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Código de Ética do Assistente Social (1993)

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA (páginas 75-79)

CAPÍTULO 3 – DOCUMENTOS JURÍDICO-NORMATIVOS DO SERVIÇO SOCIAL

3.1 DOCUMENTOS JURÍDICO-NORMATIVOS DO SERVIÇO SOCIAL: UMA

3.1.1 Código de Ética do Assistente Social (1993)

Entendemos que um código de ética profissional existe para orientar eticamente o exercício do trabalho de determinada categoria, reunindo em seu conjunto as normas éticas consideradas importantes que fundamentam aquela profissão. Nesse sentido, há uma responsabilização individual – do profissional – e coletiva – da categoria – das ações e dos comportamentos praticados durante o exercício da profissão. Dessa forma, os

Códigos de Ética expressam sempre uma concepção de homem e de sociedade que determina a direção das relações entre os indivíduos.

Traduzem-se em princípios e normas que devem se pautar pelo respeito ao sujeito humano e seus direitos fundamentais. (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2005)

Para o Serviço Social, o código de ética e seus princípios “[...] são parte dos elementos constitutivos do projeto profissional [...] conhecido como projeto ético-político” (SANTOS, D., 2019, p. 453). Desse modo, reflete as perspectivas teóricas e políticas da profissão.

Em 13 de março de 1993, foi instituído o Código de Ética Profissional do/a Assistente Social, a partir da Resolução nº 273 do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), que determinou sua ampla divulgação pelos Conselhos Regionais de Serviço Social.

De acordo com o CFESS (2019), o Código de Ética do Assistente Social significou uma negação da base histórica tradicional e conservadora, bem como da ética da “neutralidade” nas quais se baseou o Serviço Social brasileiro desde a sua

criação. Assim, marcou um novo perfil de assistente social, comprometido politicamente, e uma construção de “[...] um projeto profissional que, vinculado a um projeto social radicalmente democrático, redimensionava a inserção do Serviço Social na vida brasileira, compromissando-o com os interesses históricos da massa da população trabalhadora.” (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 2019, p.

13). A revisão do código de 1986, então, estaria pautada em valores inegociáveis para o Serviço Social pós-movimento de reconceituação, como liberdade e justiça social, colocando também, no entanto, a democracia como “valor ético-político central”.

Desse modo, esses princípios orientariam as relações entre assistentes sociais, instituições, organizações e população (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 2019, p. 14).

Por compreender a importância e a simbologia do Código de Ética tanto para profissionais quanto para estudantes em formação, considero, portanto, a relevância de analisá-lo, porquanto os princípios éticos são tratados não apenas no Código do Assistente Social, mas também em disciplinas no decorrer da graduação, sendo conhecidos e estudados no itinerário formativo de Serviço Social. Logo, a ética presente no código do assistente social é também, por sua vez, a ética ensinada e orientada na graduação e nas diretrizes curriculares do Serviço Social.

Como dito, o Código de Ética de 1993 é uma revisão do código de 1986. Desde a retificação, já sofreu algumas alterações demandadas pelas Resoluções CFESS nº 290/1994, 293/1994, 333/1996 e 594/2011. Nele são pontuados: direitos; deveres e responsabilidades do assistente social – em relação ao exercício profissional; relações profissionais com usuários; relações com instituições empregadoras; entidades da categoria e Organizações da Sociedade Civil; relações com assistentes sociais e outros profissionais; relações com a justiça, além de penalidades possíveis;

competências do Conselho Federal de Serviço Social; e princípios da profissão.

No que tange aos princípios fundamentais, no código de 1993, há expressivas defesas à classe trabalhadora, aos direitos humanos – bem como os civis, sociais e políticos – e ao projeto societário defendido pelo Serviço Social – advindo do movimento de reconceituação (NETTO, 2015), expressas em todos os pontos, mas enfatizadas no I, III, IV, V, VIII, IX e XI.

É evidente que há, a partir de 1986, uma guinada no posicionamento ético-político do Serviço Social, que situa a classe trabalhadora como foco de atuação e inclui no seu repertório político pontos como liberdade, emancipação, classe e luta

dos trabalhadores. Isso demarca um processo de renovação na profissão a partir da década de 1970, que passa a adotar fundamentos teórico-metodológicos fincados na tradição marxista, com a vertente denominada Intenção de ruptura (NETTO, 2015).

Essas mudanças ficam óbvias no código de 1993 e nas suas posteriores alterações.

Em 2011, ocorre uma nova modificação. Dessa vez, adequa-se a linguagem de gênero – inserindo as formas masculinas e femininas da língua –, muda-se o termo

“opção sexual” por “orientação sexual” e inclui “identidade de gênero”. Essas transformações marcam um posicionamento político do Serviço Social, reconhecendo a formação majoritariamente feminina da categoria e as diversas formas de expressão de gênero e das orientações sexuais. Isso se constitui um avanço para a profissão, porque pretende alterar não apenas as relações entre os assistentes sociais, mas também as relações com a população de forma geral. Esse respeito à “diversidade”

pode ser visto nos princípios VI, VIII e XI.

Todavia, o CFESS não alterou a menção apenas à categoria etnia, sem incluir a categoria raça. As únicas citações às dinâmicas étnico-raciais do Brasil no código de ética são nos princípios VIII e XI, restringindo ao termo “etnia”. Segundo Kabengele Munanga (2003), o conceito de raça corresponde à morfologia e à biologia, e o de etnia compreende aspectos sociais, culturais, históricos e psicológicos. Para ele, “[...]

etnia é um conjunto de indivíduos que, histórica ou mitologicamente, têm um ancestral comum; têm uma língua em comum, uma mesma religião ou cosmovisão; uma mesma cultura e moram geograficamente num mesmo território” (MUNANGA, 2003, p. 12).

Nesse sentido, utiliza o termo “população” ao invés de “raça” ou “etnia” para se referir a negros, brancos e indígenas, por exemplo. O autor ressalta a utilização do conceito de raça, por parte de pesquisadores brasileiros, para explicar o racismo, visto que este último se basearia na noção hierarquizada de raças fictícias – desenvolvidas pela ciência europeia e presentes no imaginário das sociedades. Ademais, aponta a comum substituição do termo “raça” por “etnia”, em virtude da comodidade e da ideia politicamente correta. No entanto, salienta que

Essa substituição não muda nada à realidade do racismo, pois não destruiu a relação hierarquizada entre culturas diferentes que é um dos componentes do racismo. Ou seja, o racismo hoje praticado nas sociedades contemporâneas não precisa mais do conceito de raça ou da variante biológica, ele se reformula com base nos conceitos de etnia, diferença cultural ou identidade cultural, mas as vítimas de hoje são as mesmas de ontem e as raças de ontem são as etnias de hoje. O que mudou na realidade são os termos ou conceitos, mas o esquema ideológico que subentende a dominação e a exclusão ficou intato. É por isso que os conceitos de etnia, de

identidade étnica ou cultural são de uso agradável para todos: racistas e anti-racistas. (MUNANGA, 2003, p. 12-13)

Carlos Moore (2012) apresenta uma ideia divergente de Kabengele Munanga.

Sem menosprezar a importância da categoria raça como impositora das interpretações modernas sobre racismo, afirma que a racialização presente na ciência moderna, entre os séculos XVIII e XIX, só foi possível a partir do critério fenotípico disseminado em todo o mundo. Dessa forma, para o autor, o racismo, desde os seus primórdios, foi fundamentado social e culturalmente no fenótipo, antes de ser baseado política e economicamente na biologia. Desse modo, continua a “Negar a existência da raça, portanto, é um absurdo, ao qual somente se pode chegar por meio de uma postura a-histórica.” (MOORE, 2012, p. 19).

Assim, ainda que partam e sigam por posicionamentos teóricos discordantes, concluímos uma questão essencial: não há como tentar apagar ou invisibilizar a categoria raça de discussões sociais, históricas, econômicas e políticas nem trocar por termos considerados mais amenos. São inegáveis as ideias existentes em torno da raça e em como isso moldou de diversas formas o imaginário social de distintas sociedades ao longo dos anos, sobretudo no Brasil, não só pela construção dada pela ciência moderna, mas também pelo acolhimento do fenótipo no seu significado também simbólico. Isso posto, seguindo Moore (2012, p. 19), é o fenótipo “[...] não os genes, que configura os fantasmas que nutrem o imaginário social; que serve de linha de demarcação entre os grupos raciais e como ponto de referência em torno do qual se organizam as discriminações ‘raciais’”. Logo, se a raça assume o fenótipo como integrante e tendo em vista todo o seu significado sócio-histórico e político, não dá para ignorar essa categoria.

A ausência da categoria racial juntamente a de etnia nos princípios fundamentais do Código de Ética do Assistente Social demarca, de certa forma, uma recusa e uma desconsideração do significado social, histórico e político da raça, no Brasil e no mundo. Esse encobrimento e posicionamento causam certa estranheza, tendo em vista o direcionamento ético-político assumido pelo Serviço Social, que pretendia romper com o histórico tradicional e conservador da profissão, construído também sob a eugenia e o racismo (FERREIRA, 2010; GONÇALVES, 2018).

Outro princípio que merece destaque é o VII, que trata sobre a “garantia do pluralismo” e o “compromisso com o constante aprimoramento intelectual”

(CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 2019, p. 16). Sobre isso, faço um

questionamento: como haverá o pluralismo teórico e aprimoramento intelectual se, no Serviço Social, há uma exaltação e predominância da teoria e de autores marxistas e seus derivados em todos os níveis, enquanto outras teorias tão válidas quanto – ou até mais, para entender a realidade brasileira – são postas de lado? Não há como existir aprimoramento intelectual e pluralismo quando a formação é, na maioria das vezes, restrita a uma concepção teórica – a marxista –, na qual professores-pesquisadores-assistentes sociais podem ter seus trabalhos secundarizados ou deslegitimados por não a seguir.

Falamos de uma profissão que demorou mais de 70 anos para considerar a questão racial como quase fundamental, pois, se de fato fosse reconhecida como tal, não estaria escondida por trás de termos brandos ou, muitas vezes, fadada a pouca relevância.

Importa debater questões como estas, porquanto um código de ética versa sobre uma compreensão do tipo de homem e de sociedade nos quais determinada categoria profissional acredita, tal qual o tipo de profissional que se deseja ter formado.

Quando pensamos nisso, entendemos que, se o Código de Ética do Assistente Social deve refletir as mudanças ocorridas ao longo dos últimos 50 anos na profissão, não deve continuar a ocultar termos e categorias essenciais para debates sócio-históricos e políticos, sobretudo no que tange à questão racial. A continuidade de silenciamentos e secundarizações fala também sobre escolhas e posicionamentos políticos. Logo, diante do exposto, cabe-nos refletir: será que a renovação ocorrida em Serviço Social no movimento de reconceituação, a partir da vertente de ruptura, integrou aos seus fundamentos históricos, teóricos e metodológicos a questão racial e todos os seus desdobramentos em sua essência, sem condicioná-la à questão de classe de diferentes formas?

3.1.2 Diretrizes curriculares para os cursos de Serviço Social – MEC (2002)

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA (páginas 75-79)