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A prática com o SIGProj à Luz do Modelo de Meta-estruturação e Estruturação da Tecnologia

2.3 As Universidades Federais Brasileiras

2.3.1 Breve Histórico e perspectivas na sua funcionalidade

Consideráveis mudanças de ordem econômica, social, política, tecnológica, cultural e ambiental têm influenciado no desempenho organizacional das universidades, inclusive das públicas, que necessitam de uma postura diferenciada na busca de um modelo que atenda as exigências de produtividade, qualidade e aspectos diferenciais exigidos pela sociedade. Nunes (2010, p.293) coloca que as universidades

[...] têm enfrentado na contemporaneidade situações desafiantes, pois têm sido alvo de constantes pressões e questionamentos pela democratização do acesso, por processos de avaliações, pela qualidade da gestão acadêmica, pelo compromisso social com o combate a desigualdades, e à exclusão social, e com a formação profissional voltadas às exigências do contexto social.

Em contrapartida, ao analisarem a trajetória e a funcionalidade das universidades públicas brasileiras, Falqueto e Farias (2013) comentam sobre a resistência que essas instituições possuem quanto a mudanças. Da maneira como estão estruturadas são consideradas retardatárias quanto às transformações sociopolíticas, estratégias de ações e flexibilidade. Reiteram que executar mudanças significativas parece objetivo distante, em decorrência da influência exercida tanto pela burocracia quanto pelo gerencialismo na funcionalidade das Instituições Públicas de Ensino Superior (IPES).

Na busca de um melhor entendimento desse contexto, uma breve perspectiva histórica a respeito das reformas das universidades pode trazer respostas à situação atual dessas instituições. Nesse resgate, pode se destacar o estudo realizado por Santos e Almeida Filho (2008), os quais evidenciam que, em período anterior à Ditadura Militar, no governo do Presidente Juscelino Kubitschek (1960), houve um redesenho do modelo de educação

realizado por Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, da Universidade de Brasília (UnB), com influência do modelo norte-americano, caracterizando-a como uma universidade de pesquisa científico-tecnológica, com programas de ensino baseados em ciclos de formação geral, organizada em centros por grandes áreas do conhecimento.

Contudo, no golpe de 1964, o Regime Militar ocupou a UnB, demitiu a maioria dos docentes e pesquisadores e, “submetida à intervenção militar, a UnB terminou acomodando-se à estrutura administrativa e curricular vigente no país”. Em seguida, os militares adotaram uma cópia empobrecida do sistema norte-americano de educação universitária (SANTOS E ALMEIDA FILHO, 2008, p.136).

Paradoxalmente à repressão da ditadura militar, a partir de 1964, houve maior disponibilidade de recursos, concessão de bolsas para estudos no exterior e apoio à modernização das universidades brasileiras.

Falquetto e Farias (2013) destacam que o período de 1930 a 1964 foi marcado pela expansão do Sistema Público Federal de Educação Superior, com a criação de mais de vinte instituições, e que o movimento da Reforma Universitária, em 1968, marcou a nova fase da Educação Superior Brasileira, em que teve como diretriz a eficiência administrativa, a estrutura departamental e a indissociabilidade do ensino-pesquisa-extensão, além de possibilitar uma ampliação na capacitação do corpo docente brasileiro.

Para Santos e Almeida Filho (2008, p.137) a Reforma Universitária de 1968 foi uma distorção que resultou em um tipo de estrutura de gestão mista, do sistema anglo-saxão de departamentos, juntamente ao sistema franco-alemão da cátedra vitalícia, “sem controle institucional e social, nem mecanismos de avaliação de qualidade acadêmica”.

Na década de 1970, num esforço de reestruturação, implementou-se uma rede institucional de pós-graduação, com patrocínio do governo para agências de apoio à nova rede universitária de laboratórios de pesquisa, a exemplo, o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) que concedia bolsas de estudo, treinamento e pesquisa (SANTOS E ALMEIDA FILHO , 2008).

Já no período do governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), a universidade foi influenciada pelas reformas orientadas para o mercado, adotando reconfigurações para o setor público e privado, sob a ótica gerencial, em que foi classificada como serviço competitivo (não-exclusivo) do Estado, ou seja, controlada pelo mercado e pelo Estado. Houve um incremento na capacidade global da rede de ensino superior, com a abertura para investimentos privados locais, acarretando o surgimento de uma quantidade enorme de instituições privadas de ensino superior (SANTOS E ALMEIDA FILHO, 2008). Isso

implicou mais autonomia, controle sobre suas atividades e descentralização. Em contrapartida, acarretou maior responsabilidade pela própria eficiência e produtividade (FALQUETTO; FARIAS, 2013).

Essa Reforma do Estado, de acordo com Chauí (2003), começou a tratar a Universidade como uma organização social, sendo considerada um serviço e movida pela operacionalização; gerida por contratos de gestão; conduzida por índices de produtividade; perfil de flexibilidade, incentivada pela diminuição dos tempos de formação, pela mera transmissão de conhecimentos e estímulo à pesquisa operacional pelos docentes. Segundo a autora, a privatização do ensino veio desvalorizar a pesquisa e extensão, em detrimento da massificação de resultados, havendo uma mercantilização do ensino, afastando o cunho social da Universidade Pública, produzindo um conhecimento destinado à apropriação privada, levando a universidade a ter uma baixa em sua qualidade de ensino, dada a sua preocupação em produzir resultados através de estratégias de intervenção e controle. Sob essa perspectiva operacional, o conhecimento e a informação se tornaram forças produtivas.

Diante desse contexto, as Universidades Públicas se confrontam com o desafio de atender tanto à sua finalidade precípua em garantir maior equidade no acesso à educação de qualidade quanto à sua reestruturação, no sentido de superar sua funcionalidade burocrática, que persiste e, ainda, em ter o cuidado para não se desvirtuar em direção à lógica privatizadora de gestão. Para Falquetto e Farias (2013, p. 29), a dificuldade em abandonar os desvios da burocracia terminam por tornar reféns as dimensões da atividade acadêmica - ensino, pesquisa e extensão, principalmente as duas últimas que, na maioria das vezes, são vistas como “apêndices da atividade de ensino, e não como funções programáticas com personalidade acadêmica própria”. Ou seja, são costumeiramente consideradas como atividades complementares dos docentes. Nesse sentido, torna-se importante a compreensão do papel da extensão, que não pode ser entendida erroneamente dessa forma na prática do ensino, mas sim, ser integrada aos compromissos educacionais, sem condicioná-la junto ao ensino e pesquisa a uma ideia mercantilista que inviabiliza a realização das principais finalidades de uma universidade pública.