4 LEITURAS DO ARBITRÁRIO
4.3 Saussure e o debate clássico
É tacitamente aceito que a crítica de Benveniste tem procedência, uma vez que há uma confusão na demonstração do arbitrário no CLG. Todos estão de acordo. Isso também se reflete nas fontes, mas os autores também estão de acordo que isso não significa que o princípio seja falso, pois Saussure tinha em mente apenas o significante naquele momento; a relação arbitrária do som com o significado. Como vimos no decorrer da exposição dos conceitos teóricos do CLG e do ELG, é evidente que Saussure teorizou o arbitrário também em relação com o objeto exterior. Ainda que, naquele momento, em que definiu o signo, ele pensasse no significante, vê-se que ele não deixou de teorizar o arbitrário nos termos do debate clássico, como pode mostrar uma leitura atenta do corpo teórico saussuriano. Como vimos, para Engler (1962), Saussure era sensível às possíveis contraprovas que pudessem vir de uma teoria do conhecimento, conforme indica a nota sobre a onímica. Engler afirma que ela é negada por Saussure por não ter importância para o signo. Se o significado é determinado de antemão, há um entrave à liberdade do signo. A arbitrariedade do significado em Saussure não é uma contrapartida do arbitrário do significante, mas a negação do que Saussure chamava de onímica. Caso o significado fosse dado, o arbitrário do elo se reduziria à arbitrariedade do significante, como no exemplo de Rhône17 em que Saussure percebe uma mudança no nome. A argumentação que Saussure adota se assemelha àquela da onomatopeia, afirma Engler, em que, apesar da sugestividade fônica, o signo material na onomatopeia não possui fixidez, pois sempre há o deslocamento do significante em relação ao significado e vice-versa.
Para Engler, jamais o arbitrário deve ser compreendido como referindo-se à relação signo/realidade exterior. Ele apenas qualifica o arbitrário da associação entre significado e significante (entre ambos) e o arbitrário da associação do significante em relação ao significado (do significante ao significado).
é tomada por Saussure e repensada, segundo a leitura de alguns de seus intérpretes. Acima nos detivemos mais na forma como Saussure teorizou a relação da composição do signo em relação à constituição do significado e sua relação com o objeto do mundo. Aqui, traremos os pontos de vista de três intérpretes importantes de Saussure: Normand (1973, 2004 e 2009), Fehr (2000) e De Mauro (1967).
Claudine Normand, em seu artigo L’arbitraire du signe comme phénomène de déplacement (1973) aponta que há duas leituras possíveis para o problema da arbitrariedade:
do ponto de vista do debate filosófico tradicional e do ponto de vista da novidade científica.
Isso parece bem evidente, porque, de fato, os autores ora analisam o arbitrário vinculado ao sistema (a novidade), ora o analisam em relação ao externo ( o debate antigo).
Para a mesma autora (2009), tudo o que Saussure diz sobre o signo linguístico possui por objetivo relacionar-se com o conceito língua e com o papel do linguista. Não fosse assim, poderíamos incluir Saussure na longa tradição da filosofia clássica que toma o signo como representante de uma ideia, esquecendo que ele era um analista da língua. Nesse sentido, também o arbitrário é uma forma de Saussure tomar posição sobre a relação forma/sentido, excluindo ao mesmo tempo qualquer tomada de posição sobre a origem da linguagem. Para Normand, o axioma da arbitrariedade é equivalente a dizer que o linguista não precisa mais se ocupar com provar que a língua é uma convenção, proposição aceita no final do séc. XIX, por oposição à ideia de racional ou natural. Para Normand, Saussure exclui três coisas com o arbitrário: a) a consideração filosófica sobre a origem dos conhecimentos, b) os problemas sobre a adequação da linguagem com a realidade e c) a posição filosófica sobre como ocorre essa ligação. Saussure tenta, segundo a autora, mostrar que o linguista não precisa se sentir impedido na sua tarefa de analisar os elementos da língua como tais, nas suas relações dentro do sistema sincrônico. A autora afirma, igualmente, que o princípio do arbitrário está intimamente ligado à teoria do valor. O foco do linguista é descrever o funcionamento (como isso se dá) e não ater-se ao porquê de ser assim. “O termo arbitrário só é importante porque define um sistema linguístico por um ‘é assim’.” (2009, p. 64, grifo da autora, tradução nossa). O arbitrário está tanto entre significante e significado, quanto entre os elementos do sistema. Tudo é arbitrário na língua, conforme a autora. “São regras próprias a cada língua, restrições contingentes e, por isso, tão arbitrárias quanto a que rege a ordem das palavras e a existência do artigo em francês, diferentemente do latim.” (2009, p. 65, tradução nossa).
Normand (1973) procura compreender as razões que levam Saussure a formular o conceito da arbitrariedade por meio de um exame dos termos implicados na exposição, conforme aparecem no CLG. A autora sempre toma o CLG como base para suas leituras,
alegando ter sido essa a leitura dominante na França nos anos 60 e 70, pela qual muitos descobriram as revolucionárias teses saussurianas no auge do estruturalismo. Para ela, o importante é o legado de Saussure e não querer descobrir o autor verdadeiro. No prefácio do seu livro Saussure (2009), a autora apresenta claramente as razões que a levam a tomar o CLG como fonte primeira nas suas leituras, apontando o valor do trabalho filológico de retomada dos escritos autorais de Saussure, sem que ele impeça que o CLG ainda seja uma obra que contém enormes possibilidades de leitura.
Normand (1973) aponta que há uma dificuldade por parte de Saussure em integrar o princípio ao seu conjunto teórico e que as confusões nascem do fato de ele ainda utilizar a terminologia filosófica para elucidar o problema do arbitrário e criar a teoria científica da linguística. Ainda que ele parta de um terreno filosófico, quando toma a língua, reelabora o conceito da arbitrariedade para enquadrá-lo em seu sistema teórico, diferenciando-se de Whitney, para quem convenção e natureza eram opostos. A autora argumenta que Saussure rejeita a ideia de contrato tal qual Whitney, porque faz pensar na liberdade de escolha, de decisão entre partes sobre as coisas (origem da linguagem), o que não seria o caso da língua.
Para Whitney o arbitrário dizia respeito à origem da palavra (posição filosófica especulativa), sendo que o termo convencional introduz a instituição social que restringe o signo, afirma Normand. Saussure preferiu ir para o terreno do arbitrário relativo e do arbitrário absoluto, ressalvando que a língua não é como as outras instituições para impedir a redução da linguística ao terreno puramente sociológico. Ela cita o caso da onomatopeia como ilustrativa:
para Saussure importa pouco se a onomatopeia possui vínculo com a realidade, pois o importante é o funcionamento dos termos dentro do sistema e que, mesmo que haja esse vínculo de relação com a realidade, num primeiro momento, o signo onomatopaico vai estar sujeito ao funcionamento tal qual os outros signos.
De Mauro (1967), que analisa as problemáticas páginas iniciais do capítulo Natureza do Signo Lingüístico do CLG, também reconhece que o peso whitneiano do termo arbitrário ainda reflete a noção de língua nomenclatura. Para ele, Saussure utiliza o termo porque lhe pareceu expressar bem a inexistência de razões naturais ou lógicas para a articulação entre os dois planos da língua. Em Whitney, o arbitrário era ligado ao convencional, termo este que Saussure evitou a partir de 1894. A convenção supõe um significado estável e idêntico sobre o qual a convenção opera juntando-lhe um nome. Assim, o autor conclui que, ainda que apareça a visão de língua nomenclatura nos exemplos de ochs e boeuf, não se pode atribuir a Saussure uma visão nomenclaturista em vista de que todo o CLG é justamente a prova do contrário. O exemplo, do primeiro curso, não foi mais utilizado por Saussure subsequentemente, afirma de
Mauro (1967), citando obra de Lucidi de 1950, para quem essas problemáticas páginas do CLG sobre o arbitrário (no capítulo Natureza do signo lingüístico) podem ser atribuídas ao fato do livro nascer de aulas orais. De Mauro (1967) afirma que Saussure encontrou o princípio do arbitrário antes de sua teorização sobre os teoremas da linguística e que essas páginas devem ser lidas tendo em mente que foi um passo inicial sobre a compreensão do princípio em relação ao todo da teoria.
Johannes Fehr (2000) também discute o arbitrário do signo em Saussure do ponto de vista da teoria filosófica clássica, da arbitrariedade em relação ao objeto no mundo, com base em excertos do CLG, na versão de Engler e no caderno de Riedlinger. O autor cita uma longa passagem em que Saussure mostra a inanidade de discutir a origem da linguagem, porque isso pressuporia um momento em que se passasse um contrato entre os falantes e também porque se ater a isso desviaria do essencial, a vida da língua: a sua continuidade e sua transformação que, conforme Fehr, Saussure enfatizou na terceira conferência da Universidade de Genebra.
Por fim, sobre o princípio da arbitrariedade, Fehr diz que ele permite justamente a dinâmica da circulação do signo. Ou seja, a arbitrariedade do signo permite a constante transformação da língua, impedindo a fixidez e tornando as suas características apenas transitórias. Também Normand (2004) concorda com o fato de a arbitrariedade estar ligada à mudança linguística, porque “se cada signo estivesse definitivamente ligado àquilo que ele deveria representar, a mudança incessante na língua não seria possível sem perturbar seu uso pelos falantes.”
(NORMAND, 2004, p. 98-99). Para Fehr, o arbitrário também é responsável pelo fato de os signos se delimitarem mutuamente no sistema da língua (teoria do valor).
Há consenso entre esses autores de que Saussure parte do arbitrário tal qual compreendido no sentido clássico e o reformula, introduzindo uma diferença fundamental: o arbitrário no sentido clássico supõe um contrato entre os falantes sobre o signo a ser designado para uma ideia, visão nomenclaturista, enquanto o arbitrário no sentido saussuriano é justamente a ausência de possibilidade de um grupo, ou mesmo de uma pessoa, decidir sobre uma designação, pois ela acontece independentemente pelas relações no sistema. O arbitrário em Saussure é o acidental, contingente, provocado pela língua e não partindo de um contrato social no sentido whitneiano. É, nos termos de Normand (2004), um optar por mostrar que na língua prevalece um “é assim”, um fortuito, cuja origem não tem explicação. É afastar a discussão da origem por sua inanidade, sua não pertinência para o linguista.