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A arbitrariedade e a relação entre língua e realidade

2 ARBITRARIEDADE DO SIGNO NO CLG

2.3 A arbitrariedade e a relação entre língua e realidade

No primeiro dos capítulos que se vinculam com a discussão do arbitrário, O testemunho da língua em antropologia e em pré-história, Saussure examina o tipo de contribuição que o estudo da língua poderia fornecer a outras ciências. Ele cita a Antropologia, a Etnografia e a Pré-História, no sentido de elas poderem fornecer dados sobre raça, costumes, instituições, etc. Saussure responde que há “grande parte de ilusão” (CLG, p.

260) nessa crença da língua poder fornecer dados seguros. Para ele, dificilmente há relação contígua entre língua e raça, por exemplo, sendo que comunidade de língua e consanguinidade não se relacionam e, portanto, não poderia haver estudo desses aspectos pela língua. Para ele, também não pode haver relação simétrica entre língua e outros fatos exteriores.

Nesse capítulo, ele utiliza o termo etnismo para referir-se a “uma unidade que repousa em relações múltiplas de religião, de civilização, de defesa comum, etc., as quais se podem estabelecer mesmo entre povos de raças diferentes e na ausência de todo vínculo político.”

(CLG, p. 261). Saussure discorda de que a comunidade unida por um vínculo social seja de suma importância para criar a comunidade linguística, alegando que acontece o inverso, sendo a língua o fator “que constitui, em certa medida, a unidade étnica.” (CLG, p. 261). Seria, antes, a língua que forneceria dados históricos dos povos e não o estudo desses povos e seus hábitos e costumes que forneceria esclarecimentos acerca da língua, mas, ainda assim, ele não acredita que a língua possa ser o caminho para reconstruir informações históricas dos povos.

Conforme Saussure, Adolph Pictet8 fundou a Paleontologia Linguística através da reconstituição de informações da civilização dos ‘árias’ via testemunhos fornecidos pela língua. Ele aponta as causas para mostrar que a língua não poderia fornecer esses dados em todas as medidas: 1) a etimologia seguidamente não consegue estabelecer a origem de uma palavra; 2) a falta de uma palavra para uma atividade ou coisa assim não é prova da

8 Adolph Pictet era vizinho e amigo da família de Saussure. Na época, era o linguista mais famoso da Suíça e havia escrito dois volumes da obra Origines indo-européennes (1859-63), tratando das origens indoeuropeias de várias línguas antigas e da época. Pictet acreditava na possibilidade da reconstrução paleontológica do povo indo-europeu pelo estudo da língua. Saussure conheceu Pictet quando ele já tinha por volta de 70 anos, período em que lhe submetera um ensaio sobre a possibilidade de traçar as raízes do grego, latim e alemão a um único padrão, intitulado Essai pour réduire les mots du grec, du latin et de l’allemand à un petit nombre de racines.

Pictet respondeu à carta que acompanhava o ensaio, dizendo que Saussure deveria seguir a carreira dos estudos linguísticos e aconselhando-o a iniciar imediatamente o estudo do sânscrito, ainda que não tenha endossado a teoria do ensaio. O texto foi encontrado juntamente aos documentos que a Universidade de Harward comprou dos filhos de Saussure em 1969 e publicado em 1978 nos cadernos Ferdinand de Saussure. (cf. consta em BOUISSAC, 2010 e DAVIES, 2004).

inexistência de tal atividade na comunidade e 3) os empréstimos linguísticos enganam quanto a saber se há uma tradição comum. Saussure cita uma série de palavras com suas derivações morfológicas na reconstrução histórica, que possuem, muito provavelmente, alto grau de dar indicações de um povo, mas alerta que isso é mais raro do que comum. Ele acrescenta que a língua também não pode fornecer dados sobre a mentalidade do grupo social, porque os procedimentos atestados pela língua nascem geralmente do puro acaso (arbitrariedade do signo) e não são mais que acidentes causados pela mudança fonética. Citaremos o exemplo característico que se repete também nas fontes manuscritas e que ilustra um desses acidentes:

Outro exemplo: o indo-europeu primitivo não conhecia compostos com o primeiro elemento verbal. Se o alemão os tem (cf. Bethaus, Springbrunnen, etc.), dever-se-á crer que num dado momento os germanos modificaram um modo de pensamento herdado de seus antepassados? Vimos que essa inovação se deve a um acaso não somente material como também negativo; a supressão de um a em betahūs (ver p.

164). Tudo se passa fora do espírito, na esfera das mutações de sons, que cedo impõem um jugo absoluto ao pensamento e o forçam a entrar no caminho especial que lhe é aberto pelo estado material dos signos. (CLG, p. 266-267).

As conclusões de Saussure apontam para o fato de que nada pode ser afirmado a partir da língua sobre os costumes, pensamento, raça e outros dados dos povos, pela não simetria da língua com os fatos, em vista de que a arbitrariedade da língua está na relação do significante com o significado e não entre signo e realidade. Isso está dito quando ele afirma serem os acidentes fonéticos os responsáveis por tal estado de coisas, conforme se depreende de toda argumentação teórica saussuriana nas suas mais diversas obras e como também é ilustrado na passagem acima. Mais adiante, faremos outras considerações sobre esse aspecto na teoria saussuriana: o fato de que a arbitrariedade é muito seguidamente referida por Saussure como a arbitrariedade que vai do significante ao significado, ou seja, uma arbitrariedade de via única.

No último capítulo do CLG, Famílias de línguas e tipos lingüísticos, há um reforço e uma insistência nesse aspecto. Ele enfatiza que também não é possível supor características comuns compartilhadas entre línguas aparentadas com base num tipo linguístico, visto que nada se mantém integralmente nas famílias a partir de um protótipo. Isso seria supor circunstâncias imutáveis que o tempo e o espaço não afetariam. Também o contrário, supor que as características comuns das línguas aparentadas seriam características do protótipo é um engano, pois nada é imutável sob as ações que transformam a língua: as mudanças fonéticas.

Saussure acredita que, quando os traços se mantêm, isso é efeito do acaso das mudanças

fonéticas, da mesma forma que esse acaso é responsável pela mutação. “Trata-se de modificações puramente fonéticas, devidas a uma evolução cega; as alternâncias que daí resultam, porém, o espírito se assenhorou delas, atribuindo-lhes valores gramaticais e propagando, pela analogia, modelos fornecidos pelo acaso da evolução fonética.” (CLG, p.

271). Ele cita uma série de exemplos para sustentar a tese do acaso, tanto da permanência, quanto da transformação das características linguísticas, num claro contraponto aos estudos históricos que acreditavam poder recuperar o passado das línguas, sua origem comum, com base num protótipo ou poder inferir o protótipo com base nas características comuns às línguas de uma mesma família.

Esses dois capítulos talvez sejam negligenciados pelos leitores do CLG, provavelmente pela preferência de leitura dos capítulos mais diretamente ligados ao signo, ao sistema da língua, etc., mas eles mostram um aspecto importante sobre como Saussure concebia a relação da língua com a realidade: as mudanças linguísticas estão atreladas à mudança sonora, que ocorre por acaso e, portanto, a língua possui mecanismos próprios de constituição de sua realidade, não dependente dos fatos exteriores. Não há simetria entre o que acontece na língua com o que temos na realidade do mundo, em vista das modificações fonéticas que, apesar de serem fortuitas, afetam o sistema linguístico. Toda argumentação volta-se a mostrar que a língua é constituída de uma materialidade que é veiculada e se transforma, afetando o sistema apesar dos acontecimentos exteriores. Assim como já colocamos acima, a ordem do CLG interferiu no modo de compreensão do texto saussuriano.

As três últimas partes do CLG tratam justamente da linguística diacrônica, da linguística geográfica e de questões de linguística retrospectiva a que Saussure conferia grande importância, mas postas no final do CLG pelos editores. Saussure havia colocado esses pontos teóricos no início do terceiro curso. Quanto à arbitrariedade, essa também pode ser uma das razões para que sua relação com as mudanças fonéticas tenha sido pouco abordada pela crítica saussuriana. É nosso ponto de vista que essa questão incomodava Saussure sobremodo, tendo em vista a sua grande preocupação com a língua e suas mudanças, ou com o signo e suas mudanças, como mostra também a pesquisa dos Nibelungen.

A seguir, apresentaremos uma resenha dos desenvolvimentos no CLG que implicam a noção de arbitrariedade do signo linguístico, para além dos capítulos analisados acima.