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BRIGA DE CASAL

No documento CHICO XAROPE (Ivo Stainiclerks) (páginas 72-77)

BRIGA DE CASAL

Minha mãe aconchega-me sob as cobertas. -Durma com Deus queridinha. - Diz-me ela.

Apaga a luz e o quarto se escurece. Ouço o ruído da porta se fechando, e os passos dela a se distanciarem no corredor. Sinto ainda o seu perfume e o calor dos seus abraços e beijos. Ela é bonita e boazinha comigo. Antes contava-me histórias. Mas tornaram-se tão repetidas e cansativas, que já nem dá gosto ouvi-las. Hoje, quando peço que me conte alguma delas, ela me diz que estou crescidinha. Então deu-me você de presente: Um ursinho de pelúcia. Achei legal, e é com quem eu converso até pegar no sono.

É estranho a maneira como a gente conversa. Não se ouve o som da voz como quando falamos com as pessoas. Mas sei que isto acontece, porque é só na imaginação a nossa conversa. Engraçado! Ursinhos de pelúcia não têm mãe e nem pai, não é mesmo? Não vão à escola, não brincam de bola, e não pulam corda. Deve ser triste ficar assim parado. Mas não se desespere. Qualquer dia eu peço à minha mãe que me deixe levá-lo à escola. Você vai gostar da minha turma. Eles são muito divertidos. Outra coisa: A gente ter família e sair prá passear juntos é bom. Domingo fomos ao zoológico, e a

ria, brincava, e corria alegremente. Meu pai abraçava-a e beijava-a de vez em quando. Imagino que eles se amam de verdade. Só vendo a alegria dela no dia em que ele trouxe-lhe flores!

Passaram-se alguns dias, e as coisas mudaram. Acho que está muito feliz por eu o ter levado à escola. Agora posso levá-lo até o jardim para ver as flores e as borboletas. Sei que gosta de sair, e na hora do almoço trago-o também para a cozinha. E aqui, assentadinho no meu colo, enquanto tomo as refeições, a gente fica a ouvir o papai e a mamãe a comentarem sobre os seus problemas do dia a dia. Eles são super carinhosos um com o outro, e muito comunicativos. Em casa eles vivem a brincar. Imagine que esses dias ele até carregou-a no colo! Ao sair de volta para o trabalho ele sempre dá-lhe um beijinho de despedida. E enquanto se dirige ao centro da cidade vai levando-a no pensamento. E ela permanece em casa sorrindo de felicidade. Não sei se você gosta. Mas vê-los se despedirem assim todos os dias é maravilhoso.

Parece que você anda meio aborrecido ultimamente. Imagino que seja porque não o levei à festa de aniversário. Mas, mesmo que eu o levasse creio que iria chatear-se um bocado. Pense bem: Ursinhos de pelúcia não comem bolo e nem tomam refrigerante. Não batem palmas, não cantam parabéns, e não brincam no pula-pula. Só que prá dizer a verdade até eu mesma ando um pouco triste. Pois acho que de certo modo ter ido com meus pais àquela festa não foi nada bom. Não sei o que aconteceu que os deixou um tanto diferentes. Notei que ao voltarmos para casa a minha mãe estava

calada e séria. E o meu pai não puxou nenhum tipo de brincadeira para distraí-la.

Agora, na hora do almoço, estão silenciosos. Meu pai não ousa encará-la frente a frente. Parece meio nervoso e envergonhado. Deixa o prato sobre a mesa e se levanta para voltar ao trabalho. Não se aproxima dela para o beijinho de despedida. Que negligência! Deve ter se esquecido! Olho para a minha mãe e vejo uma lágrima a escorrer-lhe dos olhos. Procuro meu pai a fim de alertá-lo da sua falta de atenção para com ela. Mas ele já se foi.

Vamos até ao portão. Quem sabe a gente ainda o alcança. Porém o carro já vai longe virando a esquina. Papai! Grito, mas ele não ouve. Deve estar muito preocupado com o trabalho. Creio que não é tão longe. Podemos ir até lá e avisá-lo para que volte. Assim ele dará o beijinho em minha mãe, pede-lhe desculpas pelo esquecimento, e ela não precisará mais chorar.

Vamos sair depressa enquanto mamãe está desapercebida. Não tenha medo. Pensei que ursinhos de pelúcia fossem mais corajosos. Confesso que eu também estou um pouco nervosa. Mas fazemos isso por uma boa causa. Vamos correr. Logo ali na outra rua há um ponto de ônibus. A gente entra em um deles e vai parar lá no centro. É fácil, não se preocupe.

Puxa! Mas que sufôco é aqui dentro. Parece que a cidade inteira quer andar nesse ônibus! Ei, disfarça. Tem uma senhora do outro lado encarada em nós. Será que ela desconfia de algo? Tenha cuidado. Não olhe para ela, e mantenha-se calmo.

Todos descem apressados. Vamos aproveitar e descer também. Faça o possível prá se embolar no meio do povo, para que ninguém perceba a gente. Vamos.

Será fácil encontrarmos o escritório de meu pai. Imagine a surpresa que ele vai ter. Esperamos o sinal fechar e atravessamos a rua correndo. Depois seguiremos aquela multidão que caminha apressada de um lado para o outro. Agora. Um...Dois...e... Já!

Cruz credo! Não enxergo um palmo diante do meu nariz. Só vejo pés e pernas de gente passando ao nosso lado, quase correndo, empurrando-se, e provocando encontrões. Não consigo caminhar direito aqui. Será que o escritório ainda está longe?

Realmente estou perturbada. Caminhamos um bocado, e nem sinal do meu pai. Preciso tirar os meus tamanquinhos, pois estou com os pés ardendo de tanto levar pisadas. Creio que faz muito tempo que saímos de casa, porque as luzes da cidade já se acenderam, e é noite fechada. Ninguém presta atenção em nós. Sinto-me cansada e as minhas pernas doem. Não agüento mais caminhar. Tenho certeza de que estamos perdidos, e o desespero toma conta de mim. Não olhe agora, mas acho que vou chorar...

Ainda bem que ursinhos de pelúcia não choram. Todavia, acho que você também está com medo. Veja aquela porta. É melhor a gente entrar e sentar um pouco. Estou com fome e com sede. Que falta faz a minha mãezinha!...

A TV está ligada. O repórter do noticiário acaba de dizer algo sobre uma menininha desaparecida hoje à tarde, e que os pais da criança encontram-se desesperados. Coitados. Devem estar muito

preocupados. Epa! Não estou gostando nada disto aqui. Tem um homem olhando firme para nós, e caminha em nossa direção. O que será que ele quer? Agora ouço-o gritar: “É a menininha desaparecida! Segurem-na!” Abrace-me forte, e vamos dar o fora. Minha mãe sempre diz para fugirmos de estranhos. Vamos atravessar a rua depressa. Arre! Esqueci de olhar o sinal! Vem um carro em minha direção. Aaaaaiiiiiii!!!!!!

Faz uma meia hora que acordei. Pensei que estivesse no meu quarto. Mas percebo de repente que estou em um quarto de hospital. Uma enfermeira simpática aparece dizendo-me:

-Oi, você sofreu um acidente e quebrou a sua perninha. Mas está tudo bem agora. Não se preocupe.

- E o meu ursinho? - Pergunto.

-Ah! Aqui está ele, são e salvo! - Diz ela, entregando-me você.

-E o papai e a mamãe? Torno a perguntar.

-Espere só um instante. - Diz ela abrindo a porta. Eles entram.

-Filhinha, você quase mata a gente de susto! - Diz minha mãe abraçando-me. Por que fez isto?

- Desculpe, mamãe. - Respondo chorando. Juro que nunca mais vou fazer isto. Eu só queria avisar ao papai que ele havia se esquecido de dar-lhe o beijinho de despedida, e eu não queria vê-la sofrer por isto.

Meu pai se aproxima, e me diz comovido:

-Prometo que nunca mais vou me esquecer, minha filha!

Nesse momento minha mãe começa a chorar, e a molhar-me toda com as suas lágrimas. De repente exclama ainda no meio do choro:

-Prometemos também nunca brigarmos de novo! Fico em dúvida sobre uma coisa: Você sabia que eles tinha brigado? Não? E nem eu.

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No documento CHICO XAROPE (Ivo Stainiclerks) (páginas 72-77)

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