2.8 DESENVOLVIMENTO DE HIPÓTESES E MODELO DE PESQUISA
2.8.3 Compartilhamento do Conhecimento e Capacidade Absortiva
2.8.3.4 CA → CC: Artigos Quantitativos
O trabalho de Baker e Yousof (2017) apresentam um estudo em SMEs da Jordânia, onde o compartilhamento do conhecimento é conceituado pelos autores segundo a definição de Hooff e Weenen (2004) que, assim como Hooff e Ridder (2004), dividem o construto em doação e coleta. No entanto, os autores utilizaram seis itens da escala desenvolvida por Van den Hooff e Ridder (2004) para criar um construto único. A capacidade absortiva também é considerada um construto único. Os autores se apoiam no argumento de Wang e Noe (2010) para justificar a relação entre capacidade absortiva e compartilhamento do conhecimento, dizendo que indivíduos com alta capacidade absortiva percebem mais facilmente as vantagens de compartilhar o conhecimento. Esse mesmo argumento é utilizado pelo estudo de Baker e Yousof (2016), também realizado em SMEs da Jordânia, porém com enfoque nos efeitos do capital social no conhecimento.
Berry (2017) realiza um estudo sobre corporações multinacionais com sede nos Estados Unidos. A capacidade absortiva é conceituada segundo Cohen e Levinthal (1990), e o compartilhamento do conhecimento é medido entre as unidades de uma mesma empresa. A relação é justificada pela natureza colaborativa do compartilhamento do conhecimento e pelo fato do conhecimento só ser relevante se puder ser associado a um entendimento prévio; sem essa base de entendimento prévio, a unidade pode nem tentar compartilhar o conhecimento por causa dos riscos associados e por não ver vantagens (BERRY, 2017).
Tho (2017) desenvolve um trabalho sobre o compartilhamento do conhecimento de business schools para business organizations no Vietnam. Baseando-se na ideia de que o compartilhamento do conhecimento ocorre quando o conhecimento é transmitido da fonte para o recipiente, que o adquire e usa (KO et al., 2005), o artigo justifica que a capacidade absortiva ajuda os trabalhadores a identificar e aprender novos conhecimentos importantes para seus trabalhos (COHEN; LEVINTHAL, 1990), de forma que ela possibilita que trabalhadores que também são alunos de business schools aplicarem seus novos conhecimentos nas business organizations – dessa forma compartilhando o conhecimento (THO, 2017). Assim, o nível de compartilhamento do conhecimento entre as business schools e business organizations depende da capacidade absortiva dos empregados das organizações que também são alunos das business schools. Em seu trabalho sobre o compartilhamento de conhecimento tácito
em empresas hoteleiras no México, Zapata e Arroyo (2017) trazem um argumento similar ao de Tho (2017) para justificar a relação entre compartilhamento e capacidade absortiva. Para os autores, o contexto estudado demanda constante aprendizado, o que pode ser conseguido através do estímulo à capacidade absortiva; esta, por sua vez, estimula o compartilhamento do conhecimento, que é importante para a performance e uma maneira de reter conhecimento nas empresas, burlando os problemas causados pelo alto turnover da área (ZAPATA; ARROYO, 2017).
Antwi-Anfari et al. (2016) estudam a transferência de tecnologia em empresas de Gana. No trabalho desses autores, a transferência de tecnologia envolve o processo de compartilhamento do conhecimento, conceituado segundo Hooff e Weenen (2004). Para que a transferência de tecnologia seja realizada (e nesse contexto, por consequência, o compartilhamento do conhecimento), é necessário que o conhecimento seja bem aceito e entendido por todos, de forma que a capacidade absortiva é necessária para que o processo aconteça (ANTWI-ANFARI et al., 2016).
O estudo de Nair, Demirbag e Mellahi (2016) trata de compartilhamento reverso do conhecimento, o fluxo de conhecimento das subsidiárias para a matriz (AMBOS; AMBOS; SCHLEGELMILCH, 2006), em um construto único. A capacidade absortiva foi conceituada de acordo com Pak and Park (2004), que a considera uma capacidade de adotar novas técnicas e implementar novas ideias. Os autores argumentam que a capacidade absortiva indica uma capacidade de assimilar e utilizar conhecimento externo e isso tem maior efeito quando a fonte e o receptor não têm o mesmo nível de conhecimento (COHEN; LEVINTHAL, 1990), o que se adequa ao estudo de compartilhamento reverso de subsidiárias, pois para a matriz ter interesse no conhecimento da subsidiária, é necessário reconhecer a relevância de suas implicações e potenciais benefícios, o que acontece através da capacidade absortiva (NAIR, DEMIRBAG; MELLAHI, 2016). Essa visão de potenciais benefícios também é utilizada por Miguélez e Moreno (2015) e Grimpe e Hussinger (2013). Miguélez e Moreno (2015), ao estudarem a capacidade absortiva de diferentes países europeus, argumentam que empresas com maior capacidade absortiva conseguem gerenciar os fluxos de conhecimento com maior eficiência (ESCRIBANO et al., 2009) e, com isso, tirar maiores benefícios e vantagens desse conhecimento do que outras empresas que não possuem um alto grau de capacidade absortiva – o que leva ao compartilhamento do conhecimento (MIGUÉLEZ; MORENO, 2015). Já Grimpe e Hussinger (2013) exploram o compartilhamento do conhecimento e tecnologia formal e informal em
empresas alemãs de manufatura e utilizam o grau de R&D como proxy para a capacidade absortiva. Estes autores argumentam que as empresas com alto grau de R&D (e, portanto, de capacidade absortiva) são mais capazes de colher os benefícios de colaborações formais e informais que envolvam compartilhamento do conhecimento.
Awang, Hussain e Malek (2013) estudam o compartilhamento do conhecimento em parques científicos e tecnológicos na Malásia. Os autores tratam o compartilhamento como um construto único, conceituado como a colaboração de diferentes stakeholders e suas interações (AWANG; HUSSAIN; MALEK, 2013). A capacidade absortiva é conceituada de acordo com Cohen e Levinthal (1990) e Zahra e George (2002); o construto é tratado como uma série de variáveis que podem ou não influenciar o compartilhamento do conhecimento: aprendizado, gerenciamento do tempo, sintomas de replicação, adaptação e inovação e experiência no trabalho (AWANG; HUSSAIN; MALEK, 2013). Todas as variáveis contribuem para o compartilhamento do conhecimento, mas no caso da experiência no trabalho, o impacto é negativo quanto se trata de transferir conhecimento estrangeiro (AWANG; HUSSAIN; MALEK, 2013). Os autores justificam a relação e a utilização das variáveis escolhidas com base no estudo de Sparkes and Miyake (2000), que mostra empiricamente que boas práticas de desenvolvimento de recursos humanos eram majoritariamente responsáveis por treinamentos que enriquecem o compartilhamento do conhecimento entre funcionários de uma empresa. As boas práticas também são uma justificativa para o trabalho de Paulsen e Hjertø (2014), que explora o compartilhamento entre grupos e indivíduos de uma empresa da Noruega. Os autores justificam que pesquisas anteriores identificaram relacionamento em diversas facetas do compartilhamento do conhecimento com agentes externos, sendo uma delas a de melhores práticas (SZULANSKI, 1996). O trabalho de Paulsen e Hjertø (2014), no entanto, confirma o relacionamento da capacidade absortiva com o compartilhamento do conhecimento somente para indivíduos, não sendo confirmado em nível de grupo.
O artigo de Junni e Sarala (2013) sobre o papel da capacidade absortiva no conhecimento de aquisições de empresas traz diversos argumentos, encontrados em outros artigos desse mesmo grupo, para justificar a influência da capacidade absortiva no compartilhamento do conhecimento. Desenvolvido em empresas finlandesas e utilizando construtos únicos tanto para o compartilhamento como para a capacidade absortiva, o estudo traz a ideia de que a capacidade absortiva é um grande facilitador
para o compartilhamento, pois facilita o aprendizado (Mowery et al., 1996). Além disso, para que o compartilhamento aconteça, é necessário que as partes envolvidas entendam o conhecimento, seu contexto e como aplicá-lo, além de estarem motivadas para aprender e utilizar esse conhecimento (JUNNI; SARALA, 2013).
Quadro 17 - Detalhes dos artigos quantitativos CA → CC
Artigo Contexto Nivel País Método Argumento
Baker and Yousof (2017) Small and medium enterprises
Individual Jordan Survey indivíduos com alta CA percebem mais facilmente as vantagens de CC Berry (2017) Multinational corporations organization Various (sede USA) Heckman model, data from database conhecimento só é relevante se associado a um entendimento prévio
Tho (2017) business scholls and business organizations
Individual (students)
Vietnam Survey CA ajuda os
trabalhadores a identificar e aplicar conhecimentos das escolas nas organizações e assim realizar CC Zapata and Arroyo (2017)
Hotels (SMEs) Individual (employee)
Mexico Survey aprendizado é
conseguido com estímulo à AC; esta, por sua vez, estimula o CC
Antwi-Afari et al. (2016)
Construction Individual (employee)
Gana Survey Para que CC aconteça,
é necessário que o conhecimento seja entendido por todos, de forma que a CA é necessária para o processo Baker and Yousof (2016) Small and medium enterprises
individual Jordan Survey indivíduos com alta CA percebem mais facilmente as vantagens de CC Nair, Demirbag and Mellahi (2016)
Large enterprises Firm India, USA, UK, Germany, Canada
Survey Para a matriz ter interesse no conhecimento da subsidiária (e realizar CC), é necessário reconhecer a sua relevância, o que acontece com AC Miguélez and Moreno (2015) Geographic regions Country Europe (27 countries) KPF Framework, data from panel
Empresas com maior CA conseguem gerenciar os fluxos de conhecimento e tirar maiores benefícios, o que leva a CC Paulsen and Hjertø (2014) Groups and individuals Individuals (confirmed)
Norway Survey Boas práticas
(variáveis de AC) são relacionadas positivamente com facetas de CC Awang, Hussain and Malek (2013)
STPs Individual Malasia Survey Boas práticas de RH
(variáveis de AC) enriquecem CC
Grimpe and Hussinger (2013)
Manufacturing Individual Germany Super- modularity, data from Mannheim Innovation Panel
empresas com alto grua de R&D e CA são mais capazes de colher os benefícios de colaborações que envolvam CC Junni and
Sarala (2013)
Aquisitions firms Finland Survey CA facilita o
aprendizado e faz com que as partes entendam o conhecimento, o que facilita CC
Fonte: A Autora (2019)
2.8.3.5 CC ↔ CA: Artigos Qualitativos .
Há somente um trabalho qualitativo que trata a capacidade absortiva como um conceito inter-relacionado com compartilhamento. O trabalho de Song (2014) traz, através de uma revisão de literatura no contexto de subsidiárias de corporações multinacionais, uma corroboração dos argumentos desenvolvidos pelos trabalhos quantitativos de Kang e Lee (2017) e Martelo-Landrogues e Cagarra-Navarro (2014). Os autores também se baseiam na definição de Zahra e George (2002) para a capacidade absortiva; no entanto, consideram o compartilhamento do conhecimento um processo linear de criação de conhecimento nas matrizes e subsequente difusão para as subsidiárias (ALMEIDA; SONG; GRANT, 2002). Com isso, identificam que a literatura na área considera que a capacidade absortiva e compartilhamento do conhecimento são construtos dinâmicos que se auto-alimentam, pois o conhecimento compartilhado é base para a capacidade absortiva, que por sua vez determina o nível de compartilhamento do conhecimento seguinte.