3. O SIMBOLISMO OFÍDICO NOS HOGBACKS
3.3 Interpretação de serpentes nos hogbacks
3.3.2 Brompton in Allertonshire 16
O hogback Brompton in Allertonshire 16 fica situado em Northern Yorkshire, se
encontra incompleto, possuíndo 59,2 cm de comprimento, 22 cm de largura, e sua altura varia de 38 a 43 cm, sendo feito de arenito de grão-fino e classificado como do tipo D. (LANG, 2002). Esse hogback apresenta danos na superfície na forma de ranhuras na parte inferior e nas laterais, além de desgaste na cabeça do urso e na maior parte de seu corpo. Por sua vez, o outro urso foi perdido devido ao monumento ter sido quebrado de alguma forma. Somente restam as patas do animal. O urso não apresenta orelhas e possui o focinho amordaçado, algo comum visto nesse tipo. Sua ornamentação não apresenta estilo de telhado, mas de entrelaçamento, contendo uma espécie de moldura feita de bolinhas. (ver imagem 15).
O hogback Brompton 16 pertence a um conjunto formado por vinte e seis
monumentos de pedra, que inclui cruzes, fragmentos e outros hogbacks, os quais possuem em comum a ornamentação de entrelaçamento da qual comentaremos mais especificamente adiante. No tocante aos hogbacks da série Brompton, esses são bem conhecidos devido ao seu estado de preservação, sendo comum ver imagens em sites ou publicações sobre o assunto, além da condição de ser uma localidade que reúna vários exemplares desses monumentos. Atualmente eles estão em exposição na Igreja de São Tomás em Brompton, Northern Yorkshire. No entanto, sua localidade original deveria ser outra, já que a igreja somente foi construída no século XII.
Imagem 15 – Hogback Brompton in Allertonshire 16
Legenda: A imagem foi alterada pelo autor para unir os dois lados numa mesma foto. O monumento está
situado na Igreja de São Tomás em Brompton. Fonte:
http://www.ascorpus.ac.uk/catvol6.php?pageNum_urls=33.
A série Brompton in Allertonshire é formada por dez hogbacks, indo do número 16 ao 26, segundo o catálogo apresentado pelo The Corpus Anglo-Saxon Stone Sculpture, consistindo no maior conjunto de hogbacks do Reino Unido. Além do Brompton 16 que aparece parcialmente danificado, os Brompton 18, 22, 23, 24, 25 e 26 também se encontram em graus variados de deterioração, sendo que o número 26 é o mais danificado, havendo apenas um fragmento da parte central.
Nestes hogbacks a ornamentação presente é formada por três elementos principais: entrelaçamento, telhado e ursos. No caso, como os hogbacks estão danificados, não temos como aferir se todos conteriam o conjunto desses três elementos ornamentais, apesar que em alguns exemplares notamos a ausência da decoração de telhado e variações na forma de entrelaçamento e da aparência dos ursos. No que se refere aos ursos, esses apresentam variação entre ter os focinhos amordaçados, possuírem duas ou quatro patas.
O Brompton 16 apresenta similaridade com os números 17, 19 e 23, devido ao focinho estar amordaçado, apesar que o restante do corpo dos ursos apresente diferenças. Além disso, o motivo de ornamentação entrelaçada é diferente em cada um desses monumentos. Pela condição dos outros hogbacks estarem com as cabeças dos ursos danificadas ou ausentes, não podemos confirmar se eles seguiriam o padrão do focinho
amordaçado, embora que segundo Lang (2002, p. 75), pelo menos metade dos hogbacks
da série Brompton, possam ter sido esculpidos pelos mesmos escultores devido a algumas semelhanças.
No tocante a ornamentação de entrelaçamento essa é peculiar no caso do Brompton 16, pois apresenta o que alguns estudiosos chamam de “ponta de flecha” ou “cabeça de flecha” (LANG, 2002). No entanto, sugerimos a hipótese de que ao invés de ser uma ponta de flecha, poderiam ser cabeças de serpentes. Nosso comentário parte do princípio de que temos pedras rúnicas do chamado estilo bird’s eye view (b-e-v), no qual trazem cobras com cabeças triangulares, e olhos redondos como de pássaros. Esse estilo, segundo a tabela de Annie-Sofie Gräslund (ver imagem 27), do qual comentaremos melhor no próximo capítulo, já era usado desde o século X, pelo menos. Vejamos um exemplo comparativo (imagem 16).
Com base na imagem 16, vemos a cabeça da serpente no hogback Brompton 16 e na pedra rúnica Jelling 2. Embora a cabeça de serpente do estilo b-e-v apareça em várias pedras rúnicas suecas do século XI, escolhemos Jelling 2 pela condição de pertencer a segunda metade do século X, o que a coloca como contemporânea dos hogbacks na Inglaterra, e por ser uma das pedras rúnicas mais famosas que eram conhecidas naquele tempo, devido ter sido encomendada pelo rei Haroldo I da Dinamarca, como meio de homenagear seus pais, e para exaltar o monarca como governante dos dinamarqueses e noruegueses, além de se declarar um rei cristão.
Imagem 16 – comparação da cabeça das serpentes
Legenda: Montagem do autor, com fotografias do hogback Brompton in Allertonshire 16 e a pedra rúnica Jelling 2. Fonte: http://www.ascorpus.ac.uk/catvol6.php?pageNum_urls=33 e https://www.arild-hauge.com/danske_runeinnskrifter2.htm.
Posto isso, o que nos interessa na imagem 16 é a semelhança na cabeça das cobras, apresentando o padrão triangular ou “ponta de flecha”, e os olhos destacados na lateral da cabeça. Devido ao hogback estar com marcas de deterioração, não fica visível o contorno dos olhos, como também não se sabe se haveria um traço na face ou a presença da língua estirada, elementos vistos em algumas pedras rúnicas que possuem o estilo b-e-v. Através dessa comparação, defendemos que se trata de uma serpente, e não uma “ponta de flecha” como sugerido por alguns estudiosos. Para endossar nossa hipótese recorremos ao mastro da Cruz Sockburn 03 (ver anexo D), datado do século X e construído na Inglaterra. Na imagem observa-se uma serpente que possui a cabeça similar à vista em Brompton 16 e Jelling 2. Consideramos que isso seja um indicativo de que haja uma serpente no hogback
Enquanto no Barmston 01 as serpentes do estilo dragônico ocupam o lugar dos ursos, como possíveis guardiães dos mortos, no Brompton 16 há ursos fazendo esse papel nas pontas, legando as serpentes as laterais. Mas elas seriam mera ornamentação com “ponta de flecha”, como sugerido por alguns estudiosos do assunto? Consideramos que possa haver essa possibilidade de ser um motivo ornamental, no entanto, consideramos que haja possibilidade também que a serpente tivesse um sentido simbólico.
No capítulo 2 apresentamos alguns dos simbolismos da serpente no contexto escandinavo, apontando que esse animal estava associado para fins marciais, de proteção, fertilidade, fecundidade, contato com os mortos e até conectado com o deus Odin, a
mesma divindade pela qual ursos também estavam ligados37. Recordamos também que
na Heimskgringla (2014), nos capítulos que se referem a Saga de São Olavo, o rei utilizou
uma bandeira com a imagem de uma serpente para expressar autoridade, e seu olhar era descrito sendo intimidador como de uma serpente. Nestes dois exemplos o animal esboça um simbolismo de força, imponência e presença. Elementos que combinam com a ideia de se exaltar um guerreiro.
Logo, acreditamos que tanto o urso quanto a serpente no hogback Brompton 16 poderiam ser não apenas guardiões dos mortos, mas estariam conectados com a ideia de status social, fornecendo uma aparência nobre, valorosa e imponente ao homenageado. Algo que Stocker (2000) e Hadley (2008) comentaram sobre o papel dos hogbacks,como monumentos de homenagem aos mortos, atribuindo visibilidade para eles e seus familiares na comunidade. Assim, sugerimos que o urso e a serpente poderiam ter esse valor simbólico também nestes monumentos.
Entretanto, a presença de serpentes nos hogbacks não teve apenas um simbolismo associado com crenças pagãs da Religião Nórdica Antiga, temos casos de hogbacks com influência cristã que nos leva a sugerir outros sentidos para esses animais. Para isso escolhemos o hogback Gosforth 05 na Cúmbria (ver imagens 17 a 20).
37 Frog (2008, p. 15-16) observa que o urso no contexto escandinavo também estaria associado com a caça ritualística, as estações do ano e o submundo, devido ao fato de ursos irem hibernar em cavernas e ressurgir apenas na primavera. Ele salienta que no norte da Escandinávia, entre os povos Sámi, o urso apresenta um sentido sagrado, estando envolvido com ritos e sacrifícios que o conectam com a vida e a morte. Os ursos também eram símbolos honoríficos para exaltar o morto, passando a ideia à comunidade que ele foi um homem valoroso.