Na leitura dos textos, também foi possível perceber alguns aspectos que ne- cessitam de maior aprofundamento. Três parecem ser bem significativos:
Uma das tensões pode ser localizada na relação da Educação Popular com a objetivação da intencionalidade política para este momento histórico, a fim de uma incidência maior na realidade. Neste aspecto, continuam ainda muito fragmentadas as proposições que vão desde a economia solidária, construção de um projeto sus- tentável de desenvolvimento, democratização do espaço público até a proposição geral da democratização da sociedade. Não se observa um esforço maior de inci- dência na formulação, o que levaria a Educação Popular a retomar, para além da prática específica, a vinculação com o Campo Popular e a incidência na elaboração das suas estratégias, retomando seu papel de, além de entrar na dinâmica política organizativa popular, contribuir, desde o seu específico, para a formulação, quando ela é insuficiente ou está em vias de constituição.
Um segundo aspecto remete à necessidade de explicitação da atual política
educativa hegemônica e o que ela propõe para a educação do povo17. Isso significa
17 A concepção que hegemoniza é a que emana do FMI, do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (tem por trás o G8 – os países mais ricos do mundo – entre eles os Estados Unidos). Sabe-se que o projeto pensado e implementado por estes organismos internacionais e pelo G8 é o ne- oliberalismo, e sabe-se o que ele significa: perda de soberania, desconstituição de direitos, desemprego, aumento da pobreza. Na educação, este projeto se desdobra no entendimento da Educação Popular como educação dos pobres. A política é a de privatização da educação. A educação deixa de ser direito e vira mercadoria que se compra e vende no mercado. A educação pública se restringe à educação básica para os pobres, realizada em parceria com a sociedade civil. Há a descentralização interna nos países e centralização em nível global da formulação da política, da concepção de educação, do monitoramento e do financiamento da educação. A educação é vista como investimento que gera incremento dos indivídu-
compreender esta política em detalhes, para poder movimentar-se e intervir melhor nos processos educativos e avançar na formulação da Educação Popular.
O terceiro aspecto refere-se à necessidade de avançar na análise da educa- ção que interessa, hoje, para as classes populares, entrando mais nas especificidades de uma proposta político-pedagógica. O que é uma educação de qualidade para o povo, praticada desde a concepção da Educação Popular? Uma educação que o ca- pacite para os desafios de sobreviver e de ser protagonista de transformação? Uma educação que eleve o popular à “condição de ser dirigente, de participar, de for- mular e de controlar quem dirige”? Quais são as aprendizagens necessárias? Quais conteúdos? Como está sendo realizada a capacitação técnica das classes populares, que se torna cada dia mais necessária? Qual a importância do conhecimento histó- rico acumulado na educação do popular? A partir de qual teoria do conhecimento? Quais são os métodos? Que conteúdo damos para a expressão metodologia dialética (prática, teoria, prática)? Como os métodos se desdobram nos diferentes processos: na elaboração e condução de processos educativos, na sistematização de práticas, na organização popular, principalmente no início do processo organizativo e na con-
dução/direção dos processos?18
À guisa de conclusão, é possível dizer, pela leitura dos documentos e textos lidos, que o momento vivido pelo Movimento de Educação Popular parece ser ou- tro. Transitou-se da crise para a ressigificação/refundamentação e se está, hoje, no momento do resgate de raízes e de continuidade da ressignificação da concepção de
os no mundo do trabalho e melhora a qualidade de vida – aumento da produtividade. O mercado dita a demanda e pauta o projeto pedagógico. Há uma adequação da concepção e da prática educativa às de- mandas do novo padrão de acumulação capitalista. Esta prática educativa visa à formação de um homem polivalente, flexível na capacidade de trabalhar abstratamente, que saiba trabalhar de forma participativa e se expressa na pedagogia da qualidade total. A outra concepção é a que emana da Família das Nações Unidas (ONU). Esta concepção entende a Educação Popular como educação para a mudança. Tem sua formulação mais acabada a partir da Conferência de Educação para Todos (Tailândia, 1990). Trabalha com uma concepção ampla de educação: educação formal (escolarização – ênfase na educação básica), educação infantil, educação de jovens e adultos, educação profissional. Resgata o conceito de educação permanente e de educação para toda a vida. A ONU faz uma articulação da educação com o paradigma do desenvolvimento humano, isto é, desenvolvimento centrado na qualidade de vida para que possa haver desenvolvimento sustentado e desenvolvimento econômico com eqüidade. O bem-estar é o objeto das ações educativas que devem ser complementadas por outras políticas públicas (saúde, moradia, trabalho) para que exista desenvolvimento humano. A educação é centrada nas necessidades básicas de aprendizagem: instrumentos, conteúdos, habilidades e valores. A aprendizagem deve estar a serviço da qualidade de vida – parceria entre Estado e sociedade. Recupera o papel do Estado nas políticas públicas e estabelece uma relação entre desenvolvimento econômico e desenvolvimento humano – propõe que a educação contribua para erradicar a pobreza por meio do desenvolvimento sustentável. Esta concepção, embora busque resgatar o papel das políticas públicas e a dimensão do direito do povo à educação, se vincula a uma proposta de mudança ou de melhoria do capitalismo. Embora crítica ao neoliberalismo, não faz uma crítica radical a esse projeto. Não propõe a mudança nas estruturas, buscando, somente, tornar o capitalismo humanizado ou humanizar o capitalismo (Paludo, 2001). Vale a pena ler o texto de José Rivero M. que analisa El Cambio Educativo en América Latina, em Jornada Latino-Americana y Caribeña
de Ecumenismo, Celedec, (2003).
18 Fe y Alegría apresenta, principalmente para os processos formais, um nível de reflexão, a partir da expe- riência, já bastante profundo e detalhado. Vale ler os documentos e textos.
Educação Popular. Assim, o processo de refundamentação tem e ganha um outro sentido, porque ele é feito desde uma determinada direção, de um determinado nor- te, que é o compromisso histórico, ético, político e pedagógico da Educação Popular com a formação humana emancipatória das classes populares, com a sua autonomia e protagonismo e com um projeto de futuro para a humanidade, o que só será possível com a transformação do atual. Precisamos seguir em frente, praticando e formulando, a partir do que foi (re)afirmado. Este parece ser o grande desafio.
Março de 2004, dia nublado e com temperatura amena, típico do outono em Porto Alegre.
4. Documentos e Textos
Alforia
Encuentro Internacional Educar para Construir el Sueño; Ética y Conocimiento en la
Transformación Social. Febrero, 2000, Guadalajara, Jalisco. Publicación Coordinada
por Carlos Núñez Hurtado, VIII Simposium de Educación y Valores, Cátedra Paulo Freire, México, 2001.
Alforjas Llenas de Esperanzas y Experiencias de Educación Popular; cinco Ideas para Compartir. Mariela Alice.
Fe y Alegría
Revista Internacional Fe y Alegría “Retos de la Educación Popular”. Caracas, Venezuela, n. 3, 2002.
Revista Internacional Fe y Alegría “Pedagogía de la Educación Popular”. Caracas, Venezuela, n. 4, 2003.
Documento Base del XXXIV Congreso Internacional La Calidad de la Educación
Popular en Fe y Alegría. Bogotá, Colombia, 2003.
Celedec
Jornada LatinoAmericana y Caribeña de Educación y Ecumenismo. Memória, Porto
Alegre, 2003.
Cuadernos de Estudio Nuevas Identidades, Miradas y Espejos..., Voces y Ecos.