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AS CIDADES DE JAN ANTONIN BATA (1940–1965)

O PLANO DE B ATAGUASSU

Descritos os planos ou projetos para Batatuba, Vila CIMA e Mariápolis, procurou-se seguir uma ordem mais ou menos cronológica porque não se tem a informação das datas exatas de início de implantação da cada núcleo. O desconhecimento sobre a existência de arquiteto ou equipe de arquitetos que porventura tenham assessorado Jan Bata no planejamento das cidades permanece, tendo sido identificado apenas o engenheiro suíço Gothard Kunzli como um profissional que teria trabalhado para Jan Bata produzindo plantas urbanas (no caso, Mariápolis). Esta imprecisão autoral se verifica também nos desenhos urbanos levantados referentes ao núcleo de Bataguassu.

Considerando que o levantamento realizado permitiu entrever que ainda existe quantidade considerável de material ainda não analisado, no Centro de Memória Jindrich Trachta (Batayporã, MS) e nos arquivos familiares de Bata (Nova Andradina e Presidente Prudente), novos achados talvez pudessem auxiliar na identificação de autores (arquitetos, engenheiros etc.) e das ideias de cidade que nortearam o empresário. Em vista disto, no caso de Bataguassu e Batayporã este trabalho limitar-se-á a inferir algumas considerações sobre as plantas urbanas coletadas93 sem, no entanto, considerar esgotados os recursos de análise, tarefa

que, acredita-se, seja mais oportuna numa etapa posterior de pesquisa.

Por outro lado, embora não se configurem um compêndio definitivo, as plantas urbanas relativas ao projeto de colonização de Bataguassu e a observação da malha urbana efetivamente

implantada permitem supor um desfecho para planos urbanísticos de Bata para o local. O mesmo se dará com Batayporã.

Como visto, a partir de Mariápolis, o traçado dos planos de Bata começariam a adquirir um perfil cada vez mais ortodoxo, gradativamente mais simplificado, evidenciando prováveis mudanças na realidade vivida pelo empresário – talvez em relação a recursos financeiros, talvez em relação ao ambiente geográfico e social em que passara a operar. De fato, o caráter geral da planta atual da cidade de Bataguassu revela este pragmatismo, e talvez o desenho mais interessante levantado por esta pesquisa sobre Bataguassu seja a Vista da futura cidade de Bataguass’ , sem indicaç~o de data e autoria.

Figura 189 Vista da futura cidade de Bataguassú , [s.d.]. Centro de Memória Jindrich Trachta.

O arruamento é ortodoxo, conformando o xadrez tradicional das cidades planificadas pelos agrimensores. No que se refere ao zoneamento, seu desenho urbanístico parece ter preservado o eixo central estruturador dos edifícios institucionais encontrado nas plantas de Batatuba e de Mariápolis, mas diferente destas, não faz menção a zonas industrais ou agroindustriais. Isto parece um detalhe fundamental, na medida em que, para Bata, o aspecto produtivo de um núcleo urbano era seu pressuposto.

Como visto em Mariápolis, um grupo de quadras centrais compunha o eixo estruturador de edifícios e áreas institucionais - Praça do Brasil , igreja , grupo escolar e mercado - e das áreas habitacionais. No caso deste desenho, também alguns prédios públicos definem o caráter de um dos dois eixos articuladores (e perpendiculares entre si) que definem o plano: neste caso, Prédio p’blico , igreja , colégio , fórum e correio . O outro eixo, a rua princ.[ipal] de negócios provavelmente faria a conex~o interurbana, mas isto não é mencionado no desenho.

A implantaç~o de um hospital ao largo da malha urbana remete { localizaç~o do hospital em Batatuba e da Santa Casa em Mari|polis. E o conjunto de est|dio e piscina junto com uma

garage , pela proporç~o que assumem no desenho, parece fazer menção à prática coletiva de esportes identificada desde Zlín94, e também mencionada no desenho da grande piscina de

Batatuba.

As áreas habitacionais, à semelhança de Batatuba e Mariápolis, desenvolvem-se em duas metades ao longo do eixo estruturador dos edifícios institucionais, mas, fato novo, as tipologias habitacionais parecem subdividir-se em habitações multifamiliares e unifamiliares. Ressalte-se que são inferências baseadas na leitura do desenho, não há lá legendas que comprovem esta hipótese, e a proporção de edifícios do tipo multifamiliar em relação ao plano como um todo leva a crer que são espaços destinados às habitações.

Ainda, habitações multifamiliares de dois pavimentos e sacada semelhantes às de Zlín misturam- se a habitações unifamiliares com varanda em arco como as de Batatuba, reproduzindo residências numa variação do estilo cottage, de origem inglesa, muito difundido no interior paulista, inicialmente através das companhias ferroviárias.

Outra semelhança not|vel é o desenho da igreja . Esta faz par com o prédio p’blico na conformação de uma praça na confluência dos dois eixos estruturadores, e remete diretamente a um projeto de 1942 de Vladimir Karfik para um templo religioso em Zlín.

Figuras 190-192 Habitação multifamiliar em Zlín, 1939. Habitação unifamiliar Batatuba, 1940. Igreja católica em Zlin de Karfik, 1942.

Surpreende a implantação dos edifícios de vários pisos, o que dá a impressão de que uma densidade habitacional elevada era prevista. Além disto, a disposição dos blocos contínuos destes edifícios de dois ou três pavimentos, no limite dos lotes, conformando espaços livres internos às quadras, provavelmente ajardinadas, denota uma significativa permissão ao coletivo. Cabe recordar que no caso de Mariápolis foram identificadas, como um elemento novo nas plantas brasileiras de Bata vistas até então, pequenas áreas de uso coletivo denominadas parq infantil e auto parq nos espaços internos às quadras residenciais.

Certamente que, a respeito das tipologias e estilo arquitetônico expressos esquematicamente nesta perspectiva artística, as filiações possíveis são várias. Como exemplo, importa lembrar que vigorara uma arquitetura moderna com influências art déco promovida pelo Estado Novo, que se padronizou nos edifícios dos Correios e Telégrafos, cuja linguagem seguia, regra geral, uma volumetria com aberturas regulares, fachadas com marcações verticais e platibandas que também encontram correspondência nos edifícios correio , igreja e prédio p’blico . Ainda, a ocupação perimetral das quadras - ora conformando um quadrado completo, ora conformando metade deste quadrado- com edifícios de altura limitada e espaços internos provavelmente ajardinados e coletivos, às vezes com passagens internas, traz a lembrança, mesmo que tênue, com, por exemplo, a proposta de Ildefonso Cerdá para Barcelona.

Embora simplificada, a Vista da futura cidade de Bataguass’ revela uma combinação de elementos urbanísticos e arquitetônicos cuja leitura poderá ser melhor aprofundada numa etapa posterior da pesquisa. O que se intentou aqui foi, antes, um breve exercício de análise das intenções de Bata para suas cidades brasileiras - no caso Bataguassu –para, mesmo que de forma ainda não conclusiva, estabelecer um quadro básico a partir do qual aquele conhecimento poderá ser refinado.

Da mesma forma, também mereceriam tratamento à parte outros mapas e plantas referentes a Bataguassu e levantados durante a pesquisa - num deles está identificada a localização de um futuro patrimônio datado de 1963). Uma análise preliminar permite localizar este material num período posterior à fundação do núcleo de Bataguassu, por volta de 1963, e cuja autoria pode ser debitada ao engenheiro Gothard Kunzli.

Figuras 193, 194 CVSP-MT Núcleo colonial Guassu [s.d.] e Redução da planta da Gleba Bataguassú [ 9 ]. Centro de Memória Jindrich Trachta.

B

ATAYPORÃ

,1953-1963(

ANTIGO

MT)

A data do início de Batayporã é considerada por Silva (2003:51) como a de 1953, ano em que Vladimir Kubik, acompanhado do agrimensor Nelson Mistura, empreendeu a abertura da mata para demarcar a localização do núcleo urbano e dos lotes a serem comercializados na Gleba Samambaia de propriedade da CVSP-MT. A gleba Samambaia compunha-se dos lotes Recanto, Machado, Iguassu e Caiuás.

No entanto, de acordo com documentos levantados, a prospeção da Fazenda Samambaia (ou Somambaia, como visto em alguns registros) por um grupo de técnicos especializados, poderia ter se iniciado entre fins de 1942 e início de 1943, provavelmente como parte das expedições de reconhecimento das glebas que faziam parte da recém-adquirida (1939) CVSP-MT por Jan Bata. Os resultados de relatório intitulado Estudos sobre possibilidades da Fazenda Samambaia 95 revelam que foram analisados os recursos naturais disponíveis e suas

possibilidades econômicas, em consonância com o princípio da concentração vertical da produção: extração de madeira, seu beneficiamento (edificações, mobiliário etc.) e subprodutos químicos a partir da resina; pecuária e criação de jacarés e subprodutos (peles e couros).

Figura 195 Fazenda Sta. Lidia Samambaia Cia. de Viação São Paulo – Matto Grosso , 1943. Centro de Memória Jindrich Trachta.

Como visto, no início dos anos a política de segurança nacional de Vargas faria nacionalizar os bens e o serviço de navegação operado pela CVSP-MT, o que contrariou pelo menos duas expectativas de Jan Bata. A primeira e, talvez, a principal, era a de contar como auxílio do governo federal para o livre desenvolvimento de suas empresas no Brasil – desde

que fora convidado a instalar-se no país. Nos arquivos do Centro de Memória Jindrich Trachta um telegrama de Jan Bata a Rudolf Rezny, da CVSP-MT (cargo não identificado), endereçada de Indiana em 1944, é indicativa das dificuldades vividas naquele momento:

[ ] EXPEDIÇÃO HNILICA PARA EXPLORAÇÃO E COMEÇO DOS TRABALHOS NA FAZENDA SAMAMBAIA vg APÓS DOIS MESES PREPARATIVOS FOI IMPEDIDA PELA POLÍCIA DE EMBARCAR NO PORTO TIBIRIÇÁ SOB PRETEXTO DE QUE EXISTEM LEIS QUE PROÍBEM TRANSLADAÇÃO TRABALHADORES DE SÃO PAULO PARA MATO GROSSO pt APÓS ENCAMPAÇÃO NOSSA NAVEGAÇÃO vg QUE IMPOSSIBILITOU DESENVOLVIMENTO DAS NOSSAS FAZENDAS vg NOVAS E ESTRANHAS DETERMINAÇÕES ESTÃO CONTRARIANDO AS DIRETRIZES PRECONIZADAS PELO EXMO SNR PRESIDENTE DA REPUBLICA NO SENTIDO [ ] DA MARCHA PARA O OESTE pt AO MESMO TEMPO ESSAS MEDIDAS PROIBITIVAS ATUAIS ESTÃO EM DESACORDO E CONTRARIAS ÁS PROMESSAS DO GOVERNO FEDERAL QUANTO A FACILIDADES E LIVRE DESENVOLVIMENTO DAS NOSSAS EMPRESAS pt PEÇO NOTIFICAR AUTORIDADES ESTADOAIS E FEDERAIS DOS ACONTECIMENTOS SOLICITANDO SOLUCIONAR DE UMA VEZ PARA SEMPRE ESTA QUESTÃO EVITANDO FUTURAS INTERRUPÇÕES NOSSAS ATIVIDADES PELAS AUTORIDADES LOCAIS pt FAVOR SOLICITAR DECISÃO FAVORÁVEL RADIOGRÁFICA GOVERNAMENTAL ENDEREÇADA AUTORIDADES [ ] PERMITIR EMBARQUE EXPEDIÇÃO HNILICA E SEUS ONZE TRIPULANTES AFIM DE PROSSEGUIR NA TAREFA ENCETADA [ ] DR JAN BATA (BATA, 1944). A expedição citada pelo telegrama refere-se àquela exploração à fazenda Samambaia conduzida por Vendelin Hnilica (funcionário de Bata), entre 1942 e 1943. A segunda expectativa refere-se ao fato de que, dada as condições naturais e de infra-estrutura predominantes nas regiões onde a CVSP-MT tinha propriedades, o acervo de navegação fluvial adquirido junto com a CVSP-MT era de fundamental importância para que Jan Bata pudesse planejar integralmente suas atividades econômicas. Tanto que o acesso à Gleba Samambaia pela equipe da companhia poderia ser realizado navegando rios locais, como o Ivinhema, tributário do Paraná, e o rio Samambaia. No caso, Vendelin Hnilica baseou-se em Porto Epitácio (SP), onde a companhia mantinha instalações portuárias. Com os recursos da navegação fluvial restringidos, e desde que a infra-estrutura viária terrestre era rarefeita, os empreendimentos mato-grossenses de Jan Bata poderiam tornar-se dificultados. Como recorda Vladimir Kubik:

Meu pai [Vladimir Kubik] abriu aqui. Bataguassu, Batayporã, meu pai era, como se diz, um gerente geral da Companhia Viação São Paulo – Mato Grosso. Ele abriu isso aqui, era mato mesmo. Meu pai conta – só para ilustrar – quando eles começaram a vir para cá, às vezes nem de jipe dava pra andar, então eles tinham uma egüinha e diz que a égua vinha amarrada pra cá... tinha medo, sabe? Na época... eu tive a minha época de Presidente Epitácio, né? Tinha um escritório da companhia lá em Epitácio também, mas eu vinha com meu pai pra cá, Bataguassu, Batayporã. Mas era uma aventura, a gente vinha porque gostava, mas... nossa senhora, era muito difícil, não tinha estrada. Depois que a coisa começou a andar e tal. Eles sofreram muito pra abrir isso aqui, né? Não foi mole não (KUBIK, 2010).

Talvez por isto que ainda em 1953, uma década após Bataguassu, o trabalho de desbravamento da região por Kubik e Mistura para a efetivação de Batayporã ainda estaria

inscrito no verdadeiro esforço de colonizaç~o interior referido por Monbeig a respeito das frentes pioneiras do oeste paulista: foi necessário abrir caminhos, estradas e uma pista de pouso para pequenos aviões, estabelecer o suprimento de água – yporã significa, em guarani, |gua boa , daí a apropriação por Bata.

Figuras 196- 200 Desbravamento e vistas de Batayporã, [s.d.]. Centro de Memória Jindrich Trachta.

No que se infere que, dadas as condições com as quais Bata se deparou (e os transtornos internacionais já explanados), inexoravelmente seus empreendimentos caminhavam para tornarem-se impreendimentos imobiliários colonizadores strictu sensu. Da cidade industrial ideal para a cidade possível . Mas, mesmo no contexto de fixar populações e imprimir dinamismo econômico a regiões de baixa densidade populacional, a cidade possível e

No caso de Batayporã, à semelhança de tantas outras, implantou-se a estrutura básica de serraria, olaria, extração de madeira e em 1950, através da intercessão de Zdenek Pracuch entrevistado por esta pesquisa, que já trabalhava para Bata- o imigrante tcheco Jindrich Trachta tornou-se funcionário da CVSP-MT, instalando-se na recém-fundada Batayporã como gerente em 1954:

Sob sua gerência organiza a construção da serraria, da olaria, fábrica de amido, campo de experiências agrícolas, criação de porcos e principalmente coopera na elaboração dos planos para a fundação de outra cidade por Jan Bata denominada Kennedyba (SILVA, 2003:52).

Mas, mais que simples edificações agroindustriais, o grau de planejamento da companhia para a exploração econômica das terras mato-grossenses pode ser inferido nos documentos localizados no Centro de Memória Jindrich Trachta a este respeito: uma extensa quantidade de gráficos, tabelas, perfis hidrográficos e outros registros, relativos aos 25 anos de atividades da CVSP-MT sob Jan Bata, que revelam um dinamismo que, se não se concretizou na forma de cidades agroindustriais propulsoras regionais da economia, ao menos podem corroborar a leitura de que Jan Bata buscara preservar sua forma de atuar, planejando a produção, no caso, produção agroindustrial.

Tal qual o planejamento de cidades agroindustriais em série , havia ainda a expectativa de que houvesse, posteriormente, uma simbiose econômica entre Batayporã e o planejado núcleo agroindustrial de Kennedyba, a ser implantado na mesma região - o que não ocorreu. Ao relatar a biografia de Jan Bata, Jindrich Trachta96 fornece outros elementos para a análise deste

desfecho:

Entre os planos de colonização de Batayporã surgiu uma grande esperança com o plano Kenedybá – que devia ser financiado a longo prazo (então 15 milhões de dólares) – que transformaria [ ] Batayporã num município próspero tanto na agricultura como na pecuária intensiva e indústria, que aproveitaria potencial dos recursos naturais – transporte (fluvial) foi planejado até Pres. Epitácio e nos portos do Est. do Paraná.

Infelizmente, o que já estava (quase) certo, pela morte do pres. Kenedy e logo em seguida do Dr. Bata, o sonho de expansão econômica se desvaneceu.

Dr. Bata visitou Batayporã pela última vez nos dias 28-10-1963, assistindo os levantamentos na margem do rio Ivinhema para o projeto Kenedybá.

Por fim, a casa gerencial da CVSP-MT viria a se tornar o Centro de Memória Jindrich Trachta e Oficina Tcheca e Eslovaca do Brasil. Se, por um lado, o plano urbano de Batayporã revela extrema simplicidade e -em relação ao ideário de cidade-Bata- nenhum elemento digno de atenção, por outro atualmente a divulgação da cultura tcheca e o intercâmbio entre este país e o Brasil são extensamente promovidos pela família Trachta, tornando Batayporã importante centro de referência da relação Brasil- República Tcheca.

O núcleo tornou-se Distrito em 11 de novembro de 1953 e em 12 de novembro de 1963 elevou-se a município, desmembrando-se de Nova Andradina.

Figuras 201, 202 Jornal d’Oeste, anos de Batayporã, nov. 1973 (fotos: Jan Bata e Jindrich Trachta). Centro de Memória Jindrich Trachta.