CAPÍTULO 3 IMPEACHMENT: CASO DILMA
3.2. BREVE RESUMO DO PROCESSO
O processo iniciou transcorrido menos de um ano do seu segundo mandato. Em 17 de Setembro de 2015 os juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale e Janaína Paschoal assinaram juntos o pedido de impeachment contra a presidente.
Disponivel em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/04/1615424-maioria-quer-impeachment-de-dilma-
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e-nao-conhece-vice.shtml>. Acesso em: 5 jul. 2016.
NEHER, Clarissa. Por que Dilma é alvo central dos Protestos. Carta Capital. 2016. Disponível em: <http://
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www.cartacapital.com.br/politica/por-que-dilma-e-o-alvo-central-dos-protestos-6099.html>. Acesso em: 5 jul. 2016.
A peça foi fundada no art. 85 da Carta Magna , que define como crime de responsa62 - bilidade os atos do presidente que atentem contra a probidade na administração e a lei orça- mentária, bem como no art. 4, V e VI, da Lei nº 1.079/50, que define os tipos de crime de res- ponsabilidade e regula o respectivo julgamento. 63
As condutas que ensejaram a acusação foram: o atraso em repasses aos cofres públi- cos, que segundo os autores pretendia maquiar os déficits nas contas públicas; bem como a abertura de decretos suplementares sem o devido aval do Legislativo.
Trago à lume excertos da peça de ingress: 64
22. Passando agora ao objeto inicial desta representação, qual seja, o suposto atraso, por parte da União, nos repasses de valores destinados ao pagamento de benefícios de programas sociais, subsídios e subvenções de sua responsa- bilidade, restou confirmado nos autos que: i) despesas concernentes ao bolsa família, ao seguro-desemprego e ao abono foram pagas pela Caixa: ii) subsí- dios do Programa Minha Casa Minha Vida – PMCMV vêm sendo financia- dos pelo FGTS; e iii) subvenções econômicas, sob a modalidade de equali- zação de taxas de juros, vêm sendo bancadas pelo BNDES ou pelo Banco do Brasil.
23. No caso das despesas referentes ao bolsa família, ao seguro-desemprego e ao abono salarial, verificou-se que, ao longo de 2013 e dos sete primeiros meses de 2014 (jan. a jul./2014), abrangidos na fiscalização, a Caixa Econômica Federal utilizou recursos próprios para o pagamento dos benefí- cios de responsabilidade da União. Na verdade, conforme demonstram as
Art. 85. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição
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Federal e, especialmente, contra: I - a existência da União;
II - o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucio- nais das unidades da Federação;
III - o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais; IV - a segurança interna do País;
V - a probidade na administração; VI - a lei orçamentária;
VII - o cumprimento das leis e das decisões judiciais.
Parágrafo único. Esses crimes serão definidos em lei especial, que estabelecerá as normas de processo e julga- mento.
Art. 4º São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentarem contra a Constituição
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Federal, e, especialmente, contra: I – A existência da União:
II – O livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário e dos poderes constitucionais dos Estados; III – O exercício dos direitos políticos, individuais e sociais:
IV – A segurança interna do país: V – A probidade na administração; VI – A lei orçamentária;
VII – A guarda e o legal emprego dos dinheiros públicos;
VIII – O cumprimento das decisões judiciárias (Constituição, artigo 89).
Disponível em: <http://www.migalhas.com.br/arquivos/2015/9/art20150901-04.pdf>. Acesso em: 5 de jul.
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tabelas constantes do relatório de fiscalização, as contas de suprimento des- ses programas na Caixa passaram a disponibilizar um crédito assemelhado ao cheque especial, porquanto seus saldos, ao longo do período fiscalizado, foram quase sempre negativos. (…)
Com efeito, consta que, no final de 2014, quatorze decretos não numerados foram editados, abrindo créditos suplementares de valores muito elevados, sem a autorização do Congresso Nacional. Em tabela anexa à presente, se- guem discriminados tais decretos. 65
Pois bem, em 7 de Outubro o Tribunal de Contas da União, rejeitou por unanimidade as contas da presidente do ano de 2014.
Impende salientar, aqui, que para propiciar o julgamento das contas referentes ao 66 mandato da presidente Dilma, a Câmara dos Deputados analisou pela primeira vez, a contar de 1992, a gestão dos presidentes anteriores. Nessa oportunidade, foram julgadas as contas presidenciais desde o Governo de Itamar Franco ao Governo de Luis Inácio Lula da Silva.
Ainda em referência às contas do ano 2014 o relator, Augusto Nardes, indicou 15 indícios de irregularidades, dentre estes, se encontrava as “pedaladas fiscais” configuradas pelo adiamento de repasses aos bancos públicos em razão do pagamento de benefícios sociais, conduta, segundo tribunal, vedada pela Lei de Responsabilidade Fiscal, e que acabou corrobo- rando com a tese de impeachment peticionada em setembro.
Concomitante ao processo de impeachment, tramitava no Conselho de ética da Câ- mara dos Deputados o pedido de cassação, por razões de falta de decoro parlamentar, do mandato do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Lembre-se que para ser obstado este pe- dido, se fazia necessário o apoio do partido dos Trabalhadores (PT) - partido da presidente Dilma. Contudo, no dia 2 de Dezembro o líder do PT na Câmara - Sibá Machado- anunciou que o partido votaria a favor da admissibilidade do processo de cassação.
Ainda no mesmo dia, 2 de Dezembro, o presidente da Câmara dos deputados Eduar- do Cunha (PMDB), deflagrou o processo de impeachment. Insta ressaltar que Cunha negou qualquer motivações políticas para o acolhimento do processo.
Mais informações sobre a íntegra do processo em: <http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/a-integra-do-
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pedido-de-impeachment-de-dilma-apoiado-pela-oposicao/>.
O GLOBO. Câmara aprova contas dos ex-presidentes Itamar Franco e Lula. Disponível em: <http://
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g1.globo.com/politica/noticia/2015/08/camara-aprova-contas-dos-ex-presidentes-itamar-franco-e-lula.html>. Acesso em: 15 jul. 2016.
Na sequência, 3 de Dezembro, Eduardo Cunha realizou medida oficial para a instau- ração do procedimento e procedeu a leitura em plenário de sua decisão, deflagrando o proces- so. Aduziu em um dos trechos que a conduta da presidente ensejava inegavelmente crime de responsabilidade e portanto determinou a criação de uma Comissão especial para a análise do pedido.
No dia 8 de dezembro foi votada a Comissão Especial. Esta, seria criada a partir da indicação nominal e proporcional de cada partido e bloco parlamentar. Contudo, o presidente da Câmara decidiu pela possibilidade de Chapas alternativas e optou pelo voto secreto para a escolha da Comissão. Nessa conjuntura, foi criada uma chapa alternativa contendo apenas deputados da oposição, a qual sagrou-se a vencedora.67
Dando seguimento a análise temporal, no dia 17 de Dezembro o Supremo Tribunal Federal julgou a liminar na ADPF 378, na qual se discutiu a validade de dispositivos da Lei nº 1.079/1950 que regulamenta o processo de impeachment.68
Após o recesso parlamentar e três meses após a decisão do Supremo Tribunal Feder- al, houve uma nova votação aberta em que a Câmara elegeu a Comissão para o impeachment composta por indicados dos líderes das bancadas.
Uma vez formada a Comissão, em 17 de março, procedeu-se a notificação da presi- dente e a partir de então iniciou-se a contagem do prazo para a apresentação da sua defesa.
Em 4 de abril foi entregue sua defesa pelo então advogado-geral da União, José Ed- uardo Cardozo, aduzindo, em suma, que não houve a caracterização de crime de responsabili- dade, alegou ainda que a abertura do processo de impeachment foi um ato de vingança do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, como consequência da falta de apoio do Partido Tra- balhista na representação do Conselho de Ética.
O processo de votação das Chapas será, oportunamente, tratado em capítulo seguinte.
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Por maioria, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) julgou parcialmente procedente a Arguição de
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Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 378, que discute a validade de dispositivos da Lei 1.079/1950 que regulamentam o processo de impeachment de presidente da República. Com o julgamento, fir- mou-se o entendimento de que a Câmara dos Deputados apenas dá a autorização para a abertura do processo de impeachment, cabendo ao Senado fazer juízo inicial de instalação ou não do procedimento, quando a votação se dará por maioria simples; a votação para escolha da comissão especial na Câmara deve ser aberta, sendo ilegíti- mas as candidaturas avulsas de deputados para sua composição; e o afastamento de presidente da República ocorre apenas se o Senado abrir o processo.
Em seguida, 6 de abril o relator do processo, Jovair Arantes (PTB- GO) deu parecer favorável ao impeachment e seguindo seu posicionamento a Comissão especial votou a favor do afastamento da presidente prosseguindo o processo para votação.
No dia 14 de abril, o Supremo Tribunal Federal, analisou em sessão extraordinária as açōes relativas à ordem de votação em que se daria o procedimento. Em um primeiro mo69 - mento, o presidente da Câmara determinou que a votação começaria pelos estados do Sul e terminariam com os estados do Norte. Considerando esta ordem, as ações pleiteavam pela al- teração do procedimento de votação no plenário. Os autores, sustentavam que a votação deve- ria se dar individualmente, por Deputado, e não por estado, e mais, que a ordem deveria se dar alternadamente, chamando um estado do Norte e outro do Sul.70
Na tarde do dia 14, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, informou ao STF que havia mudado o rito da votação e esta seria realizada de forma alternada, devendo começar pelos deputados de um estado do Norte, seguindo por deputados de um estado do Sul.
O entendimento exarado pelo STF foi no sentido de manter o rito definido pela Câ- mara, de modo que a votação se deu nominalmente, com a alternância de estados do Norte e estados do Sul.
Em 17 de abril, o processo foi votado na Câmara dos Deputados, onde a abertura do processo de impeachment é aprovada pelo placar de 367 votos favoráveis contra 137, con- tendo apenas 7 abstenções e 2 faltas. Assim sendo, o processo seguiu seu rito para o Senado, oportunidade em que a Casa elegeu comissão pada analisar se deveriam ou não acolher o pe- dido. E por derradeiro, o parecer para o afastamento da presidente foi aprovado.
Neste ínterim, o Supremo Tribunal Federal julgou a AC 4070 , proposta pelo Procu- rador Geral da República, requerendo o afastamento do presidente da Câmara. A Corte acol- heu os argumentos e aprovou o afastamento do presidente da Câmara, sob o fundamento de:
(...) que Eduardo Cunha estaria “utilizando do cargo de Deputado Federal e da função de Presidente da Câmara dos Deputados em interesse próprio e ilícito, qual seja, evitar que as investigações contra si tenham curso e che-
ADIn 5.498; MS 34.127; MS 34.128; MS 34.130 e MS 34.131. Mais informacoes sobre os processos em:
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<http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=314494>.
Os impetrantes preocupavam-se com a formação de votos em cascatas.Partindo deste pressuposto o Advogado
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do PCdoB - partido que impetrante- afirmou durante a sessão do STF que a ordem de votação estabelecida por Eduardo Cunha poderia criar um "efeito cascata", o que violaria gravemente o princípio da legalidade. Mais in- formações sobre a sessão em: <http://www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI237662,61044-STF+mantem +sessao+e+ordem+de+votacao+do+impeachment>.
guem a bom termo, bem como reiterar as práticas delitivas, com o intuito de obter vantagens indevidas. 71
Segue trecho do fundamento do voto, in verbis:
20. Os elementos fáticos e jurídicos aqui considerados denunciam que a permanência do requerido, o Deputado Federal Eduardo Cunha, no livre exercício de seu mandato parlamentar e à frente da função de Presidente da Câmara dos Deputados, além de representar risco para as investigações pe- nais sediadas neste Supremo Tribunal Federal, é um pejorativo que conspira contra a própria dignidade da instituição por ele liderada. Nada, absoluta- mente nada, se pode extrair da Constituição que possa, minimamente, justi- ficar a sua permanência no exercício dessas elevadas funções públicas. Pelo contrário, o que se extrai de um contexto constitucional sistêmico, é que o exercício do cargo, nas circunstâncias indicadas, compromete a vontade da Constituição, sobretudo a que está manifestada nos princípios de probidade e moralidade que devem governar o comportamento dos agentes políticos. (…)
21. Decide-se aqui uma situação extraordinária, excepcional e, por isso, pon- tual e individualizada. A sintaxe do direito nunca estará completa na solidão dos textos, nem jamais poderá ser negativada pela imprevisão dos fatos. Pelo contrário, o imponderável é que legitima os avanços civilizatórios endossa- dos pelas mãos da justiça. Mesmo que não haja previsão específica, com assento constitucional, a respeito do afastamento, pela jurisdição criminal, de parlamentares do exercício de seu mandato, ou a imposição de afastamento do Presidente da Câmara dos Deputados quando o seu ocupante venha a ser processado criminalmente, está demonstrado que, no caso, ambas se fazem- claramente devidas. A medida postulada é, portanto, necessária,adequada e suficiente para neutralizar os riscos descritos pelo Procurador-Geral da Re- pública. 72
Por fim, no dia 11 de maio, no Senado, foi realizada a votação a respeito da admissi- bilidade do processo de impeachment o qual foi aprovado e consequentemente resultou no afastamento de Dilma Roussef por até 180 dias enquanto se procede o seu julgamento por crime de responsabilidade.