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Reconstruir imaginários como parte da luta pelo poder

Luis Antonio Rodríguez Bazán

2. Reconstruir imaginários como parte da luta pelo poder

Uma luta fundamental é aquela que se expressa no imaginário coletivo, ou no plano das mentes. A capacidade de criar uma nova bagagem cultural que desmonte a ordem social vigente e que desestruture as “verdades” sobre as quais se alicerçam as formas contemporâneas do poder é parte de nossa luta política e educativa.

Vejamos alguns exemplos de como o poder dominante, a força de repetir fatos e idéias, objetiva construir imaginários coletivos sobre a relação entre edu- cação e políticas públicas. O poder tradicional geralmente nos afirma que:

• A política é o usufruto do poder gerado no “voto cidadão”. A extrema formalização da democracia substitui outras formas de construção e exercício do poder, o que deriva para novas formas ditatoriais, a ditadura da monocultura, o rosto ditatorial da democracia. Nesse ho- rizonte, a especialização resultou na monopolização da política pelos políticos profissionais, “a chamada classe política”, e pelos partidos políticos, desnaturalizando a noção de serviço. Assim, a política já

não é um bem social, mas converte-se em um mecanismo de diferen- ciação social e de exercício do poder para minorias locais e interesses de monopólios transnacionais: já não se vive para a política, mas da política.

• Sobre a compreensão do político, a política pú­blica é monopólio dos

políticos e dos que se chamam servidores pú­blicos, quer dizer, dos atores

governamentais ou dos dirigentes dos partidos políticos. Os discursos de participação têm ficado tão somente nisso, são simplesmente dis- cursos. Aliena-se a política pública da sociedade. As burocracias têm substituído a voz, o sentimento e o pensamento do povo e, geralmente, têm sido canais para discursos gerados nos centros dos monopólios. • A educação é um fato pedagógico, restrito às escolas e às aulas. Portan­

to, reservada somente para determinados atores, por exemplo: professores, técnicos, Ministérios de Educação. Dessa forma, a educação aliena-se

também do desenvolvimento, da dinâmica social, econômica, política e cultural. Por isso, os discursos interculturais também só ficam nisso: discursos. Assim, a possibilidade de articular a educação com a trans- formação social está vedada.

• A participação social é formal e restrita, por isso, geralmente se resume à transferência de informação e à operacionalização das ações defini- das nas esferas do poder. A participação social formal e restrita não tem conseguido exercer efetivamente o poder, e ainda se exige que a sociedade seja propositiva e criativa.

O pior é que não somente os atores governamentais e políticos tradici- onais repetem esta bagagem discursiva, mas muitos – incluídos os setores que consideramos progressistas ou construtores da transformação da sociedade – assumimos tudo isso como um fato natural que temos de cumprir e, assim, transitamos por esse cenário. Não somos capazes de construir um cenário al- ternativo e estruturar discursos e estratégias que articulem educação com so- ciedade, cultura, economia e política em uma perspectiva de empoderamento real da sociedade civil.

Trata-se de lutar por uma compreensão, uma construção conceitual, que organize de maneira diferente o cenário, assim como o conteúdo. Deveria in-

teressar-nos desenvolver compreensões contra-hegemônicas do político, da política pública, da educação e da participação social como princípios básicos iniciais para construir políticas públicas com enfoque popular.

Desta maneira, a política deveria ser assumida como um bem social, autenticamente democrático (antimonopólio) e que permitisse o acesso ao po- der a todos os atores sociais. Como um bem que precavê os direitos políticos, econômicos, sociais e culturais de todos os atores da sociedade e que estrutu- ra cenários de consenso, privilegiando os atores que foram tradicionalmente marginalizados, excluídos, explorados. Como um bem multicultural, que se funda na diversidade e que está direcionado ao empoderamento da diversida- de. Como um bem que canaliza o exercício do poder nas estruturas estatais e na sociedade civil.

A política pública, como a articulação sinérgica de paradigmas, finalidades e enfoques destinados a mobilizar as estruturas estatais e a sociedade civil em torno de horizontes projetivos; como produto de um processo de participação amplo e real; como mecanismo que orienta o acionar dos atores estatais e do controle social, com o propósito de gerar capacidade real na sociedade civil, for- talecendo suas possibilidades autogestionárias e de exercício do poder.

A propósito, segundo Manuel Canto Chac (1994), haveria de se consi- derar que:

[...] sem dúvida, o governo e o Estado estão na esfera pú- blica, porém esta não se limita a eles; a esfera pública, no final das contas, é de interesse de toda a sociedade (...) é também o que interessa às maiorias, aos diferentes setores que integram a sociedade e, então, parte também da luta política é definir o que é público (...) conseqüentemente, decidir sobre o público implica, se vocês me permitem a expressão, governar desde a sociedade e, sendo ainda mais imprudentes na expressão, hoje, a esfera pública também é governar desde a oposição.

A educação teria de ser assumida como um direito e uma responsabili- dade de todos e de todas, não somente no plano das inovações educativas, ou como o direto de receber serviços educativos, mas também na formulação,

acompanhamento e execução de políticas públicas na educação. Portanto, na essência, é um fato político e público. A educação também deveria ser en- tendida como um fato integral, interdependente e intercultural e como um processo de empoderamento e de disputa do poder, principalmente o do co- nhecimento e da informação.

A participação social, como um autêntico processo de tomada de deci- sões entre as estruturas estatais e a sociedade civil. Como um autêntico pro- cesso de exercício de poder pela sociedade civil, e desencadeador de seu em- poderamento. Como um processo integral – que articula a esfera educativa com a social, econômica, política e cultural –, criativo e dignificante. Como um processo que articula a dimensão técnica com a dimensão política, com as diferentes territorialidades, ou melhor, vai desde o local até o nacional, pas- sando pelas diversas formas do regional. Como um processo vinculador, que tem efeito direto na reformulação das políticas públicas.

Emitir discursos e desenvolver práticas contra-hegemônicas nos permi- tirão seguir refundamentando a Educação Popular a partir dos nossos prin- cípios e reconstruir nossas formas de intervenção.

3. Na perspectiva da Educação Popular, o que