2. E NQUADRAMENTO T EÓRICO
2.7. Qualidade de vida
Todo o ser humano deseja viver com saúde e com o máximo de qualidade e independência ao longo da vida, isto é, desde a infância até à velhice, contudo, a QdV não possui um carácter estático ao longo da vida dos indivíduos, sofrendo alterações com o decorrer do tempo. As opções que fazemos ao longo da vida como, por exemplo, optar por estilos de vida saudáveis, o seguimento de um regime alimentar saudável, a prática de exercício físico, as condições de trabalho, o ambiente em que vivemos, são fatores que irão influenciar não só a longevidade e saúde, mas também a QdV atual e futura.
A expressão “qualidade de vida” foi utilizada pela primeira vez em contexto político, pelo presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, em 1964, no início do seu mandato, ao
declarar que “os objetivos da economia não podiam ser medidos através do balanço dos bancos, mas através da QdV que proporcionam aos cidadãos” (Pontes, 2012, p.289).
Após esta época, a utilização de tal expressão tem sido cada vez mais comum não só na política, mas também noutros contextos. Vários estudos têm sido efetuados nas últimas décadas em relação ao termo “qualidade de vida”, sendo evidente a ligação deste termo com a promoção da saúde e com o bem-estar das populações, contudo, não tem sido fácil encontrar uma definição consensual, surgindo desta forma várias opiniões e pontos de vista.
A partir dos anos 70, a maioria dos sociólogos interessou-se por este conceito ..., mas teve grandes dificuldades em se pôr de acordo sobre uma definição. Assim, no Congresso Mundial de Sociologia de Toronto, em 1974, um simpósio debruçou-se sobre o problema sem chegar a um consenso sobre uma definição. Efectivamente, a concepção sobre qualidade de vida diferia. Uns consideravam a alegria de viver enquanto que outros tinham mais em conta a satisfação nas actividades quotidianas. (Couvreur 2001, p.41)
Pachoal (2002), diz-nos que existe uma multiplicidade de conceitos expostos de forma heterogénea dificultando comparações, e que QdV é um conceito que está submetido a diferentes pontos de vista e que tem variado de época para época, de país para país, de cultura para cultura, de classe social para classe social e de indivíduo para indivíduo, conforme o decorrer do tempo e em função dos estados emocionais e da ocorrência de eventos quotidianos, socio-históricos e ecológicos.
Também Pontes (2012), abordando este conceito, afirma que as definições de QdV têm sido diversas por se tratar de uma expressão muito subjetiva. Em seu entender, QdV:
será a forma como as pessoas vivem, sentem e compreendem o seu quotidiano. Integra aspetos como a saúde, a educação, o transporte, a residência, as pessoas, o trabalho e a participação nas decisões, em situações muito variadas, como o atendimento digno em caso de doença e de acidente, o nível de escolaridade, o conforto e a pontualidade nas deslocações, a alimentação em quantidade suficiente e em qualidade. (p.289)
A OMS, na tentativa de encontrar uma definição para este conceito, reuniu um grupo de especialistas, o World Health Organization Quality of Life (WHOQOL - Grupo de Qualidade de Vida da Organização Mundial da Saúde) (WHO, 1998), que definiu QdV como a perceção do indivíduo sobre a sua posição na vida, no contexto da cultura e do sistema de valores nos quais ele vive, em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações.
Segundo a mesma fonte, a QdV pode variar de acordo com a cultura de cada indivíduo, dependendo dos seus objetivos e expectativas pessoais, podendo ser identificados alguns
aspetos comuns e universais, como o bem-estar físico e psicológico, as relações sociais e o meio ambiente, sendo estes considerados os principais domínios que determinam a QdV de uma pessoa.
Cada domínio possui características diferentes. No domínio físico, por exemplo, o que determina a QdV é a existência ou não de dor, a mobilidade, a capacidade de trabalho, a energia que sente para a vida diária e a qualidade do sono e repouso.
No domínio psicológico, os sentimentos negativos como tristeza, desespero, ansiedade ou depressão, a imagem corporal e aparência e os aspetos cognitivos, como a concentração. No domínio das relações sociais, são consideradas as relações pessoais, o suporte ou apoio social, a vida sexual, entre outros.
No domínio do ambiente está incluída a segurança, o ambiente físico, os recursos financeiros, a disponibilidade e qualidade dos serviços de saúde, o transporte e as oportunidades de lazer. A DGS (2006), apresenta-nos um conceito semelhante ao da OMS, em que enfatiza que a QdV é um conceito amplo e subjetivo que diz respeito à perceção do indivíduo sobre a sua posição na vida, no contexto do sistema cultural e de valores onde as pessoas vivem, relacionada com os seus objetivos, expectativas, normas e preocupações, referindo ainda que este conceito inclui a saúde física e o estado psicológico da pessoa, as relações sociais, o nível de independência, as crenças e convicções e a forma como a pessoa se relaciona com alguns aspetos do meio ambiente.
De uma forma idêntica, Fleck (2008) define QdV como sendo “as perceções individuais das pessoas de sua posição na vida, no contexto de sua cultura e sistema de valores nos quais ela vive, e em relação às suas metas, expectativas, padrões e interesses” (p.25).
Outros autores (Vecchia, Ruiz, Bocchi & Corrente, 2005), abordam este conceito e afirmam que a QdV está relacionada com a autoestima e com o bem-estar de cada indivíduo, mencionando outros aspetos importantes que podem influenciar a QdV, como sendo a capacidade funcional, o nível socioeconómico, o estado emocional, a interação social, a atividade intelectual, o autocuidado, o suporte familiar, o estado de saúde, os valores culturais, éticos e religiosidade, o estilo de vida, a satisfação com o emprego e/ou com as AVD‟s e com o ambiente em que se vive.
está associada ao conjunto de três condições ou factores, nomeadamente: à ausência de doença, ao suporte social e ao bom funcionamento físico e cognitivo” (p.123).
Analisando a afirmação de Hortelão, correto será afirmar que a QdV na velhice, está efetivamente associada a fatores que a influenciam diretamente como, por exemplo, a saúde/doença. Sem dúvida que envelhecer com QdV está diretamente relacionado não só com o nível de saúde que a pessoa apresenta ou consegue manter, mas também com a sua capacidade de se adaptar e de conseguir manter a sua autonomia e independência.
Também o suporte ou apoio social disponível, as capacidades físicas e cognitivas que a pessoa vai conseguindo manter ao longo dos anos, sem dúvida irão influenciar a sua QdV. Segundo Castellón, cit. por Fonseca (2005):
a associação entre envelhecimento e qualidade de vida é algo que adquire uma importância cada vez maior nas sociedades ocidentais contemporâneas. O conceito qualidade de vida é, aliás, considerado por muitos autores como um conceito nuclear no campo da atenção aos idosos, constituindo um dos principais indicadores que se deve ter em atenção na hora de avaliar a condição de vida dos idosos. (p.303)
Este conceito tem vindo a adquirir tal importância, nomeadamente no que diz respeito ao processo de envelhecimento, que atualmente é considerado um dos indicadores mais importantes aquando da avaliação da QdV das pessoas idosas.
Acrescenta que, relativamente à QdV na velhice, existem diversas formas de a conceptualizar: a) Componente objetiva - Qualidade em termos das condições de vida;
b) Componente subjetiva - Satisfação pessoal com as condições de vida; c) Combinação entre as condições de vida e a satisfação pessoal;
d) Combinação entre as condições de vida e a satisfação pessoal segundo os critérios de cada indivíduo, segundo a sua escala de valores e pretensões pessoais.
Considerando esta definição, é possível cruzar parâmetros de índole objetiva como, por exemplo, o meio em que a pessoa vive, os serviços e apoio social, as ofertas recreativas e culturais etc…, com a avaliação e valorização que os indivíduos fazem destes parâmetros onde as características de ordem pessoal desempenham um papel importante como, por exemplo, valores, expectativas, níveis de aspiração, grupos de referência e necessidades pessoais, entre outros… (Castellón, cit. por Fonseca, 2005, p.303).
De uma forma geral, o autor refere que os indicadores mais utilizados para avaliar a QdV associada ao envelhecimento, são: “bem estar subjetivo (físico, material, social, emocional), autonomia, actividade, índices materiais e recursos económicos, saúde, habitação, intimidade, segurança, lugar na comunidade, relações pessoais” (Fonseca, 2005, p.304).
Mais recentemente, Witter e Buriti (2011), referindo-se também a esta temática, mencionam a dificuldade em encontrar uma definição, por um lado devido à sua subjetividade e, por outro, por este ser determinado por diversas variáveis interligadas ao longo da vida, inclusive no processo de envelhecimento humano. Assim sendo, a QdV dos idosos não depende apenas do passado, mesmo que este tenha sido ótimo, depende sobretudo do presente e de um horizonte de futuro mesmo que limitado.
Partilhando da ideia dos autores supracitados, a QdV tem, sem dúvida, um carácter muito subjetivo, relacionando-se com as crenças pessoais e com a perceção que o indivíduo tem sobre a sua posição na vida, com a sua autoestima e bem-estar, saúde, educação, transporte acesso aos cuidados de saúde, etc. Sendo este conceito muito abrangente, pode ser influenciado por um conjunto amplo e diversificado de fatores de ordem física e psicológica, nível de independência e relações sociais, entre outros…
Em suma, vários autores abordam este tema e tentam definir este conceito, surgindo desta forma várias definições, devido à natureza abstrata e subjetiva do termo “qualidade de vida”. Embora se verifique um vasto leque de ideias e conceitos sobre o significado desta expressão, existe concordância entre os autores relativamente a aspetos que possam interferir com a QdV, tal como as funções fisiológicas, as interações sociais, o comportamento efetivo e emocional, o trabalho e a situação económica.
Com isto, é correto afirmar que a perceção sobre a QdV varia ao longo do tempo, de indivíduo para indivíduo, pois existem significados diferentes para diferentes pessoas, com diferentes culturas, com diferentes valores e em lugares e ocasiões diferentes, o que torna este conceito heterogéneo, dificultando a tentativa de encontrar uma definição comum.