2.3 Dos receivers
2.3.1 A busca para que o trabalho do receiver seja bem-sucedido
em outras palavras, serão custeadas indiretamente pela população, que, ao invés de receber o serviço adequado, tal como reconhecido pelo Poder Judiciário como devido, pagará multas pelo não cumprimento da ordem exarada.
Ademais, é claro que o potencial da medida no sentido de eliminar a desobediência a ordens judiciais é muito alto, visto que o alcance do cumprimento das ordens judiciais acaba por proteger a legitimidade dos tribunais ao evitar que alguns réus se mostrem acima da lei.
Podem ser utilizados tanto particulares como funcionários públicos para exercer o cargo de receiver, podendo, da mesma forma, sofrer intervenção tanto réus públicos quanto privados. Como as decisões a serem concretizadas pelos receivers variam imensamente, assim como são diversificadas as atividades a serem exercidas, bem como o tipo de relação a ser desenvolvida entre o receiver e o próprio Poder Judiciário, é necessária a nomeação de profissional com conhecimento específico exigido pelo caso sub judice, para que as chances de a medida ser bem-sucedida aumentem, visto que o escopo é sempre o de atender na prática ao direito reconhecido como devido por decisão judicial136.
Os receivers, nos Estados Unidos, são vistos como símbolos do perigo relacionado ao ativismo judicial. Contudo, ao mesmo tempo significam uma oportunidade de o juízo se utilizar de mão de obra qualificada para dar cumprimento às suas decisões137.
2.3.1 A busca para que o trabalho do receiver seja bem-sucedido
136 DEGRAW, James S. Rule 53, inherent powers, and institutional reform: the lack of limits on special masters. New York University Law Review, n. 800, June 1991. Disponível em:
www.lexisnexis.com. Acesso em: 15 abr. 2005.
137 LUEDTKE, Carolyn Hoecker. Innovation or Illegitimacy: Remedial receivership in Tinsley v.
Kemp public housing litigation. Missouri Law Review, n. 655, Summer 2000. Disponível em:
www.lexisnexis.com. Acesso em: 23 mar. 2005. Disponível em www.lexisnexis.com. Acesso em: 27 mar. 2005.
Em face da experiência norte-americana no uso de receivers, é possível apontar aspectos a serem observados para que o seu emprego se mostre bem-sucedido na prática.
O primeiro deles é ser imprescindível que o juiz, quando determinar a forma como a decisão judicial deverá ser cumprida, fixe claramente o ponto a que se quer chegar, ou seja, deve haver o desenho de uma porta de saída indicando quando a intervenção terá fim.
Note-se que, na prática, a intervenção tende a ter longa duração, visto impor valores sobre uma instituição e, indiretamente, sobre toda a sociedade138. Exemplificando com casos que tiveram lugar no Judiciário norte-americano, vemos que Brown apenas teve fim em 1999 (a sua propositura data de 1951);
Ruiz v. Estelle, um dos primeiros casos de melhorias em prisão, foi encerrado em 2002, e Gautreaux v. Chicago Housing Authority, que teve seu início em 1966, encontrava-se ativo em 2004, conforme noticiado por David Zaring139.
Isso ocorre, geralmente, em virtude de a determinação sobre aonde se quer chegar com a imposição de um receiver não ser fácil, pois, como vimos no item 2.2.1.2, é muito comum que haja incertezas inclusive nos limites do direito a ser garantido à parte, quiçá no que tange à forma de lhe dar cumprimento, bem como quando o direito terá sido adequadamente atendido, indicando o final da intervenção.
Mesmo diante dessas incertezas, fato é que, quanto mais clara for a decisão, indicando precisamente quando, como e por que a intervenção terá fim, maiores serão as chances de se apresentar bem-sucedida. Importante frisar que a intervenção deverá ser obrigatoriamente finalizada, e se esse fim se
138 YOO, John Choon. Recognizing the limits of judicial remedies: Who measures the chancellor’s foot? The inherent remedial authority of the Federal Courts. California Law Review, n. 1121, July 1996. Disponível em: www.lexisnexis.com. Acesso em: 25 mar. 2005.
139 National rulemaking through Trial courts: the big case and institutional reform. University of California UCLA Law Review, n. 1015, Apr. 2004. Disponível em: www.lexisnexis.com. Acesso em: 28 abr. 2005.
apresentar impossível de ser alcançado por meio das medidas determinadas pelo juiz ou pelo receiver, evidente será que os meios inicialmente fixados para buscar a observância do decreto judicial devem ser alterados, sob pena de a intervenção se perpetuar, o que nunca é desejado.
No julgamento do caso Board of Education v. Dowell, por exemplo, foram estabelecidos os seguintes passos a serem cumpridos para que fosse reconhecido o fim da intervenção: i) determinar se o distrito escolar está obedecendo à decisão judicial de boa-fé; ii) estabelecer se os vestígios da discriminação passada foram eliminados em uma extensão aceitável140. Nesse exemplo, portanto, ab initio, foram indicados os objetivos a serem alcançados com a intervenção, de modo que, sendo implementados, ela deverá ter seu fim decretado.
Segundo, para a intervenção realmente alcançar os fins colimados é indispensável que o profissional indicado para ser o receiver seja versado na área em que terá de atuar e disponha de tempo para exercer esse papel.
Por exemplo, a decisão que determinou o remodelamento dos abrigos públicos na cidade do Kansas apenas colheu algum resultado quando o terceiro receiver foi nomeado141. Neste caso, os dois primeiros indicados para a função não tinham conhecimento de como se administrava um abrigo público, nem dispunham de tempo suficiente para exercer o papel de auxiliar do juízo, já que essa era uma atividade paralela à sua profissão principal. Assim, apenas a terceira tentativa obteve sucesso na implementação das políticas públicas
140 RENDLEMAN, Doug. Remedies discussion forum: Brown II’s “all deliberate speed” at fifty: a golden anniversary or a mid-life crisis for the constitutional injunction as a school desegregation remedy? San Diego Law Review, n. 1575, Autumn 2004. Disponível em: www.lexisnexis.com.
Acesso em: 10 mar. 2005.
141 A decisão judicial em comento foi aceita espontaneamente pela autoridade responsável, que se comprometeu a contratar firma de arquitetura para reformar as casas populares existentes.
Comprometeu-se, ainda, a não demolir as já existentes, realizar campanhas publicitárias para reverter a má-fama do local, tomar medidas para aumentar a ocupação das mesmas, além de encontrar formas para atrair moradores que não pertencessem às minorias, a fim de afastar a fama de tais residências abrigarem apenas descendentes de africanos, sendo que tais compromissos acabaram por não ser cumpridos voluntariamente, exigindo então a nomeação de um receiver para por em prática o quanto determinado pelo juízo. Ver LUEDTKE, Carolyn Hoecker. Innovation or illegitimacy: remedial receivership in Tinsley v. Kemp public housing litigation. Missouri Law Review, n. 655, Summer 2000. Disponível em: www.lexisnexis.com.
Acesso em: 27 mar. 2005.
determinadas, pois quem assumiu o encargo foi uma empresa especializada em administrar abrigos públicos.
Outro fator crucial para o sucesso da medida é o envolvimento do juiz com o cumprimento de sua ordem, acompanhando-a e realizando adaptações que se mostrem necessárias ao desenvolvimento das tarefas. O juiz, ao colocar uma instituição sob intervenção, fatalmente acompanhará o seu dia a dia, estabelecendo relação direta tanto com o interventor, que precisa ser controlado e prestar-lhe contas, como com aqueles que fazem uso de seus serviços. Somente com um regime contínuo de supervisão se alcança a observância do quanto determinado judicialmente142.
Vemos, portanto, que três são os principais pontos a serem observados para se alcançar sucesso no obter-se cumprimento de decisão judicial por meio da imposição de receivers: fixar claramente os objetivos a serem alcançados;
nomear experts na área exigida para dar cumprimento à decisão judicial, os quais tenham tempo disponível para se dedicar ao exercício desse ofício, e ter um juiz envolvido na sua execução. Sem a observância desses três elementos, provavelmente a decisão não será adequadamente cumprida, a despeito do uso de medida tão drástica.