“As conclusões de um estudo exigem da parte do investigador, que faça a síntese do conjunto dos resultados discutidos e que coloque em evidência os elementos novos que o estudo permitiu descobrir” (Fortin et al., 2009, p.484).
Assim, produzir as conclusões de uma investigação é uma tarefa que se pauta pela realização de uma síntese das principais evidências, complementada pela apresentação de sugestões para futuras investigações. Desta forma, iremos numa primeira etapa apresentar uma síntese da investigação, destacando o seguinte:
A amostra de idosos é composta maioritariamente (31,7%) por idosos com idades compreendidas entre 66 e 101 anos, média de 85,3 anos, do sexo feminino (73,7%), viúvos (64,1%), com estudos ao nível de 1º ciclo do ensino básico (24,0%), com profissões não qualificadas (23,1%) antes da reforma, com filhos (78,6%) sendo a média de dois filhos (34,1%);
A amostra de idosos suíços, tem uma média de idade significativamente superior em 3,9 anos em relação à amostra de idosos portugueses, habilitações literárias superiores e maioritariamente de nível superior (35,3%), com uma profissão mais qualificada (pertencente ao grupo de especialistas de atividades intelectuais e científicas) (21,3%) e com número médio de filhos inferior em 1,2 filhos, não havendo diferenças significativas em relação ao sexo, estado civil e a existência de filhos;
Na sua globalidade, a maioria dos idosos diz receber visitas de amigos e familiares (93,2%), predominando as visitas semanais (40,2%), sendo que os idosos portugueses recebem significativamente visitas mais frequentes que os idosos suíços;
O relacionamento com a família e com os outros residentes foi classificado de “bom” (48,9% e 56,3%, respetivamente) e o relacionamento com os funcionários de “muito bom” em 44,1% dos idosos, apresentando os idosos suíços valores significativamente superiores no relacionamento com os familiares e funcionários em relação aos idosos portugueses;
A maioria dos idosos diz ter, pelo menos, alguma enfermidade (62,4%), em média há
11,5 anos, sendo as mais frequentes as doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo (43,9%) e as doenças do aparelho circulatório (33,5%), tendo a amostra
portuguesa significativamente maior prevalência de doenças (72,9 vs 51,8%) e há mais tempo (13,6 anos vs 8,6 anos) e a amostra suíça menor prevalência de doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas;
Os idosos encontram-se institucionalizados, em média, há 4,6 anos, sendo que 49,1%
dos idosos são responsáveis pela tomada da decisão da institucionalização. Os idosos portugueses, ingressam nas instituições com idades significativamente inferiores aos idosos suíços (79,0 e 82,2 anos). A tomada decisão nos idosos portugueses está mais associada a outra pessoa, enquanto nos idosos suíços a decisão é tomada pelo próprio ou em conjunto com outra pessoa (32,1% vs 7,1%);
Os principais motivos associados ao ingresso na instituição foram os motivos de saúde (83,3%), destacando-se a solidão (54%) e a perda de independência funcional (27,0%), mencionando a amostra de idosos suíços significativamente mais motivos ligados ao processo de envelhecimento (39,7% vs 11,4%);
No que diz respeito aos domínios da QdV, o domínio ambiental é o que apresenta melhor QdV, com uma pontuação de 70,8 pontos, seguida do domínio psicológico (61,5) e do domínio geral (61,0), tendo o domínio físico a menor pontuação (57,0); No que concerne às variáveis explicativas da QdV no domínio geral, este é
significativamente explicado pela idade, habilitações literárias, grau profissional, relacionamento com familiares, relacionamento com residentes, relacionamento com funcionários, existência de doença, responsável pela decisão da institucionalização, motivo relacionado com o processo de envelhecimento, país e instituição;
Em relação às variáveis explicativas da QdV no domínio físico, este é
significativamente explicada pela idade, sexo, habilitações literárias, grau profissional, relacionamento com familiares, relacionamento com residentes, relacionamento com funcionários, existência de doença, motivo relacionado com o processo de envelhecimento;
No que concerne às variáveis explicativas da QdV no domínio psicológico, este é significativamente explicado pelo sexo, habilitações literárias, grau profissional, relacionamento com familiares, relacionamento com residentes, relacionamento com funcionários, existência de doença, responsável pela decisão da institucionalização, motivo relacionado com o processo de envelhecimento;
Quanto às variáveis explicativas da QdV no domínio social, este é significativamente explicado pela existência de visitas de amigos e familiares, relacionamento com familiares, relacionamento com residentes e instituição de acolhimento;
No que concerne às variáveis explicativas da QdV no domínio ambiental, este é significativamente explicado pela idade, habilitações literárias, grau profissional, número de filhos, relacionamento com familiares, relacionamento com residentes, relacionamento com funcionários, existência de doença, responsável pela decisão da institucionalização, motivo relacionado com o processo de envelhecimento, país e instituição de acolhimento;
Os idosos suíços têm uma perceção da QdV significativamente melhor que os idosos
portugueses no domínio geral, psicológico e ambiental. Apesar de não se verificar diferenças estatisticamente significativas no domínio físico e social, a QdV é melhor para os idosos portugueses no domínio social e melhor para os idosos suíços no domínio físico.
Uma das limitações desta investigação poderá estar na seleção dos contextos institucionais de ambos os países, sugerindo-se numa futura investigação o incremento do tamanho da amostra obtido através do alargamento a mais instituições de Portugal e da Suíça, permitindo a possibilidade de inferir conclusões mais abrangentes sobre o estudo da QdV na população idosa.
Outra sugestão para futuras pesquisas nesta temática, consistiria em incluir outras variáveis que possam contribuir para o poder explicativo da QdV, tais como variáveis relativas às atividades, funcionamento, fluxo de circulação, interação com a comunidade envolvente. Também seria pertinente equacionar a validação de uma escala de QdV para idosos em ambientes institucionalizados.
Como nota final, gostaria de partilhar um singular sentimento de privilégio, por ter tido esta oportunidade de beber um pouco da sabedoria de todas e cada uma das pessoas idosas institucionalizadas com as quais tive o prazer de interagir aquando da aplicação dos questionários, tanto em Portugal como na Suíça. Este contacto com as pessoas institucionalizadas, se teve como objetivo a recolha de dados para o estudo, superou as minhas expectativas, pois considero que foram momentos únicos de interação e partilha de experiências.
Cada vez mais vinculo a ideia de que os idosos são uma fonte de sabedoria, conseguindo muitos deles reter uma enorme quantidade de informação e vivências. São testemunhos reais de factos históricos marcantes, e que revivendo o passado, partilharam com entusiasmo passagens das suas vidas e, falando na primeira pessoa, conseguem precisar datas, estando muitos deles repletos de experiências incríveis e de grande valor histórico e cultural.
Em Portugal, pessoas que viveram durante a ditadura e que dada a proximidade geográfica de Chaves com Espanha, contam histórias, sobre a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), sobre os “bufos” (informadores da polícia do estado), sobre o contrabando de produtos alimentares e outros, entre Portugal e Espanha, nesta época com as fronteiras fechadas e altamente policiadas. O suborno dos guardas fronteiriços e os “passadores” que ajudavam as pessoas (muitas vezes para emigrarem) a passar as fronteiras, em troca de dinheiro, e os riscos que corriam por estarem a infringir a lei. As nossas ex-colónias e pessoas que estiveram em teatro de guerra durante a ocupação colonial na década de 1960, o posterior golpe de estado de abril de 1974 e o processo de descolonização, foram também temas de interesse e discussão que muitas pessoas abordaram.
Na Suíça, dada a sua condição geográfica e a diversidade de nacionalidades existentes nesse país, os temas de conversa que surgiam eram diferentes. De pessoas que, durante a Segunda Guerra Mundial, habitaram em Paris e viveram a ocupação da cidade pela Alemanha Nazi, em 1940, de outras que testemunharam o horrível desembarque na Normandia, em 1944, e de outras ainda, que foram presas pela Gestapo (polícia secreta do estado) em França, que foram deportadas do país e que viveram em campos de concentração e que além do testemunho presente, deixam também o seu testemunho escrito.
Outras pessoas falam, ainda, orgulhosamente da ajuda sigilosa dada a crianças judias na mesma época histórica e ainda outras que, por motivos políticos, viveram em países como a Holanda, escondidas, em condições miseráveis, num clima de tensão até a guerra terminar e
que guardam memórias… E que memórias!…
Tantas outras histórias interessantes foram partilhadas e outros assuntos abordados, como a descoberta da estreptomicina e o tratamento da tuberculose em pessoas que dizem ter sido as primeiras a receber o tratamento a título experimental na década de 1940, ou temas relacionados com a economia, com a sociedade e com a política de outrora e a sua evolução ao longo dos tempos.
Assim, ao longo de quatro meses aproximadamente, aquando da aplicação dos questionários, de uma forma informal, fui ouvindo, conversando e registando alguns momentos que ficaram inscritos nas suas vidas.
Com a plena consciência de que com a morte destes testemunhos, se perderá também grande parte da informação que estes detêm, penso que seria importante, em próximos estudos com pessoas idosas, primar por uma abordagem destas pessoas, numa vertente mais antropológica que permitisse a utilização de uma metodologia que possibilitasse, paralelamente, fazer o registo mais pormenorizado de informações de modo a dar voz à história e à riqueza do conteúdo e das vivências que estas pessoas possuem.
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