, m as tam bém o hom em que transform ou o fato histórico na saga de um a nação.
Creio que se pode dizer que com Michelet a história penetrou nos hábitos da nação, pois sua obra conseguiu “realizar um a verdadeira ressurreição da ... vida nacional”{2}.
Em bora os historiadores ligados à Escola dos Annales – e Peter Burke é apenas m ais um exem plo – busquem , aquém do século XIX, as origens do trabalho histórico que realizam recuando até os gregos, sem dúvida devem a Michelet não algum as de suas qualidades, m as, o que m e parece m ais im portante, a criação do clim a em ocional e intelectual necessário para que a ciência histórica se transform asse num a necessidade do hom em francês.
Se a conquista do Oeste am ericano encontrou sua glorificação no popular faroeste, transform ado num tem a cinem atográfico por excelência, a Revolução Francesa perm itiu aos historiadores franceses encontrarem o m eio de fazer ouvir sua voz, constituindo-se num a fonte contínua para as m ais criativas escolas historiográficas.
O livro de Peter Burke sobre a Escola dos Annales tem , ao lado de suas m últiplas virtudes, a de propiciar ao leitor culto e ao especialista um a visão sintética e abrangente do que ela foi e é atualm ente. A capacidade de Burke, de em poucas palavras, situar um problem a, estabelecer vinculações e classificações, perm ite usufruir de seu dom ínio sobre ó que escreve, transferindo ao leitor, m esm o quando não integralm ente fam iliarizado com os problem as tem áticos e m etodológicos, ou com as inúm eras ram ificações da História Nova, um conhecim ento que o habilitará a program ar-se para um estudo m ais sério e sistem ático.
um a via de m ão única e que buscar o conhecim ento do hom em integral e total – preocupação constante de Marx – não deve lim itar-se a vê-lo com o prisioneiro de estruturas asfixiantes, m as tam bém com o um espírito capaz de ser livre por sua criatividade.
Afirm ou Lévi-Strauss, em seu livro O Pensamento Selvagem, que sua am bição era realizar, ao nível da superestrutura, o que Marx realizara ao nível da infraestrutura. Inspirados pela tensão estrutura e individualism o, nascida de Bloch e Febvre, um a significativa contribuição foi dada pela História Nova para que se alcançasse o ideal levistraussiano. E Peter Burke nos põe diante desse fato com sim plicidade e com petência. Da m esm a m aneira que nos perm ite tom ar conhecim ento e com preender por que todas as grandes questões da historiografia contem porânea passam necessariam ente pelos historiadores vinculados, direta ou indiretam ente, à História Nova. Por todas essas qualidades e por vir preencher m ais um a lacuna de nossa bibliografia histórica, o livro de Peter Burke, lançado no Brasil ao m esm o tem po de sua edição inglesa, será um título obrigatório na biblioteca de todos os am antes da história.
São Paulo, 5 de agosto de 1990. Nilo Odália
Prefácio
Da produção intelectual, no cam po da historiografia, no século XX, um a im portante parcela do que existe de m ais inovador, notável e significativo, origina-se da França. La nouvelle histoire, com o é freqüentem ente cham ada, é pelo m enos tão conhecida com o francesa e tão controvertida quanto La nouvelle cuisine (Le Goff, 1978). Um a boa parte dessa nova história é o produto de um pequeno grupo associado à revista Annales, criada em 1929{3}. Em bora esse grupo sej a cham ado geralm ente de a “Escola dos Annales”, por se enfatizar o que possuem em com um , seus m em bros, m uitas vezes, negam sua existência ao realçarem as diferentes contribuições individuais no interior do grupo4.
O núcleo central do grupo é form ado por Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernand Braudel, Georges Duby, Jacques Le Goff e Em m anuel Le Roy Ladurie. Próxim os desse centro estão Ernest Labrousse, Pierre Vilar, Maurice Agulhon e Michel Vovelle, quatro im portantes historiadores cuj o com prom isso com um a visão m arxista da história particularm ente forte no caso de Vilar – coloca-os fora desse núcleo. Aquém ou além dessa fronteira estão Roland Mousnier e Michel Foucault. Este aparece esporadicam ente neste estudo em razão da interpenetração de seus interesses históricos com os vinculados aos Annales.
A revista, que tem hoj e m ais de sessenta anos, foi fundada para prom over um a nova espécie de história e continua, ainda hoj e, a encoraj ar inovações. As idéias diretrizes da revista, que criou e excitou entusiasm o em m uitos leitores, na França e no exterior, podem ser sum ariadas brevem ente. Em prim eiro lugar, a substituição da tradicional narrativa de acontecim entos por um a história-problem a. Em segundo lugar, a história de todas as atividades hum anas e não apenas história política. Em terceiro lugar, visando com pletar os dois prim eiros obj etivos, a colaboração com outras disciplinas, tais com o a geografia, a sociologia, a psicologia, a econom ia, a lingüística, a antropologia social, e tantas outras. Com o dizia Febvre, com o seu característico uso do im perativo: “Historiadores, sej am geógrafos. Sej am j uristas, tam bém , e sociólogos, e psicólogos” (Febvre, 1953, p.32). Ele estava sem pre pronto “para pôr abaixo os com partim entos” e lutar contra a especialização estreita{4}. De m aneira sim ilar, Braudel escreveu O Mediterrâneo com o o fez para “provar que a história pode fazer m ais do que estudar j ardins m urados”{5}.
O obj etivo deste livro é descrever, analisar e avaliar a obra da escola dos Annales. Essa escola é, am iúde, vista com o um grupo m onolítico, com um a prática histórica uniform e, quantitativa no que concerne ao m étodo, determ inista em suas concepções, hostil ou, pelo m enos, indiferente à política e aos eventos. Esse estereótipo dos Annales ignora tanto as divergências individuais entre seus m em bros quanto seu desenvolvim ento no tem po. Talvez sej a preferível falar num m ovim ento dos Annales, não num a “escola”{6}.
Esse m ovim ento pode ser dividido em três fases. Em sua prim eira fase, de 1920 a 1945, caracterizou-se por ser pequeno, radical e subversivo, conduzindo um a guerra de guerrilhas contra a história tradicional, a história política e a história dos eventos. Depois da Segunda Guerra Mundial, os rebeldes apoderaram -se do establishement histórico. Essa segunda fase do m ovim ento, que m ais se aproxim a verdadeiram ente de um a “escola”, com conceitos diferentes (particularm ente estrutura e conj untura) e novos m étodos (especialm ente a “história serial” das m udanças na longa duração), foi dom inada pela presença de Fernand Braudel.
Na história do m ovim ento, um a terceira fase se inicia por volta de 1968. É profundam ente m arcada pela fragm entação. A influência do m ovim ento, especialm ente na
França, j á era tão grande que perdera m uito das especificidades anteriores. Era um a “escola” unificada apenas aos olhos de seus adm iradores externos e seus críticos dom ésticos, que perseveravam em reprovar-lhe a pouca im portância atribuída à política e à história dos eventos. Nos últim os vinte anos, porém , alguns m em bros do grupo transferiram -se da história socioeconôm ica para a sociocultural, enquanto outros estão redescobrindo a história política e m esm o a narrativa.
A história dos Annales pode assim ser interpretada em term os da existência de três gerações, m as serve tam bém para ilustrar o processo cíclico com um segundo o qual os rebeldes de hoj e serão o establishement de am anhã, transform ando-se, por sua vez, no alvo dos novos rebeldes. Mesm o assim , algum as de suas preocupações básicas perm anecem , pois a revista e os indivíduos a ela associados oferecem o m ais sistem ático exem plo, neste século, de um a interação fecunda entre a história e as ciências sociais.
Este breve estudo do m ovim ento dos Annales pretende atravessar diversas fronteiras culturais. Obj etiva, de um lado, tentar com preender o m undo francês, de outro, explicar, tanto quanto possível, a década de 20 às gerações posteriores e a prática do historiador para sociólogos, antropólogos, geógrafos e outros cientistas sociais. Ele se apresenta sob a form a de um a história que busca harm onizar um a organização cronológica a um a tem ática.
O problem a com esse tipo de com binação, aqui ou em qualquer outro estudo histórico, é o que se conhece com o “a contem poraneidade do não-contem porâneo”. Braudel, por exem plo, em bora fosse excepcionalm ente aberto, às novas idéias, m esm o num a idade avançada, não alterou fundam entalm ente sua m aneira de ver e escrever a história, desde os anos 30, quando planej ava seu Mediterrâneo, até a década de 80, quando trabalhava seu livro sobre a França.
Daí a necessidade de ter tom ado algum as liberdades com a ordem cronológica.
história intelectual. Não aspira a ser o estudo acadêm ico definitivo sobre o m ovim ento dos Annales, o que, espero, alguém faça no século XXI. Só então poderão ser utilizadas fontes às quais não tive acesso, com o os rascunhos m anuscritos de Marc Bloch ou as cartas não publicadas de Febvre e Braudel{7}. Seu autor irá precisar tanto de um conhecim ento especializado da história da historiografia, quanto da história da França do século XX.
O que tentei escrever é algo bem diferente. É um ensaio de caráter m ais pessoal. Já m e descrevi, algum as vezes, com o um “com panheiro de viagem ” dos Annales. Em outras palavras, um historiador de fora que, com o m uitos outros estrangeiros, buscou sua inspiração no m ovim ento. Tenho acom panhado seu destino de m aneira m uito próxim a nestes últim os trinta anos. Mas, ao m esm o tem po, Cam bridge é suficientem ente afastada de Paris para tornar possível escrever um a história crítica das contribuições dos Annales, em bora Febvre e Braudel tenham sido excelentes políticos acadêm icos, pouco será dito, nas páginas que se seguem , sobre esse aspecto do m ovim ento – a rivalidade entre a Sorbonne e o, Hautes Études, por exem plo, ou a luta pelo poder de nom eações e sobre a elaboração dos curricula9. Resisti tam bém , com algum rem orso, à tentação de escrever um estudo etnográfico dos habitantes do 54, Boulevard{8}Raspail{9}, seus ancestrais, os casam entos endogâm icos, as facções, as relações chefe-subordinado, os estilos de vida, as diferentes m entalidades e tantas outras coisas.
Concentrar-m e-ei, ao invés disso, nos m elhores livros produzidos pelos m em bros do grupo, e tentarei avaliar sua im portância na história da historiografia. Pode parecer paradoxal discutir um m ovim ento que foi m antido coeso por um a revista, utilizando livros e não artigos11. Foram , porém , as m onografias que produziram a longo prazo o m aior im pacto, quer sobre o público profissional, quer sobre o público em geral.
O m ovim ento tem sido freqüentem ente discutido com o se pudesse ser atribuído a apenas três ou quatro de seus m em bros. As realizações de Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernand Braudel e outros são realm ente espetaculares.
Contudo, com o no caso de m uitos m ovim entos intelectuais, esse é um em preendim ento coletivo para o qual contribuições significativas foram feitas por um bom núm ero de indivíduos. Isso é m ais óbvio no caso da terceira geração, m as tam bém e verdadeiro para a era de Braudel, valendo m esm o para o tem po de seus fundadores.
Trabalho em equipe foi um sonho de Febvre desde 1936{10}.
Depois da guerra, o sonho tornou-se realidade. Proj etos de trabalho em equipe sobre a França incluíam a história da estrutura social, a história da produtividade agrícola, a história do livro no século XVIII, a história da educação, a história da habitação e m esm o um estudo dos conscritos no século
XIX, com a utilização da inform ática.
Este estudo conclui-se com um a discussão acerca das reações, entusiásticas ou críticas, ao m ovim ento dos Annales, um balanço de sua acolhida em diferentes partes do m undo e por diferentes disciplinas, e um a tentativa de situálo na história da historiografia. Meu obj etivo (apesar da relativa brevidade deste ensaio) é dar ao leitor condições de com preender o m ovim ento com o um todo.
Naturalm ente, devo bastante a conversas m antidas com m em bros do grupo dos Annales, especialm ente com Fernand Braudel, Em m anuel Le Roy Ladurie, Jacques Le Goff,
Michel Vovelle, Krzy stof Pom ian, Roger Chartier e Jacques Revel, em Paris ou tam bém em locais m ais exóticos, do Taj Mahal ao Em m anuel College.
Gostaria de agradecer à m inha esposa, Maria Lúcia, a m eu editor, John Thom pson, e a Roger Chartier, por seus com entários aos esboços iniciais deste estudo. Sinto-m e igualm ente em débito com Juan Maiguashca, que acendeu m eu entusiasm o pelos Annales, cerca de trinta anos atrás, e com os diálogos m antidos com Alan Baker, Norm an Birnbaum , John Bossy, Stuart Clark, Robert Darnton, Clifford Davies, Natalie Davis, Javier Gil Puj ol, Carlo Ginzburg, Ranaj it Guha, Eric Hobsbawm , Gábor Klaniczay, Geoffrey Parker, Gwy n Prins, Carlos Martinez Shaw, No Schoffer, Henk Wesseling e outros que, com o eu, tentaram m esclar seu envolvim ento com os Annales com um a certa distância crítica.
1
O Antigo Regime na Historiografia e seus Críticos
Lucien Febvre e Marc Bloch foram os líderes do que pode ser denom inado Revolução Francesa da Historiografia. Para interpretar as ações dos revolucionários, contudo, é necessário conhecer algum a coisa do antigo regim e que desej avam derrubar. Para sua descrição e com preensão, não é suficiente perm anecer nos quadros historiográficos restritos da situação francesa do início do século, quando Febvre e Bloch eram estudantes. Torna-se necessário exam inar a história da historiografia na sua longa duração.
Desde os tem pos de Heródoto e Tucídides, a história tem sido escrita sob um a variada form a de gêneros: crônica m onástica, m em ória política, tratados de antiquários, e assim por diante. A form a dom inante, porém , tem sido a narrativa dos acontecim entos políticos e m ilitares, apresentada com o a história dos grandes feitos de grandes hom ens – chefes m ilitares e reis. Foi durante o Ilum inism o que ocorreu, pela prim eira vez, um a contestação a esse tipo de narrativa histórica{11}.
Por volta de m eados do século XVIII, um certo núm ero de escritores e intelectuais, na Escócia, França, Itália, Alem anha e em outros países, com eçou a preocupar-se com o que denom inava a “história da sociedade”. Um a história que não se lim itava a guerras e à política, m as preocupava-se com as leis e o com ércio, a m oral e os “costum es”, tem as que haviam sido o centro de atenção do fam oso livro de Voltaire Essai sur lés moeurs.
Esses estudiosos abandonaram o que John Millar de Glasgow cham ara “aquela face com um dos eventos que recobre os detalhes do historiador vulgar”, para concentrarem -se na história das estruturas, tais com o o sistem a feudal ou a constituição britânica. Alguns deles dedicaram -se à reconstrução de com portam entos e valores do passado, especialm ente à história do sistem a de valores conhecido corno “cavalaria”; outros à história da arte, da literatura e da m úsica. Por volta do final do século, esse grupo internacional de estudiosos havia produzido um conj unto de obras extrem am ente im portante. Alguns historiadores, com o Edward Gibbon em seu Declínio e Queda do Império Romano, integraram à narrativa dos acontecim entos políticos esse novo tipo de história sociocultural.
Contudo, um a das conseqüências da cham ada “Revolução Copernicana” na história ligada ao nom e de Leopold von Ranke, foi m arginalizar, ou re-m arginalizar, a história sociocultural. Os interesses pessoais de Ranke não se lim itavam à história política. Escreveu sobre a Reform a e a Contra-Reform a e não rej eitou a história da sociedade, da arte, da literatura ou da ciência. Apesar disso, o m ovim ento por ele liderado e o novo paradigm a histórico elaborado arruinaram a “nova história” do século XVIII. Sua ênfase nas fontes dos arquivos
fez com que os historiadores que trabalhavam a história sociocultural parecessem m eros dilettanti.
Os epígonos de Ranke foram , porém , m ais intolerantes que o m estre e, num a época em que os historiadores buscavam profissionalizar-se, a história não-política foi excluída da nova disciplina acadêm ica{12}. As novas revistas profissionais fundadas no final do século XIX, tais com o Historische Zeitschrift (1865), Revue Historique (1876) e a English Historical Review (1886), concentravam -se na história dos eventos políticos. O prefácio do prim eiro volum e da EHR declarava sua intenção de dedicar-se aos tem as da Política e do Estado”. Os ideais dos novos historiadores profissionais foram sistem atizados em com pêndios sobre o m étodo histórico, com o, por exem plo, o dos historiadores franceses Langlois e Seignobos, Introduction aux études historiques (1897).
Mesm o no século XIX, alguns historiadores foram vozes discordantes. Michelet e Burckhardt, que escreveram suas histórias sobre o Renascim ento m ais ou m enos na m esm a época, 1865 e 1860, respectivam ente, tinham um a visão m ais am pla da história do que os seguidores de Ranke.
Burckhardt interpretava a história com o um cam po em que interagiam três forças – o Estado, a Religião e a Cultura –, enquanto Michelet defendia o que hoj e poderíam os descrever com o um a “história da perspectiva das classes subalternas”, em suas próprias palavras “a história daqueles que sofreram , trabalharam , definharam e m orreram sem ter a possibilidade de descrever seus sofrim entos” (Michelet, 1842, p.8).
Não podem os esquecer que a obra-prim a do velho historiador francês Fustel de Coulanges, A Cidade Antiga (1864), dedicava-se antes à história da religião, da fam ília e da m oralidade, do que aos eventos e à política. Marx tam bém oferecia um paradigm a histórico alternativo ao de Ranke. Segundo sua visão histórica, as causas fundam entais da m udança histórica deveriam ser encontradas nas tensões existentes no interior das estruturas socioeconôm icas.
Os historiadores econôm icos foram , talvez, os opositores m ais bem organizados da história política. Gustav Schm oller, professor em Estrasburgo, nesse tem po pertencente à Alem anha (1872), por exem plo, foi o cabeça de um a im portante escola histórica. Um a revista de história social e econôm ica foi criada em 1893, a Vierteljahrschrift fur Sozial – und Wirschaftsgeshichte. Na Grã-Bretanha, alguns estudos clássicos de história econôm ica, com o os de William Cunnigham , Growth of English Trade, e J.E. Thorold Roger, Six Centuries of Work and Wages, datam de 1882 e 1884, respectivam ente (Colem an, 1987, pp. 38ss). Henri Hauser, Henri Sée e Paul Mantoux, na França, com eçaram a escrever sobre história econôm ica no final do século XIX (Hauser; 1899; Sée, 1901; Mantoux, 1906).
O dom ínio, ou com o dizia Schm oller, o “im perialism o” da história política, era freqüentem ente contestado na últim a parte do século XIX. J.R.Green abria
sua Short History of English People afirm ando claram ente ter “devotado m ais espaço a Chaucer do que a Crécy, a Caxton do que à insignificante disputa entre os y orkistas e lancastreanos, à lei dos pobres de Elisabete do que à sua vitória de Cadiz, à Reform a Metodista do que à fuga do Jovem Pretendente (Charles Edward Stuart)”{13}.
Os fundadores da nova disciplina, a sociologia, expressavam pontos de vista sem elhantes. Augusto Com te ridiculizava o que cham ava de “insignificantes detalhes estudados infantilm ente pela curiosidade irracional de com piladores cegos de anedotas inúteis”, e defendia o que cham ou, num a frase fam osa,”um a história sem nom es” (Com te, 1864, lição 52). Herbert Spencer queixava-se de que “As biografias dos m onarcas (e nossas crianças aprendem pouco m ais do que isso) pouco esclarecem a respeito da ciência da sociedade” (Spencer, 1861, pp. 26ss). Da m esm a m aneira, Durkheim despreza os acontecim entos particulares, nada m ais do que “m anifestações superficiais”; a história aparente m ais do que a história real de um a determ inada nação (Durkheim , 1896, p.v.).
Por volta de 1900, as críticas à história política eram particularm ente agudas, e as sugestões para sua substituição bastante férteis{14}. Na Alem anha, nesses anos, ocorreu a cham ada “controvérsia de Lam precht”. Karl Lam precht, professor em Leipzig, colocava em oposição à história política – nada m ais do que um a história de indivíduos – a história cultural ou econôm ica, considerada com o a história do povo. Posteriorm ente, definiu a história “prim ordialm ente com o um a ciência sociopsicológica”{15}.
Nos Estados Unidos, o fam oso estudo de Frederick Jackson Turner sobre “o significado da fronteira na história am ericana” (1893) produziu um a clara ruptura com a história dos acontecim entos políticos, ao passo que, no início do novo século, um m ovim ento foi lançado por Jam es Harvey Robinson sob a bandeira da “Nova História”. De acordo com Robinson, “História inclui qualquer traço ou vestígio das coisas que o hom em fez ou pensou, desde o seu surgim ento sobre a terra”. Por m étodo, “A Nova História deverá utilizarse de todas as descobertas sobre a hum anidade, que estão sendo feitas por antropólogos, econom istas, psicólogos e sociólogos”{16}.
Nessa m esm a época, na França, a natureza da história tornou-se o obj eto de um intenso debate. A estreiteza intelectual do establishment histórico não deve ser, porém , exagerada. O fundador da Revue Historique, Gabriel Monod, conciliava seu entusiasm o pela “história científica” alem ã com sua adm iração por Michelet, a quem conhecera pessoalm ente e cuj a biografia escrevera. Era por sua vez adm irado por seus alunos Hauser e Fcbvre.
Por outro lado, Ernest Lavisse, um dos m ais im portantes historiadores em atividade na época, era o editor geral da História da França, publicada em dez volum es, entre 1900 e 1912. Seus interesses pessoais estavam voltados para a
história política, de Frederico, o Grande, a Luís XIV. Contudo, a concepção histórica subj acente a esses dez volum es era m uito m ais abrangente. A seção introdutória foi escrita por um geógrafo, o volum e dedicado ao Renascim ento, por um historiador da cultura, e o próprio balanço da época de Luís XIV, escrito por Lavisse, dedicou parte substancial às artes e, particularm ente, à política das artes{17}. Portanto, é inexato pensar que os historiadores profissionais desse período estivessem exclusivam ente envolvidos com a narrativa dos acontecim entos políticos.
De qualquer form a, os historiadores eram vistos dessa m aneira pelos cientistas sociais. O desprezo de Durkheim pelos eventos j á foi m encionado; seu seguidor, o econom ista François Sim iand, foi m ais longe nesse sentido, quando, num fam oso artigo, atacou o que cham ou de “os ídolos da tribo dos historiadores”. Segundo ele, havia três ídolos que deveriam ser derrubados: “o ídolo político”, “a eterna preocupação com a história política, os fatos políticos, as guerras, etc., que conferem a esses eventos um a exagerada im portância”; o “ídolo individual”, isto é, a ênfase excessiva nos cham ados grandes hom ens, de form a que m esm o estudos sobre instituições eram apresentados com o “Pontchartrain e o Parlam ento de Paris”, ou coisas desse gênero; e, finalm ente, o “ídolo cronológico”, ou sej a, “o hábito de perder-se nos estudos das origens” (Sim iand, 1903).
Os três tem as seriam caros aos Annales, e a eles retornarem os. O ataque aos ídolos da tribo dos historiadores fazia um a referência particular a um dos chefes tribais, o protegido de Lavisse, Charles Seignobos, professor da Sorbonne e co-autor de um a das m ais conhecidas introduções ao estudo da história{18}. Talvez tenha sido por essa razão que Seignobos se transform ou no sím bolo de tudo aquilo a que os reform adores se opunham . De fato, ele não era exclusivam ente um historiador político, pois escrevera tam bém sobre civilização. Estava interessado na relação entre a história e as ciências sociais, em bora não tivesse a m esm a visão dessa relação que Sim iand ou Febvre. Estes publicaram duras críticas a seu trabalho. A crítica de Sim iand apareceu num a nova revista, a Revue de Synthèse Historique, fundada por um grande em preendedor intelectual, Henri Berr. Sua intenção, encoraj ar historiadores a colaborar com outras disciplinas, especialm ente com a psicologia e a sociologia, na esperança de produzir o que ele cham ava de “psicologia histórica” ou “coletiva” (Siegel, 1983). Em outras palavras, o que os am ericanos cham am de “psico-história” é consideravelm ente anterior aos anos 50 e ao fam oso estudo de Erik Erikson sobre o Young Man Luther (Erikson, 1954).
O ideal de Berr, um a psicologia histórica construída através de um a cooperação interdisciplinar, teve grande ressonância em dois j ovens que escreveram para a sua revista. Seus nom es: Lucien Febvre e Marc Bloch.
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Os Fundadores: Lucien Febvre e Marc Bloch
O m ovim ento dos Annales, em sua prim eira geração, contou com dois líderes: Lucien Febvre, um especialista no século XVI, e o m edievalista Marc Bloch. Em bora fossem m uito parecidos na m aneira de abordar os problem as da história, diferiam bastante em seu com portam ento. Febvre, oito anos m ais velho, era expansivo, veem ente e com bativo, com um a tendência a zangar-se quando contrariado por seus colegas; Bloch, ao contrário, era sereno, irônico e lacônico, dem onstrando um am or quase inglês por qualificações e j uízos reticentes{19}. Apesar, ou por causa dessas diferenças, trabalharam j untos durante vinte anos entre as duas guerras{20}.
I – OS ANOS INICIAIS
Em 1897, Lucien Febvre foi adm itido na Escola Norm al Superior, então separada da Universidade de Paris. Era um a pequena escola superior, m as altam ente qualificada intelectualm ente, sendo conhecida com o “o equivalente francês do Jowett’s Balliol” (Lukes, 1973, p. 45). Aceitava pouco m enos de quarenta alunos por ano e era organizada segundo as linhas tradicionais da escola pública britânica (os estudantes eram todos internos e a disciplina rígida) (Pey refitte, 1946). O ensino era m inistrado através de sem inários dirigidos por professores altam ente com petentes nas diferentes disciplinas, e através de aulas expositivas. Aparentem ente, Febvre foi “alérgico” ao filósofo Henri Bergson, em bora m uito tenha aprendido com quatro de seus colegas{21}.
Um deles foi Paul Vidal de la Blache, um geógrafo interessado em colaborar com historiadores e sociólogos. Fundou um a nova revista, os Annales de Géographie (1891), visando a incentivar essa aproxim ação{22}. O segundo desses professores foi o filósofo e antropólogo Lucien Lévy -Bruhl, criador do conceito de “pensam ento pré-lógico” ou “m entalidade prim itiva”, um tem a que surgiria nos trabalhos de Febvre na década de 30. O terceiro foi o historiador da arte Ém ile Mâle, um dos pioneiros a concentrar-se não na história das form as, m as na das im agens, na “iconografia”, com o dizem os hoj e. Seu fam oso estudo sobre a arte religiosa do século XIII foi publicado em 1898, o m esm o ano em que Febvre ingressou na Escola. Finalm ente, havia o lingüista Antoine Meillet, um aluno de Durkheim particularm ente interessado nos aspectos sociais da língua. A adm iração de Febvre por Meillet e seu interesse pela história social da língua evidenciam -se claram ente nas inúm eras resenhas de livros de lingüistas que escreveu entre 1906 e 1926 para a Revue de Syrnthèse Historique, de Henri Berr{23}.
Febvre reconheceu tam bém seu débito para com inúm eros historiadores anteriores. Durante toda a vida expressou sua adm iração pela obra de Michelet. Reconheceu Burckhardt com o um de seus “m estres”, j untam ente com o historiador da arte Louis Couraj od. Confessa tam bém um a surpreendente influência, a do político de esquerda Jean Jaurès, através de sua obra Histoire socialiste de la révolution française (1901-3), “tão rica em intuições sociais e econôm icas” (Febvre, 1922, p.vi. Cf. Venturi, 1966, 5-70).
A influência de Jaurès pode ser constatada na tese de doutoram ento de Febvre – um estudo sobre sua própria região, a Franche-Com té, a área em torno de Besançon, no final do século XVI, quando era governada por Felipe II, da Espanha. O título da tese, Philippe II et la Franche-Comté, m ascara o fato de ser um a im portante contribuição tanto à história sociocultural quanto à história política. Preocupavase não som ente com a revolta dos Países Baixos e a ascensão do absolutism o, m as tam bém com a “feroz luta entre duas classes rivais”, a decadente e endividada nobreza e a ascendente burguesia de advogados e m ercadores, que adquiria suas propriedades. Esse esquem a interpretativo se assem elha ao m arxista; Febvre, porém , difere profundam ente de Marx ao descrever a luta entre os dois grupos “com o um conflito de idéias e sentim entos tanto quanto um conflito econôm ico” (Febvre, 1911, p. 323). Sua interpretação desse conflito, e m esm o da história em geral, não diferia da de Jaurès, que se dizia “ao m esm o tem po, m aterialista com Marx e m ístico com Michelet”, reconciliando as forças sociais com as paixões individuais (Jaurès, 1901, pp. 65 ss).
Outra característica m arcante e poderosa do estudo de Febvre era a introdução geográfica, que traçava um nítido perfil dos contornos da região. A introdução geográfica que era quase, de rigueur (obrigatória) nas monografias provinciais da escola dos Annales na década de 60, pode ter sido m odelada pelo fam osO Mediterrâneo de Braudel, m as não tem nele suas origens.
O interesse de Febvre pela geografia histórica era suficientem ente grande para publicar, sob o incentivo de Henri Berr, um estudo geral sobre o assunto com o título de La terre et l’évolution humaine. Esse trabalho havia sido planej ado antes da Prim eira Guerra Mundial, m as teve de ser interrom pido quando o autor trocou as funções de professor universitário pelas de capitão de um a com panhia de artilharia. Term inada a guerra, Febvre retornou ao seu estudo, auxiliado agora por um colaborador, que foi publicado em 1922.
Esse extenso estudo, que aborreceu alguns geógrafos profissionais por ser o trabalho de um não-especialista, era o desenvolvim ento das idéias do antigo professor de Febvre, Vidal de la Blache.
De outro m odo, foi im portante para Febvre o geógrafo alem ão Ratzel. O historiador francês era um a espécie de ostra intelectual, que elaborava m ais facilm ente suas idéias quando irritado pelas conclusões de algum colega. Ratzel
foi um dos pioneiros da geografia hum ana (Anthropogéographie, com o ele cham ava); atribuía, porém , diferentem ente de Vidal de la Blache, m aior influência ao m eio físico sobre o destino hum ano{24}.
Nesse debate em que o determ inism o geográfico opunha-se à liberdade hum ana, Febvre apoiou firm em ente Vidal e atacou Ratzel, enfatizando a variedade de possíveis respostas aos desafios de um dado m eio. Segundo ele, não havia necessidades, existiam possibilidades (Febvre, 1922, p. 284). Para citar um dos exem plos favoritos de Febvre: um rio pode ser tratado por um a sociedade com o um a barreira, m as por outra, com o um m eio de transporte. Em últim a análise, não é o am biente físico que determ ina a opção coletiva, m as o hom em , sua m aneira de viver, seu com portam ento. Mesm o as atitudes religiosas aí se incluíam . Num a discussão sobre rios e m eios de transporte, Febvre não se esqueceu de discutir as rotas dos peregrinos (Idem, pp. 402 ss).
A carreira de Bloch não foi m uito diferente da de Febvre. Freqüentou tam bém a École Norm ale, onde seu pai
Gustavo ensinava história antiga. Aprendeu, igualm ente, com Meillet e Lévy -Bruhl; contudo, com o com prova a análise de suas últim as obras, sua m aior influência foi a do sociólogo Ém ile Durkheim , que iniciou sua carreira de professor na École m ais ou m enos na época de seu ingresso. Ele m esm o um egresso da École, aprendeu a levar a história com seriedade através de seus estudos com Fustel de Coulanges (Lukes, 1973, pp. 58 ss). Em sua m aturidade, Bloch reconheceu sua profunda dívida com a revista de Durkheim , Année Sociologique, lida entusiasticam ente por um grande núm ero de historiadores de sua geração, tais com o Louis Gernet, dedicado ao estudo das letras clássicas, e o sinologista Marcel Granet{25}.
Apesar de seu interesse pela política contem porânea, Bloch optou por especializar-se em história m edieval. Com o Febvre, interessava-se pela geografia histórica, tendo por especialização a Île-de-France, sobre a qual publicou um estudo em 1913. Esse estudo revela que, com o Febvre, Bloch pensava no tem a sob a perspectiva de um a história-problem a. Num estudo de caráter regional, aprofundou-se tanto a ponto de pôr em questão a própria noção de região, argum entando que esta dependia do problem a que se tinha em m ente. “Por que, escreveu ele, devem os esperar que o j urista interessado no feudalism o, o econom ista que está estudando a evolução da propriedade no interior do país nos tem pos m odernos, e o filólogo que trabalha os dialetos populares tenham todos que respeitar fronteiras precisam ente idênticas?” (Bloch, 1913, p. 122).
O com prom isso de Bloch com a geografia era m enor do que o de Febvre, em bora seu com prom isso com a sociologia fosse m aior. Contudo, am bos estavam pensando de um a m aneira interdisciplinar. Bloch, por exem plo, insistia na necessidade de o historiador regional com binar as habilidades de um arqueólogo, de um paleógrafo, de um historiador das leis, e assim por diante
(Idem, pp. 60-1). Esses dois hom ens tinham necessariam ente de encontrar-se. A oportunidade ocorreu por ocasião de suas nom eações para cargos na Universidade de Estrasburgo.
II – ESTRASBURG O Ambiente
O período de encontros diários, em Estrasburgo, entre Bloch e Febvre durou apenas treze anos, de 1920 a 1933; foi, porém , de vital im portância para o m ovim ento dos Annales. Mais im portante ainda pelo fato de que am bos estavam cercados por um grupo nterdisciplinar extrem am ente atuante. Daí a im portância de realçar-se o am biente em que se form ou o grupo.
Nos anos que se seguiram à Prim eira Guerra Mundial, Estrasburgo era efetivam ente um a nova universidade, pois a cidade vinha de ser recentem ente desanexada da Alem anha, criando um am biente favorável à inovação intelectual e facilitando o intercâm bio de idéias através das fronteiras disciplinares{26}.
Quando Fcbvre e Bloch se encontraram em 1920, logo após as suas nom eações com o professor e maitre de conférences respectivam ente, rapidam ente tornaram -se am igos (Febvre, 1945, p. 393). Suas salas de trabalho eram contíguas, e as portas perm aneciam abertas (Fcbvre, 1953, p. 393). Em suas infindáveis discussões participavam colegas com o o psicólogo social Charles Blondel, cuj as idéias eram im portantes para Febvre, e o sociólogo Maurice Halbwachs, cuj o estudo sobre a estrutura social da m em ória, publicado em 1925, causou profunda im pressão em Bloch{27}.
Outros m em bros da faculdade de Estrasburgo participaram , ou vieram a participar, das preocupações de Febvre e Bloch. Henri Brem ond, autor da m onum ental Histoire littéraire du sentiment religieux en France depuis la fin des guerres de religion (1916-1924), lecionou em Estrasburgo durante o ano de 1923. Sua preocupação com a psicologia histórica inspirou Febvre em sua obra sobre a Reform a{28}. O historiador da Revolução Francesa, Georges Lefebvre, cuj o interesse pela história das m entalidades era m uito próxim o do dos fundadores dos Annales, aí lecionou de 1928 a 1937. Não é gratuito sugerir que a idéia do fam oso estudo de Lefebvre sobre “o grande m edo de 1789” deve algum a coisa ao ensaio anterior de Bloch sobre o rum or{29}. Lecionaram tam bém em Estrasburgo: Gabriel Le Bras, um pioneiro da sociologia histórica das religiões, e André Piganiol, cuj o ensaio sobre os j ogos rom anos, publicado em 1923, revela um interesse pela antropologia sem elhante ao de Bloch na sua obra Les Rois Thaumaturges, editada um ano depois32.
históricas do nosso século{30}. Seu tem a é a crença, m uito difundida na Inglaterra e na França, da Idade Média até o século XVIII, de que os reis tinham o poder de curar os doentes de escrófula, um a doença da pele conhecida com o o “m al dos reis”, através do toque real, que se fazia acom panhar de um ritual com essa finalidade.
O tem a pode ainda parecer relativam ente m arginal, e certam ente o foi na década de 20; Bloch faz um a referência irônica a um colega inglês que com entara esse “seu curioso desvio”(Bloch, 1924, p.18). Para Bloch, m uito ao contrário, o toque real não era um desvio, m as um a estrada principal, em verdade une voie royale em todos os sentidos. Era um ensaio profundo que lançava luz sobre im portantes problem as. O autor considerava seu livro, com algum a razão, um a contribuição à história política da Europa no sentido m ais am plo e verdadeiro do term o “político”, pois nele analisava a idéia de m onarquia. “O m ilagre real foi acim a de tudo a expressão de um a concepção particular do poder político suprem o” (Idem, pp. 21,51).
Les Rois Thaumaturges
Les Rois Thaumaturges foi notável em pelo m enos três outros aspectos. Prim eiro, porque não se lim itava a um período histórico convencional, a Idade Média. Seguindo o conselho que m ais tarde form ularia em term os gerais em seu Métier d’historien, Bloch escolheu o período para localizar o problem a, o que significava que tinha de escrever “a história da longa-duração”, com o foi cham ada por Braudel um a geração depois. Tal perspectiva conduziu Bloch a conclusões interessantes; um a das m ais im portantes foi a de constatar que o ritual do toque não apenas sobreviveu no século XVII, a época de Descartes e de Luís XIV, m as nele floresceu com o j am ais, pelo m enos no sentido de que Luís XIV tocou um núm ero m aior de doentes do que seus predecessores. Não era, pois, um m ero “fóssil” (Idem, pp. 21, 360 ss).
Em segundo lugar, o livro era um a contribuição ao que Bloch denom inava “psicologia religiosa”. O núcleo central do estudo era a história dos m ilagres e concluía com um a discussão explicita do problem a de com o explicar que o povo pudesse acreditar em tais “ilusões coletivas” (Idem, p. 420 ss). Observou ainda que alguns doentes retornavam para serem tocados um a segunda vez, o que sugere que sabiam ter o tratam ento fracassado, m as que o fato não destruía sua fé. “O que criava a fé no m ilagre era a idéia de que deveria haver um m ilagre” (Idem, p.429). Na fam osa frase do filósofo Karl Popper, form ulada poucos anos depois, a crença não era “falsificável” (Popper, 1935, pp. 440 ss).
Esse tipo de discussão sobre a psicologia da crença não era algo que se podia esperar de um estudo histórico nos anos 20. Era um tem a para psicólogos, sociólogos ou antropólogos. De fato, Bloch discutiu seu livro com seu colega de
Estrasburgo Charles Blondel, com o tam bém com Febvre (Bloch, 1924, p. vi). Bloch conhecia tam bém o trabalho de Jam es Frazer, e o que o Golden Bough tinha a dizer sobre a m onarquia sagrada, da m esm a m aneira que sabia o que Lévy -Bruhl dissera sobre a “m entalidade prim itiva” (Idem, p. 421n). Em bora Bloch não se utilizasse freqüentem ente do term o, seu livro foi um a obra pioneira para o que hoj e designam os de história “das m entalidades”. Pode tam bém ser descrito com o um ensaio de sociologia histórica, ou antropologia histórica, por focalizar os sistem as de crença – e tam bém de sociologia do conhecim ento.
A frase com que Bloch descreveu m ais de um a vez seu livro foi “representações coletivas”, um a frase bastante associada ao sociólogo Ém ile Durkheim , tanto quanto a frase “fatos sociais”, encontrável tam bém nas páginas de sua obra (Idem, pp. 21, 51, 409). Em verdade, sua m aneira de abordar o tem a deve m uito a Durkheim e a sua escola (Febvre, 1945, p. 392; Rhodes, 1978). Sob um aspecto, pelo m enos, pode ser criticado, talvez tardiam ente, por ter sido durkheim iniano um pouco dem ais.
Em bora tenha sido cuidadoso ao registrar as dúvidas sobre o toque real expressas durante o longo período coberto por seu livro, ainda assim Bloch cria um a im pressão de consenso m uito forte, talvez em virtude de não oferecer nenhum a discussão sistem ática da espécie de povo que acreditava (ou, em certas oportunidades, desacreditava); ou dos grupos cuj o interesse era que outros acreditassem no toque real. Não discute o fenôm eno em term os ideológicos. É claro que se deve observar que nos dias de Bloch o conceito de “ideologia” era usado de um a m aneira sim ples e reducionista. Com o hoj e não m ais ocorre, é difícil im aginar que um historiador ligado aos Annales, Georges Duby, por exem plo, pudesse discutir o problem a do toque real sem recorrer a esse conceito. Um terceiro aspecto que enfatiza a im portância do estudo de Bloch é o que seu autor cham a de “história com parativa”. Algum as com parações são feitas com sociedades distantes da Europa com o a Polinésia, em bora sej am feitas de passagem e com extrem a cautela: (“não transfiram os os Antípodas para Paris ou Londres”) (Bloch, 1924, pp. 52ss, 421n.). A com paração entre a França e a Inglaterra, porém , é central no livro, os dois únicos países em que o toque real era praticado. Acrescente-se, porém , que a com paração é feita de m aneira a perm itir a constatação das diferenças.
Em resum o, Bloch j á utilizava, em 1924, o que iria pregar quatro anos m ais tarde num artigo cham ado “Por um a história com parativa das sociedades européias”. Nele o autor defende o que cham a de “uso m ais com petente e m ais geral” do m étodo com parativo, distinguindo o estudo das sim ilaridades entre sociedades do estudo das suas diferenças, e o estudo das sociedades vizinhas no tem po e no espaço do das sociedades distantes entre si, recom endando, porém , que os historiadores praticassem am bas as perspectivas” (Bloch, 1928).
Febvre, o Renascimento e a Reforma
Depois de com pletar seu antigo proj eto de geografia histórica, Febvre, tal qual Bloch, m udou o rum o de seus interesses para o estudo de atitudes coletivas, ou “psicologia histórica”, com o ele, da m esm a m aneira que seu am igo Henri Berr, denom inou esse tipo de trabaho{31}. Até o fim de sua vida, concentrou o m elhor de seu trabalho de pesquisa na história do Renascim ento e da Reform a, especialm ente na França.
Essa fase de sua carreira iniciou-se com quatro conferências sobre os prim órdios do Renascim ento francês, um a biografia de Lutero e um artigo polêm ico sobre as origens da Reform a francesa, a qual descreveu com o “um a questão m al posta”. Todos esses trabalhos referiam -se à história social e à psicologia coletiva.
As conferências sobre o Renascim ento, por exem plo, rej eitavam as explicações tradicionais defendidas pelos historiadores da arte e da literatura (inclusive por seu velho m estre Ém ile Mâle), que realçavam a evolução interna do m ovim ento. Em com pensação, Febvre oferecia um a explicação social dessa “revolução”, realçando o que se poderia cham ar de “dem anda” de novas idéias e, tal com o em sua tese sobre a Franche-Com té, a ascensão da burguesia (Febvre, 1962, 529-603, particularm ente pp. 573, 581).
De m aneira sem elhante, o artigo de Febvre sobre a Reform a critica os historiadores religiosos por tratarem o episódio com o essencialm ente vinculado aos “abusos” institucionais e a intenção de reform á-los, m ais do que com o “um a profunda revolução do sentim ento religioso”. De acordo com Febvre, a razão dessa revolução deveria ser buscada, ainda um a vez, na ascensão da burguesia, que “necessitava de... um a religião que fosse transparente, racional, hum ana e am avelm ente fraternal” (Febvre, 1929, rpr Febvre, 1957, p.38 e 1973, p.66){32}. A invocação da burguesia parece hoj e um pouco recorrente, m as o intento de ligar a religião à história social perm anece inspiradora.
Pode-se ficar surpreso ao deparar com Febvre escrevendo um a biografia histórica nesse m om ento de sua carreira. Contudo, no prefácio de seu estudo sobre Lutero, o autor previne que não se trata de um a biografia, m as da tentativa de resolver um problem a, a saber, “o problem a da relação entre o indivíduo e o grupo, entre a iniciativa pessoal e a necessidade social”. Constatou a existência, em 1517, de seguidores potenciais de Lutero, a burguesia de novo, um grupo social que adquiria “um novo sentido de im portância social” e que facilm ente se ressentia da interm ediação clerical entre Deus e o hom em . Mas ao m esm o tem po recusou-se a reduzir as idéias de Lutero a um reflexo dos interesses da burguesia. Pelo contrário, defendia que essas idéias criativas nem sem pre eram apropriadas para a sua posição social e tiveram que ser adaptadas às necessidades e à m entalidade da burguesia pelos seguidores de Lutero,
especialm ente por Melanchton (Febvre (1928), pp. 104 ss, 287 ss.)16. Deve ter sido óbvio, nesse m om ento que certos tem as são recorrentes na obra de Febvre e tam bém que há um a tensão criativa entre sua fascinação pelos indivíduos e sua preocupação com grupos sociais – com o havia entre seu profundo interesse em escrever um a história social da religião e seu igualm ente forte desej o de não reduzir atitudes e valores espirituais a m eras expressões de transform ações na econom ia ou na sociedade.
III – A CRIAÇÃO DOS ANNALES
Logo depois do foral da Prim eira Guerra Mundial, Febvre idealizou um a revista internacional dedicada à história econôm ica, que seria dirigida pelo grande historiador belga Henri Pirenne. O proj eto encontrou grandes dificuldades, tendo sido abandonado. Em 1928, foi Bloch quem tom ou a iniciativa de ressuscitar os planos de um a revista (um a revista francesa, agora), obtendo sucesso em seu proj eto (Febvre (1945), pp.398 ss; Leuilliot (1973), p.317 ss, Fink (1989), ch.7). 16. Sobre os m eios de com binar a nova história com biografia, ver Le Goff (1989).
Novam ente, foi solicitado que Pirenne dirigisse a revista; contudo, em virtude de sua recusa, Febvre e Bloch tornaram -se os editores. Originalm ente cham ada Annales d’histoire économique et sociale, tendo por m odelo os Annales de Géographie de Vidal de la Blache, a revista foi planej ada, desde o seu início, para ser algo m ais do que um a outra revista histórica. Pretendia exercer um a liderança intelectual nos cam pos da história social e econôm ica{33}. Seria o porta-voz, m elhor dizendo, o alto-falante de difusão dos apelos dos editores em favor de um a abordagem nova e interdisciplinar da história.
O prim eiro núm ero surgiu em 15 de j aneiro de 1929. Trazia um a m ensagem dos editores, na qual explicavam que a revista havia sido planej ada m uito tem po antes, e lam entavam as barreiras existentes entre historiadores e cientistas sociais, enfatizando a necessidade de intercâm bio intelectual{34}. O com itê editorial incluía não som ente historiadores, antigos e m odernos, m as tam bém um geógrafo (Albert Dem angeon), um sociólogo (Maurice Halbwachs), um econom ista (Charles Rist), um cientista político (André Siegried, um antigo discípulo de Vidal de la Blache){35}.
Os historiadores econôm icos predom inaram nos prim eiros núm eros: Pirenne, que escreveu um artigo sobre a educação dos m ercadores m edievais; o historiador sueco Eli Heckscher, autor do fam oso estudo sobre o m ercantilism o; e o am ericano Earl Ham ilton, m uito conhecido por suas obras sobre as finanças am ericanas e sobre a revolução dos preços na Espanha. Nessa ocasião, a revista tinha a feição de um equivalente franeês, ou de um a rival, da Economic History Review inglesa. Contudo, em 1930, declarava-se a intenção de a revista
estabelecer-se “sobre o terreno m al am anhado da história social”39. Preocupava-se tam bém com o problem a do m étodo no cam po das ciências sociais, tal com o a Revue de Synthèse Historique.
O realce atribuído à história econôm ica sugere que Bloch era o co-editor predom inante nos prim eiros anos. Mas seria tem erário, sem se conhecer toda a sua correspondência, m uito da qual ainda não publicada, tentar adivinhar quem foi m ais im portante na criação dos Annales depois de 1929, ou m esm o com o dividiam as tarefas de dirigir a revista entre si. O que se pode afirm ar com bastante convicção é que, se Febvre e Bloch não concordassem no fundam ental de seu trabalho com um , o m ovim ento não teria sido um sucesso. Apesar disso, as contribuições históricas dos dois parceiros, depois de 1929, devem ser analisadas separadam ente.
A obra de Bloch sobre história rural e feudalismo
A carreira de Bloch foi m ais curta, violentam ente cortada pela guerra. Na últim a década de sua carreira acadêm ica, escreveu alguns estudos circunstanciais e dois livros im portantes. Os artigos incluíam um estudo sobre o m oinho de água e os obstáculos culturais e sociais para a sua difusão; e reflexões sobre as m udanças tecnológicas “com o um problem a de psicologia coletiva” (Bloch, 1967). Por ser Bloch, freqüentem ente, identificado com o um historiador39 Annales 2, p.2. Conf. um a carta de Bloch citada por Leuilliot (1973), p. 318: “nós nos atem os ao term o social” econôm ico, vale a pena dar atenção ao seu interesse pela psicologia, bastante óbvio não só no Les Rois Thaumaturges, m as tam bém significativo em sua conferência sobre a m udança tecnológica, pronunciada para um grupo de psicólogos profissionais e onde pregava a colaboração entre as duas disciplinas (Bloch, 1948).
O m elhor de seus esforços, porém , foi despendido na elaboração de seus dois grandes livros. Em prim eiro lugar, seu estudo sobre a história rural francesa. A origem do livro está num a série de conferências pronunciadas em Oslo, sob o auspício do instituto de Estudo Com parativo das Civilizações (Febvre, 1952, “Advertissement au lecteur”). Mas, num certo sentido, era o desdobram ento, no tem po e no espaço, de sua tese sobre a população rural da Île-de-France, na Idade Média, que havia sido planej ada antes da Prim eira Guerra e abandonada por ter de se apresentar ao exército. O livro, publicado em 1931, tem um pouco m ais de duzentas páginas, um ensaio breve sobre um grande tem a, que revela de m aneira clara a com petência do autor parà produzir sínteses e para ir direto ao coração de um problem a.
O ensaio foi e é im portante por um bom núm ero de razões. Do m esm o m odo que Les Rois Thaumaturges, ele se desenvolve na longa duração, do século XIII ao século XVII, utilizando com parações esclarecedoras e contrastes entre a
França e a Inglaterra. A concepção de Bloch sobre “história agrária”, definida com o “o estudo associado de técnicas e costum es rurais”, era incom um ente am pla para a época, pois os historiadores estavam m ais propensos a escrever sobre tem as m ais restritos com o a história da agricultura, da servidão ou da propriedade agrária. Igualm ente incom um era o uso sistem ático de fontes não-literárias, tais com o m apas cartográficos das propriedades, e sua am pla concepção de civilização agrária, um term o escolhido por realçar o fato de que a existência de diferentes sistem as agrários não poderia ser explicada apenas através do m eio físico. (Bloch, 1931, pp. xi, 64).
Les caractères originaux de l’histoire rurale française é m ais fam oso, talvez, pela aplicação do “m étodo regressivo”. Bloch encarecia a necessidade de ler a “ história ao inverso”, pois conhecem os m ais a respeito dos últim os períodos e deve proceder-se de m aneira a ir do conhecido ao desconhecido (Idem, p. xii). Bloch trabalha de m aneira eficiente o m étodo, contudo não reclam a sua criação. Sob o nom e de “m étodo retrogressivo” havia j á sido em pregado por F.W. Maitland – um estudioso adm irado por Bloch – em sua obra clássica Domesday Book and Beyond (1897); o “além ” do título refere-se ao período anterior à realização do Dom esday Book, em 1086{36}.
Poucos anos antes, um outro estudo sobre Inglaterra m edieval cham ou a atenção de Bloch; foi o livro de Frederick Seebohm The English Village Community (1883), que se inicia com um capítulo sobre “The English Open Field Sy stem exam ined in its m odern rem ains” (“O sistem a inglês de cam pos abertos exam inado em sua m odernidade perm anece”), especialm ente em Hitchin (onde viveu o autor), antes de voltar-se sobre a Idade Média. Mesm o o velho historiador Fustel de Coulanges, professor do pai de Bloch, Gustavo, havia em pregado um a abordagem sem elhante em seu livro La cité antique (1864), ao estudar os gens ou as linhagens gregas e rom anas. Ele adm itia que as evidências desse grupo social “datavam de um tem po em que ele nada m ais era do que um a som bra de si m esm o”, m as argum entava que essas últim as evidências perm itiam “apreender vestígios” do que era o sistem a em sua plenitude{37}. Em outras palavras, Bloch não criou o novo m étodo. Sua tarefa foi em pregá-lo de um a m aneira m ais consciente e sistem ática do que os seus predecessores.
O segundo estudo, La societé féodale, é o livro pelo qual Bloch é m ais conhecido. É um a am biciosa síntese que abrange m ais de quatro séculos de história européia, vai de 900 a 1300, enfocando um a grande variedade de tópicos, m uitos dos quais discutidos em outras obras: servidão e liberdade, m onarquia sagrada, a im portância do dinheiro e outros. Por isso, pode-se afirm ar que se trata de um a obra que sintetiza o trabalho de toda a sua vida. Diferentem ente de seus prim eiros estudos sobre o sistem a feudal, não se restringe à análise das relações entre a propriedade agrária, a hierarquia social, a guerra e o estado. Preocupa-se com a sociedade feudal com o um todo, com o que hoj e
designaríam os “a cultura do feudalism o”. Com o tam bém , ainda um a vez, com a psicologia histórica, com o que o autor cham ava de “m odos de sentir e de pensar”. É a parte m ais original do livro, consubstanciada num a discussão sobre tem as com o o sentido do tem po, ou m elhor, a m edieval “indiferença pelo tem po”, ou, pelo m enos, sua falta de interesse em m ensurá-lo acuradam ente. Dedica tam bém um capítulo à “m em ória coletiva”, um tem a que tanto o fascinou quanto ao seu am igo, o sociólogo durkheim iniano Maurice Halbwachs (ver p. 33).
Sem dúvida, La societé féodale é o seu livro m ais durkheim iniano. Persiste em utilizar a linguagem da consciência coletiva, da memória, das representações coletivas (Bloch, 1939, pp. 363, 368, 379). Observações incidentais tais com o a que se segue são um eco das palavras do m estre: “em toda literatura, a sociedade contem pla sua própria im agem ” (Idem, p.156). O livro preocupa-se com um dos tem as centrais da obra de Durkheim , a coesão social. Essa form a particular de coesão, ou de “laços de dependência” (na sociedade feudal), é explicada de um a m aneira essencialm ente funcionalista, isto é, com o um a adaptação às “necessidades” de um m eio social específico, m ais precisam ente com o um a resposta a três ondas de invasão – a dos viquingues, a dos m uçulm anos e a dos m agiares.
A preocupação de Durkheim com a com paração, a tipologia e a evolução social deixou suas m arcas num capítulo ao foral do livro, intitulado “O feudalism o com o tipo social”. Neste, Bloch afirm a que o feudalism o não era um acontecim ento único, m as antes um a fase recorrente da evolução social. Com sua precaução habitual, observando a necessidade de análises m ais sistem áticas, não deixa de citar o Japão com o um a sociedade que espontaneam ente produziu, em sua essência, um sistem a sim ilar ao desenvolvido no Ocidente m edieval europeu. Contudo, assinala diferenças significativas entre as duas sociedades, citando especialm ente o direito de o vassalo europeu desafiar seu senhor. De todo j eito, sua preocupação com tendências recorrentes e com parações com sociedades rem otas dão ao seu trabalho um caráter sociológico m ais m arcante do que em outros historiadores franceses de sua geração. Sendo m esm o excessivam ente sociológico para o gosto de Lucien Febvre, que critica Bloch por negligenciar a análise dos indivíduos de m aneira m ais detalhada.
IV – A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS ANNALES
Nos anos 30 o grupo de Estrasburgo dispersou-se. Febvre deixou a cidade em 1933 para ocupar um a cátedra no prestigioso Collège de France, enquanto Bloch som ente em 1936, para suceder Hauser na cadeira de história econôm ica da Sorbonne. Levando-se em consideração a im portância de Paris para a vida intelectual francesa, essas transferências são sinais evidentes do sucesso do
m ovim ento dos Annales. Com o tam bém a designação de Febvre para a presidência do com itê organizador da Encyclopédie Française, um a am biciosa aventura interdisciplinar cuj a publicação iniciouse em 1935. Um dos volum es m ais notáveis foi o editado pelo antigo professor de Febvre, Antoine Meillet, dedicado ao que se pode cham ar de “instrum ental intelectual”(outillage mental). Pode-se afirm ar que esse volum e lançou as bases para o nascim ento da história das m entalidades. Deve-se contudo assinalar que, nessa m esm a época, Georges Lefebvre, antigo colega de Febvre em Estrasburgo, publicou um artigo que se tornaria fam oso sobre o estudo das m ultidões revolucionárias e sua m entalidade coletiva. A m otivação para esse artigo foi sua oposição ao m enosprezo votado por Gustave Lebon, um psicólogo conservador, ao com portam ento dito irracional das m ultidões. Georges Lefebvre tentou, ao contrário, m ostrar a lógica de suas ações. Pouco a pouco os Annales converteram -se no centro de um a escola histórica. Foi entre 1930 e 1940 que Febvre escreveu a m aioria de seus ataques aos especialistas canhestros e em piricistas, além de seus m anifestos e program as em defesa de “um novo tipo de história” associado aos Annales – postulando por pesquisa interdisciplinar, por um a história voltada para problem as , por um a história da sensibilidade, etc. (Febvre, 1953, pp. 343, 55-60, 207-238).
Febvre estava sem pre inclinado a dividir o m undo entre os que estavam a seu favor e os que lhe eram contrários, e a história, entre a “deles” e a “nossa”{38}. Mas ele estava certam ente correto em reconhecer a existência, por volta de 1939, de um grupo de discípulos, um núcleo fiel de j ovens, que adotavam o que cham avam de “o espírito dos Annales” ( Annales, 1939, p.5). Provavelm ente estava pensando, em prim eiro lugar, em Fernand Braudel, que conhecera em 1937, m as sem dúvida existiam outros. Pierre Goubert estudava com Bloch nessa época, e, em bora viesse a especializar-se na história do século XVII, perm aneceu fiel ao estilo da história rural de seu m estre. Alguns de seus discípulos em Estrasburgo estavam , então, transm itindo suas m ensagens em escolas e universidades. Em Ly on, Maurice Agulhon estudou história com um deles, o m esm o acontecendo com Georges Duby, que apontou Bloch com o um de seus “m estres” (Duby, 1987; Duby /Lardreau, 1980, p. 40).
A Segunda Guerra Mundial freou esse desenvolvim ento. A reação de Bloch, em bora j á tivesse 53 anos, foi a de alistar-se no exército. Após a derrota francesa retornou, por pouco tem po, à vida acadêm ica, acabando por engaj ar-se na Resistência, na qual desem penhou um papel ativo até a sua captura pelos alem ães. Foi fuzilado em 1944. Apesar de suas atividades extram uros, Bloch encontrou tem po para escrever dois pequenos livros durante a guerra. Um deles, L’Étrange défaite, era, de um lado, o relato de um a testem unha ocular do colapso francês em 1939, de outro, a tentativa de com preendê-lo do ponto de vista de um historiador.