CAPÍTULO I. O LÚDICO NA PRÁXIS DO PROFESSOR DA PRÉ-ESCOLA
1.5 Brinquedoteca: ambiente de educação permanente
1.5.2 Brinquedoteca para crianças e para seus educadores
Em todos os países do mundo, as brinquedotecas priorizam o atendimento às crianças, por isso destacar-se-á a organização para essa faixa de idade. Mas, como esse ambiente serve à visitação e à família, precisa de estrutura11 adequada para que as pessoas possam usufruir de seus serviços, mesmo que seja somente para compreender a sua importância.
Para Fortuna (2011), na área interna da brinquedoteca, deveria haver mobília como mesas e cadeiras compatíveis “[...] à estatura e ao número dos visitantes para a realização de jogos de mesa e de atividades gráficas, local para depósito de seus pertences durante a visitação, tapetes e almofadas para realização de atividades de contação de histórias e brincadeiras”. E ainda, local para os “[...] equipamentos multimídias para a prática de jogos eletrônicos, exibição de filmes e audição de músicas”. Precisaria manter “[...] espaços organizados e dotados de brinquedos e jogos propícios ao desenvolvimento de brincadeiras de representação, imaginação e fantasia deveriam ser assegurados” (FORTUNA, 2011, p. 174).
Esse ambiente, deveria, também, possuir espaço apropriado para conserto de brinquedos/jogos e armazenamento de materiais; um mural para comunicação interna, onde poderiam ser divulgadas informações e sugestões aos frequentadores; acomodação do acervo de materiais bibiográficos referente ao jogo e a educação para uso de seus membros e/ou consulta e empréstimo aos usuários.
Recomenda-se que a brinquedoteca tenha uma área ao ar livre; assim, poder-se-á realizar as brincadeiras denominadas tradicionais, aquelas em que o corpo funciona como brinquedo, entre as mais conhecidas citam-se: pula-corda, esconde-esconde, cabra-cega. Nessa área, os equipamentos de parque também são fundamentais; os mais procurados pelas crianças e indicados são os balanços, as gangorras e os escorregadores. Além desses materiais, sugere-se um canto para a mesa de ping-pong, tabela de basquete e locais com areia e água.
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A Espanha decretou normas para organização de brinquedotecas públicas que atendem crianças até doze anos e suas famílias: espaço de dois metros e meio para cada usuário; titulação para o atendimento com nível superior, a Pedagogia, a Psicologia ou a Psicopedagogia, nível médio em magistério ou educação social (para os que atendem crianças até dois anos, formação em educação infantil), e; curso de animação sociocultural. In: O DIÁRIO OFICIAL
DE GALICIA, nº 187, 26 de set/2003. Disponível em:
<http://www.edu.xunta.es/centros/iescruceirobaleares/system/files/DOG_Curriculo_futbol3_0_0.pdf>. Acesso em: 10 mar 2010.
Ademais, se a brinquedoteca atende crianças com idade inferior a dois anos, é primordial que os brinquedos sejam higienizados pôr câmara de assepsia com lâmpadas violeta instaladas num dos espaços da brinquedoteca, assim afirma Aflalo (1996).
Para que a frequência a esse ambiente seja mantida, é fundamental que traga bem-estar às pessoas; para tanto, necessita ser bem ventilado, iluminado, amplo e colorido; que os materiais como as estantes permaneçam ao alcance dos usuários; que os brinquedos e os jogos despertem o interesse para a brincadeira e que sejam marcados com símbolos correspondentes ao local onde devem ser armazenados. Aconselha-se que as embalagens dos jogos sejam encapadas com
contact e que uma cópia das suas regras seja plastificada e guardada; que alguns jogos como o
quebra-cabeça, o jogo de memória e outros materiais pequenos sejam armazenados em potes transparentes, descartáveis e etiquetados com informação sobre o produto. Isso é econômico, evita a perda dos objetos e ajuda a visualizar o que tem dentro da embalagem (CUNHA, 1994; FRIEDMANN, 1996a).
Junqueira de Andrade (1996) revela que, para a brinquedoteca ter um bom funcionamento, necessita inicialmente receber um número reduzido de crianças, pois elas,
encantadas, retiram tudo do lugar e os adultos ficam com a sensação de que um terremoto passou
pelo local. “[...] É preciso que tanto as crianças como os adultos possam experimentar com calma a vivência desta nova relação” (p. 91). Ademais, conforme Friedmann (1996a), as interações sociais ocupam lugar de destaque no desenvolvimento infantil, pois é a partir delas que a “[...] criança tem acesso à cultura, aos valores e conhecimentos universais. A criança tem oportunidade, através dessa interação com outras crianças e adultos, de cooperar, de competir, de praticar e adquirir padrões sociais que irá usar mais tarde” (p. 70-72).
Nem sempre, porém, a criança quer companhia durante as suas brincadeiras; nesse caso, os ambientes lúdicos contribuem para que o brinquedo atue “[...] como principal mediador entre a criança e o mundo” (PORTO, 2007, p. 184). Por isso, aconselha-se que os brinquedos sejam diversificados e que retratem as várias épocas e sociedades. Dessa maneira, a criança terá a oportunidade de conhecer outras realidades e entender a cultura em que está inserida, repleta de diferenças. Isso favorece a (re) construção do conhecimento e de valores como a solidariedade, o respeito, a compreensão, a cooperação e a cidadania, princípios essenciais para a convivência com as pessoas.
Cunha (1994) aconselha que os materiais da brinquedoteca fiquem distribuídos em cantos, tais como: o faz-de-conta, com mobílias infantis representando uma casa, com caminha, guarda- roupas, roupas de boneca, pia de lavar louça, geladeira, fogão e utensílios de cozinha; o hospital, com uniforme de enfermeira e acessórios; o supermercado, com carrinhos de feira e coisas para comprar; o camarim, com espelho, fantasias e adereços; a leitura ou contação de histórias, com tapetes e almofadas para acolher a criança; as invenções, local onde as crianças possam inventar coisas; a sucatoteca, com diferentes materiais para subsidiar as criações dos inventores; o teatrinho, para a criação de história e o manuseio de fantoches; mesa de atividades, para jogar ou para realizar trabalho coletivo; as estantes com brinquedos, para serem manuseados livremente; o acervo, local com estantes cheias de jogos e quebra-cabeças que ficam guardados, mas a disposição das crianças para que os retirem um de cada vez.
Para Friedmann (1996a) nas brinquedotecas infantis há (deve haver)
[...] brinquedos variados, coloridos, novos, usados, de madeira, de plástico, de metal, de pano, aquele da propaganda, um outro com que nossos pais brincavam, ou aquele tão desejado, mas que é muito caro. Brinquedos que vão realizar sonhos, desmistificar fantasias, ou simplesmente estimular a criança a brincar livremente [...] Alguns brinquedos até ficam esquecidos nas prateleiras quando as crianças brincam com seu corpo, com o espaço, com os sons, enfim, com outras crianças. [...] O brinquedo aproxima, convida a brincar junto, a partilhar, a entrar na brincadeira, a inventar. Mas o brinquedo pode gerar ciúmes e sentimentos de posse, assim como ser motivo de disputa, quando uma criança o toma de forma exclusiva. É justamente esse tipo de reação que o espaço da brinquedoteca desmistifica: os brinquedos são de todos (p. 70-72).
Noffs (2000) destaca que as brincadeiras que compõem o repertório infantil têm suas especificidades e diversidades. Isso enriquece as relações e, numa observação atenta, favorece a compreensão de cada criança. A autora cita dois episódios que comprovam tal afirmação. Em um deles, “[...] uma criança ao iniciar a brincadeira, pegou um carrinho de supermercado, encheu-o de produtos e saiu vendendo” (p.178). As educadoras descobriram que, naquele bairro (onde a criança residia), não havia supermercado e a venda/compra de produtos perecíveis era realizada com uma Kombi; essa representação permitiu conversas entre as crianças e as brinquedistas no que tange a compra, a venda, ao custo e ao local de produtos.
Na próxima ilustração, Noffs revela o entendimento de uma menina da sua situação em particular e/ou da sociedade atual.
[...] a menina vestiu uma roupa “bonita”, passou batom, penteou seu cabelo. Depois de se arrumar muito [...] dirigiu-se ao supermercado, comprou alguns alimentos, saiu, passou pelo cantinho da leitura, pegou um gibi. Voltou para casa [...] iniciando o preparo do alimento [...], mudou de roupa, voltou ao canto da casa, leu o gibi ao mesmo tempo em que olhava a comida (NOFFS, 2000, p.179).
Nesse cenário observa-se que a criança representa a mulher contemporânea, em que esta assume várias atividades como seleção e compra de produtos, preparação de alimentos, organização do ambiente, higiene pessoal e leitura. Noffs (2000) afirma que a observação atenta desses fatos mostra que “[...] a brinquedoteca era organizada em cantos... mas a brincadeira era espontânea, articulada pela criança” (p. 179).
A seguir apresentar-se-á como organizar uma brinquedoteca na instituição educacional. Sobre isso, os autores deste estudo concordam que é importante envolvimento e comprometimento. Ao pensar na brinquedoteca na instituição educacional, Puga e Silva ([2000?], p. 19) revelam que “[...] o diretor, os supervisores, os professores e demais profissionais [...]” da instituição precisam estar inteirados do projeto da brinquedoteca, pois ele é parte da escola. É fundamental que tal projeto tenha a participação de todas as pessoas envolvidas com a instituição.