• Nenhum resultado encontrado

1. A CENSURA E A TRADUÇÃO DE LITERATURA INFANTIL NO

1.1 A CENSURA NO BRASIL

1.1.4 BREVE CONTEXTO POLÍTICO E SOCIAL DO REGIME

Após a era Vargas, outro momento conturbador no que tange a edições de livros e artes ocorreu a partir do golpe militar de 1964. Stephanou apresenta 5 objetivos do golpe: o combate ao comunismo, o desenvolvimento econômico, a soberania da nação brasileira, a integridade do território nacional e a defesa da democracia (STEPHANOU, 2001, p. 52).

No Brasil, o movimento militar de 1964 foi planejado na Escola Superior de Guerra (ESG). Serviu para resistir à infiltração comunista na

36

América Latina através da Doutrina de Segurança Nacional (DSN). A DSN adquiriu poder a ponto de extinguir praticamente toda forma de oposição. Criaram-se empresas estatais de comunicação, como a Embratel, a Telebrás, a Radiobrás, além da Rodovia Transamazônica (STEPHANOU, 2001, p. 55-59). Era uma espécie de política dupla: de desenvolvimento e de segurança. O Conselho de Segurança Nacional (CSN) era um órgão técnico que traçava os objetivos do país. As Forças Armadas combatiam o inimigo interno através da DSN (STEPHANOU, 2001, p. 61).

Em 21 de março de 2012, a TV Brasil veiculou, às vésperas do aniversário do golpe militar de 1964, um programa a respeito desse episódio, entrevistando diversas personalidades envolvidas e historiadores. Em suma, de acordo com os depoimentos apresentados, pode-se dizer que a articulação do golpe só ocorreu devido à influência dos Estados Unidos. Abraham Lincoln Gordon7, embaixador estadunidense de 1961 a 1966, desenhou um cenário catastrófico com relação ao comunismo infiltrado no Brasil. O serviço de inteligência estadunidense entrou em ação e iniciou com eficiência a propaganda anticomunista nos bastidores de vários setores, especialmente no da mídia de massa. Convenceu do suposto perigo tanto os governantes como o povo comum. Anos mais tarde, o próprio embaixador admitiu – extraoficialmente – haver exagerado e que falhara na interpretação dos fatos, o que também se constata em todos os âmbitos históricos. Cite-se também que, em 31 de agosto de 2013, o Jornal O Globo veiculou um editorial de conteúdo similar, atestando que não havia o perigo do golpe propalado, ou melhor, que havia um risco, mas o apoio editorial fornecido aos militares constituiu-se num erro.8

Consolidado o golpe, a ―operação limpeza‖, através de inquéritos, tirou muitos (supostos) opositores de circulação. Tais inquéritos eram viciados e facilmente condenavam pessoas com base em boatos (STEPHANOU, 2001, p. 60, 62-63). Com o AI-2 (veremos mais sobre os Atos Institucionais adiante), a Justiça Militar passou a julgar os casos, taxando a quase todos como subversivos. A condenação era simples e não carecia de provas. Eram os Tribunais Militares espalhando o terror a partir de 1965 (STEPHANOU, 2001, p. 63-65).

7 Um resumo da atuação dele pode ser obtido em

<http://pt.wikipedia.org/wiki/Lincoln_Gordon>. Acesso em 16 out. 2014.

8 O assunto pode ser lido em <http://oglobo.globo.com/pais/apoio-editorial-ao-golpe-de-64-foi-

37

Para coletar informações dos supostamente subversivos, foi criado o Serviço Nacional de Inteligência (SNI) que, embora atrelado ao CSN, tinha muita independência. Conforme Stephanou (2001, p. 66), a hierarquia de poder seria assim: CSN>AI>SNI>Lei de Segurança Nacional/Lei de Imprensa>Justiça Militar/Inquéritos ―localizados‖>Órgãos de Segurança/Inquéritos/Ação Policial.

O SNI transformou-se, na prática, na polícia secreta. Outros órgãos foram criados, todos com o mesmo objetivo de reprimir o inimigo arraigado internamente (STEPHANOU, 2001, p. 67). Observando atualmente essas situações através das leituras realizadas, a impressão que tenho é de que havia uma sincera vontade dos militares em promover a nação, porém o que eles aparentemente não sabiam é que estavam servindo a interesses estrangeiros. O inimigo real era justamente o que o incentivava a perseguir o inimigo comunista imaginário, pois, como atesta Stephanou, essa busca incessante ao suposto oponente fez com que o próprio governo, por meio das Forças Armadas, planejasse ataques terroristas, para acusar os opositores ―comunistas‖, atribuindo-lhes a autoria. Alguns ataques foram realizados; outros, não, pois ocorreram falhas na preparação ou na execução (2001, p. 69-71). Observando a conjuntura dos regimes ditatoriais na América Latina, deduzo que o poder de convencimento por parte da polícia federal estadunidense, o FBI (Federal Bureau of

Investigation) ou seu braço secreto, se mostrou eficiente diante dos

executores das ações. Por alguma razão, essa ação estadunidense guardava um profundo interesse de manipulação da situação na América Latina, sob o pretexto de barrar o Comunismo. Nos mesmos moldes articularam os golpes na Argentina e no Chile. Não havia interesse em que esses países se desenvolvessem. Promover uma caça aos malfeitores da nação seria uma boa maneira de manter os países ocupados com afazeres que não trariam retorno econômico, aumentando a dependência brasileira e dos países vizinhos com relação aos Estados Unidos.

Os Atos Institucionais foram publicados no Diário Oficial da União, num total de 17. O primeiro, na verdade, não tinha número, visto que deveria ser o único. Eles tiveram influência sobre a produção literária, especialmente o quinto Ato. Vejamos resumidamente os cinco primeiros, extraídos da Wikipedia9:

9 O texto virtual pode ser visto em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Atos_Institucionais>. Acesso

em 16 out. 2014. Os AIs podem também ser vistos na íntegra a partir de

<http://www4.planalto.gov.br/legislacao/legislacao-historica/atos-institucionais#content>. Acesso em 16 out. 2014.

38

O AI-1 (1964) aumentava os poderes do executivo e promovia uma ―limpeza‖, isto é, procurava eliminar os subversivos e as ideias contrárias ao nacionalismo.

O AI-2 (1965) pretendia aumentar o controle sobre o judiciário e o Congresso Nacional. Extinguiu os partidos políticos, deixando apenas dois: ARENA, do governo, e MDB, da oposição. Assim o governo controlava a representação política, garantindo a maioria. Sem poder legislar, a oposição exerceu o papel de denunciante das atrocidades policiais.

Já o AI-3 (1966) estabelecia a eleição indireta para governador, ao qual cabia escolher o prefeito da sua capital.

O AI-4 (1967) convocava o Congresso para revogar a Constituição de 1946 e em seu lugar instituir uma nova: a Constituição de 1967, que tentava dar um ar de democracia ao Regime. Ela, no entanto, legitimou o DSN, a edição de decretos-lei por parte do governo e o modelo econômico vigente. Além disso, a Lei de Imprensa e a Nova Lei de Segurança Nacional intensificavam as penas contra os que subvertiam e feriam a segurança nacional.

O AI-5 (1968) caracterizava-se por concentrar praticamente todo o poder nas mãos dos militares. O governo, em última análise, podia decidir o que quisesse em qualquer um dos três poderes, a ponto de até a própria Constituição tornar-se subordinada ao AI.

Conforme Stephanou, os militares resolveram trazer o desenvolvimento econômico, abrindo o Brasil ao capital exterior, a fim de acalmar a população. O Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG) conseguiu controlar o déficit e a inflação, mas o arrocho salarial foi inevitável. Com Costa e Silva, o PAEG se revitalizou com um enfoque mais técnico. ―Desenvolvimento‖ era uma palavra-chave (STEPHANOU, 2001, p. 83-88). Esse investimento funcionou para o cidadão comum, que acreditava na sinceridade do governo. A falta de conhecimento sobre as razões reais do golpe (isto é, que foi uma determinação dos Estados Unidos) fez com que muitos aprovassem o Regime Militar.