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3. O TRATAMENTO LEGISLATIVO DISPENSADO À VIOLÊNCIA CONTRA

3.4 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O CENÁRIO LEGISLATIVO

As convenções internacionais foram determinantes para as iniciativas adotadas por diversos países para o enfrentamento da violência doméstica contra mulher. A Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW) da Organização das Nações Unidas (ONU), do ano de 1979 e a Convenção do Belém do Pará, do ano de 1994, são exemplos relevantes do reconhecimento da igualdade entre homens e mulheres.113 Assim como o Brasil, outros países, voltados a implementar ações para coibição da violência doméstica, passaram a tomar providências legislativas direcionadas para esse fim.

Na Espanha, a primeira iniciativa inclinada para esse objetivo foi inserida no Código Penal em 1980, com a previsão do crime de violência doméstica. Já em 1995, foi previsto o delito de violência doméstica habitual que poderia ser empreendido por companheiros, cônjuges, descendentes e ascendentes.114 Contudo, foi a Lei Orgânica (LO) n.01/2004 que trouxe maiores avanços quanto a essa temática. Essa lei é voltada para os casos em que a mulher

112 BARSTED, Leila Linhares. O feminismo e o enfrentamento da violência contra as mulheres no Brasil. In: SARDENBERG, Cecília; TAVARES, Márcia (Org.). Violência de gênero contra mulheres: suas diferentes faces e estratégias de enfrentamento e monitoramento. Salvador: EDUFBA, 2016. p. 23.

113 FERNANDES, Valéria Diez Scarance. Lei Maria da Penha: o processo penal no caminho da efetividade. São Paulo: Atlas, 2015. p.18-19.

114 MACHADO, Bruno Amaral. O sistema Espanhol. In: ÁVILA, Thiago André Pierobom de (Coord.). Modelos

é “submetida à violência exercida pelo homem nas situações decorrentes do convívio (casal), valendo-se da superioridade que a relação enseja.”115

A LO n.1/2004 abarca não só a violência física, mas também a violência psicológica e a sexual, bem como prevê a criação de Juizados para a Violência contra a Mulher.116 Embora a referida lei não traga em seu escopo outras manifestações da violência doméstica, como a patrimonial e a moral, que são indicadas pela Lei Maria Penha, ainda assim, é possível assinalar uma semelhança entre as duas leis, qual seja a previsão da criação de Juizados com o objetivo de conferir um tratamento especializado para esses casos.

Conquanto a LO n.1/2004 tenha trazido significativos avanços para a coibição da violência doméstica, ela impõe barreiras para um enfrentamento mais efetivo, na medida que apresenta um campo de abrangência restrito, deixando de prever situações comuns, a exemplo da ocorrência de agressões sofridas por mulheres em relacionamentos íntimos que não se desenvolvem no âmbito do lar.

Nessa perspectiva, Bruno Amaral, ao avaliar a supracitada lei, elenca algumas críticas, dentre as quais, destacam-se o seu caráter punitivo que por vezes se distancia dos verdadeiros interesses das vítimas e a limitação da sua incidência, decorrente da adoção de um conceito de violência de gênero associado à esfera familiar que tutela apenas as agressões ocorridas na vida do casal inserida na dinâmica de um lar.117

Em Portugal, a punição das agressões perpetradas em relacionamentos íntimos sobreveio de modo expresso no Código Penal de 1982, a partir da previsão do crime de maus tratos contra o cônjuge. Nesse delito havia a exigência do dolo específico de malvadez e egoísmo. Após a reforma do Código, por meio da Lei 48/1995, passou a existir também o crime de maus tratos psíquicos infringidos contra o cônjuge e houve a supressão do dolo específico exigido anteriormente. 118

Apenas em 2007, com uma nova reforma, é que o Código Penal Português passa a designar o crime de violência doméstica que figurará como um delito autônomo aos de maus tratos.119 Ao contrário do que fez a lei espanhola, a LO n.1/2004, que se limita o meio familiar,

115 MACHADO, Bruno Amaral. O sistema Espanhol. In: ÁVILA, Thiago André Pierobom de (Coord.). Modelos

Europeus de Enfrentamento à Violência de Gênero. Brasília: ESMPU, 2014. p.61.

116 Ibidem.,. p.62-63. 117 Ibidem., p. 73-74.

118TÁVORA, Mariana Fernandes. O Sistema Português. In: ÁVILA, Thiago André Pierobom de (Coord.).

Modelos Europeus de Enfrentamento à Violência de Gênero. Brasília: ESMPU, 2014. p. 160.

o art. 152 do Código Penal Português incide nas situações em que a vítima manteve um relacionamento com o agressor, sem ter constituído um lar,120 circunstância esta que se alia ao parâmetro indicado pela Lei Maria da Penha que reputa como violência doméstica as agressões ocorridas em relacionamentos independente da coabitação.

Foi com o surgimento da Lei 112/2009 que o ordenamento português passou a ter um regime legal de proteção e prevenção à violência doméstica com o estabelecimento de direitos para a vítimas, como a indenização pelo agressor, o acesso à assistência judiciária gratuita, a sua oitiva em local informal e reservado com o fim de evitar a vitimização secundária e o acesso ao programa de teleassistência que permite a localização da vítima em tempo real e disponibiliza para ela um dispositivo de emergência que pode ser acionado com a aproximação indevida do agressor. 121

Como exemplo de legislações estrangeiras que versam sobre a violência contra a mulher, ainda é possível citar a Lei n. 26.485, do ano de 2009, na Argentina, que é chamada de Lei de Proteção Integral para Prevenir, Punir e Erradicar a violência contra a Mulher, que engloba os casos de violência ocorridos tanto no campo público como no privado. Essa lei considera como manifestações da violência de gênero, a violência física, sexual, patrimonial, simbólica e a obstetrícia. 122

Já no Chile, existe a Lei de Violência Intrafamiliar, a Lei n. 20.066 de 2005, que visa extinguir, prevenir e punir a violência intrafamiliar, conferindo proteção às vítimas. Essas que não são apenas mulheres, mas também crianças. A referida lei prevê a criação de programas direcionados a alterar condutas que mantêm um padrão violento, bem como a capacitação de profissionais que atuam nos casos de violência intrafamiliar.123

Por sua vez, nos Estados Unidos, a primeira lei genérica que tratou sobre o tema foi a

Violence Agaisnt Women Act criada durante o governo de Bill Clinton em 1994, que identificou

como violência contra mulher, a violência doméstica, o ataque sexual e a prática de stalking. Com isso, cada Estado norte-americano conserva sua própria legislação processual e penal para o enfrentamento desse tipo de violência.124

120 TÁVORA, Mariana Fernandes. O Sistema Português. In: ÁVILA, Thiago André Pierobom de (Coord.).

Modelos Europeus de Enfrentamento à Violência de Gênero. Brasília: ESMPU, 2014. p. 162.

121 Ibidem., p.168-169.

122 FERNANDES, Valéria Diez Scarance. Lei Maria da Penha: o processo penal no caminho da efetividade. São Paulo: Atlas, 2015. p.26.

123 Ibidem., loc. cit. 124 Ibidem., p. 26-27.

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