TOPOS NARRATIVO
Nossas cidades são assim povoadas por esfinges desconhecidas que não detêm o passante sonhador se ele não volta para elas sua distração meditativa, esfinges que não lhe colocam questões mortais.
(Aragon, Louis. O camponês de Paris. p.44)
Em B.A., não há descrição de Berlim, mas uma demonstração perceptiva da cidade. O uso das sobreposições de materiais heterogêneos que existem na cidade são uma tentativa de mudar a percepção da realidade e adaptá-la a nova protagonista da existência humana: a grande cidade industrial. Döblin observa que a experiência do homem é mudada pela cidade grande; a rua, os carros rápidos, o trânsito.
A sociedade que vive na cidade é específica. Por isso, tem de criar uma narrativa diferente da que foi produzida antes da ebulição da grande cidade e precisa, além disto, renovar suas problematizações.
Não obstante, isto não é uma especificidade apenas da cidade grande, mas, a cada momento histórico, a escrita necessita de nova forma e conteúdo.
O contexto literário desta necessidade de Döblin criar estilos que sejam coerentes para aqueles que vivem na cidade vem de um problema histórico de cidade como contradição com o campo. Não obstante, enquanto a economia capitalista se desenvolvia, as condições das cidades foram mudando lentamente, assim como a ideia da cidade, não mais uma mera oposição ao campo, mas uma existência complexa e incomparável a quaisquer outros modelos até então conhecidos. E no capitalismo industrial, quando surge um novo modelo de cidade, não vista antes pelos escritores do século XVIII e começo do
século XIX94, a literatura na cidade tem outros problemas, como a batalha entre o indivíduo e o coletivo; a velocidade da vida; a desorganização interna em composição com a externa; a acentuação da luta de classes e diferenças sociais, etc..
“So hätte Flaubert nicht gesprochen”95, escreve Benjamin em K.R. quando reproduz uma trecho de B.E.W. no qual afirma que o épico que só escreve abdica da arte da linguagem verdadeira e por isso o livro é a morte de tal arte. Benjamin compara, ou melhor, contrapõe a teoria de Döblin com seu oposto teórico, Flaubert, no principio do ensaio. Entretanto, no final do ensaio Benjamin aproxima ambos ao dizer que B.A. está no grau mais extremo do romance de formação, pois o final de Franz Biberkopf é completamente passivo, como contraposição dialética de sua ação no decorrer todo do romance.
Se primeiro parece que Döblin está se distanciando da forma narrativa no romance, em um segundo momento ele leva o romance ao seu zênite ao demonstrar como a cidade e os meios sociais transformam uma pessoa proletária marginalizada exemplar96 em outra existência qualquer.
Para entender porque Benjamin usa Gustave Flaubert como contradição da obra épica é preciso investigar mais demoradamente sua escrita e concepções literárias. Flaubert, escritor de meados de 1850, é o totem da escrita indireta ou do discurso indireto livre e por ter usado esta ferramenta com tanta destreza em seus romances é considerado por Benjamin, também por Lukács em Theorie des Romans, como o último escritor do romance moderno. Em suma, Flaubert é para esta linha de estética literária o fundador da narrativa moderna97.
94 Existem muitos exemplos de poemas e romances problematizando a vida na cidade como uma forma
diferente do viver no campo. Em O campo e a cidade Raymond Williams percorre a história desta literatura, contudo, apenas na Inglaterra. A Inglaterra teve seu desenvolvimento mais cedo do que outros países, e tentou inclusive conter um pouco o desenvolvimento das cidades no período setecentista. A Alemanha, um caso diferente, se desenvolveu muito rapidamente no século XIX. Entretanto é interessante ver que mesmo que a cidade industrial seja muito díspare de todas as outras cidades, ainda existem poemas, prosas e cartas que expressam timidamente sentimentos que os modernos e até contemporaneos gritam. A título de exemplo uso um trecho de Cobbett usado no livro: “Londres, a metrópole da Grã-Bretanha, vem de longa data sendo criticada como uma espécie de monstro, com uma cabeça desmesuradamente grande, desproporcional ao corpo. E, no entanto, na conjuntura em que essa crítica foi feita pela primeira vez (duzentos anos atrás), os prédios de Londres iam pouco além dos limites da City. [...] Se, portanto, o acrescimo de construções, iniciado em épocas tão remotas, já era considerado uma espécie de tumor ou excrescência, o que dizer das incontáveis ruas e praças que surgiram desde então!” COBBETT. Four letters to the Earl of Shelburne. Londres, 1783, In: WILIAMS. R. O campo e a cidade, São Paulo: 2011, p. 247-8)
95 K.R. p. 201. “Flaubert não diria isto”. (Tradução nossa)
96 Exemplar no sentido de representante de um modelo ou conceito, e não no sentido de modelo perfeito ou
“dever ser”, como se usa comumente.
97 Pode-se debater que Zola ou Balzac tenham mais influência ou tenham criado elementos mais
Flaubert precisa98 de um estilo livre no qual o discurso do narrador-escritor seja indireto, um estilo desprovido de intenções fora da narrativa e de confusões entre autor e narrador, no qual os fatos falem por si mesmos. Se o narrador se faz presente há uma disparidade entre quem narra no âmbito ficcional e o escritor, no que diz respeito à tentativa de buscar uma narrativa realista, ou seja, que expresse de forma realística os fatos do mundo, existir disparidade entre mundo ficcional e o devir não representa o que se concebe como realidade, pois a disparidade pode e deve gerar dúvidas no leitor, por não haver indicação real do sujeito da fala na narrativa.
“De rares passants les croisaient. Le ciel était bleu, et on entendait, par moments, des lapins bondir. Au détour d’un sentier, une femme en madras causait avec un homme en blouse, et, dans la grande avenue sous les marronniers, des domestiques en veste de toile promenaient leurs chevaux. Cisy se rappelait les jours heureux où, monté sur son alezan et le lorgnon dans l’œil, il chevauchait à la portière des calèches; ces souvenirs renforçaient son angoisse; une soif intolérable le brûlait ; la susurration des mouches se confondait avec le battement de ses artères;99 (Flaubert, Gustave. L’éducation sentimentale. p. 526)
Em L’éducation sentimentale de Flaubert, a personagem Cisy aguarda Frédèric para um duelo. O trecho destacado é a descrição do momento de aflição que antecede o duelo. Nos quadros de descrição de Flaubert há uma escolha dos detalhes que dá um aspecto de impessoalidade, como o tecido dos empregados, o barulho das moscas, o batimento de suas artérias, os transeuntes que passam raramente e o barulho dos coelhos. Não são marcantes ou evidentes as impressões afetuosas do narrador em relação a estas imagens. Ele procura ao máximo descrever a subjetividade da personagem sem emitir sua própria opinião, e sim apenas o que o olho da personagem vê e o que ela sente, sem interferências.
98 Flaubert é um dos escritores do Segundo Império que faz frente ao romantismo e é indicado como o
primeiro escritor que coloca história realistas que se harmonizam categoricamente com a doutrina do movimento naturalista. O objetivo dos escritores que dividiam esta mesma concepção estilística e política era a de que a arte deveria ser amoral e não deveria dar às questões morais tratamentos sentimentais, políticos e irreais. Flaubert em especial era obsecado com o estílo e perfeição da forma narrativa.
99 “Raros eram os transeuntes. O céu estava azul, e de quando em quando ouvia-se saltar uma lebre. Na volta
de uma vereda, uma mulher de lenço na cabeça conversava com umhomem de avental, e, na avenda principal, à sombra dos castanheiros, criados decasaco de brim pesseavam cavalos. Cisy recordava os dias felizes em que, montado no seu alazão, e de monóculo, cavalgava ao lado das caleças; estas recordações aumentavam-lhe a angústia; queimava-o uma sede intolerável; o zumbido das moscas confundia-se-lhe com o latejar das artérias” FLAUBERT, Gustave. Educação sentimental. Rio de Janeiro: Nova Alexandria. p. 228.
Assim, não é possível perceber a diferença entre a personagem ambientada em um cenário descritivo do narrador impessoal; Flaubert faz uma parede lisa de prosa.100
A técnica narrativa que Flaubert usa é a de misturar detalhes dinâmicos com momentos estáticos. Ele usa marcações de tempo diferentes; na mesma descrição do trecho destacado o começo do parágrafo é marcado por uma lentidão, quase nenhum movimento, é tanto silêncio que se ouve o saltar de uma lebre, em seguida aparece movimento, duas pessoas conversando e os criados e cavalos em movimento. No tempo fora de uma narrativa, quer dizer, no tempo do espaço não ficcional, não é possível ouvir o barulho das artérias e, sem embargo, se confundir com barulho de moscas ou escutar um leve som enquanto pessoas conversam.
Estes detalhes se combinam como se acontecessem ao mesmo tempo, dando uma sensação de descrição da vida real de uma forma que se transposta a quaisquer outros espaços não-narrativos seria artificial. É o truque da verdade. A inovação de Flaubert não se encerra neste uso de tempos diferentes, que já fora usado em textos mais antigos, mas no olhar da personagem que consegue ver todos os detalhes – como uma câmera, expressão deliberadamente anacrônica101 – de uma vez só. “De um só trago visual”102 o
protagonista moderno vê tudo e absorve todas as informações e sensações, ele até mesmo sente suas artérias.
E por estas razões Flaubert, e não Balzac, é considerado, pela corrente de crítica literária de Benjamin, o último romancista. Para Wood103, Balzac se concentra mais na abundância de imagens do que na escolha dos detalhes específicos que darão mais qualidade de realidade na cidade. Além disso, Balzac não se importa com a impessoalidade do narrador, tampouco com o estilo indireto livre e aparece sua voz em cenas e ideias de suas personagens, fornece dados, opiniões e faz ensaios no meio da narrativa. Por último, Balzac não tem intenção em apagar a dúvida sobre origem da voz narrativa, ele não quer apagar os rastros do “deus” narrativo.
Flaubert não pensaria que a descrição aperfeiçoada de um romance seria um indício de sua crise, nem diria para outros escritores se emanciparem da linguagem literária e do livro. Tampouco para Flaubert o livro seria a morte da língua viva. O uso do discurso indireto livre é a representação mimética mais próxima de expressar a realidade,
100 Flaubert escreve sobre a onisciência do narrador em uma carta de 1852, “Um autor em sua obra deve ser
como Deus no universo, presente em toda parte e visível em parte alguma.” in Wood. Pág. 44-45
101 Se bem que talvez o cinema tenha tomado esta ideia do romance.
102 WOOD, James. Como a ficção funciona. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 46. 103 Ibid.
naquele contexto histórico. Expressar a essência da cidade por meio do acaso é outra das marcas narrativas do autor104. Na cidade flaubertiana o que comanda é o acidente, o
inesperado e o acaso. Ao se deparar com um grupo na rua a personagem e seu narrador imperceptível, movidos apenas pela curiosidade, seguem a história encontrada ao acaso, no meio da rua. Os momentos não deixam de ser relevantes por conta do acaso, porque a cidade não é mais evocada como em romances anteriores. Em Dickens, por exemplo, o espaço urbano é percorrido por coincidências que amarram a história de forma harmoniosa no final. Em Flaubert, o acaso e o erro fazem parte da trama tão naturalmente que se pode falar pela primeira vez de um verdadeiro realismo da cidade.
Döblin tem um princípio estilístico similar ao de Flaubert, ele busca narrar sua realidade da maneira mais fiel possível, utilizando apenas esta herança do realismo e naturalismo.
Contudo em B.A. o narrador é livre desta necessidade de se ocultar, dado que a narrativa vai do extremo do épico, aos moldes clássicos, quando comenta abertamente sobre a narrativa, faz piadas, dá conselhos às personagens, explica elementos a quem lê, se refere intimamente à personagem como “Da steht unser Franz Biberkopf anders da”105, ou quando o chama de Franze, Franzeken, apelidos carinhoso e até mesmo usa o diminutivo em seu sobrenome, Biberkopfchen106, ao extremo do romance fragmentado dispondo de técnicas de outros meios de linguagem, por exemplo o uso do estilo pétreo ou do cinemático, quando intervém na história com descrições científicas ou documentais que interrompem a narrativa, e quebram o caráter lírico, como neste trecho sobre leite;
Daβ Milch ein hochwertiges Nahrungsmittel ist, wird wohl nicht ernstlich bestritten werden, für Kinder, besonders für kleine Kinder, Säuglinge, ferner für Kranke ist sie zur Kräftigung durchaus zu empfehlen, besonders wenn daneben eine weitere nährstoffhaltige Kost verabreicht wird. Eine von ärztlichen Autoritäten allgemein anerkannte,leider aber nicht gewürdigte Krankenkost ist zum Beispiel Hammelfleisch.” 107 (B.A. p. 265)
104 JOHNSON. Steve. “Complexidade urbana e enredo romanesco” In: Cultura do romance. São Paulo:
Cosac Naify, 2009 p. 859.
105 B. A. p.142. “Ai está nosso Franz em posição bem diferente.” B.A.P. p. 112. [grifo meu] 106 B.A. p. 345.
107 “Que o leite é um alimento de alto valor nutritivo, é coisa que ninguém contestará seriamente, para
O contexto deste trecho é uma conversa entre Biberkopf e Reinhold em que o segundo quer confessar sua impotência sexual ao amigo, antes de contar que foi ao médico, em um momento de vergonha ou angústia, um parágrafo completo sobre leite e seus benefícios à saúde aparece de supetão, interrompendo um momento de subjetividade ou de introspecção psicológica da personagem. Esta intervenção narrativa acontece como uma substituição de um estado de espírito de Reinhold, impedindo que o narrador tenha que explicar que sentimentos a personagem tem. Depois do trecho, Reinhold toma coragem e confessa não conseguir se manter firme nas relações sexuais por mais de um mês com a mesma mulher. Ele se sente frustrado por não conseguir manter interesse na mesma pessoa e por sua instantânea ineficácia nas seguintes relações sexuais. Exige então uma nova parceira sexual.
O livro é repleto de histórias paralelas da cidade, tais como a narrativa do homem careca homossexual no segundo livro, a do zelador que assalta o local que cuida ou o abatedouro de animais ambos no quarto livro, dentre muitas outras que aparecem como um corte abrupto no meio da narrativa. Também é possível presumir que utilizar estas narrativas paralelas deixa uma dica ao leitor de que a cidade vive apesar do protagonista, mesmo sem Biberkopf, a cidade continua repleta de outras narrativas, outras histórias e outras existências e não precisamos estar atentos a toda a totalidade da cidade, tampouco da personagem, Biberkopf continua seguindo também.
Na pequena narrativa do zelador, Döblin usa Biberkopf como personagem secundária da pequena narrativa, ele se liga a essa narrativa observando os ladrões assaltarem o prédio onde mora. Assim que Franz “dá o fora”108 da cena de investigação policial, toda uma narrativa além Biberkopf é escrita, o carpinteiro se associa a dois ladrões, mas acaba por ser pego pela polícia em flagrante bêbado em sua casa e quase em seguida Franz se envolve também com gatunos e aos poucos se emaranha no universo marginal. As duas histórias são independentes, mas têm uma ligação temática forte no que diz respeito à moralidade, às leis e aos crimes.
Os habitantes da cidade agem sobre o plano físico, na cidade, e esta cidade, efeito coletivo, influencia o seu comportamento. O romance tal como era concebido antes da cidade industrial e capitalista bem sucedida não poderia abarcar esta relação entre um
para o fortalecimento, sobretudo quando servido junto com uma dieta rica em nutrientes.Uma dica para doentes em geral reconhecida por autoridades médicas, mas infelizmente pouco apreciada, é por exemplo, a carne de cordeiro.” B.A.P., p. 207.
indivíduo e o coletivo anônimo, entre o “eu” e a “multidão” – apesar de Baudelaire diagnosticar o começo deste processo – tampouco poderia colocar, em expressões narrativas clássicas, voz na cidade. Não é uma tarefa fácil dar voz a algo que não é apenas voz, não é um ser, não tem logos, não conversa com seus habitantes. A cidade é uma entidade que muda o hábito e a vida de seus habitantes, ela se comunica com eles, mas de uma forma que não está declarada em linguagem verbal. Por isso, o problema de como colocar uma voz na cidade surge no começo do século XX. A vanguarda de Döblin é diferente, porque se encontra em um espaço físico diferente e por isso sente, vive e se socializa em outro conjunto físico e moral. Esta forma de viver muda ou deve mudar a forma de fazer literatura.
E por que usar a literatura como base de observação da cidade, algo que poderia ser feito pela filosofia ou pela sociologia, cujas funções são observar mudanças históricas e conceitos morais? Porque, como diz Wood, a vida é cheia de detalhes, detalhes amorfos, sem graça e, na literatura, por outro lado, tomam uma forma significativa. Ela ensina o leitor a perceber estes detalhes insossos da vida cotidiana e lhes dar sentido. A literatura ensina a notar melhor a vida. Cada fragmento que Döblin articula com um arranjo imagético ou sonoro faz com que o leitor perceba a riqueza de sua percepção, mesmo que fragmentada, ele percebe que pode sintetizar os fragmentos dentro de si,ele dá expressão à vida.
Georg Simmel, que é uma imensa influência para a história da reflexão sociológica contemporânea, além de uma sucinta contribuição para a história do urbanismo, também instigou Benjamin a pensar sobre a cidade moderna, dentre outros temas. O ensaio que é base para fundamentação das ideias sobre a mudança interna pelos fatores externos na cidade é de 1903109 chamado “Die Groβstädte und das Geistesleben”110. Outra leitura de Simmel sobre a cidade é um excerto do Soziologie, de 1908, chamado “Über die Soziologie der Sinne”.
Em “Die Groβstädte und das Geistesleben”, o autor faz a tradicional comparação entre a vida no campo e a vida na cidade. É uma analogia habitual na época. Simmel, em geral, tem interesse nos indivíduos produzidos pela economia de mercado em suas
109 A história corrobora com a hipótese do presente estudo. Ironicamente, este texto foi escrito para a
“Exposição das cidades” em Dresden em 1902, na qual uma conferência interdisciplinar sobre a vida na cidade foi apresentada. A preocupação sobre o fenômeno da cidade grande não era só de alguns interessados ou obsecados, , mas da academia em geral, ao que parece.
110 “As grandes cidades e a vida do espírito”, Revista Mana, 577-591, trad. Leopoldo Waizbot / “Die
Groβstädte und das Geistesleben” Gesamtausgabe, Band I, Surhkamp, 1995, p. 116-131. Originalmente publicano em „Jahrbuch der Gehe-Stiftung“. Dresden, Band 9, 1903, S. 185-206, Dresden.
mudanças psicológicas e perceptivas, como o olhar, a noção de espaço, de percepção auditiva, estímulos táteis, etc. A nova Weltanschauung [visão de mundo] imposta na vida moderna pelo capitalismo ou pela vida do dinheiro, incentiva os indivíduos a se sentirem singulares e não inseridos em uma Gemeinschaft. Simmel usa os conceitos elaborados por Ferdinand Tönnies de Gesellschaft [Sociedade] e Gemeinschaft [Comunidade].
Uma Gemeinschaft é uma comunidade agrária baseada em artesanato, agricultura, e fundada em uma unidade completa de vontades e desejos, como as relações entre mãe e filho, um casal, irmãos e irmãs, pai e filhos111, ou quaisquer outros tipos de relações que sejam familiares, como vizinhanças, fraternidades religiosas ou intelectuais112. Ou seja,
relações de proximidade. É inclusiva a qualquer um e tem um espírito de proximidade pessoal acolhedora; há uma dependência entre as pessoas da comunidade. Os pilares da comunidade são reverência ou respeito e afeição, além de divisão de posses mútuas. Em termos de comparação, ela é uma forma de organização social antiga, enquanto a sociedade é uma estrutura nova. É a representação do campo. Há de se compreender que Tönnies escreve esta teoria nos anos 1880, portanto em um período em que a idealização do campo, do natural e do idílico é habitual. Nem sempre a vida no campo é homogênea e harmônica, ao longo da história houve algumas revoltas e revoluções de campesinos, como o estopim, a fome dos trabalhadores do campo, da revolução russa de 1917.
A Gesellschaft, por outro lado, é a construção de um grupo que vive pacificamente entre si, mas que não está unida de forma essencial; ao contrário são desapegados entre si. É industrial e capitalita e representa a vida na cidade. Apesar de terem razões para a união, ainda permanecem separados, pois nada é mais importante do