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C ARACTERÍSTICAS DO PROGRAMA PROFUNCIONÁRIO

No documento Curso Técnico em Infraestrutura Escolar: (páginas 41-50)

1. CAPÍTULO I – REVISÃO DE LITERATURA

1.3. C ARACTERÍSTICAS DO PROGRAMA PROFUNCIONÁRIO

Instituído pela Portaria Normativa do MEC nº 25, de 31 de maio de 2007, o programa Profuncionário tem como objetivo proporcionar a formação técnica, prioritariamente, aos funcionários das escolas públicas de Educação Básica através dos cursos Técnico em Secretaria Escolar; Técnico em Multimeios;

Técnico em Alimentação Escolar e Técnico em Infraestrutura Escolar, este último, objeto da pesquisa.

Por se tratar de cursos técnicos destinados a um público específico, isto é, aos funcionários das escolas de educação básica da rede pública de ensino, o Programa foi pensado e sistematizado de forma peculiar quanto à sua modalidade, organização, objetivos, concepção política pedagógica, disciplinas, perfil profissional e processo de avaliação, entre outros.

O Profuncionário, portanto, caracteriza-se pela oferta de cursos Técnicos Profissionalizantes na modalidade de Educação à Distância, EaD. Esta forma de

ensino está prevista no Art. 80 da LDB; atualmente é regulamentado pelo Decreto da Presidência da República nº 9.057 (2017), cuja definição é a seguinte:

Art. 1º. Para os fins deste Decreto, considera-se educação a distância, a modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorra com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com pessoal qualificado, com políticas de acesso, com acompanhamento e avaliação compatíveis, entre outros, e desenvolva atividades educativas por estudantes e profissionais da educação que estejam em lugares e tempos diversos.

Inúmeros são os conceitos relativos à Educação à Distância na literatura. A própria legislação brasileira apresentou diversas abordagens ao longo da história. O Decreto nº 2.494 (1998) ressaltava o aspecto da autoaprendizagem.

Este foi revogado pelo atual de nº 9.057 (2017) que apresenta uma concepção mais abrangente acerca do tema. Segundo Hermida e Bonfim (2006, p. 168):

Do ponto de vista epistemológico, a palavra Teleducação ou ‘Educação a Distância’ vem do grego tele (longe, ao longe), e pode ser conceituada como o processo de ensino-aprendizagem mediado por tecnologias, onde professores e alunos ficam ‘separados’ espacial e/ou temporalmente.

Hack (2011, p. 15) define a Educação à Distância como uma modalidade em que o processo de construção do conhecimento crítico, criativo e contextualizado que se dá mediado pelas inúmeras tecnologias.

A compreensão de Educação à Distância do IFFar (2014a), passa pelo mesmo viés. É compreendida como uma modalidade de ensino através da qual o processo educativo e a comunicação entre professor e aluno se dá mediado pela tecnologia em tempos e lugares diversos. Conceito que se alinha com o programa Profuncionário, cujos alunos são adultos, trabalhadores, funcionários das escolas de educação básica à procura de qualificação profissional.

Hack (2011) defende que a Educação à Distância não deve ser entendida como um processo de ações isoladas e distantes entre professor e aluno, mas como um diálogo, uma interação constante entre todos os envolvidos.

Tratando-se do Programa Profuncionário, esta relação dialógica dá-se entre o professor, tutor, aluno e colegas numa dinámica participativa de construção do conhecimento mediado pela tecnologia. Nesta ótica, o autor compreende a EaD como um processo contínuo, onde o aluno executa uma ação e esta deve ser retomada, compartilhada com o grupo e rediscutida. Favorecendo assim, o surgimento de novas reflexões, novas ideias e novas práticas, numa dialética constante.

Vários autores advertem quanto ao aspecto social da educação à distância.

Entre outros, Hermida e Bomfim (2006, p. 171):

Para que a EAD seja significativa deve objetivar a melhoria da sociedade, constituindo-se como uma prática social pautada em princípios filosóficos que visem à construção do conhecimento, da autonomia e da consciência crítica do educando.

Nesta compreensão, a proposta do Programa Profuncionário apresenta concepções e princípios educacionais que propiciam ao aluno construir seus conhecimentos de forma crítica, autônoma tornando-se capaz de transformar a realidade.

Hermida e Bonfim (2006) consideram que um dos elementos mais importantes da Educação à Distância é o acesso às mesmas informações por várias pessoas em tempos e espaços diferentes. Salientam, entretanto, que este processo de ensino e aprendizagem requer habilidades, planeamento e outros requisitos por parte dos alunos e professores, além do domínio das ferramentas tecnológicas.

O Programa Profuncionário prevê condições para que o aluno, o funcionário da escola, como adulto com capacidade de fazer opções responsáveis, possa construir seu conhecimento, adquirir as habilidades e as competências

previstas nos cursos de maneira satisfatória. Para tanto, segundo MEC (2015, p. 43):

foram produzidos materiais didáticos adequados, haverá acompanhamento a partir do trabalho de tutores e de um calendário de encontros presenciais, estabelecido dentro do processo de gestão democrática do curso.

O Programa prevê, também, que na primeira aula presencial, os alunos recebam as informações do curso, a senha de acesso ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e as noções básicas de uso do computador, entre outros.

Dada a relevância do papel do tutor no processo de ensino e aprendizagem nos cursos de educação à distância e no Profuncionário, convém uma reflexão mais aprofundada sobre a função do mesmo. As orientações gerais do programa especificam as funções dos tutores MEC (2015, p. 63):

tem como principais atribuições o acompanhamento do processo de aprendizagem e a construção de competências e conhecimentos pelos estudantes, bem como a supervisão da prática profissional.

Portanto, são considerados mediadores, facilitadores da aprendizagem, avaliadores, orientadores e, por que não dizer estimuladores do conhecimento, ultrapassando assim o sentido original da palavra tutor.

Na mesma linha de pensamento, Leal (2005, p. 3) ressalta que:

Trabalhar a complexidade do saber fazer educativo na visão do aprender a aprender, na ótica reflexiva da construção do saber é um dos grandes desafios para o tutor. Ainda proporcionar momentos em que o aluno aprenda a ler e a reler o mundo, a apropriar-se do conhecimento, a redimensionar valores e a rever atitudes.

No Profuncionário, além do apontado, o tutor presencial orienta e auxilia quanto ao uso do Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e exerce funções burocráticas relativas a registos e encaminhamentos de documentos. E o tutor

a distância, atua como mediador entre o professor, o tutor presencial, o conteúdo e o ambiente virtual de aprendizagem.

Os conteúdos são apresentados através de cadernos e as aulas desenvolvidas pelos professores são disponibilizadas no AVA. Possibilitando assim, o acesso ao material de estudo e às atividades propostas em lugares e em tempos diversos. Além disso, o Programa prevê encontros presenciais semanais nos Polos, sob a assessoria do tutor presencial.

O Profuncionário fundamenta sua proposta pedagógica no Parecer CNE/CEB nº 16 (2005) e parte da compreensão, conforme MEC (2015, p. 70) “que a formação técnica consiste em um conjunto de atividades teórico-práticas, investigativas e reflexivas”. As quais contribuem de acordo com MEC (2015) para a qualificação dos funcionários capacitando-os como pessoas, cidadãos e educadores, além de possibilitar a construção de novos conhecimentos, o desenvolvimento da capacidade crítica-reflexiva e identificação profissional como Técnico, conforme a habilitação do curso.

Além da legislação, a estrutura curricular dos cursos do Profuncionário tem suas bases teóricas na experiência de formação de funcionários das escolas já ocorridas e, mencionadas anteriormente, no Distrito Federal, no Estado do Mato Grosso e no Acre.

O Parecer CNE/CEB nº 16 (2005) estabelece que a carga horária de cada habilitação do Profuncionário deverá ter, no mínimo, 1.200 horas, incluindo três módulos de estudos: o pedagógico, o de estudos técnicos e a Prática Profissional Supervisionada (PPS).

Para o Profuncionário a teoria e a prática são indissociáveis conforme figura 1:

Figura 1 – Cruzamento dos núcleos de formação

Fonte: MEC - Orientações Gerais Profuncionário (2015, p. 79).

A estrutura curricular é composta pelos três núcleos básicos: formação técnica geral e específica, formação pedagógica e a prática profissional supervisionada (PPS), conforme quadro 1.

Quadro 1 – Quadro geral dos módulos de estudo

PPS 300h

NÚCLEO DE FORMAÇÃO PEDAGÓGICA – 480h

A - Orientações Gerais - 60 h B - Fundamentos e Práticas em EaD - 30 h C - Orientações para a Prática Profissional Supervisionada - 30 h

Módulos de Formação Pedagógica – 360h

1 – Funcionários de Escolas: cidadãos, educadores, profissionais e gestores 2 – Educadores e Educandos: tempos históricos

3 – Homem, Pensamento e Cultura: abordagens filosófica e antropológica 4 – Relações Interpessoais: abordagem psicológica

5 – Educação, Sociedade e Trabalho: abordagem sociológica da educação 6 – Gestão da Educação Escolar

NÚCLEO DE FORMAÇÃO TÉCNICA GERAL – 180h 7 – Informática Básica

8 – Produção Textual na Educação Escolar 9 – Direito Administrativo e do Trabalho

NÚCLEO DE FORMAÇÃO TÉCNICA ESPECÍFICA DE CADA CURSO – 420h SECRETARIA ESCOLAR 420h

. Técnicas de Redação e Arquivo . Contabilidade na Escola . Administração de Materiais . Estatística Aplicada a distância.

Fonte: MEC – Orientações Gerais Profuncionário (2012, p. 79).

O núcleo de formação pedagógica, comum aos quatro cursos foi incluído, de acordo com MEC (2015, p. 84) para:

Ampliar e movimentar a visão dos funcionários sobre a escola, tentando deslocar e multiplicar os seus olhares, para que possam repensar e reorientar suas práticas e suas relações nela e com ela, com a própria escola, com os demais segmentos que compõem a comunidade escolar e, sobretudo, consigo mesmos, como pessoas e como categoria profissional: educadores.

O art. 61 da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996 reconheceu os trabalhadores em educação como profissionais da educação, menciona a formação em serviço e orienta quanto à formação pedagógica destes profissionais. Para Pacheco (2011, p. 8): “todos que interagem com educandos são educadores, cada um dentro da especificidade de sua tarefa”.

Nesta perspectiva, compreende-se a escola como espaço educativo no qual os atores envolvidos, seja professor, aluno e funcionários educam e educam-se entre sim, cada um em seu espaço de atuação. Por isso, segundo MEC (2015, p. 83): “A escola como campo de vida e ação do funcionário em interação com professores e estudantes é o objeto central dos estudos propostos no Profuncionário”.

O Programa está organizado de tal forma que o funcionário seja capaz de, conforme MEC (2015, p. 86):

Des-construir sua identidade profissional “tradicional” (porteiro, zelador, cozinheira, auxiliar, servente) e a reconstrua como técnico em educação, cuja especificidade abrange competências e conhecimentos de educador, de gestor de espaços escolares e da própria escola e de cidadão, sem se descuidar da humanização que ela pode promover.

Portanto, a formação profissional propõe uma nova postura dos funcionários, aliado à sua capacitação técnica, pois conforme Leão, Cleide, e Fernandes (2009, p. 314): “Não basta trabalhar na escola, é preciso ter a

formação necessária para compreender os processos educativos e exercer com eficiência a função de cada um”.

De acordo com as Orientações Gerais, MEC (2015) o Núcleo de Formação Técnica Específica visa proporcionar aos alunos, os conhecimentos técnicos necessários e específicos a cada habilitação.

O Profuncionário coloca, também, como exigência para conclusão de seus cursos, a realização da Prática Profissional Supervisionada (PPS) de, no mínimo, 300 horas. Esta é entendida como formação em serviço em conformidade com o art. 65 da LDB que requer a mesma carga horária para a qualificação de professores da Educação Básica, no Brasil. Logo, as 300 horas da PPS prescrita pelo Programa, são conforme o MEC (2015, p. 81), “uma exigência da

‘profissionalidade’ dos funcionários como profissionais da educação”.

A PPS, como um dos núcleos de formação da organização curricular, consiste num Estágio Supervisionado. É regido pela Lei nº 11.788 (2008) de 25 de setembro, que delibera sobre os estágios dos estudantes. No caso em estudo, requer orientação, controle e avaliação através de registos, relatórios de atividades e o acompanhamento presencial do tutor.

Convém destacar que no Profuncionário as atividades relativas a PPS abarcam os estudos das disciplinas do núcleo de Formação Pedagógica e de formação Técnica Geral e Específica. É entendida como um momento de reflexão, planeamento, problematização e reconstrução das práticas diárias à luz dos conceitos e conhecimentos adquiridos nas disciplinas. As atividades desenvolvidas são registadas e apresentadas em forma de relatório e servem como um dos instrumentos de avaliação do aluno.

Segundo o MEC (2015), no Profuncionário, a avaliação é concebida como um processo participativo, dialógico, emancipatório, formativo que leva em consideração os conhecimentos e experiências já construídas pelo aluno visando o seu crescimento e a transformação da realidade em que está inserido. O documento das orientações gerais do Programa define que, MEC (2015, p. 104):

Avaliar é um ato de reflexão e de crítica que só tem sentido se inserido no contexto histórico, social, político, territorial e cultural: no contexto de vida dos sujeitos envolvidos. Avaliar é a possibilidade de indivíduos e grupos sociais se situarem nos processos em que se constituem como sujeitos históricos.

Nesta compreensão recomenda que, MEC (2015, p. 104):

Os procedimentos, os materiais, as relações, os processos de aprendizagem, as experiências vivenciadas individual e coletivamente, a interação social, as dificuldades, as conquistas, os desafios assumidos e as gotas de esperanças devem ser valorizadas, levados em conta na avaliação. Não para julgar, mas para poder ser e fazer diferente.

No Profuncionário, conforme MEC (2012), além do relatório da PPS, a avaliação da aprendizagem se dá por meio de um documento denominado Memorial Reflexivo. Isto é, em diálogo com o tutor, o aluno regista seu crescimento e as suas aprendizagens levando em consideração os conhecimentos e experiências adquiridas, as relações diárias e as práticas profissionais que acontecem concomitantemente na escola. Portanto, o relatório da PPS e o memorial reflexivo são elementos constitutivos do processo de avaliação do aluno do Profuncionário.

Concluindo este ponto, ressalta-se que no processo ensino-aprendizagem do Profuncionário, vários agentes e instâncias são envolvidas, sendo eles: os órgãos públicos proponentes dos cursos, as entidades responsáveis pela produção dos materiais didáticos, a coordenação executiva e dos polos, o professor, o tutor presencial e o tutor a distância. Cada um com funções específicas.

Quanto à organização dos cursos e à produção do material pedagógico, como apontamentos, segundo MEC (2015) inicialmente esteve a cargo da Universidade de Brasília (UNB). Atualmente é de responsabilidade da SETEC, através do Programa do governo federal denominado Rede e-Tec Brasil, cujo objetivo é a oferta de educação profissional à distância, articulada como os

Institutos Federais; as Secretarias de Educação dos Estados e Municípios credenciados.

A estas entidades, cabe o papel de planear, organizar e gerenciar os cursos incluindo as questões pedagógicas de ensino-aprendizagem, produção de materiais e certificação. No curso Técnico de Infraestrutura Escolar, em estudo, a coordenação executiva esteve a cargo do Instituto Federal Farroupilha.

No documento Curso Técnico em Infraestrutura Escolar: (páginas 41-50)