1 A LEGITIMAÇÃO DA POSSE NO BRASIL COMO REQUISITO FUNDAMENTAL
2.1 BREVE HISTÓRICO ACERCA DA DESJUDICIALIZAÇÃO DAS DEMANDAS NO
Conforme Ribeiro e Viegas (2018, p. 4): “desjudicializar consiste em suprimir do âmbito judicial, atividade que tradicionalmente lhe eram impostas, transferindo-as para os chamados particulares em colaboração, entre eles, especialmente, os notários e o registradores públicos”. Assim, o principal objetivo seria conferir eficácia ao princípio da celeridade através da rapidez da solução do conflito no âmbito extrajudicial, permitindo a pacificação social.
Sobre esse aspecto, descrevem Barroso e Hecktheuer (2016, p. 99):
A desjudicialização transcende a natureza de mera política judicial, indicando mudanças para a criação de meios autônomos de solução de conflitos de interesse, que primam pela desburocratização, pela efetividade, pela pacificação social, pela celeridade e, acima de tudo, pela boa-fé e pela segurança jurídica.
Esta tendência vem se tornando realidade desde primórdios dos anos de 1990, quando, especificamente em 1992, foi promulgada a Lei 8.560, a qual legislou sobre o reconhecimento de paternidade diretamente nos cartórios extrajudiciais, pela escritura pública ou escrito particular arquivado na serventia, por testamento, mesmo que incidental, e ainda, facultativamente, pela via judicial (PINHO; PORTO, 2017).
Em 1994, com a Lei n° 8.951, a consignação em pagamento passou a poder ser feita extrajudicialmente, com a inserção do § 1 no art. 890 do CPC/73. Em 1997, a Lei 9.514, que trata de alienação judiciária de bem imóvel, permitiu o registro da alienação fiduciária em garantia de coisa imóvel diretamente no Registro de Imóveis.
Seguindo esta linha, uma importante forma de desjudicialização se deu com a possibilidade de arbitragem, conforme a Lei n. 9.307, de 23 de setembro de 1996, em que é possível a solução extrajudicial de algum conflito de interesses. Apesar de sua característica informal, uma sentença arbitral tem o mesmo efeito de uma sentença
judicial.
Neste sentido, acrescentam Barroso e Hecktheuer (2016, p.101):
Um símbolo notável do amadurecimento do processo de desjudicialização se deu com o advento da Lei n. 9.307, de 23 de setembro de 1996, que “Dispõe sobre a arbitragem”, a qual permite a solução de conflitos por árbitros privados eleitos pelas partes, cujas decisões têm efeito de trânsito em julgado desde que observados os requisitos legais e tratem de direitos patrimoniais disponíveis.
De igual modo, destaca-se o advento da Lei 11.441/07, com o divórcio e inventário extrajudiciais. Este foi um grande passo na desjudicialização do conflito, que passou a ser permitido no âmbito dos cartórios extrajudiciais, permitindo aos maiores capazes, sem filhos menores, com bens ou não, que se utilizassem dessa via de forma facultativa e célere para regularizar a situação de término da sociedade conjugal ou inventariar e repartir os bens deixados pelo de cujus (PINHO; PORTO, 2017).
Segundo Oliveira (2019, p. 27):
Os benefícios trazidos pela faculdade de se optar pela via extrajudicial (traduzida primeiramente pela Lei 11.441/2007 e hodiernamente pelas disposições pertinentes no Código de Processo Civil) podem ser sentidos de forma efetiva por toda a população. Estas vantagens se resumem, basicamente, em um avanço significativo em termos de agilidade dos processos, de desafogamento do Poder Judiciário e, sobretudo, de redução da interferência estatal nas relações familiares.
Contudo, interessante abordagem sobre esse assunto seria o esgotamento da via administrativa, o que tem alçado dúvidas entre os doutrinadores, sobre sua obrigatoriedade. Destaca Oliveira (2019) que não há no sistema jurídico brasileiro uma instância administrativa tida como obrigatória. Desta forma, a facultatividade da via possui caráter eminente. Sobre esse aspecto, o CNJ (2019) dispôs a respeito na Resolução n. 35: “Art. 2° - É facultada aos interessados a opção pela via judicial ou extrajudicial; podendo ser solicitada, a qualquer momento, a suspensão, pelo prazo de 30 dias, ou a desistência da via judicial, para promoção da via extrajudicial”.
herdeiros, seguindo a tendência de desjudicialização e de redução de burocracia e formalidades em atos de transmissão hereditária, recentemente houve uma importante novidade: o julgado de 15 de outubro de 2019. Neste julgado, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça decidiu pela possibilidade de uso da via extrajudicial mesmo existindo testamento, contanto que o mesmo tenha sido validado pela justiça, e sendo todos os herdeiros capazes e concordes, desta forma viabilizando e facilitando de maneira mais eficaz o acesso à via extrajudicial.
Em 2008, foi desjudicializado o procedimento de registro de nascimento após o prazo legal, através da lei 11.790. A providência, que antes só se dava através do Poder Judiciário, passou a ter o escopo extrajudicial. Flavia Hill (2019) destaca que:
[...] a necessidade de instauração de processo judicial tinha como escopo evitar a duplicidade do registro, na medida em que cabia ao magistrado aferir a inexistência de registro anterior de nascimento, para que, somente após, autorizasse a lavratura, pelo cartório, do registro tardio de nascimento dos maiores de doze anos.
Neste sentido, o ato em tela do magistrado foi substituído pela assinatura de duas testemunhas em requerimento protocolizado no âmbito da serventia extrajudicial do lugar da residência do interessado. Não obstante, a manifestação judicial não foi de todo afastada do procedimento, visto que, na hipótese de suspeita de falsidade e insuficiência de provas, visando saná-las, o oficial do Registro Civil de Pessoas Naturais conduzirá os autos ao juízo competente (PINHO; PORTO, 2017).
Ainda em 2009, a Lei 12.100 permitiu a correção de erros facilmente constatáveis pelo Oficial, de oficio ou por provocação, independentemente de qualquer pagamento, sem necessidade de intervenção judicial. Em 2017, este procedimento passou a dispensar também a manifestação do Ministério Público, através da Lei 13.484. Assim, no âmbito dos Cartórios, pode-se inferir que a valorização dos notários e registradores, que são profissionais dotados de fé pública, ao receber atribuições antes conferidas ao juiz, têm grande chance de desonerar o Poder Judiciário e, consequentemente, contribuir para a redução da subnotificação de registros no país.
O Programa Minha Casa, Minha Vida, já descrito anteriormente, foi trazido pela Lei nª 11.977/09, que permitiu aos detentores do título de legitimação de posse registrada, após cinco anos, a conversão em propriedade, pela modalidade de usucapião, sem a necessidade de processo judicial. Esta forma de desjudicialização teve o escopo de facilitar à população de baixa renda o acesso simplificado à propriedade através do preenchimento dos requisitos essenciais.
Recentemente, o Supremo Tribunal Federal, ao término do julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.275, por maioria de seus ministros, por interpretação conforme o artigo 58 da Lei 6.015/73, acabou por conferir aos transgêneros/transexuais o direito de requerer a substituição do prenome e sexo diretamente no Cartório de Registro Civil, mediante requerimento administrativo, independentemente da realização de cirurgias, tratamentos hormonais ou outros, dispensando, inclusive, a demonstração ou prova dessa condição. Sendo assim, o direito à substituição do prenome e do sexo constantes em registro civil passou a ser potestativo, não mais dependendo de comprovação da condição da pessoa, tampouco de manifestação ou ação judicial (OLIVEIRA, 2019).
Este também foi um grande passo, tanto para a desjudicialização quanto para a elevação do princípio da dignidade da pessoa humana, na medida em que o nome é, sem dúvida, um direito fundamental e uma chave determinante da personalidade da pessoa humana. Portanto, o indivíduo tem direito ao nome civil desde o seu nascimento, conforme previsto no Código Civil e na Lei de Registros Públicos. Para os transexuais, o nome passa a ter uma importância ainda mais evidente, pois é de extrema relevância na vida social, por ser parte intrínseca da identidade, bem como é, sem dúvida, reflexo da aparência e da personalidade.
Objetivando a progressiva desjudicialização, no ano de 2015, o Novo Código de Processo Civil trouxe uma grande inovação para o atual cenário jurídico processual: a possibilidade de utilização do meio extrajudicial para o reconhecimento da usucapião,
fora do âmbito do Programa Minha Casa, Minha Vida. Porém, dada alguma complexidade, essa inovação tem passado por algumas mudanças legislativas relativas ao seu procedimento prático, visando a facilitação da implementação na via extrajudicial.
Para Maria Helena Diniz (2017, p.188):
A lei processual, ao desjudicializar, a contenda, ante o procedimento moroso da usucapião, teve, por tanto, por escopo dar acesso ao possuidor ao titulo da propriedade, concretizando a função da moradia e a função social da propriedade e, ainda, agilizar a tutela do direito pretendido, procurando uma solução célere e consensual do conflito sem intervenção judicial, possibilitando o reconhecimento da usucapião num prazo entre 90 e 120 dias, que, antes, levava anos para acontecer.
Luiz Gustavo Mantemor (2018) ressalta que o sucesso da desjudicialização nos processos de separações, divórcios e inventários e partilhas por escritura pública, permitiu que se avançasse mais nesse processo de desjudicialização, culminando no procedimento administrativo da usucapião que, por sua vez, ocorre no Tabelionato de Notas juntamente com o Cartório de Imóveis.