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O HOMEM PELADO

No documento CHICO XAROPE (Ivo Stainiclerks) (páginas 77-82)

O HOMEM PELADO (Paródia)

James Bond K. Lott era um vigarista esperto. Geralmente comprava a prazo nas lojas, e nunca se conscientizava em pagar as contas. Tinha, com freqüência, a maneira certa de driblar o cobrador em perspectiva. Às vezes instruía a mulher dizendo:

-Quando vierem cobrar a prestação, e baterem na porta, você diz que não estou em casa. Está bem?

-Certo. Respondia a mulher.

E ao chegar o homem perguntando: -Por favor, o Sr. K. Lott está em casa? A mulher respondia confusa.

-Está, sim senhor, mas mandou dizer que não está.

-Ah! Diz prá ele então que vim receber.

K. Lott pressentiu que deveria mudar de tática. Pois a mulher com a sua estupidez desonrava-lhe a fama de mau-pagador há tanto tempo conquistada.

Uma certa manhã disse-lhe:

-Maria, vem hoje um sujeito cobrar a prestação da geladeira.

-Ok. Digo-lhe que não está em casa. – Prontificou- se a mulher.

-Não, Maria. Hoje será diferente. Ao bater ele na porta ficamos quietinhos aqui dentro, fingindo que não tem ninguém. Assim ele desiste e vai embora. Entendeu?

-Certo. – Respondeu a mulher. Mas, por que não paga logo o homem?

-Minha filha, ontem sonhei errado no jogo do bicho. Perdi também na sinuca, e fui trapaceado nas cartas. De modo que vim para casa liso! Sacou agora?

-Muito bem. Explique isso ao cobrador!

-Está louca! Ele pode não gostar da explicação. Aí o caso se complica!

Enquanto isso, K. Lott, tirando o pijama, resolveu tomar um banho. Mas a mulher já entrara no banheiro. E, como costumava permanecer um longo tempo trancada lá dentro, decidiu fazer um café. Colocou a água para esquentar. E mesmo pelado, como estava, abriu a porta de serviço. Imaginou que naquele momento não haveria ninguém acordado, especialmente a velhinha do cento e oito, de quem ele tinha o hábito de roubar o pão.

Olhou no parapeito da janela. O embrulhinho de pão quentinho estava ali, colocado pelo padeiro.

se apanhando-o. Mas, de repente, a porta de sua casa fechou-se com estrondo impulsionada pelo vento. K. Lott levou um susto, e precipitou-se em direção à campainha. Sucessivamente a velha do cento e oito abrindo a janela pôs-se a gritar apavorada:

-Ai! O padeiro está nu! Não. É um ladrão de pães! Socorro! Acudam!

Pressuroso, K. Lott se escondeu atrás de um monte de caixas vazias empilhadas por ali, pois a sua casa não passava de um apartamento de aluguel barato em um edifício de terceira classe. E dali pôde ver que dos apartamentos vizinhos umas três ou quatro janelas se abriram. Cabeças interrogativas espiando desconfiadas. Mas, nada enxergando, tornaram a fechá-las, resmungando:

-É a velha biruta do cento e oito. Deve estar vendo coisas como sempre!

-A tal velha caduca! Endoideceu de vez, coitada! “Salvo pelo gongo!” Pensou K. Lott, restabelecida a paz. E voltando à campainha pôs-se a tocá-la freneticamente, e a chamar pela mulher.

-Maria! Abre a porta! Sou eu, James!

Mas lá dentro ninguém se mexia. Imaginando que fosse o cobrador, e obedecendo cegamente às ordens do marido, a mulher limitava-se a fingir que não havia ninguém em casa.

-Abre depressa, mulher!

Mas a porta não se movia. E para o seu desespero K. Lott pressentiu que subia alguém pela escada. “E agora?” Pensou agoniado, correndo para o elevador. Com efeito, deparou desapontado com a placa pendurada na porta do mesmo, escrita em grandes letras administrativas: “QUEBRADO”.

- Droga! – Disse K. Lott furioso.

Encurralado, e quase em pânico, pois os passos na escada se aproximavam cada vez mais, o vigarista teve uma idéia: Arrancou rapidamente a tabuleta com uma das mãos. E, despejando com a outra os pães no chão, vestiu a sacolinha vazia na cabeça a fim de se manter incógnito. E encostando o traseiro na porta do elevador, segurou a placa com ambas as mãos na frente de suas partes íntimas, e aguardou aflito o desenrolar dos acontecimentos.

A pessoa que subia a escada era a empregada do sexto andar. Estacou de repente ao confrontar-se com a figura grotesca de K. Lott. Leu a placa duvidando do significado das palavras, e murmurando consigo mesma:

-Quebrado? Mas logo esse membro? Bem desastrado, heim!

Depois, apressada, prosseguiu na subida.

“Ufa!” Fez K. Lot aliviado, dispondo-se a voltar à campainha. Porém, neste momento, estupefato, viu um cãozinho muito conhecido aproximar-se fazendo-lhe festas. “É o cachorrinho de minha sogra. Na certa ela vem vindo por aí.” Pensou, e precipitou-se para a porta.

-Abre! Abre! Mulher excomungada! Abre! – Gritava alucinado.

E, esmurrava, e chutava com tamanha força a porta, que lá de dentro a mulher se preocupou. “Que cobrador insistente! Vou abrir antes que ele derrube a casa.” Pensou.

Mas, por prudência, decidiu primeiro dar uma espiada pela janela. Abrindo-a de mansinho arregalou os olhos assustada ao vislumbrar a figura

embalagem plástica enfiada na cabeça. Jamais imaginando que fosse o marido, abriu a boca no mundo, e berrou com todas as forças dos pulmões:

-Socorro! Um tarado! Socorro! Acudam!

Várias portas se abriram ao mesmo tempo. K. Lott estava perdido. Agora a vizinhança em peso o rodeava, de olhos fixos nele.

-Cruz credo! – Exclamava uma senhora de idade, nariguda, segurando uma vassoura, mais se parecendo com uma bruxa.

-É um tarado! Já prá dentro menina! Não olhe essas coisas! – Ralhava a mãe de uma mocinha de cabelos desgrenhados.

-Deixa eu ver! Deixa eu ver! – Gritava um menino magricela e de boca suja abrindo caminho entre os circunstantes.

-Chega prá lá, moleque! -Não empurra!

-Ai! Quem me pisou o pé?

-Cuidado, gente! Ele pode ser agressivo! – Bradou com voz solene um sujeito careca, bigodudo, com cara de político aposentado.

E, enquanto a turma recuava um passo ante tal advertência, James Bond K. Lott, aproveitando a momentânea distração, insinuou a sua última cartada. Desejando identificar-se à mulher para que ela o deixasse entrar, arrancou da cabeça o invólucro que o disfarçava, dizendo:

-Maria, olhe, sou eu!

Ao reconhecê-lo a mulher não se conteve de espanto.

Nisso, chegou a sogra, e ao contemplar a cena emitiu um grito agudíssimo, acompanhado da seguinte exclamação:

-Virgem Santíssima! Isso é o cúmulo da pouca vergonha!

Em seguida, passos apressados subiram a escada. Era a polícia, que acionada pela velhinha do cento e oito, chegou rapidamente ao local, levando todo mundo em cana. Inclusive o cobrador da geladeira, que teve a infelicidade de chegar na hora errada.

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No documento CHICO XAROPE (Ivo Stainiclerks) (páginas 77-82)

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