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GUERRA JUNQUEIRO

J. C. LATINO DE FARIA

PALMAS E MARTYRIOS

(Publicação· posthuma) LISBOA, .8.8

A mão, que eaerevia hontem es&a!o8 paginas, já hoje é cinza. Vimol-a percorrer trémula, e já des-camada, o papel onde o anjo da morte vinha pro-jectar a sombra das suas azaslugubres. Momentos depois, já nlo se Ol1via o canto do cysne~ e uma viuva trajava Juto, e chorava sobre a rampa do poeta.

Ficavam-lhe sobre a terra uns sons dis~rsos,

que lhe tinham sahido d'alma: eram uma reliquia de amor para aquella que em vida partilhara. as alegrias momentaneas e as long~ mágoas do poeta;

mas eram tambem obras de arte, que seria egoísmo roubar á admiração dos homens. A magoada esposa reuniu esses cantos e deu-os á estampa: foi um tri·

buto de saudade á memoria do poeta, e um· brinde valioso ás letras da nossa patria.

- Que são as Palma. e Mo.rtyr;'o.' Um livrinho que se nlo recommenda pela novidade do estylo,

t68

nem por elevaçlo de pensamento, mas que é o Uansumpto fiel d'uma alma de poeta, d'um ingenho Dlo vulgar, que nlo desmedrou quanto devia, porque tropeçou, ao despontar, na agonia e no desalento, resvalando após

lJO:

P'-J"4Ldeiro

io

tumlllo.

A sorte do poeta e as conttiçê)es do livro deS-troem a indifTerença do leitor e desarmam a critica.

Os olhos voam-nos espontaneamente por aquellas paginas, onde a cada linha ou vimos ora um ge-mido, ora uma nota de saudade,

Aqui o poeta, mirando o seu retrato, onde se lhe estampa. o rosto cadaverieo, exclama tristemente:

,.EU· o: DO fundo lugubre, Que a pallidez lhe aviva, Resae em traçqs viv:idos .. A imagem aiBictiva

A quem sopro mephyticco Crestou dá vida a flor ...

. Ali sente, como André Chenier, que alguma coisa tem DO craneo augusto; mas vê diante de si a ver-dade tremenda, e geme:

·.As~ eu, Da v.erdura. dos meus annos, Sem alegria ter, Da terra dura

Vou descançar, E meu Dome comigo sepultado SeS nalgum peito amigo ha de a revezes

Triste echoar ••

'US9

Ora deita 08 olIaoa á eapoaa. idolatrada, e vê ~

proximo o estalar das doces algemas que os lig&lJl sobre a terra, que Froova 8fD

voo

illudir-se:

cA minha alma alente» buaca Em teul perfumei, oh flor;

Mas entre ti e meu peito Pela amargara deafeMo -Vem ieJnpre aueptar-se a dar.H

Ora, na quadra triste do 0~tollln9, vê, como Mil-levoye, que OS dia. lhe vão pasBAftdo como as. folhas seccas das arvores, e sólta um sentidissimo canto, que abre assim:

"Ao bosque o pallido outono O lugubre olhar lançou, E do seu risonho manto Folha

a

folha o despojou ...

A pesar de tudo, o livro tem defeitos. A Poesia Oh ~~ é um quadro bucolico em desharmonia com a arte moderna. Exemplo:

"Feliz quem do bulicio descuidado Do mundo fraudulento, as horas passa No remanso dos bosques, tão valido

Das musas aprazivei ....

É O echo froixo do canto eterno do poeta v&o nUlino, canto imitado e traduzido por Andrieux,

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por Paulino Oabral, e DIo sabemoe pGl' quantos mais:

Beatu tlle . . ~ ~,

ue

prüctJ ge1lll mortali"""

PalernIJ "'"' bobu e:aeroet . . . , Sol . . . OfIIRi foeaore.

Mas ..• terminelllOS «10m .. I18guintes palavras do immortal cantor de JfIItIJ?IP RolltJ: -

n

me ,emhle que ltJ critique fI6 doit frtJpp6f' que quand elle uplre;

ca·r autrement, 'MJ6r6 'tJn, muut'6, IJÍ elZ, BIt jtlllte,

~lle BIt inutiZ" Bt IJÍ 6l~ .6 trl1m.p6, eUe Ruit.»

...

JosÉ DE LEMOS DE NAPOLES

FLORES SILVESTRES

COI.Slll, ,. ••

É um livro decorado por uma nitida capa o em que temos agora 01 olhos'. O numero das paginai roça por quatrocentas, e a lombada traz o nome de - J. DE LEMos.

Muitos Mo de julgar que o nome do auctor, assim escripto no lombo do livro, é um eh,amariz traiçoeiro, destinado a chamar Os olhos dos curiosos para um volume do cantor da Lua de Londru apparentemente.

Nós nllo. Hs muito quo abrimos miio de suspeiçaes in-fundadas, e nunca. nos abalançamos, sem provas so_

guras, a. plir cm duvida a lealdade e lisura d'um escriptor que présa a sua reputação.

Se nilo andou ali obra do acaso, inclinamo-nos a crer, por muito, que andou lá fanatismo litterario ...

O que é certo, certi8IJimo; é que José de Lemos 12

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de Napoles tem manuseado assidnamente os versol de Joio ele Lemos. Nilo o deshonra a companhia, mal Dio lhe invejamos a camaradagem. Todas as escolas litterarias têm o seu esplendor, como o seu 0CC&80.

Ora, a escola de Joio de Lemos vae passando, se já Dio passou; e a um moço de talento, que, pela vez primeira, confia ás ondas da publicidade um livro, fiador do seu nome, desejavamos-lhe melhor direcção no seu trabalho, e mais amor á. poesia do seculo.

Quando assim falamos dasFloru SilveBtres, avalia-moi-as na sua generalidade; pois que, se entraasemos em minuciosidades, encontrariamos versos d'um sabor estrememente novo, e muito avessos aos moldes em que o auctor vasou ·a maioria das suas composiç<les.

Ignoto Deo, por exemplo, é nma composição, onde transparece o sentimen~ da poesia moderna através de roupagens diManas e vaporosas_ FÔS8e lá José de Napoles sujoital-a ao juizo do mestre Boileau, e dos semsaboroes da nossa Arcadia, ou confrontasse-a com as denguices alambicadas de muitissimos versos de Joilo de Lemos, e acharia que, sem o querer, se cur-vou diante dos altares de verdadeira poesia.

Como dissemos, não julgamos assim a maior parte do livro. O mesmo José de NapoIesnlloteve em dema.

siada conta as suas estrei"s, porque nilo quiz apre-sentaI-as ao publico Bem Uma apresentaçilo honrosa.

Consta-nos que o auetor mostrara OB seDIl versos a Joilo de Lemos, na Figueira da Foz, e que o poeta

. ....J

t'1S

legitimista o aconselhara a publ~l-os mais tarde, para que mais tempo houvesse para a lima.. Se assim foi, houve oonséieneia no CC)nselho; mas o

meto ,

que José de Napoles, nlo se considerando, talvez, tio moço, que deva sobremodo confiar no pl'Ogre880 de seu. melhoramentos, deu agora o seu livro á es-tampa, precedido d'uma carta de Joio de Lemos.

D'esta vez - e ainda bem - nlo tivemo. juúo crítico, nem coisa que o valha. - É uma carta escripta a 'fJ()l d' oiseau. e quem sabe se devida a importunas instancias I Seja o que for, Joio de Lemos nlo feriu em demasia a modestia do auctor: disse-lhe o que de ordinario se diz, por delicadeza, a um amigo em quem desejamos fomeI1tar estimuloso Mas se Joio de Lemos falasse com toda a" franqueza, ao menos diria ao auctor que no seu livro ha muitos e muitos versos errados, porque nesta parte nlo_ havia communhlo.

de escola, sendo certo que nos versos de Joio de Lemos tudo se poderá contestar, menos a exactidão no metro.

De resto, pouco valeria para nós o juizo de Joio de Lemos, pois que desadoramos as lentejoulas falsas que fazem a reputaçlo d'este poeta

.. Sobre o mar de l i . prata, . -Na prata do liso mar ...

Lêmos portanto desuaombradamente o livro deJoa6

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de Napoles; e, se do que levamos dito, alguem inferir severidade excessin, soccorra·se ao livro, que nlo encontrará novidade de estylo, nem bellesa de forma, nem opulencia de peusamentos. Só, sim, de espaço a esp890, como ouis no meio de um deserto, lá surge

& fórma indecisa d'uma esplendida miragem, onde se reftectem as luzes d'uma intelligencia sã, e onde ecôam as vozes do cofaqilo, quelwa.ndo por momentos a monótona ronceria de eahtilenu mediocres .

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