O PROJETO DE PESQUISA O Projeto de Pesquisa foi delineado a partir de primeiros indícios do legado de Jan Bata
C ONDICIONANTES DE TRATAMENTO DE DADOS DOCUMENTAIS
Assim, tem-se que o idioma tcheco, a história pessoal de Jan Antonin Bata e sua ausência ou presença na bibliografia especializada são os aspectos fundamentais da pesquisa expostos até aqui. Decorrente deles, a pesquisa de campo surge como uma quarta particularidade para completar o quadro: grande parte do material obtido no Brasil e relacionado ao tema cidades de Jan Bata no Brasil constitui-se de fonte primária. Mais que isso, as próprias cidades de Bata no Brasil constituem-se em material documental de pesquisa (principalmente a relação entre o projeto, seu traçado, suas funções e sua efetivação, ou seja, a obra construída, e em alguns casos o que restou). Como diz Argan12:
De fato, a história da arte é a única, entre todas as histórias especiais, que é feita na presença dos eventos e que, portanto, não deve evocá-los, reconstruí-los ou narrá-los, mas somente interpretá-los [...] Ele tem diante de si um conjunto de testemunhos, documentos, descrições, juízos; do evento que se prepara a estudar, ele tem, na maior parte das vezes, versões, avaliações, explicações diversas e contraditórias.
[...] a obra de arte que o historiador da arte tem diante de seus olhos não muda: ela é o que sempre foi. E se os acontecimentos e o tempo a desgastaram, o historiador deve aceitar essa alteração, esforçando-se, ao contrário, de todas as formas, para revertê-lo à condição original, ao momento do seu advento flagrante.
No Brasil, sabe-se que Jan Antonin Bata operou tanto com a Companhia Bata, quanto com novas companhias que adquiriu no país, e a partir das quais implantou novas cidades no oeste paulista e sul do estado mato-grossense (atual Mato Grosso do Sul): Companhia de Viação São Paulo – Mato Grosso e Companhia Comercial Alto-Paraná.
As pesquisas e trabalhos acadêmicos desenvolvidos e publicados aqui sobre a experiência de Bata no país, seja à frente da Companhia Bata, seja à frente da Cia. de Viação São Paulo - Mato Grosso são, quase que exclusivamente, desenvolvidos no âmbito do tratamento documental e organização de acervo constituído de fontes primárias.
No meio acadêmico de arquitetura a ausência de Bata na historiografia internacional se fez sentir também no Brasil, tanto pelo fato daquela historiografia ser a utilizada também aqui, quanto pelo fato de as cidades fundadas pelo empresário praticamente não terem sido objeto de estudo na área, sendo a exceção o trabalho de graduação Batatuba – De núcleo fabril a bairro histórico concluído em por João Luiz do Carmo, na Universidade São Francisco (Itatiba/ SP). De todo modo, as dimensões arquitetônicas e urbanísticas das experiências de Bata no Brasil comparecem de forma lateral, não conhecendo até agora um tratamento próprio.
Em outras áreas do conhecimento o nome Bata comparece com alguma freqüência, quase sempre associado às cidades fundadas pela Companhia de Viação São Paulo – Mato Grosso, Bataguassu e Batayporã, no sul do atual estado do Mato Grosso do Sul.
Como comentado anteriormente, na área de História, o projeto desenvolvido pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, nos anos de 2002 a 2004, sob coordenação do Prof. Luis Carlos Batista, Resgate e Construç~o da Memória e da (istória da Colonizaç~o do Sudeste de Mato Grosso do Sul propôs a seleção, catalogação e posterior disponibilização, de arquivo histórico relacionado à atuação da Cia. de Viação e de propriedade do Centro de Memória Jindrich Trachta – Oficina Cultural Tcheca e Eslovaca do Brasil. Daquele trabalho resultou a exposiç~o Passos Tchecos em Terras Brasileiras e a produção de uma publicação de autoria de
Dolores L. Bata Arambasic e Evandro A. Trachta e Silva, contendo informações biográficas de personalidades de origem tcheca, entre elas Jan Antonin Bata e Jindrich Trachta13.
Ainda sobre a atuação da Cia. de Viação e também na área de História, foram produzidas em 2009 a dissertação de mestrado Colonização Particular: Atuação da Companhia de Viação São Paulo – Mato Grosso (1940 – de autoria de Juliana S. Silva Bonfim (Universidade Federal da Grande Dourados, MS) e a tese de doutorado Colonização: Táticas e estratégias da Companhia de Viação São Paulo – Mato Grosso , da autoria de José Carlos Ziliani14 (Universidade
Estadual Paulista UNESP/ Campus de Assis).
Na área de geografia, o trabalho de iniciação científica de Marcos Gualberto Ruivo e Ricardo da Silva Moreira (RUIVO e MOREIRA, 2009) relacionado ao projeto iniciado em 2006 pela Universidade Estadual Paulista UNESP (Presidente Prudente/ SP) sob a coordenação do Prof. Prof. Jayro Gonçalves Melo, intitulado Organizaç~o dos arquivos da Cia de Viaç~o S~o Paulo - Mato Grosso . Aquele trabalho propôs o tratamento documental e organização de acervo de documentos históricos primários, encontrados no antigo escritório da Cia. CIMA (ramificação da Companhia Viação São Paulo – Mato Grosso sob Jan Antonin Bata) em Indiana (SP) e resultou no acervo sobre a CVSP-MT domiciliado no Núcleo Morumbi da UNESP em Presidente Prudente.
Assim é que a pesquisa de campo resultou em três significativos grupos de fontes primárias, reunidos em diversas viagens técnicas (estados de MS, SP e RJ): material iconográfico, entrevistas e uma bibliografia inédita de livros e textos. O destino das viagens técnicas divide- se em dois grupos, o das localidades-Bata no Brasil (cidades ou núcleos urbanos):
antigo Núcleo industrial de Batatuba, Piracaia (SP) antigo Núcleo agroindustrial da Vila CIMA, Indiana, (SP) atual Município de Mariápolis (SP)
atual Município de Bataguassu (MS) atual Município de Batayporã (MS)
e as localidades visitadas e onde estão sediados textos e documentos utilizados na pesquisa: Arquivo particular Benedita Bueno Kosour e Ana Maria Kosour, Batatuba (Piracaia), SP; Arquivo particular Dolores Ljiljana Bata Arambasic, Nova Andradina, MS;
Arquivo particular Nelson Verlangieri de Oliveira, Presidente Prudente, SP; Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, RJ;
Arquivo particular Vladimir José Kubik, Bataguassu, MS;
13 Imigrante tcheco, gerente da Cia. Viação para o núcleo de colonização que originou a cidade de Batayporã. O Centro
de Memória Jindrich Trachta e Oficina Cultural Tcheca e Eslovaca do Brasil Antiga situa-se na antiga residência de Jan Bata e sede da gerência da CVSP-MT no Mato Grosso.
14 Professor da UFMS que integrou, como colaborador, o projeto Resgate e Construç~o da Memória e da (istória da
Biblioteca Central da Universidade Anhanguera – UNIDERP (Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal), MS;
Biblioteca Central da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul - UFMS, Campo Grande, MS;
Biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – FAU USP, São Paulo, SP; Biblioteca da Faculdade de Ciência e Tecnologia – UNESP, Presidente Prudente, SP; Biblioteca da Faculdade de Direito – Largo São Francisco USP, São Paulo, SP; Biblioteca da Faculdade de Economia e Administração - FEA USP, São Paulo, SP; Biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências – FFLCH USP, São Paulo, SP; Biblioteca Mário de Andrade, São Paulo, SP;
Biblioteca Municipal, Piracaia, SP; Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ;
Centro de Memória Jindrich Trachta, Batayporã, MS;
Escola Estadual José Siqueira Campos, Batatuba (Piracaia), SP;
Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo – IGC, São Paulo, SP; Núcleo Morumbi Universidade Estadual Paulista – UNESP, Presidente Prudente, SP; Prefeitura Municipal de Batayporã, MS;
Prefeitura Municipal de Mariápolis, SP; Prefeitura Municipal de Piracaia, SP.
A bibliografia inédita foi assim considerada por representar obras e textos de circulação por vezes restrita ao âmbito familiar de Bata e seus descendentes, os quais, de outra forma, a pesquisa possivelmente não teria acesso, como é o caso, por exemplo, do livro de Pavel Novák Zlínská Architektura, do livro de Miroslav Ivanov Saga sobre a vida de morte de Jan Bata e
seu irmão Tomas e da publicação do seminário relativo à revisão da atuação de Jan Bata na
República Tcheca Jan Antonín Baťa - život a dílo, pokračovatel pr|ce Tom|še Bati: mezin|rodní konference, todos cedidos por Dolores Ljiljana Bata Arambasic; do livro de Vladimir Slapeta Bat a - Architektura a urbanismus, cedido Zdenek Pracuch; do livro contendo reproduções de cartões
postais de Zlín durante a fase da companhia Bata sob Tomas e Jan Krásný pozdrav ze Zlína.
Pohlednice z let 1898 – 1945, cedido por Evandro Trachta e Silva; e de edições dos folhetos Novidades de Batatuba e Ordem e Progresso e das publicações Zlín – Mesto v zahradach (Zlin –
City in Gardens) e Zlínsky kraj – profil todos cedidos por Ljubisav Mitrovich.
Além disto, como informado anteriormente, uma significativa contribuição foi dada pelo próprio Jan Bata, que deixou obras e também manuscritos (alguns no idioma português), fundamentais para uma melhor compreensão de seu modus operandi no Brasil. Como exemplos, o livro editado em 1951, Estudos sobre a Migração (obtido no Centro de Memória Jindrich
Trachta) e a reprodução em cores do livro Budujme stát pro 40,000.000 lidí (Construamos um Estado para 40.000.000 de pessoas) cedida pela família Bata Oliveira (Presidente Prudente, SP), ambos de autoria de Jan Bata.
Figura 3 Capa do livro Budujme stát pro 40,000.000 lidí (Construamos um Estado para 40.000.000 de pessoas), 1938. Fotografia da autora.
Neste processo não se fez distinção entre a produção nacional de Bata e a produção internacional, pois os arquivos particulares visitados também guardavam material relacionado a este último aspecto.
Pela natureza da pesquisa em fonte primária, foram de fundamental importância os equipamentos eletrônicos e digitais (computador portátil, mesa digitalizadora, gravador digital de voz), e suprimentos diversos como baterias, discos de dados graváveis etc., parte significativa adquirida por meio da bolsa CAPES. Estes recursos foram fundamentais também no que se refere às cópias xerográficas e às viagens às cidades de Bata. Regra geral, os arquivos visitados, dentre eles os particulares e mesmo Instituições, como Prefeituras e Universidades, não dispunham de equipamentos apropriados e/ ou disponíveis para o acesso, manuseio e registro da documentação pesquisada.
Por outro lado, alguns documentos considerados de suma importância para a pesquisa, como desenhos, plantas e mapas, apresentaram alguns obstáculos de registro tanto pelo estado de conservação, quanto pela disponibilidade de equipamentos adequados para sua digitalização (grandes mesas digitalizadoras, por exemplo), contornados pelo uso do scanner portátil: a maioria das plantas urbanas e outras imagens foram inicialmente digitalizadas por partes e, na seqüência, montadas através de um exaustivo trabalho.