CAPÍTULO 3 – DOCUMENTOS JURÍDICO-NORMATIVOS DO SERVIÇO SOCIAL
3.1 DOCUMENTOS JURÍDICO-NORMATIVOS DO SERVIÇO SOCIAL: UMA
3.1.3 Documentos e iniciativas da ABEPSS e Conjunto CFESS-CRESS
3.1.3 Documentos e iniciativas da ABEPSS e Conjunto CFESS-CRESS
igualar? De fato, queremos ser iguais – aos brancos? Isso demonstra que até mesmo quando se fala numa perspectiva “antirracista” ainda nos expressamos nos termos e no jogo de dominação.
Em 2020, o conjunto CFESS-CRESS organizou a campanha da gestão 2017-2020 intitulada Assistentes Sociais no combate ao racismo: o livro. Ele reúne as diversas ações em formato de oficinas, cartazes, site59, panfletagem, articulações com organizações do movimento negro, participações em eventos e encontros nacionais, regionais e locais, fixação de cards sobre a campanha em combate ao racismo e exposições de denúncia contra o racismo. Ele também ressalta a participação de diversas assistentes sociais – também professoras – de instituições de ensino e de trabalho. Todas participaram ativamente da campanha, montando a agenda e pensando as peças publicitárias. O livro retrata inclusive o combate de assistentes sociais ao racismo no exercício profissional, com vivências reais ao redor do Brasil, salientando algumas possíveis tarefas para o enfrentamento. Essa obra se propõe a ser um documento memorial para registrar as ações do conjunto CFESS-CRESS entre os anos de 2017 a 2020 (CFESS, 2020). Essa foi, de fato, uma iniciativa importante da categoria, com foco no cotidiano profissional.
Na área acadêmico-científica, tem o trabalho da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), entidade que “[...] coordena e articula o projeto de formação em serviço social no âmbito da graduação e pós graduação” (ABEPSS, [20--]). É uma instituição responsável por pensar, discutir e propor questões relacionadas ao ensino – currículo e formação – no Serviço Social, e é considerada como uma das mais representativas da categoria. Tem em suas produções diversos documentos importantes como as Diretrizes Curriculares, Política Nacional de Estágio (PNE), Projeto ABEPSS Itinerante, Grupos de trabalho temáticos e oficinas nacionais e regionais, além da produção da Revista Temporalis, de grande exponencial em Serviço Social. A ABEPSS atua juntamente ao CFESS, ao CRESS e à Executiva Nacional dos Estudantes de Serviço Social (ENESSO) em defesa do trabalho e da formação e contra a precarização do ensino superior (ABEPSS, [20--]).
Como uma das ações importantes da ABEPSS, há a criação dos Grupos Temáticos de Pesquisa (GTP), com foco na produção e circulação do conhecimento.
Os GTP estão divididos em 8 grupos, a saber: Trabalho, Questão Social e Serviço
59 O site pode ser consultado através deste link: www.servicosocialcontraracismo.com.br.
Social; Política Social e Serviço Social; Serviço Social: Fundamentos, Formação e Trabalho Profissional; Movimentos Sociais e Serviço Social; Questões Agrária, Urbana, Ambiental e Serviço Social; Serviço Social, Relações de Exploração/Opressão de Gênero, Feminismos, Raça/Etnia e Sexualidade; Ética, Direitos Humanos e Serviço Social; e Serviço Social, Geração e Classes Sociais.
Dentre eles, o único que tem a questão racial como seu objeto de estudo é o GTP sobre relações de exploração/opressão, que possui 3 eixos como ênfase de pesquisa: 1 – Sexualidades, identidade de gênero e direitos, 2 – Relações patriarcais de gênero e raça, 3 – Relações étnico-raciais e desigualdades/Antirracismo e Serviço Social e 4 – Feminismos e Serviço Social. O 2 aborda o trabalho – em seus aspectos raciais e sexuais – o sistema capitalista racista e as violências raciais e sexuais sofridas pelas mulheres nos diferentes espaços. O eixo 3, dentre outras coisas, pesquisa as teorias raciais e o pensamento social na formação do Brasil – do século XIX aos dias atuais – o movimento negro e o movimento de mulheres negras, ações afirmativas, questão social e questão étnico-racial na formação e no exercício profissionais.
Esse GTP foi criado em 2010 enquanto ocorria o Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social (ENPESS) e estabeleceu, como um dos pontos a serem avaliados pelo GTP, o cumprimento das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 nos cursos de Serviço Social. Foram constatadas, à época, a majoritária concentração e visibilidade às pesquisas realizadas nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, bem como a baixa produção sobre raça/etnia pelo Serviço Social (QUEIROZ et al., 2014).
Como um desafio a ser enfrentado pelo grupo, consta
a importância de ofertar disciplinas nos cursos de graduação em Serviço Social que tratem das temáticas de gênero, raça/etnia, sexualidade e geração, antes ou concomitante à inserção no estágio supervisionado, observando ainda ser essencial garantir pelo menos uma disciplina obrigatória que aborde a temática do GTP. (QUEIROZ et al., 2014, p. 240)
Faz-se necessário refletir sobre a necessidade de atravessamento da questão racial em todos os GTP, entendendo-a enquanto lente analítica essencial em todas as temáticas propostas em cada grupo. Ademais, o currículo-formação em Serviço Social deve ser reestruturado de forma a colocar a questão racial como um dos fundamentos teórico-metodológicos da profissão, para que seja vista, assim como a questão de classe, em todas as disciplinas e os semestres do curso. Considero que a exigência de apenas disciplinas isoladas pode ser facilmente burlada e que esse é um tema que
deve ser tratado transpassando todos os aspectos teórico-metodológicos, práticos e ético-políticos do Serviço Social.
Outro documento importante elaborado pela ABEPSS em 2018 foi o Subsídios para o debate sobre a questão étnico-racial na formação em Serviço Social, que tem como premissa “[...] contribuir na construção desse conceito para o entendimento da relação entre raça/etnia e classe como estrutural e estruturante das relações sociais, considerando que o racismo é uma das fundantes dessas relações no Brasil.”
(ABEPSS, 2018, p. 13).
Esse documento realiza uma discussão teórica relevante a respeito da questão étnico-racial no país, enfatizando a indissociabilidade da opressão e da exploração de classe e da questão étnico-racial na análise das relações sociais no país, sob o prisma da totalidade social. Além disso, destaca que a questão étnico-racial deve ser considera como estrutural e estruturante das relações sociais, articulando-se essencialmente ao trabalho e à questão social, sendo mediadora fundamental das diversas expressões dessa última.
Em um trecho, é destacada a necessidade da materialização da questão étnico-racial nos currículos e nos projetos pedagógicos de curso, nas disciplinas, na pesquisa e na extensão – tanto na graduação quanto na pós-graduação, bem como cita a indispensabilidade de conteúdos antirracistas em cada núcleo de fundamentação da formação profissional – mencionados anteriormente. O documento evidencia ainda o compromisso ético-político do Serviço Social com a formação, com a promoção e respeito ao “[...] livre pensamento, autônomo e democrático, opondo-se a toda forma de cerceamento do conhecimento” (ABEPSS, 2018, p. 21), com a implementação da Lei 10.639/2003.
As ações e documentos construídos pelo CFESS e ABEPSS, sobretudo a partir de assistentes sociais negros, podem ser considerados fundamentais nos âmbitos acadêmico-científicos e profissional. Contudo, ainda são muito recentes, tendo em vista a idade da profissão no país e o longo período de silenciamento e omissão diante da questão racial no Brasil. É evidente que grande parte do movimento dentro dessas entidades partiu de assistentes sociais negros que vivenciaram esse apagamento na própria formação. Atualmente, exigem que a categoria profissional assuma a sua parcela de contribuição, produção e reprodução do racismo dentro e fora do Serviço Social.
Magali Almeida (2013) apontou outrora que a luta antirracista faz parte da agenda do conjunto CFESS/CRESS, e que a discussão sobre a questão racial deve ser demandada pelas assistentes sociais, caso contrário, não aparecerá. Apesar disso, considero que uma possível falta de demanda pode ser reflexo também do mito da democracia racial ainda muito arraigado na sociedade, ou do acordo tácito entre pessoas brancas de não falarem sobre isso (BENTO, 2014), ou pode refletir uma formação que comumente não aborda esse debate, em razão de muitas das reivindicações pela abordagem da questão na profissão se dá através de pessoas que já tinham uma aproximação político-militante, de estudos independentes ou da criação doméstica. Geralmente são essas pessoas que começam a suscitar a discussão em sala de aula ou nos espaços ocupacionais. O aprofundamento da questão racial deve ser algo pautado independente de reivindicações externas, porquanto a ABEPSS e o conjunto CFESS-CRESS têm um compromisso ético-político com uma formação e um exercício profissional pautados nos documentos jurídico-normativos do Serviço Social e do país.
Pensar o exercício do trabalho é importante, visto que são diversos os profissionais que não estão preparados para lidar com a dinâmica racial brasileira que se apresenta no cotidiano. Isso se deve também – para além da estrutura educacional brasileira voltada para o fortalecimento e para a difusão da cosmovisão e da cultura europeias e brancas no Brasil – ao distanciamento desse ponto provocado pela própria formação em Serviço Social.
É importante pensar que a questão racial deve ser base do currículo-formação da profissão, pois é no período da graduação que o assistente social está sendo construído. Dessa forma, depender de campanhas e ações, no âmbito do trabalho, apenas quando esse profissional já estiver no exercício do trabalho é assumir um risco de que certamente poderá ser pago pela população atendida, que é majoritariamente negra e pobre.
Diante disso, cabe a reflexão da necessidade de articulação entre formação e exercício profissional, compreendendo-os e os relacionando inevitavelmente em suas dimensões teóricas, metodológicas, éticas e políticas para a questão racial.
CAPÍTULO 4 – CURRÍCULO-FORMAÇÃO E A QUESTÃO RACIAL NO SERVIÇO