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2. A COMPLEXA TRAMA DE PODER EM PERÍODOS DE

2.3 O PODER DA TRADUÇÃO

2.3.2 UM INTRINCADO JOGO DE PODER

A edição ou tradução de literatura sempre foi alvo de atenção especial nos regimes autoritários, os quais manifestam uma enorme preocupação em querer controlar as ideias que circulam entre o povo. Por exemplo, os nazistas, em plena II Guerra Mundial, davam tanta importância às publicações ao ponto de investigarem as pequenas editoras, mesmo as de fora da Alemanha. Em 1940, conforme Mainer (2011, p. 76), os nazistas pediram ao governo do ditador Franco que banisse a tradução de poemas de Franz Werfel na obra Poesía en la

mano. Os alemães não queriam que Werfel, um judeu austríaco de

esquerda, promovesse suas ideias entre os espanhóis.

É normal haver sempre um duelo entre forças antagônicas. Pode- se reconhecer algumas similaridades em todos os movimentos governamentais autoritários, tanto na Europa quanto na América Latina, havendo somente pequenas mudanças na ênfase de determinados tópicos. A palavra ―controle‖ talvez resumisse todas as situações envolvidas, pois a intenção era dominar cada cidadão através da ordem social. Em seus discursos, alguns pilares dos ditadores se mostram – não necessariamente nessa ordem de importância – repetitivos: a união do povo (no sentido de pensarem e agirem todos da mesma forma, isto é, da forma como o controlador deseja), a moralidade, a justiça, os valores familiares, a religiosidade, a exaltação da nação e a dignificação dos dirigentes do país, geralmente militares. Como os livros e outras publicações sempre exerceram grande influência sobre as pessoas, a indústria editorial foi rotineiramente a mais vigiada nessas épocas. Também as mídias e diversas manifestações artísticas se encaixam nesse perfil.

Durante a ditadura na Grécia, o governo desejava criar um modo uniforme de pensar dos cidadãos, sem que eles percebessem essa manipulação. A propaganda sempre foi bem empregada nessas situações. Como diz Asimakoulas, o governo procurava inculcar no povo uma ideia que na aparência fosse correta, mas que na realidade

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poderia ser prejudicial à sociedade. A tática era confundir a percepção da realidade quanto aos interesses coletivos, geralmente invertendo valores, o que acabaria produzindo a ordem social desejada pela ditadura. Com a percepção equivocada do povo, assimilando sem questionar a real intenção do governo, o dominante transfere uma crença que acaba se tornando coletiva, uma espécie de capital de confiança. Entre as estratégias de impor, manter ou restaurar uma relação de dominância está a transfiguração ou o eufemismo, de modo que o dominado não perceba que está sendo envolvido. Se ainda assim não houver o êxito desejado, continua Asimakoulas, pode haver também a combinação de violência física com a simbólica para manter-se o poder (2007, p. 115). Tal fato é também detectado ao observarmos a história do Golpe Militar de 1964 no Brasil, já que a propaganda fez com que a população reconhecesse equivocadamente nos comunistas brasileiros uma ameaça em potencial, o que não condizia com a realidade, como já vimos anteriormente. Os militares se tornaram os ―salvadores‖ da nação. Ironicamente, entendo que eles mesmos foram vítimas de uma propaganda mais astuta engendrada pelos estadunidenses, induzindo-os a falhar na percepção do que de fato era importante para o país.

Observando as diversas ditaduras implantadas pelo mundo, algumas delas apresentavam o tema religião como ―arma‖. Na Grécia, a igreja Ortodoxa foi parceira nos eventos, estando ao alcance dos cidadãos comuns e inculcando neles os ideais da junta que governava o país. Na Espanha, a Igreja Católica foi ainda mais influente a ponto de se tornar a religião oficial da nação. Em Portugal, o Estado Novo implantado por António de Oliveira Salazar, de 1933 a 1974, usou de expediente parecido, dando espaço para a religião dominante no país. No caso brasileiro, a Igreja Católica também foi fundamental para os regimes autoritários, visto que dela emanavam os conceitos de justiça, valores familiares e bons costumes. A influência ainda se mostra tão presente ao ponto de em 2014 termos quatro feriados nacionais de cunho religioso: Paixão de Cristo (sexta-feira Santa); Nossa Senhora Aparecida; Finados; e Natal. Há ainda os pontos facultativos religiosos de Corpus Christi e a tarde da Véspera do Natal. Também faz parte da doutrina cristã a ideia de que se deve obedecer aos governos, parte que interessa sobremaneira a qualquer dirigente. Na América do Sul, diversos golpes de estado se valeram da religião para consolidarem seus governos. Na Argentina, José Maria Guido liderou um golpe em 1962; no Chile, também os conceitos ligados à religião Católica foram explorados por Augusto Pinochet com o golpe em 1973; no Uruguai,

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Juan María Bordaberry liderou o movimento também em 1973; bem antes deles, Alfredo Stroessner havia tomado o poder no Paraguai, em 1954; anterior a ele, temos Manuel Odría, que desencadeou um golpe no Peru em 1948. Estes são apenas alguns exemplos em que ditadores – quase todos militares – se estabeleceram e de uma forma branda ou acintosa se valeram da religião na consecução de seus planos ditatoriais. Talvez uma exceção a essa regra seja o regime comunista da antiga URSS, que demorou mais tempo para produzir uma mudança de mentalidade através do ateísmo (que não deixa de ―atuar‖ como uma religião na mente das pessoas), e mesmo assim não surtiu o efeito desejado. Com a volta da liberdade de crenças, hoje em dia se veem muitas manifestações religiosas no meio do povo russo, divulgadas através de diversos meios de comunicação e literatura.

Assim, cabe ressaltar que diante dessas razões apresentadas, diante do jogo de poder existente em uma tradução, as supostas censuras a serem encontradas podem não ser necessariamente censuras, mas frutos de outros vínculos e relações de poder. No entanto, como não tenho condições de medir esses vínculos, resta-me considerar o que o papel impresso me apresenta como fonte de informação.

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3. CRITÉRIOS METODOLÓGICOS PARA A ANÁLISE DE SEIS