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2. O SIMBOLISMO DA SERPENTE

2.1 Conceitos sobre símbolo

2.1.1 Símbolos e imagens religiosas

O cientista da religião Mircea Eliade (1907-1986) era um defensor de que as religiões e os mitos deveriam ser estudados pelo seu simbolismo. Embora Eliade aplicasse uma metodologia que é hoje posta em dúvida, para se realizar suas comparações e explanações sobre os símbolos religiosos e a categorização desses, ainda assim, ele não estava errado em dizer que estudar os símbolos para compreender as religiões e os mitos era algo essencial, pois ambos os casos se manifestam através de linguagem simbólica. Sendo essa linguagem manifestada através de sinais, palavras, gestos, imagens, etc. (ELIADE, 1978, p. 12-13).

Se considerarmos que religião consista em práticas e crenças que conectam o homem com as esferas do sagrado, do divino, do espiritual, do metafísico, do transcendental, aqui tomando tais conceitos em seu senso comum, logo, estamos atribuindo características pelas quais podemos analisar que um determinado símbolo e imagem possam exibir um valor religioso.

No entanto, se por um lado o conceito de símbolo é complexo, e por outro, o conceito de religião também é complexo, unir os dois torna-se uma tarefa difícil para tentar compreendê-los. Nesse ponto, o antropólogo Pascal Boyer em seu livro Cognitive

Aspects of religious symbolism (1992), no primeiro capítulo, comentou alguns pontos que

devem ser considerados na hora de se realizar um estudo simbólico da religião. Além disso, ele salienta que dependendo da teoria adotada, as formas e visões para se entender o que são os símbolos religiosos e para que servem, mudam. Sobre isso, Boyer (1992, p. 4-5) comenta que a partir de como definimos o fenômeno religioso, isso repercute na maneira como abordaremos o papel dos símbolos religiosos. Diante dessas possibilidades teóricas para se estudar e compreender os símbolos religiosos, optamos para este estudo utilizar conceitos oriundos do campo da Antropologia simbólica11 e da História Cultural.

No campo da Antropologia optamos pelo trabalho de Clifford Geertz (1926-2006), autor de vários livros dos quais muitos abordavam temas sobre cultura, simbolismo, religião, sociedade, comportamento etc. Um dos seus trabalhos mais conhecidos trata-se do livro The Interpretation of Cultures (1973), onde se encontra sua famosa definição de religião como sendo um sistema simbólico. Todavia, não iremos

adentrar a esse debate a respeito da definição de religião proposta por Geertz, mas conhecer suas definições para símbolo e como essas se associavam com a religião.

Clifford Geertz criticava alguns antropólogos sociais que estudavam simbolismo religioso, dizendo que estes acabavam se limitando em tentar apenas compreender os processos sociais e psicológicos, mas deixavam de lado a importância da análise simbólica, algo que para ele era imprescindível, pois como tentar entender as influências simbólicas numa sociedade sem antes compreender o símbolo em si? Partindo dessa recomendação que se fazia necessário compreender o papel do sistema simbólico para depois perceber seus usos, Geertz defendia que os símbolos religiosos representavam o

ethos de um povo.

Os símbolos sagrados funcionam para sintetizar o ethos de um povo — o tom, o caráter e a qualidade da sua vida, seu estilo e disposições morais e estéticos — e sua visão de mundo — o quadro que fazem do que são as coisas na sua simples atualidade, suas ideias mais abrangentes sobre ordem. Na crença e na prática religiosa, o ethos de um grupo torna-se intelectualmente razoável porque demonstra representar um tipo de vida idealmente adaptado ao estado de coisas atual que a visão de mundo descreve, enquanto essa visão de mundo torna-se emocionalmente convincente por ser apresentada como uma imagem de um estado de coisas verdadeiro, especialmente bem-arrumado para acomodar tal tipo de vida. (GEERTZ, 2008, p. 66-67).

A partir dessa ideia de símbolo sagrado ou religioso (ele não diferencia os dois), ele comenta que o papel do simbolismo religioso consistia basicamente em formas de conectar os seres humanos com suas noções e concepções de sagrado, divino, sobrenatural, mágico, metafísico, transcendental, mas também atuam no sentido de serem transmissores de valores, atitudes, experiências, informações, disposições, significados, motivações, exemplos, orientações etc. que influenciam de alguma forma as pessoas, fosse através de opiniões, crenças, comportamentos, moralidade, visão de mundo, entre outros aspectos. Mas nesse ponto Geertz comenta que os símbolos religiosos possuem outra função, eles também transmite significantes para:

expressar emoções — disposições, sentimentos, paixões, afeições, sensações — numa concepção similar do seu teor difuso, seu tom e temperamento inerente. Para aqueles capazes de adotá-los, e enquanto forem capazes de adotá-los, os símbolos religiosos oferecem uma garantia cósmica não apenas para sua capacidade de compreender o mundo, mas também para que, compreendendo-o, dêem precisão a seu sentimento, uma definição às suas emoções que lhes permita suportá-lo, soturna ou alegremente, implacável ou cavalheirescamente. (GEERTZ, 2008, p. 77).

O comentário de Geertz em dizer que os símbolos religiosos também nos levam a expressar emoções, sentimentos, paixões, afeições e sensações, é algo pertinente para entender a construção mental que a fé proporciona aos crentes, mas também as mudanças

de comportamento, visão de mundo e sua interação com as crenças, liturgias e ritos dessas religiões.

Carlo Cardia (2011, p. 16-17) afere algumas observações sobre os símbolos religiosos, dizendo que consistem em meios pelos quais as pessoas conseguem se familiarizar com ideias e crenças, consistem em vetores para conectar os fiéis com o sobrenatural e o sagrado invisíveis, representam uma hegemonia de autoridade sobre dogmas, doutrinas, crenças, ritos e costumes de um povo, comunidade ou sociedade, diante de alguma crença religiosa. Embora isso não signifique que essa hegemonia não possa ser contestada e não possa haver discordâncias. Além dessas observações, Cardia (2012, p. 2-4) diz que o símbolo religioso possui uma função de identidade, de pertencimento, reconhecimento e comunicação. Os fiéis de uma religião podem se reconhecer pelos símbolos que eles usam, da mesma forma, que pessoas de outras religiões podem identificar fiéis, edificações, objetos, espaços, lugares, imagens, etc. de determinada religião, com base no seu simbolismo, pois o símbolo possui uma função de manter tradições, segundo sugere o autor.

Cardia (2012, p. 2-6) também salienta que o símbolo seja um tipo de linguagem, e neste caso, a linguagem simbólica religiosa não apenas está voltada para questões de fé, mas possui outros empregos, como para fins políticos e ideológicos. É evidente que nem todo simbolismo religioso possui um uso direto no âmbito político, mas Cardia pensando nas religiões institucionalizadas como o Cristianismo e o Islão, alguns símbolos religiosos passam a serem atributos de poder e autoridade. O emprego desses símbolos pode ser posto através de palavras, imagens, objetos, gestos, trajes, costumes, entre outras formas.

Peter Burke em seu livro Testemunha Ocular (2004), salienta que em muitas religiões o uso de imagens possui uma função central para a criação da experiência com o sagrado e o divino, mas não se limitariam apenas a isso. Burke defende que as imagens religiosas (inclui-se aqui os símbolos) possuem quatro funções: doutrinação, culto, devoção/meditação e uso ideológico.

No que diz respeito à primeira função, a doutrinação, Burke (2004, p. 58-61) salienta que muitas religiões não faziam uso da escrita, e ainda hoje há religiões que permanecem ágrafas. Mas no caso dessas religiões, os ensinamentos eram transmitidos através da oralidade, mas em outras situações, isso era feito com o uso do visual, sendo que esse visual poderia ser o simples ato de apontar um local, paisagem, cena, acontecimento, ou a confecção de alguma imagem, objeto, traje, signo ou símbolo, ou a

representação de gestos ou danças. Assim, a linguagem visual torna-se um artifício poderoso para promover as crenças religiosas, ensinando-as a população.

Burke também salienta que a fonte visual por si só não é uma informação desligada de outras fontes, podendo ser complemento a essas. Ele comenta que para compreender o sentido de uma imagem religiosa é preciso conhecer a religião a qual ela pertence. Caso contrário se fará falsos julgamentos de interpretação. Algo que Erwin Panofsky comentou ao dizer que: “um nativo australiano não poderia reconhecer o tema da Última Ceia; para ele, a cena apenas evocaria a ideia de um alegre jantar”. (BURKE, 2004, p. 43).

O comentário de Burke ilustrado com a citação de Panofsky é importante nos estudos de simbologia, pois como os símbolos possuem uma diversidade de significados, mesmo dentro de uma mesma cultura, se torna necessário conhecer o contexto no qual eles pertencem. Assim, ao se analisar um símbolo encontrado num livro, parede de um templo, numa casa, num objeto ou em outro suporte, é preciso relacionar o contexto histórico, cultural, social e religioso que ele pertencia, para assim adentrar ao sistema simbólico que ele estaria relacionado, do contrário, acabaríamos caindo no equivoco da suástica, ao achar que um vaso de cerâmica que contenha uma suástica, tratar-se-ia de um objeto produzido durante a Alemanha nazista.

A segunda função apontada por Peter Burke (2004, p. 62-63), a qual diz respeito ao uso da imagem e do símbolo religioso para o intuito de culto já foi comentado pelos autores anteriores, no entanto, Burke cita informações novas, como a ideia de que imagens e símbolos religiosos seriam detentores de poderes. Diferente de Cardia que comenta o uso do símbolo religioso como uma representação do “poder político”, Burke diz que o símbolo religioso poderia ser a manifestação de um “poder divino, sobrenatural ou mágico”. Neste contexto, ele menciona alguns exemplos sobre o Cristianismo, ao dizer que na Idade Média instituíram-se as peregrinações a igrejas e catedrais, onde os fiéis iam orar para algum santo, pedindo intervenção deles perante a Deus, ou até mesmo pedir a ajuda dos próprios santos para solucionar algum problema, pois acreditavam que aquela estátua poderia realizar milagres, pois servia de canal entre o Céu a Terra. Por outro lado, Burke também menciona a condição de se confeccionar altares em casa, também era uma forma de fazer uso dos poderes desses símbolos e imagens religiosos.

Assim, entramos na terceira função mencionada por Burke (2004, p. 64-67), o uso dessas imagens e símbolos para a devoção e meditação. Essa função é complementar a anterior, onde as imagens apresentavam um papel de serem cultuadas. Como exemplo,

Burke cita o caso do cristianismo católico na Idade Média do século XIII, onde pessoas peregrinavam para ver imagens de Cristo, Nossa Senhora ou de algum santo, a fim de prestar promessas, pedir milagres, agradecer por um milagre atendido, ou solicitar algo. Ele salienta como era notável o fato de alguns peregrinos sentirem a necessidade de tocar nas vestes ou nos pés das imagens, como se o toque naquela estátua ou pintura, permitisse uma ligação mais forte com o superior, o divino. Nesse ponto Burke comenta que tal prática não era única aos cristãos medievais, povos de outros lugares e épocas também a praticavam. O último aspecto mencionado por Peter Burke (2004, p. 67-72) para as imagens religiosas, diz respeito ao uso ideológico. Nesse ponto as possibilidades de exemplo são imensas12, porém, Burke é sucinto em dizer que o uso ideológico de imagens e símbolos religiosos visa questões religiosas, políticas, sociais, morais, culturais, etc. Condições já assinaladas por Geertz e Cardia.

Nesse caso, pessoas ou instituições se aproveitam da fé dos fiéis para disseminar ideias favoráveis ou contrárias a algo, para manipular a opinião pública, impor regras, unir ou desunir grupos, promover motivos para se realizar campanhas, guerras, incursões, obras etc. Nota-se como o valor de respeito, devoção, culto e sagrado dado à imagem religiosa extrapola o próprio campo das funções religiosas. O uso de imagens e símbolos religiosos também pode ser motivo para fomentar discursos de intolerância, perseguição e ódio.

Diante desses comentários sobre as características e funções dos símbolos religiosos, o que definiria um símbolo sendo algo religioso? Sobre isso, Geertz (2008, p. 72) deu o seguinte exemplo: “a caridade torna-se caridade cristã quando englobada numa concepção dos propósitos de Deus; o otimismo é cristão quando se baseia numa concepção particular da natureza de Deus”. Por essa fala salienta-se que o que torna um símbolo algo religioso deve-se ao valor religioso a ele atribuído e não sua existência por si só. Mas para que um símbolo ganhe um valor considerado religioso, para isso deve haver um sistema simbólico que sirva de modelo para apontar e esquematizar que tal atitude, ato, gesto, palavra, imagem, etc. é de caráter religioso, divino ou sagrado.

Cardia (2011, p. 4) comenta que um símbolo se torna algo religioso quando esteja associado a um fenômeno, crença, rito e instituição que representem aspectos religiosos. Neste caso se tais exemplos pertencerem ao campo do sagrado, divino, sobrenatural, fantástico, haveria a possibilidade desse símbolo se tornar um símbolo religioso. Apesar

que essa definição por um lado dependa da crença das pessoas em reconhecer um valor religioso em tal símbolo, e por outro lado, dependa do poder de convencimento do clero ou instituição religiosa. Sobretudo, Cardia diz que um símbolo religioso por si só não é algo sagrado, mas depende do valor a ele concedido. Geertz e Burke também compartilham dessa ideia, ao apontarem que a ideia de sagrado dada a símbolos religiosos seja algo que depende de não apenas de fé, mas de um arcabouço cultural que explicite motivos e argumentos do porquê determinados signos, imagens, objetos, lugares, pessoas, animais, plantas, etc. seriam religiosos e outros não.

Assim, com base nesses autores percebemos que o símbolo e a imagem religiosa possuem distintas funções: ele identifica uma religião, ele representa ritos, práticas, mitos, crenças, hierarquias, divindades, doutrinas, sacrifícios, conceitos, ideologias etc. Além de também serem tomados como algo sagrado ou divino, que pode ser a manifestação de uma divindade, espírito ou outro ser sobrenatural, ou consistir em algo que foi consagrado para servir de oferenda ou sacrifício, e nesse sentido a coisa em si torna-se um símbolo religioso e sagrado.