3.2 Casa Brasil
3.2.1 A busca por um projeto integrador
As articulações políticas dentro do Governo Federal em direção a uma integração das ações são oficialmente iniciadas no dia 27 de Julho de 200474. Neste dia acontece uma primeira reunião no Ministério das Comunicações, reunindo representantes de vários
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ministérios e órgãos públicos envolvidos com projetos ou programas de inclusão digital para discutir a unificação de todos em torno de um programa. A idéia era que todos pudessem acontecer em um mesmo espaço, cada um desenvolvendo suas atividades, mas sob uma coordenação única.
Não existem documentos oficiais, mas no dia 4 agosto de 2004, durante uma reunião da Câmara de Política de Desenvolvimento Econômico, Swedenberger Barbosa, então Secretário-Executivo da Casa Civil, anunciou que o Governo iria lançar o Programa Brasileiro de Inclusão Digital (PBID). O programa seria baseado em três eixos: investimentos em telecentros; gestão comunitária desses telecentros; e uso de software livre75. Em entrevista à Agência Brasil, na mesma época, Swedenberger, esclareceu que a meta do Governo era de abrir 1 000 telecentros até junho de 2005 e chegar a 6 000 até 2007, dentro do cronograma do Plano Plurianual de Investimentos (PPA)76. O PBID viria a ser o projeto Casa Brasil.
É importante notar que este novo projeto viria a ser coordenado, não por um Ministério, mas pela Casa Civil. O órgão, ligado diretamente à Presidência da República, dava ao projeto a força política que o comitê gestor da Internet, criado anteriormente, não tinha para convergir os programas de inclusão digital. Além disso, o chefe da Casa Civil, José Dirceu, juntamente com Luiz Gushiken, Secretário de Comunicação na época e Sérgio Amadeu Presidente do Instituto de Tecnologia da Informação (ITI) apoiavam o projeto junto ao Presidente Lula. Esses atores políticos ligados ao Partido dos Trabalhadores (PT) de São Paulo conheciam a experiência dos telecentros criados na gestão da Prefeita Marta Suplicy. Outro ator importante, segundo um dos entrevistados, foi Luiz Cerqueira César, presidente da área de Tecnologia e Logística do Banco do Brasil, que propôs a criação de um espaço de inclusão digital e social chamado Casa Brasil:
O vice-presidente da área de Tecnologia e Logística [do banco do Brasil] da época era o Luiz Cerqueira César. Ele numa reunião com outros ministros e outras áreas, falando em inclusão digital, falando de inclusão social, surgiu essa proposta de um local que o Governo pudesse botar uma marca Casa Brasil concentrando oportunidades de inclusão, de capacitação, de preparação para o mercado de trabalho e outras formas de inclusão. (entrevista 10).
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A intenção política era que finalmente o Governo viesse a ter um programa integrado de inclusão digital e, que no futuro, esse projeto pudesse ser a gênese de um processo de criação de uma política pública de inclusão digital, assim como já é a educação e saúde, e não mais uma nova iniciativa de inclusão digital. Alguns dos entrevistados comentam da seguinte forma a intenção com o Casa Brasil:
a principal motivação do Casa Brasil no momento [em que foi criado] foi que tinha muitos projetos de inclusão digital. Então, cada empresa, cada órgão do Governo tinha seu programa de inclusão digital e não tinha um emblemático, não tinha algo que fosse emblemático no processo de inclusão digital. Então, se montou um projeto que seria a cara do Brasil, seria a cara do Governo em termos de inclusão digital. Seria o grande marco. Essa era a idéia do programa. (entrevista 12).
A idéia é que toda iniciativa no nível do Governo Federal, tenha como paradigma o Casa Brasil. (entrevista 09).
Paralelamente, no ano de 2004 e ao longo de 2005, o Governo enfrentava uma das maiores crises políticas do Governo Lula, que veio a ser conhecida como a ―crise do mensalão‖. A crise atingiu diretamente os principais apoiadores do projeto dentro da presidência. No dia 16 de Junho de 2005, José Dirceu anunciou sua saída da Casa Civil, de volta para a Câmara dos Deputados. Em 12 de setembro de 2005 foi a vez de Sérgio Amadeu do ITI deixar o Governo. A saída desses atores iria enfraquecer politicamente, não somente o projeto dentro do Governo, mas também a sustentação necessária para que o projeto continuasse sendo visto como a gênese de uma política pública de inclusão digital. Um dos entrevistados comenta este início do projeto nos seguintes termos:
No momento crucial de construção do projeto Casa Brasil veio a crise política. Então, os principais atores que estimulavam essa junção e essa concentração acabaram tendo outras prioridades, logo depois o José Dirceu deixou de ser ministro, o [Luiz] Gushiken77 deixou de ser ministro, o Eunício Oliveira78 que era outro apoiador do Ministério das Comunicações deixou de ser ministro, o Eduardo Campos79 que era outro apoiador deixou de ser ministro, o Sérgio Amadeu que era presidente do ITI, que encampou a idéia, que foi um grande animador da idéia deixou a presidência do ITI. Então, esse ambiente político de conjunção ficou muito prejudicado, extremamente prejudicado. Então, você tocar todo esse time e continuar um esforço político é muito difícil até porque as pessoas que assumem, assumindo num momento de crise, as prioridades são criadas muitas vezes pela conjuntura, pelo calor do momento. Então, isso dificultou muito. Isso dispersou as energias. Então, esse investimento político, que é necessário para a conjunção dessas iniciativas não conseguiu ter êxito, ser
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Ex Ministro da Secretaria de Comunicação do Governo federal 78 Ex-Ministro da Comunicação
implementado, por diversos motivos. [...] O Governo vê a inclusão digital como estratégica, só que a conjuntura não foi a melhor. (entrevista 08).
Durante esse período de indefinição — ainda sem orçamento aprovado — para que o projeto não ficasse completamente paralisado, dez unidades são abertas, com recursos repassados pela Petrobrás no final de 200480. A primeira unidade do Casa Brasil é inaugurada em 24 de dezembro de 2004, na cidade de Valente- BA. Mas as outras 89 unidades previstas iriam tomar os dois anos seguintes para estarem em plena atividade. Cada unidade completa do Casa Brasil previa um custo de R$ 260 mil. Para que as 1.000 unidades fossem implantadas seriam necessários pelo menos R$ 260 milhões. O Governo Federal procurava fazer o chamado superávit primário e não aprovou verbas para o projeto. Com isso, a disputa por recursos dependia da aprovação no congresso.
Em 29 de dezembro de 2004 o congresso aprovou, no orçamento de 2005, o total de R$ 224 milhões para implantação do Casa Brasil. A emenda no orçamento foi apresentada pela Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara e os recursos para o projeto seriam executados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia81.
No dia 10 de março de 2005, o Presidente Lula assinou um decreto criando o ―Comitê Gestor do Projeto Casa Brasil‖ no âmbito da casa civil da Presidência da República. Apesar disso, o projeto não iria iniciar suas atividades na brevidade que havia sido previsto. Como a idéia era a de fazer nascer uma política pública o projeto precisaria ter uma amplitude nacional. Mas o início do projeto é bem mais tímido do que inicialmente pensado, pelas razões políticas expostas acima e pela falta de experiência com o que se pretendia fazer, conforme é descrito por um dos entrevistados:
Inicialmente as pessoas que estavam à frente disso imaginavam um projeto do qual se implantassem 1.000 unidades do Casa Brasil, Brasil a fora, sempre em bolsões de pobreza, lugares de baixo IDH, isso, estabelecessem uma política de inclusão digital do Governo que fosse crescendo, crescendo, mas isso implicaria num aporte de recursos muito grande e muito pouca experiência.[...] a experiência global de fazer um projeto nacional, não tinha sido efetivamente levada a efeito. Então, o que se acordou foi que se fizesse uma experiência piloto. Essa experiência implicaria na implantação de 90 unidades, isso seria aproximadamente 1/10 (um décimo) do plano original e que essas unidades fossem avaliadas no que diz respeito a sua eficácia, se realmente os propósitos que se imaginavam que elas cumprissem seriam efetivamente cumpridos, se seria viável, praticável. (entrevista 09).
Mesmo com os recursos aprovados, a sua liberação não ocorreu como previsto. Somente em outubro de 2005, os recursos foram concretizados e o projeto tinha até o final do ano para fazer a licitação e realizar o orçamento. No entanto, no momento em que a licitação ficou pronta, os recursos tinham já sido utilizados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia.
Fizemos a licitação no dia 29 de dezembro [de 2005], nós batemos com martelo. Não tinha mais dinheiro. [...] no final do ano de 2005 [...], houve uma liberação maciça [de recursos] [...] Lá no MCT [Ministério da Ciência e Tecnologia] os recursos que estavam financeiramente reservados para a gente foi utilizado nos projetos que existiam. Então, quando nós chegamos e dissemos ―olha, está aqui a licitação‖. Não tem recursos. Então, nós passamos essa licitação para o ano seguinte [2006], sendo que no ano seguinte, a gente não tinha uma rubrica específica no orçamento para isso. Então, houve muita negociação e só lá para o mês de agosto [de 2006] em diante que a gente conseguiu a solução financeira para o problema .[...]. Então, a gente só conseguiu de fato fazer a compra e entregar a partir de novembro do ano de 2006. (entrevista 09).
Este rápido histórico do início do Casa Brasil, que vai das primeiras articulações políticas em 2004 até o início de 2007, demonstra que o projeto, inicialmente concebido dentro de um determinado contexto de forças políticas que pretendiam torná-lo no piloto de uma política pública de inclusão digital, não atingiu os objetivos políticos previstos. Ainda é muito cedo para prever os desdobramentos políticos do projeto e a importância que ele receberá dentro do Governo, mas será necessário um novo arranjo político para que o projeto volte a ser, ou não, o projeto aglutinador das iniciativas de inclusão digital já existentes82. O relatório final de avaliação das 90 unidades previstas no projeto piloto ainda não foi finalizado, mas não se questiona, dentro do projeto, a sua paralisação ou extinção. O objetivo é que o Casa Brasil deixe de ser um projeto para se transformar em numa ―ação governamental Casa Brasil‖. (entrevista 09)