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88 BROWN, Chris; AINLEY, Kirsten (2009), p

89 Ibid., p.23

da ONU (como a OMS e a UNICEF) e as corporações multinacionais91. Neste período, são de especial importância os trabalhos de Robert Keohane e Joseph S. Nye (perspectiva neoliberal) e de Keneth Waltz (escola neorealista).

Na década de 80, o fracasso dos paradigmas dominantes em prever e explicar o colapso da União Soviética (URSS) e o fim da Guerra Fria deu grande visibilidade e exponenciou a credibilidade das teorias construtivistas. Estas teorias tinham uma explicação para o sucedido: ao adoptar ideias e práticas novas (expressas na política de novo pensamento em RI92), o presidente Mikhail Gorbachev revolucionou a política externa soviética e a relação entre as duas superpotências93. O Construtivismo parte do pressuposto inicial que as RI são uma ‘construção social’ e não um sistema de factos objectivos. Esta não é uma perspectiva que se opõe directamente ao Realismo ou ao Liberalismo, ao invés disso, opõe-se à teoria social94 na qual estes paradigmas se baseiam. Desta forma, o Construtivismo rejeita muitos dos pressupostos avançados pela teoria da escolha racional (alicerçada no racionalismo e no positivismo).

Retornando à pergunta fulcral para o desenvolvimento da disciplina, segundo Chris Brown, vários autores debruçaram-se sobre o tema, atingindo conclusões semelhantes e nalguns pontos contraditórias tanto com os ditames realistas quanto com as razões liberais. Num livro que tenta compreender as razões pelas quais os países combateram no século XX, John Stoessinger vai demonstrando, através de exemplos históricos, quais as causas mais comuns de guerra95 e termina a sua análise

91 BROWN, Chris; AINLEY, Kirsten (2009), p.33

92 A política de novo pensamento em RI parte de um reposicionamento identitário e de interesses da URSS, tendo em vista a melhoria das relações e trocas comerciais com o Ocidente e uma redução das tensões da Guerra Fria. Com esta nova forma de agir na política internacional, Michail Gorbachev estreitou relações com os líderes ocidentais (como Helmut Kohl, Margaret Thatcher e Ronald Reagan), procurou reduzir a existência de armamento nuclear, retirou as forças soviéticas do Afeganistão e abandonou a Doutrina Breznev (propondo uma política de não-intervenção da URSS nas políticas internas dos outros Estados-membros do Pacto de Varsóvia).

93 Alexander Wendt classifica esta política seguida por Gorbachev como “um dos mais importantes fenómenos da política mundial contemporânea” e serve-se deste exemplo prático para demonstrar como os Estados podem transformar um sistema de segurança competitivo num sistema cooperativo. WENDT, Alexander (1992), pp.419-420 94 Uma “teoria social preocupa-se com a forma como conceptualizamos as relações entre agentes e estruturas”; é uma construção mental apriorista que enquadra e define estas noções essenciais para a construção de teorias e hipóteses concretas. A teoria social distingue-se das “teorias substantivas [que] apenas oferecem reivindicações específicas e hipóteses sobre os padrões que existem nas políticas mundiais. BARNETT, Michael (2008), p.162

95 Segundo Stoessinger, as causas mais comuns para as decisões humanas de entrar em guerra são: o optimismo na vitória (I Guerra Mundial ou Guerra da Coreia); a percepção de uma mudança drástica de equilíbrios de poder que abre janelas de oportunidade (como as guerras-relâmpago de Hitler); o facto de os beligerantes estarem perante assuntos indivisíveis como a religião (guerras entre Israel e Estados Árabes vizinhos ou guerras entre Índia e Paquistão); os

apontando as lições a retirar destas guerras. Desde logo, o facto de “nenhuma nação que tenha iniciado uma grande guerra no século XX sair vencedora”96

. Para além disso, a crucial importância da personalidade do líder para um país entrar em guerra (renegando o “papel de forças abstractas como o nacionalismo, o militarismo ou os sistemas de alianças”97

). Por fim, as falsas percepções (factor-chave para o início de guerras). Para se desencadear uma guerra é essencial a percepção que o líder tem de si mesmo; as percepções que tem sobre as intenções, o poder e a capacidade do seu adversário; e é também fulcral a empatia que ele nutre pelo adversário98.

Stephen Van Evera chega a conclusões semelhantes num artigo em que procurou definir as justificações mais comuns da guerra99. Ao completar o seu estudo, o autor admite que todas as causas excepto a primeira (“falso optimismo sobre a resolução da guerra”) são “raras no mundo real (...), mas podem explicar muitas guerras históricas quando estas causas são aplicadas ao efeito de falsas percepções”100. O autor corrobora da opinião de que o problema não se centra só na

estrutura do poder internacional, em questões societárias ou na liderança, mas também na forma como estas questões são percepcionadas pelos decisores.

Esta revisão de literatura ajuda a elucidar as ideias dos três paradigmas sobre as causas de guerra. O realismo foca-se essencialmente numa explicação sistémica, o liberalismo procura frequentemente explicações em causas societárias e o enfoque construtivista evidencia o papel da percepção individual (tida pelos autores como um

acidentes e insanidade da liderança (invasão de Hitler à Rússia); as questões ideológicas (guerra da Coreia); as questões de honra, reputação e glória (como a insistência de cinco presidentes americanos em aprofundar e prolongar a Guerra do Vietname); a cultura e os nacionalismos (guerra dos Balcãs) e a procura de prosperidade de recursos materiais e naturais (guerras civis no Afeganistão e em Angola). STOESSINGER, John (2008)

96 STOESSINGER, John (2008), p.387 97 Ibid., p.390

98 Stoessinger afirma que “o factor mais importante para o desencadear de uma guerra são as falsas percepções”. Para o autor, “esta distorção pode manifestar-se de quatro modos diversos: na imagem que um líder tem de si próprio; na visão que um líder tem sobre o carácter do seu adversário; na ideia que um líder tem sobre as intenções de um adversário para consigo; e finalmente, na visão que um líder tem sobre as capacidades e o poder do adversário”. STOESSINGER, John (2008), pp.402-403

99 O autor compilou cinco hipóteses que exprimem que a guerra é mais provável: (1) quando os Estados são vítimas de falso optimismo sobre a sua resolução; (2) quando a vantagem recai sobre o primeiro lado a mobilizar tropas ou a atacar; (3) quando o poder dos Estados oscila de um modo mais drástico (e existem maiores janelas de oportunidade e vulnerabilidade); (4) quando os recursos são cumulativos (ou seja, quando o controlo destes permita ao Estado proteger ou adquirir mais recursos) e (4) quando a conquista é fácil. EVERA, Stephen Van (1999), p.6

factor essencial para o início de uma guerra). De seguida, é delineada uma introdução aos paradigmas de RI, onde se enfatizam as características principais de cada um deles. Partindo deste esboço, será feita uma análise comparativa para perceber as semelhanças e divergências entre as três tradições. (ver anexo A)

O objectivo central da perspectiva Liberal é a análise da possibilidade de paz na sociedade internacional, pelo estudo dos processos de conflito e cooperação internacionais. Esta tradição de pensamento nas RI remonta ao livro a Paz Perpétua de Immanuel Kant, mas tem raízes mais antigas em autores racionalistas e legalistas como David Hume, Voltaire, Hugo Grócio, Edmund Burke e John Locke.

Em termos gerais esta tradição vê a ordem internacional de uma perspectiva benigna, onde a anarquia sistémica não implica necessariamente desordem e conflito. Segundo os proponentes desta tradição, as causas do conflito são sempre internas ao Estado, pelo que esta perspectiva especifica o comércio, a democracia e a existência de organizações internacionais como formas de atingir a paz. Kant baseia-se nos princípios legalistas (que procuravam civilizar a guerra) para chegar a três artigos definitivos para prevenir guerras e atingir a paz perpétua101.

Após o desastre humano, económico e material que foi a I Guerra Mundial, os autores liberais dedicaram-se a reformular a ordem internacional para prevenir o reaparecimento da guerra em larga escala (é a partir deste trabalho que se inicia o estudo académico de RI). Eles partilhavam as crenças de que as pessoas não querem a guerra, de que “existe harmonia de interesses reais entre Estados” que são a base da cooperação internacional102 e de que é possível manter a paz através do governo constitucional e da primazia do direito (considerados “princípios de aplicabilidade

101 Os três artigos postulados por Kant são: (1) os Estados devem transformar-se em Repúblicas (com poder político de origem popular e exercício do poder limitado por equilíbrios constitucionais); (2) as Repúblicas devem ligar-se entre si numa Federação de Estados Pacíficos (Foedus Pacificum); e (3) todos os Estados devem reconhecer um Direito Cosmopolita (que implica o reconhecimento de direitos individuais aos cidadãos e não-cidadãos). KANT, Immanuel (1795)

102 Para os teóricos liberais, os interesses de dois Estados estarem aparentemente em rota de colisão é simplesmente um caso de distorção de percepções. Com este exemplo, Chris Brown revela uma das assumpções centrais do liberalismo que considera a política internacional como um jogo de soma positiva e possibilita a cooperação por via dos ganhos absolutos para todos os actores: “quando os interesses das pessoas são manifestados [...] esse choque de interesses revela-se como uma distorção introduzida por malícia de interesses particulares ou por ignorância dos decisores”. BROWN, Chris; AINLEY, Kirsten (2009), p.21

universal, tanto a nível doméstico como a nível da sociedade internacional”)103. Foi nesta senda que se desenvolveram as práticas modernas do paradigma liberal, nomeadamente: a promoção de sistemas democráticos; a promoção do princípio de auto-determinação nacional; a necessidade de atingir princípios internacionais aceites e partilhados por todos (e estabelecer regras e leis internacionais que os defendam) e a necessidade de implementar uma estrutura institucional para as relações internacionais (inicialmente a Liga das Nações, substituída depois pela ONU).

Com a II Guerra Mundial houve um aparente fracasso das ideias liberais, no entanto, “muitas das assumpções liberais sobreviveram ao colapso desta perspectiva perante o realismo. As normas estabelecidas da ordem internacional contemporânea são essencialmente as mesmas de 1919 – auto-determinação nacional, não agressão e respeito pela lei internacional, apoio aos princípios de soberania”104 e a existência de

uma instituição internacional reguladora (ONU).

Mais recentemente, teóricos da escola neo-liberal – dos quais se destacam Robert Keohane e Joseph Nye - alegam que existem muitos indicadores de um novo mundo de ‘interdependência complexa’. Entre estes indicadores contam-se: a crescente interdependência económica entre os países (ligada a avanços nas telecomunicações e ao desenvolvimento de um mercado global); a progressiva consolidação de regimes jurídicos internacionais (mediada e promovida por instituições supranacionais); a relativa ausência de guerras entre Estados (potenciada pelo efeito dissuasor das armas nucleares); a existência de múltiplos actores nas relações internacionais (e consequente enfraquecimento do papel do Estado); e o aumento de problemas globais que não têm resposta nacional e têm de ser solucionados à escala global (por exemplo, as questões ambientais)105. Para os autores, estes elementos são factores empíricos da existência de uma nova realidade, totalmente diversa do sistema internacional clássico advogado pela escola de

103 BROWN, Chris; AINLEY, Kirsten (2009), p.20 104 Ibid., p.27

pensamento realista. Assim, quando nas relações entre actores internacionais estão presentes os pressupostos da interdependência complexa, os liberais rejeitam muitos dos conceitos realistas que consideram demasiado simplistas.

A sociedade internacional é vista como anárquica (pela inexistência de uma autoridade política central), mas a anarquia sistémica é limitada pelo desenvolvimento das instituições internacionais. Os Estados não são sempre tidos como actores centrais (pela concorrência de múltiplos actores internacionais e inexistência de hierarquia entre temas internacionais) e para além disto não são unitários nem racionais (existem muitas condicionantes internas no processo político, pelo que as decisões governamentais são resultado de concessões e conflitos entre vários actores internos). Os liberais consideram tão importantes nas relações internacionais os elementos nacionais e individuais, quanto os elementos sistémicos e, como não existe hierarquia de problemáticas em RI (a agenda política varia consoante o contexto internacional), a segurança é vista como um conceito amplo e abrangente (tanto pode ser definida em termos físicos e territoriais, como económicos, sociais, culturais, ideológicos, religiosos, ambientais e energéticos106).

Estes académicos crêm que as preferências estatais são determinantes para o comportamento do Estado, pelo que os factores societários (a cultura, o sistema económico, o tipo de regime, a identidade étnica e religiosa) são um objecto de estudo tão ou mais importante que os factores sistémicos. Estes autores garantem que existem grandes hipóteses de cooperação e paz entre Estados (uma vez que a interdependência permite a possibilidade de ganhos absolutos para todos os Estados através da cooperação) e estão convictos dos efeitos pacificadores das instituições internacionais, da interdependência económica e do desenvolvimento de uma comunidade de segurança democrática. Os liberais pensam também que a definição de poder deve ser conceptualizada de forma abrangente - o poder é multidimensional,

106 Por exemplo, Andrew Ross sublinha que “a segurança económica, a segurança energética e a segurança ambiental caiem dentro de um alcance mais amplo da concepção de segurança nacional que têm os liberais”). ROSS, Andrew L. (2004), p.58

as relações de poder entre países variam consoante o tema internacional em debate e, para além disso, a coerção e uso da força são cada vez menos legitimáveis e eficazes (e portanto menos importantes) em termos internacionais.

Este paradigma é composto por um número incontável de teorias concorrentes e por vezes claramente antagónicas. Tal é o caso da teoria da “paz democrática” de Michael Doyle, uma derivação do liberalismo (contestada pelos apoiantes de teorias cosmopolitas107). Segundo Doyle, é possível defender a existência de uma guerra justa quando esta tem como objectivo extender a democracia a Estados que não são Repúblicas (no sentido kantiano). Estes Estados “são vistos como tendo falta de legitimidade e soberania, pelo que não adquiriram o direito de ser livres de intervenção estrangeira”108. Estas teorias tanto “foram adoptadas por teóricos neoconservadores

norte-americanos, como tornadas comuns na retórica dos líderes políticos dos EUA e serviram ainda de linha mestra na implementação das políticas externas americanas”109 (apesar de os meios de implementação coercivos desta política

estarem em discrepância com os seus objectivos e irem contra os postulados de “paz por meios pacíficos” de Kant).

A perspectiva Liberal tem actualmente uma área de grande expansão teórica (partilhada por estudos Construtivistas) ligada ao processo de integração regional europeia (abordado em pormenor no final do presente capítulo) e, mais genericamente, aos fenómenos de construção de regiões (region-building) e de criação de comunidades de segurança110. A pesquisa nestas áreas levou alguns autores a advogar a criação de um corpo teórico diverso - o Pós-Liberalismo. Para esta teoria, num mundo globalizado os Estados são incitados a cooperar para

107 Cosmopolitismo é a ideologia de que todos os seres humanos pertencem a uma comunidade única baseada em conceitos morais partilhados. Os cosmopolitas partilham a crença de que este sentido comunitário deve ser cultivado e de que devem ser incentivadas as relações entre indivíduos de diferentes contextos identitários nacionais, étnicos, religiosos, culturais, entre outros.

108 DEMENCHONOK, Edward (2007), p.30 109 Ibid., p.27

110 Uma comunidade de segurança é “um grupo de pessoas que se tornaram integradas”, “no qual se assume que os membros da comunidade não lutarão fisicamente entre si, resolvendo as suas disputas de outros modos”. DEUTCH, Karl W. (1998), pp.5-6

assegurar os seus interesses e segurança. No mercado global, as organizações internacionais responsabilizam os Estados de acordo com critérios de modelos de governação (good governance), levando a uma situação em que a soberania já não é um direito absoluto dos Estados, é antes co-produzida entre os Estados soberanos111.

O paradigma Liberal debate-se com obstáculos explicativos pela fragilidade da cooperação internacional em contexto anárquico: existe o predomínio de fenómenos de conflito entre Estados (em relação aos de cooperação); é difícil iniciar a cooperação entre Estados (esta é exponenciada com a existência de instituições e regimes internacionais112 mas “estabelecer regimes é um processo difícil e a maior parte dos [...] existentes foram estabelecidos por uma potência hegemónica”)113; e, por fim, é quase impossível resolver o problema dos free-riders114 - Estados oportunistas que “acolhem os bens da cooperação sem partilhar os custos da mesma”115. Por outro

lado, os liberais são incapazes de efectuar uma análise de construção de instituições que escape às prioridades explicativas da preocupação realista com a estrutura116.

O objectivo central da visão Realista é conhecer as causas da guerra nas relações internacionais, através do estudo da luta pelo poder e pela sobrevivência entre Estados. Esta tradição remonta a Tucídides e conta com Nicolau Maquiavel, Thomas Hobbes, Jean-Jacques Rosseau, Hans Morgenthau e Kenneth Waltz como teorizadores. Baseia-se na existência de anarquia no sistema internacional, que impõe um estado de guerra constante e a necessidade de os actores internacionais exercerem políticas de poder por forma a assegurar a sua segurança e defender os seus interesses. A perspectiva realista considera essencial a distribuição de poder

111 CHANDLER, David (2010), pp.43-90

112 Estamos na presença de um regime internacional quando há “princípios, normas e processos de decisão claramente definidos, compreendidos e partilhados, através dos quais as expectativas dos decisores convergem numa determinada àrea de RI”. BROWN, Chris; AINLEY, Kirsten (2009), p.36

113 BROWN, Chris; AINLEY, Kirsten (2009), p.46

114 A complicação dos free-riders para o paradigma liberal pode ser explicada com recurso a um problema levantado pela teoria dos jogos: O dilema do prisioneiro demonstra a “dificuldade em confiar em promessas de cooperação feitas em circunstâncias onde é impossível assegurar o cumprimento da lei por inexistência de coerção”, ou seja, como não há castigo pela não-cooperação, muitos Estados sentir-se-ão tentados a não cooperar. BROWN, Chris; AINLEY, Kirsten (2009), p.46

115 BROWN, Chris; AINLEY, Kirsten (2009), p.46

116 Os liberais partilham assumpções realistas, nomeadamente a prioridade dada à anarquia sistémica e ao egoísmo racional dos Estados. WENDT, Alexander (1992), p.424

existente no sistema internacional, o uso de instrumentos como o reforço militar e as políticas de aliança entre Estados.

Com o advento da II Guerra Mundial a perspectiva liberal foi desacreditada117 e foi erigido um novo paradigma, com o retorno a ideais tradicionais de pensamento diplomático, representados nas obras de Maquiavel e de Hobbes. Edward H.Carr foi um dos principais promotores das ideias realistas118. Para este autor, “a característica central do mundo é a escassez, os que têm bens e recursos querem mantê-los, promovem políticas baseadas no «direito» e «ordem» e procuram ilegalizar o uso de violência; [por seu turno] os que não têm recursos não têm respeito pela lei [...] (a insistência na lei e moralidade só interessam aos grupos dominantes)”119. Nesta lógica,

pode-se considerar a ideia de “segurança colectiva” e a Liga das Nações como promotoras e defensoras do status quo (os acordos de paz de 1919 estavam directamente ligados aos vencedores do conflito).

No entanto, o realismo só foi sistematizado em 1948 por Hans J. Morgenthau120, possibilitando que este se tornasse o paradigma dominante nas RI. Para este académico, “a natureza agressiva e sedenta de poder dos Estados advém directamente da conduta humana” e as relações internacionais versam sobre “Estados que perseguem interesses definidos em termos de poder”. Segundo o autor, são estes interesses que determinam os comportamentos dos Estados e não é importante identificá-los para cada Estado, uma vez que todos se comportam da mesma forma, quaisquer que sejam os seus interesses nacionais121.

117 A premissa básica do liberalismo – as pessoas não querem a guerra - foi aparentemente refutada pela emergência dos ditadores na Europa: Hitler e Mussolini “chegaram ao poder por via quasi-democrática e mantiveram-se no poder pela mobilização de apoio popular”, ainda por cima com regimes que glorificavam a guerra e o nacionalismo. BROWN, Chris; AINLEY, Kirsten (2009), p.23

118 Este é um vocábulo poderoso pois permite uma associação entre esta doutrina política aos conceitos ‘verdadeiro’, ‘real’ (por oposição ao liberalismo - tido como ‘irreal’ - e que foi designado por Carr como utopianismo ou idealismo). BROWN, Chris; AINLEY, Kirsten (2009), p.25

119 BROWN, Chris; AINLEY, Kirsten (2009), p.25 120 MORGENTHAU, Hans J. (1978)

121 Desta forma, o realismo simplifica a tarefa hercúlea e extremamente complexa de identificar e definir os interesses nacionais de todos os Estados relevantes para uma qualquer análise no âmbito das RI: “[Os Estados] procuram sempre obter mais poder para [assegurar] e atingir os seus objectivos”. BROWN, Chris; AINLEY, Kirsten (2009), pp.28-29

Em 1979, o paradigma realista e o próprio estudo das RI teve um grande desenvolvimento com a obra de Kenneth Waltz, Theory of International Politics122 (que lançou as fundações para uma revolução de pensamento e possibilitou a criação tanto do neorealismo, como também do neoliberalismo). Waltz criou uma teoria sistémica123 da ordem internacional, por meio de “proposições inter-relacionadas e com força de lei, a partir das quais se podem deduzir hipóteses testáveis”124. De uma forma

sintética, o realismo estrutural (ou neorealismo) afirma que as estruturas internacionais sistémicas restringem o leque de comportamentos Estatais possíveis de ser adoptados. Face aos desafios académicos levantados pelo pluralismo125, o autor “limitou o alcance do realismo”126, centrando a sua análise numa abordagem sistémica.

De um modo geral, o Realismo enfatiza o interesse nacional e a segurança sobre a ideologia, as preocupações morais e as reconstruções sociais e considera que a política mundial é conduzida por políticas competitivas de poder. O sistema internacional é tido como anárquico e constituído por unidades de natureza similar (Estados). O Estado é a unidade política mais importante e é visto como um actor unitário e racional (com soberania sobre determinado território e com capacidade de identificar interesses e objectivos e escolher a melhor alternativa para os atingir). Os