Para os construtivistas, os discursos liberais e os realistas são apenas interpretações parciais da realidade. Este paradigma procura analisar criticamente as lógicas inerentes às duas perspectivas supra-citadas e desenvolver interpretações alternativas a estas. No que diz respeito ao argumento do poder normativo europeu, o construtivismo desenvolve vários exames, recorrendo a análises interpretativas (sejam estas linguísticas, narrativas, identitárias, sociais, históricas ou culturais). O ponto de partida para a maior parte destas apreciações críticas prende-se com a co-constituição entre o agente e a estrutura. Neste sentido, os analistas construtivistas procuram entender melhor os processos de construção da identidade da UE e as relações que se estabelecem entre os vários actores internacionais e entre estes e as unidades estruturais da sociedade internacional (sejam elas comportamentos-padrão, práticas comuns, leis, tratados ou instituições). As análises de Thomas Diez, Robert Howse e Kalypso Nikolaidis, Jennifer Mitzen e Federica Bicchi apontam vários caminhos alternativos para interpretar a identidade e acção da UE e a sociedade internacional.
Thomas Diez elabora um estudo construtivista do argumento normativo, centrado na necessidade de aprofundar as análises discursivas e da linguagem. O autor refere que ‘Europa’ é essencialmente um conceito disputado com um significado sempre
parcial e fluido. Deste modo, as tentativas de capturar a natureza da UE fazem parte de um combate político para fixar esse significado. Para Diez, a análise discursiva permite a possibilidade de contestação de alguns conceitos e dá uma dimensão reflexiva aos processos de pesquisa. Para além disto, este tipo de análise introduz uma nova e radical noção de ‘poder discursivo’ (relacionado com a contestação de conceitos e imposição e fixação de significados)329. Assim, as análises construtivistas centradas no universo linguístico permitem abordagens de relações internacionais que questionam acontecimentos que são tidos como imutáveis, garantidos ou inevitáveis e que estudam ao pormenor todos os processos que estão envolvidos na linguagem.
Em primeiro lugar, estas análises introduzem a noção de linguagem performativa: o discurso não só descreve a realidade mas também a transforma330. Como exemplo, o autor refere a cidadania europeia - que se desenvolveu por acção de actos discursivos de vários autores com intenções diversas331. De seguida, este ramo do construtivismo aponta as implicações políticas das performances linguísticas, ao procurar os sentidos e intenções originais destas práticas. O Construtivismo adverte-nos que o poder discursivo depende tanto do agente como da estrutura: é tão importante a prática de falar e impôr significados, como é importante o contexto linguístico332 no qual os termos estão inseridos e que condicionam o leque de significados à disposição dos actores. A este respeito, Diez refere a existência de um espaço discursivo próprio da UE e incompreensível para forasteiros333. Num terceiro momento de análise, os construtivistas explicam a transformação da realidade através
329 O poder discursivo implica que “os interesses dos actores estão dependentes do contexto discursivo em que emergem, pelo que o poder discursivo funciona por meio da prevenção que certos indivíduos ou classes [alterem o contexto discursivo e] formulem os seus interesses em primeiro lugar”. DIEZ, Thomas (1999), p.599
330 O conceito de ‘linguagem performativa’ adverte-nos para o facto de que “a linguagem não é um mecanismo neutro ou puramente descritivo: também contém avaliações e serve propósitos políticos”. DIEZ, Thomas (1999), p.601 331 DIEZ, Thomas (1999), p.601
332 Contextos discursivos são estruturas flexíveis que predispõem mas não determinam: “demarcam os limites do que pode ser articulado mas também fornecem aos agentes uma multitude de identidades em variadas posições subjectivas e são continuamente transformados pela adição e combinação de novas articulações“. DIEZ, Thomas (1999), p.611
333 Este contexto discursivo é personificado no dialecto europa (euro-speak), que conta com conceitos únicos como “acquis communautaire” (acervo comunitário), “co-decision” (co-decisão), ”subsidiarity” (subsidariedade) e ”supranationalité” (ordem supra-nacional). DIEZ, Thomas (1999), pp.603-604
de mudanças nos significados das palavras e conceitos334. Os contextos linguísticos em que os indivíduos estão imersos podem englobar novos sentidos e acepções que permitem a transformação da linguagem. Thomas Diez exemplifica este processo com o caso da entrada da Grã-Bretanha para a CEE335.
Com esta análise, Diez enfatiza a importância da linguagem, dos conceitos e ideias, para a compreensão dos fenómenos internacionais: “A linguagem desempenha muitas funções” que devem ser objecto de estudo336. Ao contrário do que pretendem
os realistas e os liberais, as conceptualizações não são exteriores ao seu objecto de análise, uma vez que fazem parte de um contexto discursivo337. Por outro lado, o fenómeno de transformação discursiva exemplifica a importância da abordagem construtivista, pois comprova o papel co-constitutivo do agente e da estrutura por oposição às simples ligações causa-efeito divulgadas pelos paradigmas racionalistas: em contraponto ao pressupostos realistas a estrutura não determina o agente; em oposição às conjecturas liberais o agente não determina a estrutura.
Robert Howse e Kalypso Nikolaïdis elaboraram um estudo construtivista que envolve uma análise discursiva e narrativa sobre a natureza da UE338. Com esta análise, os autores tentaram juntar assunções liberais, ditames realistas e interpretações críticas em torno das narrativas de projecção de poder europeu. Os autores analisam estas narrativas, dissecando as lógicas liberais de reprodução do modelo de integração regional e consideram que essa propensão para a UE se
334 O autor explica que este processo pressupõe ver a linguagem como uma série de cadeias de significados abertas a novas formulações: a conceptualização de “cadeia linguística”, avançada por Jacques Derrida. Nesta estrutura linguística existe sempre potencial para adicionar novas oposições e significados às cadeias já existentes e, apesar de cada nova adição à cadeia discursiva parecer mínima, ela pode fazer parte de uma grande transformação. Deste modo, é possível a criação de discursos alternativos que transformem a realidade. DIEZ, Thomas (1999), p.608 335 Na década de 50 a maioria dos britânicos tinha uma mentalidade eurocéptica e via a CEE como um governo burocrático europeu (processo de cooperação intergovernamental). No entanto, o debate político foi-se centrando em temas económicos, o que permitiu aos europeístas ligarem a ideia de processos de governo supranacional à ideia de um mercado comum (àrea de comércio livre). Com o intuito de pertencer a este ”modelo de governação económica supranacional”, o Reino Unido fez o pedido de adesão à CEE a 9 Agosto de 1961. DIEZ, Thomas (1999), p.607 336 A linguagem: descreve a realidade; permite-nos conhecer a realidade por via de paradigmas discursivos; organiza- se em contextos discursivos, que nos dão o sentido e o significado das palavras; e permite a construção de discursos alternativos por meio da alteração lenta e constante dos contextos discursivos. DIEZ, Thomas (1999), p.610
337 DIEZ, Thomas (1999), p.610
reproduzir não passa de uma ‘Eutopia’ (um conjunto de narrativas de projecção do poder europeu para a UE obter uma maior influência a nível mundial).
Na base desta narrativa está a noção de “Europa como vanguarda”339
. A UE é vista por muitos académicos do campo liberal como um “projecto baseado na criatividade política”, com características inovadoras e experimentais (“mais como um laboratório do que como um modelo”)340. Para esses académicos a UE é um actor
diferente nas relações internacionais, pois concentra o seu poder e a sua força mais no seu processo do que na sua estrutura e capacidades. Por outro lado, académicos ligados à tradição realista reforçam a ambiguidade das novas proposições e conceitos de poder defendidos pelos liberais: nas palavras de Robert Kagan, “a ambição de poder europeu [...] é um impulso atávico, inconsistente com os ideais de uma Europa pós-moderna cuja existência depende da rejeição das politicas de poder”341.
Para Nikolaïdis e Howse, o projecto europeu é, antes de mais, a invenção de um modelo político híbrido que une diferentes doutrinas europeias: a tradição francesa de dirigismo económico, a tradição alemã de racionalidade burocrática e jurídica e o sistema de comércio multilateral de tradição anglo-saxónica342. Para além da análise realista sobre a realidade sistémica existente; para além da análise liberal sobre a previsão do desenvolvimento das RI; estes autores procuram identificar as narrativas subjacentes à imaginação da Europa como uma comunidade. Neste sentido, eles encontram três modelos de justificações: a previsão de uma contínua expansão europeia que afecta os interesses dos cidadãos343; a utopia disfarçada de projecto pragmático344; e a realidade existente de expansão intergovernamental345. Os autores
339 Este conceito tem raízes históricas antigas e foi repetido pelos séculos com definições diversas do que essa vanguarda representa. Actualmente este conceito de vanguarda é-nos veiculado como estando ligado às concepções de poder civil e, mais recentemente, de poder normativo. NICOLAÏDIS, Kalypso; HOWSE, Robert (2002), pp.769-770 340 NICOLAÏDIS, Kalypso; HOWSE, Robert (2002), pp.769-771
341 Ibid., p.771 342 Ibid., p.775
343 A ideia de expansão europeia é suportada no desenvolvimento da jurisdição europeia em áreas como a economia, a moeda, as migrações e a justiça. NICOLAÏDIS, Kalypso; HOWSE, Robert (2002), p.781
344 Segundo os autores, esta utopia baseia-se na “vontade ontológica de rejeição do niilismo” e na procura de um espírito colectivo distintivo que transcenda esse conceito filosófico. NICOLAÏDIS, Kalypso; HOWSE, Robert (2002), p.781
criticam este projecto de expansão intergovernamental disfarçada e consideram que este é o principal motor do aprofundamento da integração europeia.
Para Nikolaïdis e Howse, a base da influência mundial da UE está na sua força narrativa. A força narrativa ou ‘poder narrativo’ da UE está espelhada nas suas “narrativas de projecção” horizontal e vertical346
. Este paradigma pós-nacional347 proposto pela Europa contém também uma tensão entre a unidade e diversidade, que se resolve com a aplicação do conceito de ‘confronto com a diversidade’. Este conceito é oposto ao de unificação e requer uma dupla solidariedade: a solução europeia para a resolução de conflitos entre Estados liga-se à subordinação estatal a princípios e valores universais partilhados; e à obtenção de compromissos e acordos entre Estados sem serem necessárias constantes políticas de harmonização ou de unificação348. Os autores caracterizam esta proposta das correntes cosmopolitas liberais como utópica, na medida em que é quase impossível a manutenção de um balanço correcto entre os dois requisitos da dupla solidariedade349.
Estes construtivistas concluem o seu artigo com uma crítica feroz às posições liberais sobre o argumento normativo, repudiando a utopia das normas substantivas universais e o aproveitamento dos instrumentos e instituições da UE para reforçar a