SIDS PORTUGAL/
3.4 E TAPAS DO DESENVOLVIMENTO DE INDICADORES DE SUSTENTABILIDADE
3.4.3 C OLETA DE DADOS : D ISPONIBILIDADE , CREDIBILIDADE E CUSTOS
Para dar continuidade ao processo, análises com base em indicadores e índices devem ser realizadas e para isso é preciso coletar dados. Após a definição dos aspectos conceituais relacionados ao desenvolvimento de indicadores, inicia-se esta parte prática que envolve a pesquisa em bases de dados existentes (disponibilidade, produção e uso de dados, necessidades não satisfeitas e tempo necessário para a obtenção de dados); utilidade prática dos indicadores e índices definidos e; aplicação da ferramenta analítica.
Aspectos práticos podem envolver grandes desafios como (SEGNESTAM, 2002): a falta de dados, a pouca qualidade dos dados existentes, a dificuldade em se desenvolver indicadores realmente úteis em função do nível analítico em foco ou ainda, dificuldade para apresentar ou disseminar os resultados de modo efetivo. E, obviamente, os custos também podem constituir um fator limitante neste processo.
A pirâmide da informação (Figura 3.2), em suas versões teórica versus realista, torna clara a realidade por trás do desenvolvimento de indicadores e índices. A base larga composta por dados primários de boa qualidade a partir dos quais indicadores são calculados, somente existe na teoria. A realidade é representada pela mesma pirâmide, porém invertida, em que os dados disponíveis (e confiáveis) são limitados. No entanto, tal fato não deve desencorajar novas iniciativas de trabalho, mas evidenciar a necessidade de coleta de dados com mais qualidade e rigor. Afinal, pode-se dizer que indicadores e a informação que geram são tão bons quanto os dados dos quais derivam.
O relatório Global Environment Outlook 2000 (UNEP, 1999) discute duas causas restritivas para a coleta de dados novos e úteis: uma institucional e outra técnica. As restrições
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institucionais envolvem a limitação de recursos, pessoal e equipamentos, unidades para relato dos dados, dificuldade para agregar e comparar conjuntos de dados, falha no gerenciamento de dados, falta de um sistema central de tratamento de dados e, falta de relevância de certas questões para determinados contextos. Já, restrições técnicas incluem definições não consensuais ou vagas e, falta de continuidade nas redes de monitoramento - o que gera lacunas nas séries de dados, emissão de relatórios em períodos defasados, uso de estimativas em substituição a dados reais e dificuldades conceituais e técnicas para medição e monitoramento.
Neste contexto, uma terceira categoria restritiva pode ser adicionada, a política. Questões ambientais, especificamente, nem sempre estiveram no topo da lista de prioridades dos governos em geral. Políticas ambientais e para o desenvolvimento sustentável demandam investimentos em longo prazo e tal característica vai de encontro às perspectivas de curto prazo, infelizmente, da maioria dos políticos. No entanto, a opinião pública pode ser alterada a partir das informações e do conhecimento disseminado pelos indicadores, assim, espera-se que logo exista maior demanda para que tais questões sejam contempladas nas decisões políticas.
A coleta de dados depende de recursos, tempo, equipamentos, pessoal treinado, entre outros e, considerando-se a realidade de muitos países, entre os quais o Brasil, a melhora na disponibilidade e qualidade dos dados coletados pode ser condicionada a um processo de longo prazo. Uma solução frente a esta questão é o uso de dados já existentes, que devem ser utilizados tanto quanto possível e com criatividade, inclusive, para reduzir custos.
No que diz respeito à responsabilidade pela coleta de dados, pode-se considerar que, em nível projetual, a organização ou empresa responsável pela implementação é a mais indicada para a coleta dos dados. Em nível internacional, os dados devem ser coletados pelos países internamente e depois, agrupados e centralizados por uma organização internacional. Em nível nacional, o mais comum é que uma organização nacional ou ministério seja responsabilizado pela coleta de dados para cada caso e interesse específico (SEGNESTAM, 2002).
Independentemente do nível analítico, pode-se elencar alguns critérios relevantes para a coleta de dados.
pela coleta devem também se responsabilizar pela credibilidade dos resultados. Se os dados não apresentarem credibilidade explicitamente (resultados de baixa qualidade) ou implicitamente (resultados sem credibilidade porque os dados refletem os interesses que quem os coletou), tornarão os indicadores inadequados. A credibilidade ainda se desdobra em dois aspectos: dados verdadeiros e capacidade de coleta. Ainda que os dados sejam verdadeiros, os responsáveis pelo monitoramento devem ser confiáveis e ter a capacidade necessária para desenvolver e analisar os indicadores, ou os resultados podem mostrar tendências falsas.
2. Custo: o custo efetivo também deve ser considerado. É possível que indicadores que
já tenham sido selecionados por outros grupos ou organizações sejam aproveitados e monitorados, desde que estes sejam confiáveis junto aos atores envolvidos no processo. Assim, é possível cortar custos e aproveitar sistemas já estabelecidos. 3. Responsáveis X incentivos: é preciso equilibrar custos e benefícios ao definir a
organização responsável pelo monitoramento e coleta dos dados. Convencer uma instituição a investir em monitoramento depende de incentivo. Monitoramento e coleta de dados implicam em custos que podem ser subsidiados, estabelecidos ou impostos por meio de regulação, normas, multas, compensações e benefícios econômicos de acordo com o nível e relevância da iniciativa.
Entende-se que, em nível nacional, a forma ideal para incentivar a coleta de dados ocorre através de regulação, normas, decisões políticas ou por meio de pressão popular, fruto da informação e conscientização sobre os possíveis benefícios oriundos de uma mudança de atitude. Em nível internacional e regional, por meio de autorização concedida a uma organização governamental ou não-governamental para disseminar informação. E, em nível projetual ou programático, por meio de regulação e benefícios em troca da informação gerada.
Um artifício para a redução de custos é a divisão dos indicadores em dois grupos (SEGNESTAM, 2002): um core set – grupo principal ou essencial – de indicadores para monitorar questões relevantes num nível mais agregado e um grupo complementar ao primeiro, que engloba as questões não tão comuns, oferecendo informações mais detalhadas sobre as mudanças apontadas pelos indicadores do grupo principal.
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possam ser comparados entre países. Um core set de indicadores, monitorados por todos os países envolvidos é parte do objetivo de muitos trabalhos. No entanto, cada país, individualmente, é encorajado a monitorar outros aspectos que podem ser relevantes a sua realidade, particularmente. Esta solução é usada pela OECD no Millenium Development Goals. Ainda, outra possibilidade é trabalhar com um conjunto de indicadores alarme e outro de diagnóstico. Indicadores alarme apenas chamariam a atenção para a ocorrência de desvios indesejáveis e indicadores diagnóstico permitiriam uma investigação mais detalhada sobre as causas, extensão e magnitude dos impactos de tal desvio.
De modo geral, os indicadores considerados como melhores são os que possuem dados acessíveis ou cuja coleta não seja muito dispendiosa. Assim, indicadores tradicionais, baseados em fontes de dados tradicionais, são mais fáceis de monitorar e, por isso, mais efetivos na maior parte dos casos. Diante de um indicador “ideal” baseado em dados não confiáveis, o melhor é buscar-se outro indicador.